Os Santos Habitam em Segurança
Boyd K. Packer
Depois de ontem de manhã e desta manhã com o Presidente Lee, penso que vocês podem imaginar a experiência que é nossa quando nós, os Irmãos, vamos ao templo, para ali tomarmos doce conselho juntos com ele. ¶
Foi numa dessas reuniões, há pouco tempo, que me veio a inspiração para o tema sobre o qual falo hoje. Cantamos, como hino de abertura naquela reunião, "Quão Suaves São os Mandamentos de Deus". Mais tarde, numa oração, o Presidente Lee incluiu esta frase do hino: "Sob seu olhar vigilante, seus santos habitam em segurança." (Hinos, nº 67.) Ele então, reverentemente, agradeceu ao Todo-Poderoso pela segurança e proteção de seus santos, e, nessa oração, convidou a que se continuasse esse cuidado vigilante sobre eles. ¶
Fiquei profundamente comovido de gratidão por, num mundo caracterizado pela inquietação, e até mesmo pela violência, existir um povo que cuida uns dos outros. ¶
Paulo disse aos santos em Éfeso: "Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e da família de Deus." (Efésios 2:19.) ¶
Ser concidadão dos santos tem um grande significado. Todos podem receber essa cidadania por meio da ordenança do batismo, se assim o desejarem—se se arrependerem e se prepararem. Então, como membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, nunca mais precisam estar sozinhos. ¶
O indivíduo é considerado filho ou filha de Deus. Os membros da família são ensinados a apoiar uns aos outros. Em tais famílias, há certo cumprimento da declaração: os santos habitam em segurança. Então, a estrutura familiar se encaixa maravilhosamente no contexto da organização da igreja. ¶
Quando rapazes e moças estão vivendo longe do círculo familiar, eles não são deixados sozinhos, pois o cuidado vigilante é mantido sobre eles. Ao se casarem, o ciclo recomeça. ¶
Alguns não se casam, mas jamais são deixados sozinhos. ¶
Quando os filhos saem de casa para começar suas próprias famílias, pai e mãe—agora chamados avô e avó—enfrentam a vida juntos, como faziam quando eram recém-casados. Este é o padrão normal, esperado e desejável, pois o curso do Senhor é um único círculo eterno. Nunca são deixados sozinhos. ¶
Os filhos são ensinados a reverenciar seus pais, mas às vezes vivem a grandes distâncias. Em todo caso, a Igreja alcança com um cuidado vigilante sobre eles. ¶
Então, quando um deles se vai, a viúva idosa não é deixada sozinha; pois, novamente, a organização da Igreja se estende em cuidado vigilante sobre ela, para atender às suas necessidades—espirituais, e também temporais, se assim se tornar necessário—para que ela possa habitar em segurança. ¶
O processo é simples. Dois portadores do sacerdócio são chamados por seu presidente de quórum e designados pelo bispo para visitar a casa de cada membro regularmente, sob o título de mestres familiares do sacerdócio. Eles são guardiões do indivíduo e da família. ¶
Quando escolho falar sobre o ensino familiar do sacerdócio, sei muito bem que há algumas atividades na Igreja que são mais empolgantes e algumas mais interessantes. Talvez até mesmo a maioria tenha mais apelo. ¶
Algum tempo atrás, eu estava numa casa depois de uma reunião sacramental. Uma mãe perguntou a seu filho adolescente como havia sido o dia para ele. O jovem, ousado na verdade e sem hesitação, como costuma ser a juventude, disse: "Bem, exceto pela reunião sacramental." ¶
A mãe perguntou sobre a reunião sacramental, e ele disse: "Bem, se algum dia conseguíssemos sobreviver aos conselheiros do sumo conselho falando sobre ensino familiar do sacerdócio e bem-estar, esse seria o grande dia!" ¶
A mãe, humilhada, disse: "Ora, David, o Élder Packer aqui presente é responsável por um desses programas para toda a Igreja." ¶
"Eu sei", disse ele. "Por que ele não faz alguma coisa a respeito?" ¶
Meu rapaz, estou, neste exato momento, fazendo tudo que sei fazer a respeito. Deixem-me explicar algo a vocês. Talvez descubram que esses dois programas—que estão muito intimamente relacionados—podem ser dos mais interessantes. Mas, interessantes ou não, são vitais para a segurança de vocês. ¶
Aliás, meu jovem, você pode me colocar junto com aquele conselheiro do sumo conselho que fala sobre os programas básicos do sacerdócio. E coloque conosco seu treinador, que fala sobre treino e exercício, e sua professora de música, que insiste em horas de prática para apenas alguns minutos de apresentação. Coloque conosco seus pais, que insistem que você aprenda a trabalhar e a prestar atenção às coisas fundamentais da vida. ¶
Repito, algumas atividades podem ter muito mais apelo, mas não há nenhuma que seja mais importante. ¶
É interessante que coisas tão básicas sejam tão dadas como certas. Por exemplo, há em nós um suprimento contínuo de sangue, entregando nutrição para sustentar o corpo, levando embora os materiais residuais e armado de proteção contra doenças e infecções. O suprimento de sangue é mantido em movimento pelo bombeamento incessante e confiável do coração. É vital para a vida. ¶
Normalmente, contudo, uma lasca no dedo recebe mais atenção e causa mais preocupação. Ninguém dá muita atenção às batidas do coração até que haja a ameaça de que possa ser interrompido ou parar. É então que prestamos atenção. ¶
O ensino familiar, curiosamente, é tão tomado como certo que a maioria dos membros lhe dá pouca atenção, participando de forma rotineira, às vezes quase com aborrecimento. Por meio dele, contudo, vem aos membros da Igreja uma proteção e um cuidado vigilante não conhecidos em nenhum outro lugar. ¶
Imaginem um homem chamando seu companheiro, geralmente um rapaz mais jovem, na adolescência, para passar uma noite visitando as casas de cinco ou seis famílias. Eles vêm trazer encorajamento, buscar suas necessidades espirituais e se preocupar com seu bem-estar, para que todos saibam que há alguém a quem recorrer em tempo de necessidade. ¶
Se a doença atacar, o auxílio pode ser providenciado. As crianças podem ser cuidadas; visitas podem ser organizadas. Aqui unimos os mestres familiares do sacerdócio com as professoras visitantes da Sociedade de Socorro. Muitas vezes o problema não é a doença. É um adolescente com problemas, ou uma criancinha que não está progredindo como deveria. ¶
Pode fluir por este canal do ensino familiar do sacerdócio um poder sustentador até os limites dos recursos da Igreja nesta terra. E não é só isso. Pode fluir por este canal um poder espiritual redentor até os limites do próprio céu. ¶
Por meio do ensino familiar, tragédias foram evitadas. Almas que afundavam foram erguidas. Necessidades materiais foram supridas. Aflições foram aliviadas. Os enfermos foram curados por meio de administrações. Enquanto a obra prossegue sem ser proclamada, ela é inspirada pelo Deus Todo-Poderoso e é básica para o alimento espiritual deste povo. ¶
Os líderes da Igreja empenham grande esforço para que o ensino familiar do sacerdócio funcione. Embora muito seja dado como certo, ele sempre foi providenciado e sempre o será. Os princípios disso nunca mudaram, nem com as mudanças da sociedade, nem com os vários acréscimos à programação da Igreja. Sem ele, a Igreja rapidamente deixaria de ser a Igreja. E digo novamente, embora algumas atividades possam ser mais atraentes, nenhuma é mais importante. ¶
Sou grato pelos muitos programas de atividades que temos. Eles são um tempero, um sabor, ou uma sobremesa. Eles tornam a vida interessante, particularmente para nossos jovens. Sou muito favorável a eles e não gostaria de vê-los negligenciados, nem vocês poderiam me persuadir a dispensá-los. ¶
Consigo perceber que uma igreja apenas com o ensino familiar poderia, para um jovem, ser tão monótona quanto uma refeição sem tempero ou sobremesa. Contudo, tenho certa preocupação quando nossos líderes locais se concentram inteiramente em programas de atividades e negligenciam o ensino familiar do sacerdócio. ¶
Digo a nossos bispos: seria melhor tentar formar um atleta com uma dieta de barras de chocolate e refrigerante do que tentar sustentar os jovens de vocês apenas com programas de atividades. Eles podem ser atraídos por eles, mas não serão muito nutridos por eles. Nenhum esforço para redimir os jovens de vocês pode ser mais produtivo do que o tempo e a atenção dedicados ao ensino familiar do sacerdócio. Pois o objetivo do ensino familiar do sacerdócio é fortalecer o lar, e, como o adolescente diria, e ele geralmente sabe, "é lá que está tudo." Não conseguem ver que, ao manterem aberta essa linha de vida para o lar, não apenas fortalecem o lar, mas também têm atividades muito melhores e mais saborosas? ¶
Há muitas maneiras de erguer nossos jovens. Somos muito criativos e parecemos capazes de inventar muitas formas empolgantes. Mais cedo ou mais tarde seremos levados a fazê-lo da maneira do Senhor. ¶
Lembro-me de um caçador de peles que havia ganhado uma modesta fortuna caçando raposas. Ele decidiu ir para o sul no inverno e deixou suas linhas de armadilhas aos cuidados de um jovem assistente cuidadosamente treinado. Ensinou-lhe exatamente como armar as armadilhas e onde colocar a isca. ¶
Quando retornou na primavera, para sua decepção, havia muito poucas peles de raposa. ¶
"Você fez exatamente como eu lhe ensinei?" perguntou o homem mais velho. ¶
"Ah, não", foi a resposta. "Encontrei uma maneira melhor." ¶
Vocês que são bispos e líderes de quórum, exorto-os a dar atenção adequada ao ensino familiar do sacerdócio. Não dispensem os mestres familiares tentando realizar, de outras maneiras, o que eles deveriam fazer. Vocês podem inventar mil delas num esforço para fortalecer seus jovens, mas, mais cedo ou mais tarde, terão de voltar a fazê-lo da maneira dele. ¶
Lembro-me da declaração das escrituras: ¶
"Quem sou eu, diz o Senhor, para prometer e não cumprir? ¶
"Eu mando, e os homens não obedecem; revogo, e eles não recebem a bênção. ¶
"Depois dizem em seu coração: Esta não é a obra do Senhor, porque suas promessas não se cumprem. Mas ai deles, porque sua recompensa os espreita de baixo e não de cima." (D&C 58:31-33.) ¶
A vocês que são mestres familiares—que realizam a visita rotineira, não raramente considerada uma tarefa árdua—não tratem a designação de forma leviana nem a descartem como sendo rotineira. Cada hora que vocês dedicam a ela, e cada passo que dão nela, e cada porta em que batem, cada lar que saúdam, cada encorajamento que dão, é uma dupla bênção. ¶
É uma verdade interessante que os mestres familiares muitas vezes são ensinados no decorrer de suas visitas à família. De fato, muitas vezes é uma questão, mesmo num momento de sacrifício e serviço por parte de um mestre familiar do sacerdócio, quem é mais beneficiado—a família a quem ele serve ou o próprio mestre familiar. ¶
Em minha experiência, lembro-me de uma lição muito significativa. Aprendi-a como mestre familiar. ¶
Pouco antes de me casar, fui designado, com um companheiro mais velho, para servir como mestre familiar de uma senhorinha idosa que era acamada. Ela era semi-inválida, e frequentemente, quando batíamos à porta, ela nos chamava para entrar. Encontrávamo-la incapaz de se levantar e deixávamos nossa mensagem junto à sua cama. ¶
De alguma forma, soubemos que ela tinha grande preferência por sorvete de limão. Frequentemente parávamos na sorveteria antes de fazer nossa visita. Por sabermos qual era seu sabor favorito, havia duas razões pelas quais éramos bem-vindos naquela casa. ¶
Numa ocasião, o companheiro sênior não pôde ir, por razões que não recordo. Fui sozinho e segui o ritual de comprar meio litro de sorvete de limão antes de fazer a visita. ¶
Encontrei-a na cama. Ela expressou grande preocupação por um neto que passaria por uma cirurgia muito séria no dia seguinte. Perguntou-me se eu me ajoelharia ao lado de sua cama e faria uma oração pelo bem-estar do jovem. ¶
Depois da oração, pensando, suponho, em meu casamento iminente, ela disse: "Esta noite eu vou lhe ensinar." Disse que queria me contar algo e que eu deveria sempre me lembrar disso. Então começou a lição que jamais esqueci. Ela recontou algo de sua vida. ¶
Poucos anos depois de seu casamento com um bom rapaz no templo, quando estavam concentrados nas atividades da vida de recém-casados e criando uma família, um dia chegou uma carta da "Caixa B." (Naquela época, uma carta da "Caixa B", em Salt Lake City, era invariavelmente um chamado missionário.) ¶
Para surpresa deles, foram chamados como família para irem a um dos continentes distantes do mundo, para ajudar a abrir a terra ao trabalho missionário. Serviram fielmente e bem, e, depois de vários anos, retornaram ao seu lar, para retomar as responsabilidades de criar sua família. ¶
Então, essa senhorinha se concentrou numa segunda-feira de manhã. Poderia ser chamada de uma segunda-feira de lavagem, triste e melancólica. Havia havido certa irritação e um desentendimento. Depois, algumas palavras ásperas entre marido e mulher. Curiosamente, ela não conseguia se lembrar de como tudo começou ou sobre o que era. "Mas", disse ela, "nada me satisfazia senão segui-lo até o portão, e, enquanto ele caminhava rua acima a caminho do trabalho, eu simplesmente tinha de gritar aquele último comentário mordaz e rancoroso atrás dele." ¶
Então, enquanto as lágrimas começavam a fluir, ela me contou de um acidente que ocorreu naquele dia, e ele nunca mais voltou. "Por cinquenta anos", soluçou ela, "vivi no inferno, sabendo que as últimas palavras que ele ouviu de meus lábios foram aquele comentário mordaz e rancoroso." ¶
Esta foi a mensagem para seu jovem mestre familiar. Ela a gravou em mim com a responsabilidade de jamais esquecê-la. Tenho me beneficiado grandemente dela. Vim a saber, desde então, que um casal pode viver junto sem que jamais uma palavra dura passe entre eles. ¶
Muitas vezes me perguntei sobre aquelas visitas àquela casa, sobre o tempo que passei e os poucos centavos que gastamos com sorvete. Aquela irmãzinha já se foi para além do véu, há muito tempo. O mesmo é verdade quanto ao meu companheiro sênior. Mas a experiência poderosa daquele ensino familiar, do mestre familiar sendo ensinado, ainda está comigo, e encontrei ocasião de deixar sua mensagem com jovens casais no altar do casamento e ao aconselhar pessoas ao redor do mundo. ¶
Há um gênio espiritual no ensino familiar do sacerdócio. Todo portador do sacerdócio que sai sob essa designação pode voltar recompensado mil vezes. ¶
Já ouvi homens dizerem, em resposta a uma pergunta sobre sua designação na Igreja: "Sou apenas um mestre familiar." ¶
Apenas um mestre familiar. Apenas o guardião de um rebanho. Apenas aquele designado onde o ministério mais importa. Apenas um servo do Senhor! ¶
É por causa de vocês, o mestre familiar do sacerdócio, que um verso do hino permanece verdadeiro: ¶
"Sob seu olhar vigilante, seus santos habitam em segurança; aquela mão que sustenta toda a natureza guardará bem seus filhos." ¶
Testifico que Jesus é o Cristo. Esta é a sua igreja e seu reino. Detemos o sacerdócio e a autoridade delegada por ele. Preside sobre nós um profeta que, como homem, não pode se estender aos confins mais distantes da terra, a cada ramo, a cada missão, ou a cada estaca. No entanto, pela delegação da autoridade e das chaves que ele detém, ele pode alcançar, não apenas as estacas, as alas e os ramos, mas pode alcançar os lares, os indivíduos, e abençoá-los e sustentá-los, para que os santos possam habitar em segurança. Em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶