O Guardador de Meu Irmão
John H. Vandenberg
Uma jovem mãe, tendo passado pela dolorosa experiência de perder um filho pequeno em um acidente, procurou um líder da Igreja para receber uma bênção que a consolasse em seu pesar. Ao se retirar, perguntou entre lágrimas: "Deve sempre haver dor nesta vida?" ¶
Ao considerarmos essa pergunta, recordemos a primeira família da Terra. Lemos na Bíblia que Eva "concebeu e deu à luz Caim, e disse: Alcancei do Senhor um homem. ¶
"E também deu à luz seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra." ¶
E, com o passar do tempo, Caim se indignou, porque o Senhor atentara para a oferta de Abel, dos primogênitos do seu rebanho, mas não atentara para a oferta de Caim, do fruto da terra. ¶
"E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou. ¶
"E disse o Senhor a Caim: Onde está teu irmão Abel? E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão? ¶
"E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra." (Gênesis 4:1–10.) ¶
A dor, a tristeza e a tragédia acompanham a raça humana desde esse acontecimento. Contudo, desse episódio das escrituras chega até nós a pergunta: "Sou eu o guardador do meu irmão?" ¶
O que pensamos a respeito dessa pergunta? Que incumbência o Senhor nos deu a esse respeito? Voltemo-nos a 1 João, capítulo 3: ¶
"Porque esta é a mensagem que ouvistes desde o princípio: que nos amemos uns aos outros. ¶
"Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama seu irmão permanece na morte. ¶
"Nisto conhecemos o amor de Deus: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. ¶
"Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obras e em verdade." (1 João 3:11, 14, 16, 18.) ¶
Qual é a semente do amor materno? Não seria o sacrifício? Esse amor é considerado o mais profundo e o mais terno. Será porque a mãe atravessa o vale da sombra da morte para dar à luz seu filho e continuamente se sacrifica pelo bem-estar dele? ¶
Será por isso que Cristo ama o mundo? Porque trabalhou para criá-lo? Porque sacrificou a própria vida pelo mundo e por seus habitantes? Diz-nos a escritura que "Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho Unigênito" (João 3:16) para salvá-lo da ruína, e o Filho estava disposto a sofrer pela salvação daquilo por que havia trabalhado. ¶
Todos nós amamos aquilo pelo qual nos sacrificamos. Dar e servir até o ponto do sacrifício gera amor. O termo religião abrange a preocupação com nossos irmãos, como se diz em Tiago 1:27: "A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações. …" ¶
Quando as pessoas dizem: "A religião é boa para alguns, mas eu não sou religioso, e isso não significa nada para mim", será porque não experimentaram a elevação que vem de se sacrificar e servir o próximo? ¶
Talvez simplesmente não tenham reconhecido as necessidades de seus vizinhos. Todos têm uma necessidade. O homem não subsiste sozinho. Edwin Markham expõe as necessidades básicas do homem de maneira clara e simples nestas palavras: ¶
"Três coisas deve possuir o homem para que sua alma viva e conheça o bem perfeito da vida — ¶
"Três coisas o Pai, que tudo supre, haveria de dar-lhe: pão, beleza e fraternidade." ¶
Verdadeiramente, nosso Pai Celestial tornou possível que recebêssemos o nosso pão de cada dia, pois disse, referindo-se à guarda de seus mandamentos: ¶
"Em verdade eu digo que, se isso fizerdes, a plenitude da Terra será vossa, as feras do campo e as aves do céu e aquilo que sobe nas árvores e anda na terra; ¶
"… seja para alimento ou para vestuário ou para casas ou para estábulos ou para pomares ou para hortas ou para vinhas; ¶
"Sim, todas as coisas que provêm da terra, em sua estação, são feitas para o benefício e uso do homem, tanto para agradar aos olhos como para alegrar o coração; ¶
"Sim, para servir de alimento e para vestuário, para o paladar e o olfato, para fortalecer o corpo e avivar a alma. ¶
"E agrada a Deus ter dado ao homem todas essas coisas. … ¶
"E em nada ofende o homem a Deus ou contra ninguém está acesa sua ira, a não ser contra os que não confessam sua mão em todas as coisas e não obedecem a seus mandamentos." (Doutrina e Convênios 59:16–21.) ¶
Visto que Deus tem sido tão bom conosco, ele nos pediu que sejamos bons para com os nossos irmãos que talvez não tenham a mesma sorte que nós, pois nos admoestou: "E eis que te lembrarás dos pobres e consagrarás de tuas propriedades, para sustento deles, aquilo que tiveres para lhes dar. … ¶
"E se deres de teus bens aos pobres, a mim o farás; e eles serão entregues ao bispo de minha igreja. …" (Doutrina e Convênios 42:30–31.) ¶
Esse mandamento de prover para nossos irmãos necessitados encontra-se no princípio do jejum, como lemos na História Documental da Igreja: ¶
"Que isto seja um exemplo para todos os santos, e nunca haverá falta de pão: quando os pobres estiverem passando fome, que aqueles que têm, jejuem um dia e deem aos bispos, para os pobres, o que de outra forma teriam comido, e todos terão fartura por muito tempo; e este é um grande e importante princípio dos jejuns, aprovado pelo Senhor. E, enquanto os santos viverem todos esse princípio de coração alegre e semblante afável, sempre terão abundância." (Vol. 7, p. 413.) ¶
Brigham Young dirigiu-se aos santos nestas palavras: ¶
"Vocês sabem que a primeira quinta-feira1 de cada mês nós a guardamos como dia de jejum. Quantos aqui sabem a origem desse dia? Antes de o dízimo ser pago, os pobres eram sustentados por doações. Eles vinham a José e pediam ajuda, em Kirtland, e ele disse que deveria haver um dia de jejum, o que ficou decidido. Ele seria observado uma vez por mês, como é agora, e tudo o que se comeria naquele dia, de farinha, ou carne, ou fruta, ou qualquer outra coisa, deveria ser levado à reunião de jejum e posto nas mãos de uma pessoa escolhida com o propósito de cuidar disso e distribuí-lo entre os pobres. Se fizéssemos isso agora fielmente, vocês acham que os pobres careceriam de farinha, ou manteiga, ou queijo, ou carne, ou açúcar, ou qualquer coisa que precisassem comer? Não, haveria mais do que poderia ser usado por todos os pobres entre nós. É economia da nossa parte tomar esse rumo e fazer melhor por nossos irmãos e irmãs pobres do que tem sido feito por eles até agora. Que isso seja publicado em nossos jornais. Que seja divulgado ao povo que, na primeira quinta-feira de cada mês, dia de jejum, tudo o que seria comido por maridos, esposas, filhos e criados deve ser posto nas mãos do bispo para o sustento dos pobres. Estou disposto a fazer minha parte, tanto quanto os demais, e se não houver pobres em minha ala, estou disposto a dividir com aquelas alas onde há pobres. Se as irmãs procurarem quartos para aquelas irmãs que precisam ser cuidadas, e cuidarem para que sejam providas, vocês verão que teremos mais conforto e mais paz em nossos corações, e nossos espíritos estarão leves e animados, cheios de alegria e paz. Os bispos devem, por meio de seus professores, verificar que toda família em suas alas que estiver em condições doe o que naturalmente consumiria no dia de jejum para os pobres." (Journal of Discourses, vol. 12, pp. 115–16.) ¶
Encorajo os bispos a manter esse princípio diante de seu povo hoje, para que possamos suprir mais plenamente o pão essencial e as demais necessidades de nossos irmãos que estão em circunstâncias infelizes. ¶
Edwin Markham, como recordamos, disse que nosso Pai, que tudo supre, nos daria não apenas pão, mas também beleza e fraternidade. ¶
Terá o Senhor suprido a humanidade com beleza? Quem duvidar disso precisa apenas abrir os olhos para o nascer e o pôr do sol e os ouvidos para o som da chuva e do vento, para maravilhar-se com as cores das flores e do arco-íris, para perceber a variedade na paisagem do deserto e da floresta, dos campos de cereais, das montanhas, dos rios e dos oceanos. Nesta época do ano, começamos a nos emocionar com a nova vida da primavera, e, ao nos perdermos na vida pulsante ao nosso redor, tornamo-nos parte dela. ¶
Toda a Terra, sem esterilidade alguma, alegra o coração. Em nossa preocupação como guardadores de nosso irmão, podemos ajudar uns aos outros a compreender o dom da beleza que é nosso. Tomemos tempo para ver, sentir e desfrutar tudo o que Deus criou para nós. Margaret L. White traz essa responsabilidade à nossa mente com estas palavras: ¶
"Tomei a mãozinha de uma criança para levá-la ao Pai. Meu coração transbordava de gratidão pelo alegre privilégio. Caminhávamos devagar. Ajustei meus passos aos passos curtos da criança. Falávamos das coisas que a criança notava. Às vezes colhíamos as flores do Pai e acariciávamos suas pétalas macias e amávamos suas cores vivas. Às vezes era um dos pássaros do Pai. Observávamos seu ninho sendo construído. Víamos os ovos que eram postos. Perguntávamo-nos, encantados com o cuidado que ele dava a seus filhotes. Muitas vezes contávamos histórias do Pai. Eu as contava à criança, e a criança as contava novamente para mim. Nós as contávamos, a criança e eu, repetidas vezes. Às vezes parávamos para descansar, encostados em uma das árvores do Pai, deixando que o ar fresco esfriasse nossas frontes, sem falar. E então, no crepúsculo, encontramos o Pai. Os olhos da criança brilharam. Ele olhou, amoroso e confiante, ansioso, para o rosto do Pai. Colocou a mão na mão do Pai. Por um momento, fui esquecida. Fiquei satisfeita." (Lucy Gertsch, comp., Minute Masterpieces [Bookcraft, 1953], p. 99.) ¶
Beleza — um dom do Pai que tudo supre. ¶
E quanto à fraternidade, a terceira necessidade do homem — talvez a maior de todas? Certamente, neste mundo moderno, onde o ódio e a inveja parecem abundar, o chamado a "amar o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento" e a "amar o teu próximo como a ti mesmo" (Mateus 22:37, 39) é essencial se algum dia se quiser encontrar a paz. ¶
Parece que o homem não conhece limites para as conveniências físicas que pode produzir. Gabamo-nos de como nosso conhecimento se expande à medida que novas descobertas são feitas, abrindo o mundo materialista. No entanto, o progresso na solução do problema de como conviver com nossos irmãos parece tão lento em comparação. ¶
Uma das muitas histórias que se encontram nas escrituras relativas ao amor pelos irmãos é a do livro de Ester, a história da bela judia que encontrou favor perante o rei e se tornou rainha. Hamã, que fora colocado acima de todos os príncipes, indignou-se quando Mardoqueu, tio de Ester, recusou-se a curvar-se diante dele, e fez um plano para destruir todos os judeus. Mardoqueu, tendo ouvido a proclamação de morte, mandou dizer à rainha Ester que a "ordenasse que fosse ter com o rei, e lhe pedisse e suplicasse na sua presença pelo seu povo". ¶
Ester explicou a lei e respondeu que "para todo homem ou mulher que entrar no pátio interior à presença do rei, sem ser chamado, não há senão uma sentença, que morra, salvo se o rei estender para ele o cetro de ouro, para que viva; e eu estes trinta dias não fui chamada para entrar na presença do rei". ¶
Mardoqueu respondeu: "… tu e a casa de teu pai perecereis." ¶
Diante disso, Ester reconheceu sua responsabilidade para com seus irmãos e respondeu: "Vai, ajunta todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias, nem de dia nem de noite, e eu e as minhas moças também assim jejuaremos; e assim irei ter com o rei, ainda que não seja segundo a lei; e se perecer, pereci." (Ester 4:8, 11, 14, 16.) ¶
Como resultado dessa decisão de colocar o assunto nas mãos do Senhor, Ester pôde prestar esse grande serviço a seus irmãos e salvá-los. ¶
Nossos irmãos estão constantemente conosco, e devemos ter em mente não apenas eles, mas também o estranho em nosso meio. Sejamos lembrados dessa obrigação por estas palavras de Burton Hillis: ¶
"Se há um desconhecido em sua vizinhança hoje, é melhor verificar sobre ele. Ele pode precisar de um amigo. Se ainda for um desconhecido amanhã, é melhor verificar sobre sua vizinhança." ¶
Um exemplo de fraternidade em ação ocorreu há poucas semanas no vale de San Fernando, na Califórnia. O maior abalo do terremoto foi às seis horas da manhã; mas os mestres familiares, as líderes da Sociedade de Socorro e os quóruns do sacerdócio quase imediatamente começaram a fazer sua parte, ajudando centenas de pessoas evacuadas de suas casas. Muitas dessas famílias encontraram refúgio nas casas de membros da Igreja. ¶
Em trinta minutos, uma dupla de mestres familiares passou pela casa de seu bispo para verificar se havia instruções especiais antes de fazer um levantamento rápido de suas famílias designadas. Outros mestres familiares telefonaram para os líderes do sacerdócio, que por sua vez informaram os bispos, e os bispos informaram os presidentes de estaca. Em seis horas após o primeiro abalo, algumas alas já haviam localizado a maioria de seus membros. ¶
Os presidentes de estaca tentaram identificar as áreas mais atingidas e oferecer assistência onde era mais necessária. Um quórum de sacerdotes em Granada Hills mudou uma família com sete filhos para outra casa. Um primeiro conselheiro no bispado acordou quando sua chaminé caiu sobre o telhado, atravessando algumas das vigas e abrindo um buraco no teto; mas ele disse: "Eu não estava tão preocupado com isso quanto com a casa do meu vizinho, que pegou fogo imediatamente. Ninguém tinha água, então subimos aos telhados para apagar as fagulhas." ¶
Um bispo que ia a caminho do trabalho quando o terremoto ocorreu ficou preocupado por não conseguir contatar sua casa ou os membros de sua ala por várias horas. Mas, em sua ausência, os portadores do sacerdócio já haviam entrado em ação, e no início da tarde toda família da ala já havia sido contatada. Sua esposa relatou que, assim que o telefone voltou a funcionar, ela recebeu chamadas constantes de famílias oferecendo-se para receber pessoas evacuadas em suas casas. "As pessoas têm sido maravilhosas", relatou ela. "Isso renova a fé, a forma como elas se ajudam quando a dificuldade chega." ¶
A dificuldade chega em algum lugar todos os dias, embora nem sempre de forma tão drástica. O Senhor sabe que precisamos uns dos outros, e por essa razão ele nos fez irmãos. ¶
Demonstremos nossa gratidão por essas necessidades básicas que nosso Pai Celestial nos supriu, vivendo aquilo que professamos crer e sendo verdadeiramente o guardador de nosso irmão. Se quisermos entrar novamente na presença de Deus, será estendendo a mão aos outros, pois não podemos nos aproximar mais de Deus do que podemos nos aproximar de nosso próximo, o que testifico em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶
Notes
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O dia de jejum era regularmente observado em toda a Igreja na primeira quinta-feira de cada mês até 5 de novembro de 1896, quando, em uma reunião da Primeira Presidência e dos apóstolos, decidiu-se que o primeiro domingo do mês deveria ser observado em seu lugar, e no domingo, 6 de dezembro de 1896, foi a primeira vez em que se realizou em um domingo. (Andrew Jenson, Encyclopedic History of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, 1941.) ↩