Justiça e Misericórdia
James A. Cullimore
Gostaria de dirigir a atenção de vocês, meus irmãos e irmãs, para os princípios da misericórdia e da justiça. Tomei hoje meu texto dos Provérbios de Salomão: "Filho meu, não rejeites a correção do Senhor, nem te enfades da sua repreensão: ¶
"Porque o Senhor repreende aquele a quem ama, assim como o pai, ao filho a quem quer bem." (Provérbios 3:11–12.) ¶
O Senhor considerou necessário chamar a atenção de alguns dos irmãos, nos primeiros dias da Igreja, para sua negligência em fazer tudo o que deveriam. Ao Profeta Joseph, ele disse: "... eu vos tenho ordenado que crieis vossos filhos em luz e verdade. ¶
"Mas em verdade vos digo, meu servo Frederick G. Williams, ... não ensinastes a vossos filhos luz e verdade, de acordo com os mandamentos; e aquele iníquo tem poder ... sobre vós. ... ¶
"Em verdade digo a meu servo Sidney Rigdon que, em algumas coisas, ele não guardou os mandamentos com relação a seus filhos; portanto, põe primeiro em ordem tua casa. ... ¶
"Meu servo Newel K. Whitney também ... precisa ser repreendido e pôr em ordem sua família, e cuidar para que sejam mais diligentes e atenciosos em casa, e orar sempre, ou serão removidos de seu lugar." (D&C 93:40–42, 44, 50.) ¶
Quando o Profeta Joseph, relutantemente, permitiu que Martin Harris levasse parte do manuscrito do Livro de Mórmon, e as páginas se perderam, o Senhor repreendeu o Profeta por sua desobediência. Ele disse: "As obras, os desígnios e os propósitos de Deus não podem ser frustrados, nem podem reduzir-se a nada. ¶
"Pois Deus não anda em veredas tortuosas, nem se desvia para a direita nem para a esquerda, nem se aparta daquilo que disse; portanto, suas veredas são retas, e seu curso é um eterno círculo. ¶
"Lembra-te, lembra-te de que não é a obra de Deus que é frustrada, mas a obra dos homens; ¶
"Pois embora um homem receba muitas revelações e tenha poder para realizar muitos milagres, contudo, se ele se vangloria de sua própria força, e menospreza os conselhos de Deus e segue os ditames de sua própria vontade e desejos carnais, cairá e suscitará sobre si a vingança de um Deus justo. ... ¶
"Pois eis que não devias ter temido o homem mais do que a Deus. Embora os homens desprezem os conselhos de Deus e menosprezem suas palavras — ¶
"Contudo, devias ter sido fiel; e ele teria estendido seu braço e te sustentado contra todos os dardos inflamados do adversário, e estaria contigo em todos os momentos de tribulação. ... ¶
"Mas lembra-te, Deus é misericordioso; portanto, arrepende-te daquilo que fizeste que é contrário ao mandamento que te dei, e ainda és o escolhido, e és novamente chamado para a obra." (D&C 3:1–4, 7–8, 10.) ¶
Um dos conceitos básicos do perdão é que é preciso estar verdadeiramente arrependido, tendo satisfeito a justiça, para que o perdão possa ocorrer. O Profeta Joseph disse: "Não deve haver licença para o pecado, mas a misericórdia deve andar de mãos dadas com a repreensão." (Documentary History of the Church, vol. 5, p. 24.) ¶
O Presidente Kimball disse: "Há muitas pessoas que parecem confiar unicamente na misericórdia do Senhor, em vez de realizarem seu próprio arrependimento. ... O Senhor pode temperar a justiça com a misericórdia, mas nunca a substituirá. A misericórdia jamais pode substituir a justiça. Deus é misericordioso, mas também é justo." (Spencer W. Kimball, The Miracle of Forgiveness, Bookcraft, 1969, p. 358.) ¶
Um aspecto eterno da justiça foi decretado pela lei divina, de que "... Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará." (Gálatas 6:7.) ¶
O evangelho de Jesus Cristo está fundamentado na lei, para a salvação e a bênção de seu povo. Para cada lei que o Senhor nos dá, há também uma penalidade para sua violação. O profeta Alma explicou isto muito claramente: "Ora," disse ele, "como poderia um homem arrepender-se, se não houvesse pecado? Como poderia ele pecar, se não houvesse lei? E como poderia haver lei, a não ser que houvesse castigo?" (Alma 42:17.) ¶
O Presidente Stephen L Richards disse: "O próprio Salvador declarou que veio para cumprir a lei, não para aboli-la, mas trouxe, junto com a lei, o princípio da misericórdia para temperar sua aplicação, e para trazer esperança e ânimo [aos] transgressores quanto ao perdão por meio do arrependimento." (CR, April 1954, p. 11.) ¶
As leis de Deus, dadas para o governo da Igreja, precisam ser apoiadas e sustentadas para conquistar a salvação e o respeito daqueles que estão dentro e fora da Igreja. Os bispos da Igreja foram designados como juízes comuns e, juntamente com seus conselheiros, estão autorizados a tratar dos casos de transgressão grave que caiam sob sua jurisdição. Outros casos são levados ao tribunal do sumo conselho, sob a direção do presidente de estaca. Espera-se que esses juízes tratem todos os casos de infração às leis da Igreja com misericórdia e justiça. ¶
Tenho certeza de que o problema mais difícil, tanto para os líderes do sacerdócio determinarem quanto para o transgressor entender, é: Quando o arrependimento se torna efetivo? Quando as exigências da justiça são satisfeitas? Quando o princípio da misericórdia assume o controle? Suponho que não haja resposta tão clara quanto a dada por Alma: ¶
"Pois eis que a justiça exerce todas as suas exigências, e também a misericórdia reclama tudo o que lhe pertence; e assim, somente os verdadeiramente arrependidos são salvos. ¶
"Que dizeis vós, supondes que a misericórdia pode roubar a justiça? Digo-vos que não; nem um pouco. Se assim fosse, Deus deixaria de ser Deus." (Alma 42:24–25.) ¶
Quão evidente é, pois, a lógica quanto à necessidade de tomar as providências adequadas em caso de transgressão grave. A necessidade é a de purificar a Igreja e ajudar a promover o arrependimento pleno do indivíduo. ¶
O Presidente Lee disse, ao falar aos irmãos em 1972: "Ora, isso não significa que, quando tivermos de tomar alguma providência, viremos as costas para aquele que pecou, ... não fazemos [isso] — devemos procurar não fazê-lo. Mas precisamos ser como pais — às vezes temos de disciplinar ..., temos de dar-lhes uma palmada, e depois temos de amá-los. É a doutrina do Senhor, e devemos fazer isso com bondade. Parece-me que chega um momento na vida daqueles que pecaram tão seriamente que, sem uma medida disciplinar, creio que alguns homens não conseguem arrepender-se até que sejam entregues aos açoites de Satanás, pela perda do Espírito do Senhor." (Priesthood Board Meeting, March 1, 1972, p. 12.) ¶
O Presidente Stephen L Richards disse: "Que bem para a Igreja, que benefício real para os membros que erram pode advir de ignorarmos essa obrigação e, como às vezes dizemos, fecharmos os olhos e 'encobrirmos' os transgressores? Podem os juízes, assim, ajudar a colocar as pessoas no caminho do arrependimento e do perdão?" (CR, April 1954, p. 11.) ¶
Muitos dos que violaram as leis do Senhor sentem-se injustamente tratados quando são chamados perante os devidos tribunais da Igreja e providências apropriadas são tomadas em relação às suas transgressões. Muitos líderes do sacerdócio, a cujo cargo está a responsabilidade de zelar pela Igreja e tomar providências nos casos de transgressão grave, são negligentes em convocar tribunais e tomar as medidas que permitiriam colocar a pessoa em posição de ser perdoada. O que se pode pensar ser uma bondade, ao deixar de tomar as providências devidas, pode ser, na realidade, a coisa mais cruel que se poderia ter feito. ¶
O Presidente Lee disse: "Jamais devemos permitir que uma suposta misericórdia para com o pecador impenitente roube a justiça sobre a qual se baseia o verdadeiro arrependimento das práticas pecaminosas." (Strengthening the Home, 1973, p. 5.) ¶
Como, então, o perdão se torna efetivo? Quando o arrependimento é reconhecido? ¶
A verdadeira tristeza segundo Deus, que as escrituras nos dizem que "opera arrependimento para a salvação...", é o primeiro passo no arrependimento. (II Coríntios 7:10.) A confissão dos pecados segue logicamente a tristeza segundo Deus, motivada por um desejo sincero de alívio do sofrimento provocado pela consciência clara da transgressão. A confissão deve ser feita para demonstrar a humildade da pessoa e sua determinação de fazer restituição pelas transgressões. ¶
A quem se deve fazer a confissão? Para citar o Presidente Richards: "Ao Senhor, é claro, cuja lei foi violada. À pessoa ou pessoas prejudicadas, como algo essencial para se fazer a devida reparação, se isso for necessário. E, certamente, ao representante do Senhor, seu juiz designado em Israel, sob cuja jurisdição eclesiástica o transgressor vive e possui filiação no Reino." (CR, April 1954, pp. 11–12.) ¶
Intimamente associada à confissão está a questão da provação — da demonstração. O Senhor disse: "Desta maneira sabereis se um homem se arrepende de seus pecados — eis que ele os confessará e abandonará." (D&C 58:43.) ¶
Como pode o juiz saber quando o arrependimento é adequado? O indivíduo pode impacientar-se ao demonstrar seu arrependimento. Mas já se disse que "[deve] transcorrer tempo suficiente para permitir um período de provação para aquele que busca o perdão. Essa provação serve a um duplo propósito: primeiro, ... permite ao transgressor determinar por si mesmo se conseguiu dominar-se a ponto de confiar em si diante da tentação sempre recorrente; e, em segundo lugar, permite aos juízes fazer uma avaliação mais confiável da autenticidade do arrependimento e da dignidade para que a confiança seja restaurada." (CR, April 1954, p. 12.) ¶
Sim, "porque o Senhor repreende aquele a quem ama, assim como o pai, ao filho a quem quer bem." (Provérbios 3:12.) ¶
"Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João 3:16.) ¶
Não fosse a expiação de Jesus Cristo, na qual ele assumiu nossos pecados sob a condição de nosso arrependimento, o homem não poderia ser perdoado. Ainda que a misericórdia nos seja oferecida, a justiça precisa ser satisfeita, pois ele não pode salvar-nos em nossos pecados. ¶
Alma explicou a seu filho Corianton o papel de Deus no princípio da misericórdia e da justiça: ¶
"Mas há uma lei dada," disse ele, "e um castigo determinado, e um arrependimento concedido; arrependimento esse que a misericórdia reclama; do contrário, a justiça reclama a criatura e executa a lei, e a lei inflige o castigo; e, se assim não fosse, destruir-se-iam as obras da justiça, e Deus deixaria de ser Deus. ¶
"Mas Deus não deixa de ser Deus, e a misericórdia reclama o penitente, e a misericórdia vem por causa da expiação; e a expiação produz a ressurreição dos mortos; e a ressurreição dos mortos traz de volta os homens à presença de Deus; e assim são restaurados à sua presença, para serem julgados segundo suas obras, de acordo com a lei e a justiça. ¶
"Pois eis que a justiça exerce todas as suas exigências, e também a misericórdia reclama tudo o que lhe pertence; e assim, somente os verdadeiramente arrependidos são salvos. ¶
"Que dizeis vós, supondes que a misericórdia pode roubar a justiça? Digo-vos que não; nem um pouco. Se assim fosse, Deus deixaria de ser Deus." (Alma 42:22–25.) ¶
O profeta Alma disse, ao relatar as palavras de Amulek: "... Se vos arrependerdes e não endurecerdes o coração, então terei misericórdia de vós, por meio de meu Filho Unigênito; ¶
"Portanto, todo aquele que se arrepender e não endurecer o coração terá direito à misericórdia por meio de meu Filho Unigênito, para remissão de seus pecados; e estes entrarão no meu descanso." (Alma 12:33–34.) ¶
Que possamos assim desfrutar das bênçãos do evangelho. Deixo-lhes meu testemunho da divindade desta grande obra, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶