Alegria por Meio de Cristo
Marion D. Hanks
Sinto-me honrado por poder expressar minhas convicções e prestar meu testemunho nesta manhã. ¶
Gostaria de falar sobre a felicidade. ¶
Sobre minha mesa, neste momento, está a capa de uma importante revista de notícias com esta manchete: “Bons Tempos — Mas as Pessoas Estão Infelizes.” ¶
A reportagem relatava os resultados de uma pesquisa realizada para determinar por que as pessoas estão infelizes em tempos bons. As razões apresentadas são substancialmente as mesmas produzidas por qualquer investigação responsável: falta de significado ou propósito na vida, ansiedade, medo, baixa autoestima, dúvida sobre a própria capacidade de amar ou de ser digno de ser amado, não realizar nada, má consciência, incapacidade de formar relacionamentos duradouros, vida familiar insatisfatória, solidão, ausência de sentimento de pertencimento, pouca doação de si mesmo, e a soma de tudo isso: a falta de relacionamentos com Deus e Cristo que orientem a vida. ¶
Ao considerar isso, lembrei-me do dia, há algum tempo, em que estava diante de um quadro de avisos no prédio da União Estudantil de uma universidade do Arizona, onde havia sido convidado a falar numa convocação durante a “Semana da Religião na Vida”. A caminho do auditório, refletindo sobre as implicações do tema deles, que era “Algo Está Faltando”, minha atenção foi atraída por um breve anúncio classificado, afixado e assinado por um estudante no saguão. Linha por linha, dizia: ¶
Vende-se ¶
Ford 1929 ¶
Sedã Dois Portas ¶
Boa Lataria e Para-lamas ¶
Pintura Nova ¶
Sem Motor ¶
$20,00 ¶
Procurar Bob ¶
Havia, de fato, “algo faltando” naquele automóvel, e esse algo era precisamente o elemento indispensável que dava significado a tudo o mais, sem o qual era apenas uma casca vazia, tendo a aparência de inteireza, mas carecendo da capacidade de cumprir os propósitos de sua criação. ¶
Homens sem Deus e sem o Cristo vivo em suas vidas carecem de centro, e assim carecem da alegria que poderiam ter. ¶
Centenas de anos antes de Cristo, Deus confrontou a ignorância deliberada de Israel com estas palavras: “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei … visto que te esqueceste da lei do teu Deus. …” (Oseias 4:6.) ¶
O conhecimento por cuja falta sofriam é claramente explicado por Oseias: ¶
“… o Senhor tem uma contenda com os habitantes da terra, porque não há verdade, nem benignidade, nem conhecimento de Deus na terra. ¶
“Porque o que eu quero é a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.” (Oseias 4:1; 6:6.) ¶
Em um poema de pessimismo que escreveu logo após a Primeira Guerra Mundial, Yeats descreveu o círculo em expansão — o giro — no qual o falcão se afastava voando do falcoeiro. Ele escreveu: ¶
“Girando e girando no giro que se alarga ¶
O falcão não consegue ouvir o falcoeiro; ¶
As coisas se desfazem; o centro não se sustenta. ¶
Os melhores carecem de toda convicção, enquanto os piores ¶
Estão cheios de intensidade apaixonada.” ¶
— “A Segunda Vinda” ¶
Quando o falcoeiro não é ouvido, o falcão se perde. Assim também são os homens, quando não podem ou não querem ouvir a voz do Mestre. As coisas se desfazem na vida humana, o centro não se sustenta, nasce a aflição, e os “piores”, que estão “cheios de intensidade apaixonada”, fazem o que bem entendem, seguem seus próprios apetites básicos e vontades caprichosas, e impõem àqueles que são menos intensos e envolvidos — e particularmente aos jovens — falsas construções e interpretações do significado da vida. ¶
É bom considerar onde estamos em relação a nosso Criador. Se estamos fora de contato, se nos afastamos dele, então não somos tão felizes quanto poderíamos ser. Algo está faltando. Epicteto disse: “Deus fez todos os homens para serem felizes.” E um profeta escreveu: “… os homens existem para que tenham alegria.” (2 Néfi 2:25.) ¶
Em que erramos, se não somos felizes? Por que somos menos felizes do que poderíamos ser? Como podemos ter mais alegria? ¶
Permitam-me oferecer seis observações. ¶
- Quando eu era menino, crescendo num lar com uma mãe viúva, ouvi uma história que me tocou e que teve muito mais significado desde que tive a bênção de ter um filho meu.
Um menino foi encarregado por seu pai de mover uma grande pedra. Ele puxou e empurrou, levantou e lutou, sem sucesso. Alguns amigos foram chamados, mas juntos não conseguiram movê-la. A contragosto, ele relatou ao pai que não conseguira mover a pedra. ¶
“Você fez tudo o que podia?” perguntou o pai. ¶
“Sim”, disse o menino. ¶
“Você tentou tudo?” insistiu o pai. ¶
“Sim”, disse o menino. “Tentei tudo.” ¶
“Não, filho, você não tentou”, disse o pai. “Você não me pediu ajuda.” ¶
Por que tantos de nós, “herdeiros de Deus, co-herdeiros com Cristo”, deixamos de recorrer a ele, de manter contato com nosso Pai? Ele está ansioso para ajudar. Mas quer que aprendamos nossa necessidade dele, que abramos a porta para ele. ¶
“E, portanto”, disse o profeta, “o Senhor esperará, para ter misericórdia de vós; e por isso será exalçado, para se compadecer de vós. …” (Isaías 30:18.) ¶
- Para alguns de nós, uma razão para a infelicidade é que “o mundo é demais para nós; cedo e tarde, adquirindo e gastando, desperdiçamos nossas forças”, como disse o poeta. (William Wordsworth.)
Objetivos materiais consomem atenção demais de nós. A luta pelo que necessitamos, ou por mais do que necessitamos, esgota nosso tempo e nossa energia. Buscamos o prazer ou o entretenimento, ou nos envolvemos demais em associações ou questões cívicas. Certamente as pessoas precisam de recreação, precisam realizar, precisam contribuir; mas, se isso vier ao custo da amizade com Cristo, o preço é alto demais. ¶
“Porque o meu povo cometeu dois males”, disse o Senhor a Israel; “a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas fendidas, que já não retêm águas.” (Jeremias 2:13.) ¶
Os substitutos que fabricamos para ocupar o lugar de Deus em nossas vidas verdadeiramente não retêm água. Na medida em que assim recusamos a “água viva”, perdemos a alegria que poderíamos ter. ¶
Lucas registra a conhecida história de Cristo aos fariseus: ¶
“Um certo homem fez uma grande ceia, e convidou muitos: ¶
“E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos convidados: Vinde, que já tudo está preparado. ¶
“E todos, unânimes, começaram a escusar-se. Disse-lhe o primeiro: Comprei um campo, e preciso ir vê-lo; rogo-te que me hajas por escusado. ¶
“E outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los; rogo-te que me hajas por escusado. ¶
“E outro disse: Casei, e, portanto, não posso ir.” (Lucas 14:16–20.) ¶
Outros convidados foram chamados a ocupar seus lugares na ceia. ¶
- Alguns de nós talvez sejam menos felizes do que deveriam ou poderiam ser por causa da arrogância ou do orgulho. Pensamos que somos autossuficientes. Pensamos que não precisamos de Deus ou de seu Cristo. Podemos ser, como escreveu certa vez o Presidente Joseph F. Smith, preguiçosos, ou “entre os orgulhosos e vaidosos, que leem à luz de sua própria presunção, interpretam segundo regras de sua própria invenção … tornam-se uma lei para si mesmos, e assim se colocam como únicos juízes de seus próprios feitos. …”
Ao rebelde Israel, Deus disse: “… este é um povo rebelde, são filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do Senhor: Que dizem aos videntes: Não vejais; e aos profetas: Não profetizeis para nós o que é reto; dizei-nos coisas aprazíveis, e profetizai ilusões.” (Isaías 30:9–10.) ¶
Do profeta Jacó, no Livro de Mórmon, vem esta solene advertência, bem conhecida dos estudantes na Igreja: ¶
“Oh! Quão astuto é o plano do maligno! Oh! A vaidade e a fraqueza e a insensatez dos homens! Quando são instruídos pensam que são sábios e não dão ouvidos aos conselhos de Deus, pondo-os de lado, supondo que sabem por si mesmos; portanto, a sua sabedoria é insensatez e não lhes traz proveito. E eles perecerão. ¶
“Mas é bom ser instruído, quando se dá ouvidos aos conselhos de Deus.” (2 Néfi 9:28–29.) ¶
Nesta manhã, o Presidente Lee citou Paulo aos coríntios — Paulo, o brilhante autor que escreveu as cartas que constituem a maior parte do Novo Testamento. Paulo escreveu aos coríntios que fora enviado não para satisfazer aqueles que exigiam um sinal ou buscavam a sabedoria do mundo. Ele decidiu, como fomos lembrados, pregar nada além de Jesus Cristo e este, crucificado, e assim o fez: ¶
“… em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. ¶
“… em demonstração de Espírito e de poder: ¶
“Para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.” (1 Coríntios 2:3–5.) ¶
Não basta, não é mesmo, conhecer as escrituras sobre a oração, ou os movimentos da oração, ou as palavras da oração. O homem que não quiser se humilhar — verdadeiramente se humilhar — perante o Senhor “não compreende as coisas do Espírito de Deus”, escreveu Paulo, “porque lhe parecem loucura: e não pode entendê-las, porquanto se discernem espiritualmente.” (1 Coríntios 2:14.) ¶
As verdades da vida eterna, escreveu um profeta, “apenas podem ser vistas e compreendidas pelo poder do Santo Espírito, que Deus confere àqueles que o amam e se purificam perante ele; A quem ele concede este privilégio de ver e saber por si mesmos.” (D&C 76:116–17.) ¶
Há aqueles que perderam a fé por causa de tragédias ou dificuldades pessoais. Enfrentando problemas semelhantes aos de Jó, aceitaram, em efeito, o convite de amaldiçoar a Deus e morrer, em vez de amar a Deus e obter a força para suportar suas provações. Não há, é claro, nas promessas de Deus, garantia de que evitaremos justamente as experiências que viemos para enfrentar aqui e por meio das quais podemos aprender a confiar no Senhor. Jesus disse: “No mundo tereis aflição, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (João 16:33.) Ele teve aflição, e a venceu. E assim também podemos nós, com sua ajuda. ¶
Há alguns anos, tomei conhecimento da história de uma jovem família cujo filho pequeno estava tragicamente doente de câncer. Todas as noites, o pai se sentava com o filho, segurando-o nos braços. A dor parecia menor quando o pai o segurava perto de si. O pai dormia num colchão no chão, ao lado do filho, para poder alcançá-lo sempre que o menino chorasse. Os pais suportaram sua dor com coragem. Eles oravam, amavam, serviam. A fé lhes deu força para enfrentar a prova. ¶
- Às vezes nos afastamos do Senhor porque outras pessoas cometeram, ou estão cometendo, erros. Não quero esquecer a história do fazendeiro que sentiu ter sido prejudicado na distribuição de água de irrigação e que o responsável pela água estava errado.
Enfurecido a ponto de perder o controle diante da suposta injustiça, ele procurou o responsável pela água, segurou-o pela camisa com amargura, e disse: “Tom, enquanto você for o responsável pela água, não vou tirar mais uma gota daquela vala.” ¶
O que aconteceu com aquele fazendeiro? Bem, ele era um homem teimoso. Manteve seu voto insensato. E ele e suas terras secaram e desapareceram. ¶
O fato de não termos encontrado a perfeição nos homens ou nas organizações, ou de ouvirmos relatos de imperfeições — essas não são razões para deixar de buscar, servir ou adorar. ¶
As fraquezas ou falhas de outros jamais poderão ser razões apropriadas para nossa perda das bênçãos que poderíamos ter, se nós mesmos estivermos cumprindo nosso dever. ¶
- E, finalmente, talvez a mais triste de todas as razões para falharmos conosco mesmos e com o Senhor seja que escolhemos nos desqualificar por causa de nossos próprios erros. Sabemos que o pecado e a falta de obediência tendem a nos afastar de Deus e da oração. Recusamo-nos a receber o dom salvador da alma que é o perdão, porque pecamos.
Mas esse é o maior dos fracassos. Rejeitar o Senhor, seu amor e seu sacrifício redentor é negar a eficácia do amor de Deus e de sua graça. Todos os homens são capazes de erros, e todos já cometeram alguns, mas todos nós também podemos ter o perdão purificador que vem com o arrependimento e a devoção. ¶
Todos somos como Paulo — às vezes atormentados pela incapacidade de fazer consistentemente e fielmente aquilo que sabemos que devemos fazer. Lembram-se: “… o querer está em mim”, disse ele; “mas não consigo efetuar o bem. Porque não faço o bem que quero: mas o mal que não quero, esse faço.” (Romanos 7:18–19.) ¶
Mas Paulo conhecia Jesus. Ele o conhecia como Senhor, e aceitou seu perdão, deu-lhe sua vida, e morreu por ele. ¶
Talvez a expressão mais pessoal e animadora de todas, para mim, venha de Néfi, servo sincero de Deus, que, dando testemunho de sua gratidão e deleite no Senhor, é honesto o suficiente para dizer: “Não obstante, apesar da grande bondade do Senhor, mostrando-me suas grandes e maravilhosas obras, meu coração exclama: Oh! Que homem miserável sou! Sim, meu coração se entristece por causa de minha carne; minha alma se angustia por causa de minhas iniquidades. ¶
“Estou cercado por causa das tentações e pecados que tão facilmente me envolvem! ¶
“E quando desejo alegrar-me, meu coração geme por causa de meus pecados. …” (2 Néfi 4:17–19.) ¶
E então ele clamou ao Senhor por ajuda: ¶
“… Far-me-ás tremer à vista do pecado? ¶
“Ó Senhor, confiei em ti e em ti confiarei sempre. Não porei minha confiança no braço de carne. …” (2 Néfi 4:31, 34.) ¶
E Néfi deu sua vida ao Senhor. ¶
Nossa força, nossa paz e nossa felicidade estão no Senhor. Neste mundo de provação e aflição, temos necessidade das confortadoras e qualificadoras seguranças que vêm com a fé em Deus, o arrependimento e o serviço à sua causa. Se o reconhecermos, formos gratos, o servirmos, amarmos seus filhos, e aceitarmos as responsabilidades de sermos verdadeiramente cristãos, seremos felizes, apesar dos problemas ou das dificuldades. ¶
Disse o apóstolo João: “Se sabeis essas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes.” (João 13:17.) ¶
Não há alegria duradoura nas posses. Não há paz aqui, nem no futuro, no orgulho. Há conforto e compreensão nos braços amorosos daquele cujo cada ato de coragem, de misericórdia e de amor foi realizado à sombra de uma cruz que ele sabia estar adiante para ele, e num mundo perpassado de falhas morais. ¶
Não podemos permitir que os erros dos outros nos desviem de nossa própria alegria, nem podemos nos desqualificar por causa de nossos próprios erros. Jesus morreu por nossos pecados pessoais. Ele é o Salvador e Redentor a quem pertencemos. ¶
A fé em Deus e em Cristo produz retidão no mundo e felicidade. Alguém que sabe disse: “Deus existe no mundo. Ele existe onde quer que os homens o deixem entrar. Talvez sejam apenas os homens humildes, homens em busca dele, homens com grande necessidade dele, que verdadeiramente o deixam entrar. E Deus vem a tais homens não apenas por causa de sua grande necessidade dele, mas também por causa de sua grande necessidade deles, como seus aliados na tarefa divina de criar um mundo melhor, uma sociedade humana melhor, um verdadeiro reino de Deus.” (P. A. Christensen.) ¶
Martin Buber nos ajuda: “Você sabe sempre em seu coração que precisa de Deus mais do que de qualquer outra coisa. Mas você também não sabe que Deus precisa de você … na plenitude de Sua eternidade, ele precisa de você?” ¶
Disse o Senhor ao antigo Israel: “… se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes o meu convênio, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos … porque toda a terra é minha.” (Êxodo 19:5.) ¶
“Ó mundo, ó mundo de homens confusos, ¶
Buscai de novo a Paz de Deus: ¶
Na fé humilde que se ajoelha, ¶
Na santa Palavra que cura; ¶
Na coragem de uma árvore, ¶
Na integridade da rocha; ¶
No monte que sustém o céu, ¶
A estrela por que elevais o coração; ¶
No riso de uma criança, ¶
De todo imaculado; ¶
Na esperança que responde à dúvida, ¶
No amor que expulsa as trevas. … ¶
Homens frenéticos, amedrontados, insensatos, ¶
Tomai a mão de Deus outra vez.” ¶
—Joseph Auslander ¶
Sei que Deus vive. Sei que Jesus é o Cristo. Oro para que todos nós tenhamos a alegria que vem desse conhecimento, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶