Tornando-se Alguém
John H. Vandenberg
A dignidade das cerimônias desta assembleia solene traz-me a reconfortante certeza de que o Senhor, em Sua bondade, continua a proporcionar liderança inspirada e orientação divina à Sua igreja, cujo propósito é edificar Seu reino na Terra e servir a Seus filhos. Sua igreja estende o convite a todos os que desejarem participar do poder do evangelho, que elevará o indivíduo, tirando-o da obscuridade e, assim, proporcionando uma sensação de satisfação e felicidade que não se encontra em nenhum outro lugar. Ele fornece as fontes de controle para o autoaperfeiçoamento, um caráter estável e uma vida verdadeiramente bem-sucedida. ¶
Quem já chegou, na vida, a um ponto em que possa se dar ao luxo de parar de crescer ou de se aperfeiçoar? Embora eu nunca tenha tido o privilégio de conhecê-la, disseram-me que a mãe de minha esposa costumava repetir aos filhos o seguinte ditado: "Se você se considera um joão-ninguém e nada faz para se aperfeiçoar e se tornar alguém, certamente acabará sendo um joão-ninguém." Ela, sem dúvida, compreendia o poder e a capacidade de toda alma para o autoaperfeiçoamento. ¶
É muito duvidoso que exista sequer uma alma sobre a Terra, seja qual for sua posição ou idade, que não tenha amplo espaço para crescimento e aperfeiçoamento pessoal. Citando as palavras de um dos profetas do Senhor: "Se amanhã não formos melhores do que somos hoje, não seremos de muita utilidade." (David O. McKay, Pathways to Happiness [Bookcraft, 1957], p. 292.) ¶
A parte triste da humanidade parece ser a total falta de desejo, na vida de muitos, de realmente fazer algo para ampliar os horizontes de sua existência. Um médico eminente observou que "para a grande maioria das pessoas, a boa vida é idêntica ao entretenimento trivial, à música barata, aos escritos superficiais e a um fluxo interminável de lixo visual. A vida delas está divorciada de uma fé entusiástica no futuro. Está centrada nos prazeres imediatos, sustentados por uma simplificação dos graves problemas que as pressionam." (Dr. E. A. Gutkind, Quote—the Weekly Digest, vol. 51, no. 4, citação 32.) ¶
Em vez de aceitar o desafio de mudar e crescer, esse tipo de pessoa parece se recusar a reconhecer a necessidade de reorganizar construtivamente partes de sua vida. Pergunta-se: chegará o momento em que refletirão sobre sua própria vida? Se isso acontecer, sua reação bem poderia ser a expressa em uma tira de jornal, sob o título "Ziggy", que dizia: "É meio decepcionante, depois de refletir sobre a própria vida, finalmente se deparar consigo mesmo numa poça de lama." ¶
Ao ouvir recentemente um comentarista, fiquei impressionado com uma ideia relacionada. Seus comentários incluíam o seguinte: ¶
"Lin Yutang, o famoso filósofo chinês, escreveu: 'Não conhecemos uma nação até conhecermos os prazeres de sua vida, assim como não conhecemos um homem até sabermos como ele ocupa seu lazer. É quando um homem deixa de fazer as coisas que precisa fazer e passa a fazer as coisas de que gosta que seu caráter se revela. É quando as repressões da sociedade e dos negócios desaparecem, e os estímulos do dinheiro, da fama e da ambição são retirados, e o espírito do homem vagueia para onde bem quiser, que vemos o homem interior, seu eu verdadeiro.'" ¶
Em seguida, ele continuou: "Já pensaram bastante nisso? O lazer de vocês os revela. Certa vez conheci um homem que era chefe de um imenso império comercial. Começando apenas com ambição, tornou-se multimilionário e, por fim, aposentou-se como chefe de sua vasta empresa. Comprou um iate grande e magnífico para cruzar o mundo. E sabem o que ele fazia em seu tempo livre? Lia livros de bolso obscenos e ficava caído de bêbado, tendo de ser carregado para a cama, inconsciente, todas as noites. Ele já morreu. Seu lazer o revelou. Não havia nada ali... absolutamente nada. Era um homem de uma única ideia. Uma vez afastado dela, era como uma criança perdida no deserto. Não desfrutava de seu iate... viajar não significava nada para ele. Era um cifrão patético e infeliz. Não porque fosse rico... há milhares, milhões como ele em todas as esferas da vida. Era apenas que seus milhões, que lhe davam acesso ao mundo inteiro, não tinham valor algum para ele e acentuavam seu vazio." ¶
Então o comentarista fez a pergunta: "O que vocês fazem com seu tempo de lazer? É uma boa ideia examinar cuidadosamente esse importante segmento da vida de vocês. Ele expõe a pessoa real — mas não a pessoa acabada. Nós podemos mudar..." (Earl Nightingale, "Our Changing World", nº 2459. Usado com permissão.) ¶
É a mudança que será necessária para tirar qualquer indivíduo do dilema de viver segundo princípios errôneos. Creio que a maior força do mundo para provocar tal mudança é o evangelho de Jesus Cristo. O apóstolo Paulo experimentou uma das maiores mudanças já ocorridas em qualquer homem, e ele concluiu: "Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação a todo aquele que crê..." (Rom. 1:16.) ¶
A quarta Regra de Fé diz: "Cremos que os primeiros princípios e ordenanças do Evangelho são: primeiro, Fé no Senhor Jesus Cristo; segundo, Arrependimento; terceiro, Batismo por imersão para a remissão de pecados; quarto, Imposição de mãos para o dom do Espírito Santo." Ao considerarmos brevemente cada um desses princípios, perceberemos o poder incorporado em cada um deles. ¶
A fé é um princípio de poder. É a causa da ação. Um exemplo primoroso foi ensinado pelo Salvador, como lemos no décimo sétimo capítulo de Mateus: ¶
"E quando chegaram à multidão, aproximou-se dele um homem, pondo-se de joelhos diante dele, e dizendo: ¶
"Senhor, tem misericórdia de meu filho, que é lunático e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo, e muitas vezes, na água; ¶
"E trouxe-o aos teus discípulos; e não puderam curá-lo. ¶
"E Jesus repreendeu o demônio, e este saiu dele, e desde aquela hora o menino sarou. ¶
"Então os discípulos, aproximando-se de Jesus em particular, disseram: Por que não pudemos nós expulsá-lo? ¶
"E Jesus lhes disse: Por causa da vossa pouca fé; porque em verdade vos digo que, se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a este monte: Passa daqui para acolá; e haveria de passar; e nada vos seria impossível. ¶
"Mas esta casta de demônios não se expulsa senão pela oração e por jejum." (Mat. 17:14–16, 18–20.) ¶
A evidência do poder da fé é claramente definida pelo Salvador. A fé em Deus provocará o milagre da mudança e determinará o rumo da ação rumo ao verdadeiro propósito da vida. ¶
O arrependimento segue a fé tão naturalmente quanto o dia segue o amanhecer. Escreveu o poeta: "Rompe a manhã, fogem as sombras." (Hinos, nº 269.) O arrependimento é a própria essência da mudança; incorpora o poderoso princípio da obediência à lei de Deus e da disciplina pessoal. Quando aplicado à nossa vida, proporciona uma alegria purificadora que nos invade. ¶
Já se disse: "A desgraça não se apega a homem algum depois do arrependimento, assim como os pés sujos com a lama do mundo não saem manchados e impuros do banho purificador." (Spurgeon.) O rei Benjamim dá maior ênfase a esse pensamento: ¶
"E novamente, acreditai que vos deveis arrepender de vossos pecados e abandoná-los e humilhar-vos diante de Deus; e pedir com sinceridade de coração que ele vos perdoe; e agora, se acreditais em todas estas coisas, vede que as façais. ¶
"E eis que vos digo que, se fizerdes isso, sempre vos regozijareis e estareis cheios do amor de Deus e conservareis sempre a remissão de vossos pecados; e crescereis no conhecimento da glória daquele que vos criou. …" (Mosias 4:10, 12.) ¶
O batismo exige obediência à lei de Deus. O decreto divino tem sido chamar todos os homens ao arrependimento e ao batismo. O batismo é companheiro do arrependimento. É um princípio e uma ordenança do evangelho e, quando cumprido, é o poder de entrada no reino de Deus na Terra. Jesus cumpriu essa ordenança para cumprir toda a retidão. O profeta Néfi disse: ¶
"E agora, se o Cordeiro de Deus, sendo santo, terá necessidade de ser batizado com água para cumprir toda a retidão, quanto mais necessidade não teremos nós, sendo impuros, de sermos batizados, sim, com água!" (2 Néfi 31:5.) ¶
A eficácia da ordenança do batismo é inquestionável, pois purifica a pessoa renascida. ¶
O batismo prepara o indivíduo para receber o renascimento do espírito, a imposição de mãos, para o dom do Espírito Santo. Joseph Fielding Smith traz à mente estas palavras do Profeta Joseph Smith: ¶
"Há uma diferença entre o Espírito Santo e o dom do Espírito Santo. Cornélio recebeu o Espírito Santo antes de ser batizado, o que foi o poder convincente de Deus para ele quanto à verdade do Evangelho, mas não pôde receber o dom do Espírito Santo até depois de ser batizado. Se ele não tivesse recebido esse sinal ou ordenança, o Espírito Santo que o convenceu da verdade de Deus o teria deixado. Até que obedecesse a essas ordenanças e recebesse o dom do Espírito Santo, pela imposição de mãos, segundo a ordem de Deus, ele não poderia ter curado os enfermos nem ordenado a um espírito maligno que saísse de um homem, e que este lhe obedecesse..." O Presidente Smith diz ainda: "Não importa se vivemos muito ou pouco tempo na Terra depois de chegarmos ao conhecimento desses princípios e os obedecermos até o fim." (Teachings of the Prophet Joseph Smith [Deseret Book, 1961], p. 199.) ¶
Nesses princípios encontramos o poder infalível para mudar. Quanto ao uso eficaz de nosso tempo de lazer, temos, no evangelho, incontáveis oportunidades. À medida que a pessoa adquire conhecimento dos princípios do evangelho e segue seu curso, pode aplicar com sucesso esses princípios às suas circunstâncias individuais, seja sua posição de grandes ou modestos bens, seja no início da vida, durante seu período de produção econômica, ou na aposentadoria. O evangelho tem o propósito de temperar a vida e trazê-la a um verdadeiro equilíbrio e à sua plena realização. ¶
O Senhor decretou que "a igreja tem necessidade de todos os membros". (Ver D&C 84:110.) Isso implica o desenvolvimento de seus membros pela participação nas atividades programadas para crianças e jovens, no preenchimento das inúmeras oportunidades de ensino, nas atribuições administrativas, no cumprimento dos deveres de membro, no cumprimento dos deveres do sacerdócio, sem esquecer de visitar os lares dos membros (o que, até este dia, não tem sido atendido como o Senhor determinou), na busca dos registros dos antepassados e na participação no templo — tudo isso é apenas parte da interminável lista de atividades com que podemos preencher nossas horas de lazer. ¶
O poder individual é atestado nesta escritura: "Em verdade eu digo: Os homens devem ocupar-se zelosamente numa boa causa e fazer muitas coisas de sua livre e espontânea vontade e realizar muita retidão. Pois neles está o poder e nisso são seus próprios árbitros. E se os homens fizerem o bem, de modo algum perderão sua recompensa." (D&C 58:27–28.) ¶
Ao considerarmos os aspectos do crescimento e da realização, a palavra sucesso obviamente vem à tona — sucesso conforme se aplica em termos do mundo. O sucesso ou o fracasso pode levar a maioria de nós aos picos da felicidade ou às profundezas do desespero. As pessoas fazem quase qualquer coisa para não serem rotuladas de fracassadas. ¶
Se um homem alcança o sucesso mundano e não incorpora à sua vida um programa de autoaperfeiçoamento para trazer um equilíbrio sensato, sem dúvida acabará sendo um fracasso. Ele pode ganhar a honra dos homens, mas e quanto à sua salvação — seu futuro eterno? Lembremo-nos do exemplo do homem do iate. Ele foi bem-sucedido? Do ponto de vista mundano, sim! Mas quando se trata do que realmente importa, não seria ele mais parecido com o homem que "passou toda a vida baixando baldes vazios em poços vazios; e está desperdiçando sua velhice tentando puxá-los de volta"? (Sydney Smith, em Familiar Quotations, de John Bartlett, p. 523.) Essas pessoas buscam realização e significado em sua vida, mas não conseguem encontrá-los, porque elas próprias inverteram seus valores. ¶
Recentemente, numa reunião do sacerdócio de estaca, fui cumprimentado por dois bons irmãos conversos da Holanda, um dos quais gosto de pensar que tive alguma participação em sua conversão. Voltei-me para ele e perguntei: "Você já se arrependeu de ter se filiado à Igreja?" Seus olhos brilharam, e ele respondeu com feliz entusiasmo: "Não, nunca!" ¶
Ali, em minha opinião, estava um homem bem-sucedido. Sem dúvida, teve muitas vicissitudes em sua vida. Seus bens materiais eram provavelmente escassos, mas suas boas obras — tesouros no céu — são inumeráveis. Eis a evidência de apenas um entre milhares — milhões — que tiveram experiências semelhantes de se tornarem "alguém". ¶
E pergunto a vocês, irmãos e irmãs: onde estaríamos, onde vocês estariam, onde eu estaria, se não fosse pelo poder do evangelho de Cristo? Testifico de seu poder, e o faço humildemente, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶