Pulpit

Meus irmãos, irmãs e amigos, e...

Spencer W. Kimball

1970 October General Conference·Saturday, October 3, 1970, Afternoon Session·1970-10-03

• Meus irmãos, irmãs e amigos, e especialmente nossos bons amigos vindos de além-mar e de outra língua: É uma alegria estar com vocês nesta grande conferência.

Monumento das Gaivotas

À nossa direita, a cem metros, há um belo monumento de granito, encimado por um globo de pedra, e sobre ele duas gaivotas de bronze. Diante desse monumento já estiveram milhões de turistas, ao ouvirem a envolvente história da “Misericórdia de Deus para com os pioneiros mórmons”.

As asas de bronze das aves estão bem abertas, assim como os grandes braços da Igreja, para envolver todos os povos do mundo; e o globo de granito é profético da Igreja mundial e faz lembrar a pedra que Daniel viu, cortada da montanha sem mãos, a rolar e encher toda a Terra.

Nas placas é contada a história das terras virgens do deserto, das juntas de bois, dos lavradores e dos braços estendidos lançando a semente. Ela retrata a invasão dos insetos impiedosos e a batalha desesperançada representada pelo homem que se deixa cair ao chão, apático, com as mãos pendentes e a cabeça curvada. O desespero o envolveu. A mulher também está exausta do trabalho, com algo de patético em seu cansaço físico, a cabeça erguida para os céus impiedosos. Eles veem as gaivotas por cima. Estariam elas vindo para completar a devastação? Retratam-se a vitória sobre as gaivotas e a colheita do grão que foi salvo. A fome total seria então evitada.

Anos que os Gafanhotos Comeram

A praga egípcia não foi a primeira, nem o desastre mórmon foi o último das invasões de grilos, gafanhotos e locustas. Anos atrás, quando visitamos a Austrália, ouvíamos frequentemente que um homem “largara seu fardo”. Viemos a saber que aquilo tinha um significado semelhante ao da frase que usamos com frequência aqui: “Ele não conseguiu” ou “Ele perdeu o barco”. Ao ler as antigas escrituras, vejo que os antigos caracterizavam tal situação pela expressão “os anos que o gafanhoto comeu”.

Dizem-nos que o gafanhoto é uma espécie de uma grande família de insetos com antenas rombudas, longas patas traseiras, coxas grossas que produzem o som familiar ao roçarem as asas dianteiras. Eles se reproduzem nos fundos dos rios e em depressões ensolaradas, multiplicam-se a uma taxa alarmante e enchem o ar, obscurecendo a luz do dia. Hordas desses insetos têm assolado o oeste dos Estados Unidos, bem como muitas outras partes do mundo, e causado bilhões de dólares em danos e ruína. Causaram numerosas fomes e a morte de grande número de pessoas.

Esses insetos, como na guerra dos grilos em Utah, estiveram fortemente envolvidos na história egípcia:

Moisés e Aarão suplicaram e ameaçaram Faraó para que desobrigasse seu exército de escravos. O monarca era obstinado, enganador e teimoso. Durante o sofrimento de cada praga, fazia a promessa, mas, quando vinha o alívio, ignorava sua promessa.

Moisés advertiu: “Assim diz o Senhor Deus (...) Até quando recusarás humilhar-te (...)? Deixa ir o meu povo, para que me sirva”. (Êxodo 10:3.)

Pragas Egípcias

Em sucessão vieram as pragas: quando “todas as águas do rio se tornaram em sangue”; e quando “as rãs subiram e cobriram a terra do Egito”; e quando “vieram grandes enxames de moscas”; quando “o pó da terra (...) se tornou em piolhos”; quando as cinzas espalhadas por Moisés “se tornou em sarna, que arrebentava em úlceras nos homens e no gado”.

Vieram “trovões e saraiva, e fogo corria pela terra; (...) E a saraiva feriu (...) tudo quanto havia no campo, (...) toda a erva (...) e quebrou todas as árvores do campo”. “E o linho e a cevada foram destruídos, porque a cevada já estava na espiga, e o linho na cana.” (Êxodo 7:20; 8:6, 24, 17; 9:10, 23, 25, 31.) Diante das repetidas rejeições de Faraó, Moisés citou o Senhor:

“(...) deixa ir o meu povo. (...) Pois, se ainda recusares (...) eis que trarei amanhã gafanhotos aos teus termos.”

(Êxodo 10:3–4.) “Lançarás muita semente ao campo; porém colherás pouco, porque o gafanhoto a consumirá.” (Deuteronômio

28:38. Itálico acrescentado.) “(...) e aconteceu que pela manhã o vento oriental trouxe os gafanhotos.

“(...) de modo que a terra se escureceu; e (...) não ficou nada de verde nas árvores, nem na erva do campo, em toda a terra do Egito.” (Êxodo 10:13, 15.) O que o pulgão deixou, o gafanhoto comeu, e o que o gafanhoto deixou, a lagarta comeu. E mais uma colheita se foi.

E, ao lembrar-me dos “anos que o gafanhoto comeu”, refleti sobre os fins de semana perdidos e os anos desperdiçados de muitas pessoas.

Os Quatro Nãos

De um estado distante veio uma carta de um homem que fora batizado um ano antes. Cito sua carta:

“Eu agradeceria se removessem meu nome dos registros da Igreja. Considero muito grandes as (...) exigências da Igreja. Fui (...) conduzido (...) pelos missionários a receber instruções. A próxima coisa que soube foi que meu batismo estava planejado. Não lamento isso inteiramente, pois foi educativo.

“Por fim, cheguei a compreender no que eu havia me metido.

“Eu não conseguia abrir mão dos quatro nãos — tabaco, bebidas alcoólicas, café e chá.

... Isso me causa mais ansiedade do que consigo suportar. E minha personalidade requer aceitação (...) e sinto-me não aceito quando não consigo participar dos prazeres de meus companheiros.

“Também descubro que não consigo dar de três a cinco horas no domingo e um décimo de meus rendimentos. Isso é contrário à minha natureza básica. (...)

“Lamento muito ter-lhes causado esse problema. Ninguém deve considerar-se culpado. (...) A culpa é somente minha. Espero que possam perdoar-me (...) minha decisão é final.”

Sua decisão final foi deveras triste.

Seus anos seguem um após outro e são figurativamente comidos pelos gafanhotos, pelo verme roedor e pela lagarta, enquanto ele retorna ao mundo.

Em contraste com isso, em geral nosso povo não se perturba com quatro ou cinco horas de devoção no sábado e a doação de um décimo de sua renda e os quatro nãos.

Marden diz: “(...) o moinho jamais pode moer com a água que já passou”. (Orison S. Marden, Pushing to the Front, vol. 1, p. 13.)

Uma Família de Conversos

Há alguns dias, uma família de novos membros sorria radiante enquanto apertava minha mão. Perguntei-lhes há quanto tempo eram membros da Igreja, e a resposta foi: “Dois meses”. Então, com entusiasmo e pesar, disseram: “Pense em todos estes anos em que poderíamos ter sido tão felizes na Igreja!”

Os gafanhotos haviam comido seus anos.

Alguém disse: “’Oh, se eu tivesse!’ ou ‘Oh, se eu não tivesse!’ é o clamor silencioso de muitos homens que dariam a própria vida pela oportunidade de voltar e recuperar algum erro há muito perdido”. (Marden, p. 15.)

Cargo de Confiança

Em 1834, estava sendo organizado um sumo conselho pelo Profeta Joseph Smith.

Este relato vem de L. D. Young:

“... Cometi um grave erro e desejo deixar um registro dele, como lição para outros. O profeta pediu-me que tomasse assento com os irmãos que haviam sido escolhidos para esse [sumo] conselho. Em vez disso, levantei-me e aleguei minha incapacidade de preencher uma posição tão responsável, manifestando, creio eu, considerável sinceridade na questão.

“O profeta então disse que apenas desejava que eu ocupasse o lugar; mas, como eu ainda me escusava, ele designou outro para preenchê-lo. Creio que essa foi a razão de ele nunca mais me chamar para ocupar qualquer posição importante no sacerdócio. Desde então aprendi a ir aonde sou chamado e a não colocar meu julgamento acima do daqueles que são chamados para guiar neste reino.”

O gafanhoto começou a trabalhar. Pense nos anos de oportunidade que esse bom homem perdeu.

Harriet Winslow disse sobre a oportunidade:

“A oportunidade dourada Jamais é oferecida duas vezes; aproveita, pois, a hora Quando a Fortuna sorri e o Dever aponta o caminho.

“Por que assim anelar, por que suspirar para sempre, Pelo distante, pelo inalcançado e indistinto, Enquanto o belo, à tua volta estendido, Oferece seu baixo e perpétuo hino?”

Bispado Recusado

Conheço um homem que ficou muito preocupado quando seu presidente de estaca o convidou a ser o bispo da ala. Seu rosto ficou lívido. Gaguejou uma recusa. Recusou o grande privilégio de ser um juiz em Israel, um pai de um povo, um líder de homens. O presidente de estaca, sentindo que era mera timidez e sentimento de inadequação, tentou persuadi-lo, mas a decisão estava tomada.

Desde aquele dia, houve muitos anos que “os gafanhotos comeram”.

Nesse contexto, penso também nos Sidney Rigdons, Oliver Cowderys, Martin Harrises e muitos outros que fecharam as portas às suas oportunidades.

“Lembrem-se de que quatro coisas não voltam: a palavra dita, a flecha lançada, a vida passada e a oportunidade negligenciada.” (Marden, p. 67.)

Anos de Gafanhotos no Casamento

Outro rapaz, que era membro fiel da Igreja, ficou enamorado de uma bela moça que não era membro da Igreja e, quando seu namoro chegou ao casamento, ele seria civil, “até que a morte os separe”. Ele protestou debilmente, mas ela prevaleceu com maior firmeza. O templo e o casamento eterno nada significavam para ela.

Ele esperava algum dia trazê-la para a Igreja, mas os anos passaram rapidamente, e os filhos vieram e cresceram sem o evangelho. As oportunidades passaram; anos foram perdidos — anos que nunca seriam recuperados, pois o tempo voa sobre asas de relâmpago, e não se pode chamá-lo de volta.

Foram aqueles anos de gafanhotos?

Shakespeare escreveu:

“Há uma maré nos assuntos dos homens, Que, tomada na cheia, conduz à fortuna; Omitida, toda a viagem de sua vida Fica presa a sombras e misérias; E devemos tomar a corrente quando ela serve, Ou perder nossos empreendimentos.

“Ela jamais é oferecida duas vezes; aproveita a hora Quando a fortuna sorri e o dever aponta o caminho; Nem te afastes para escapar ao medo espectral, Nem pauses, ainda que o prazer acene de seu refúgio; Mas leva-te bravamente adiante até a meta.”

(Júlio César, cena 4, ato 3.) O gafanhoto sempre esteve solto.

A civilização é corroída pelo verme roedor.

Benjamin Franklin disse: “Amas a vida? Então não desperdices o tempo, pois é dessa matéria que a vida é feita.”

E outro disse: “A própria eternidade não pode restaurar a perda arrancada do minuto”. (Ancient Post.) “Desperdicei o tempo, e agora o tempo me desperdiça.” (Shakespeare.)

Os que Não Têm Filhos

Quando eu era menino, fiquei muito impressionado por um jovem casal que acabava de se casar civilmente. Ele era um belo rapaz, com um cavalo lustroso, uma charrete com pneus de borracha e dinheiro para gastar. Ela era a “bela do baile”, oriunda de uma família abastada, de modo que suas roupas e sua popularidade faziam outras moças invejá-la.

Seu casamento foi o que se poderia chamar de extravagância.

Havia muitos filhos em ambas as famílias, mas sua primeira determinação foi que “não teriam filhos”.

Houve algum tipo de cirurgia — nunca vieram filhos àquele lar. Sua diversão continuou — danças, passeios, festas. Com o passar dos anos, vi-os envelhecer solitários. Ele morreu primeiro.

Numa rua principal da pequena cidade, ela continuou vivendo e caminhava diariamente até o correio e a mercearia. Os anos voaram e trouxeram-lhe as costas curvadas e o andar lento, acrescido de uma bengala.

A solidão a cercava. Seus irmãos e irmãs estavam ocupados com suas famílias. As visitas a ela se tornaram menos frequentes e mais breves. Não havia rádio nem televisão naquela época. A leitura diminuiu à medida que os olhos se enfraqueciam.

As pessoas a viam com menos frequência e sentiam menos sua falta.

Um dia alguém a encontrou. Estava morta havia dias. Sozinha na morte como estivera sozinha na vida. Nenhum filho amoroso e cumpridor de deveres para sepultá-la — nenhuma lágrima derramada — nenhum lamento. Foram anos desperdiçados. Foram anos que os gafanhotos comeram?

Nosso Destino Interior

Alguém disse:

“O destino não está a teu redor, mas dentro de ti — Tu mesmo deves fazer a ti mesmo.”

(Marden, p. 404.) A falta de planejamento traz esterilidade e aridez. O destino roça o homem com suas asas, mas nós mesmos fazemos em grande parte o nosso destino. Karl G. Maeser nos dá este pensamento:

“E os livros serão abertos, e meu anjo guardião estará ao meu lado, e, ao abrir o livro, ele dirá: ‘Olhe’, e eu olharei e direi: ‘Como é belo’. E o anjo dirá: ‘Isso é o que você poderia ter sido’; então ele virará a folha e dirá: ‘Isto é o que você foi’.”

E Ingalls nos dá isto:

“Sou eu o senhor dos destinos humanos, Fama, amor e fortuna seguem meus passos.

Cidades e campos percorro, penetro Desertos e mares remotos e, passando por Casebre, mercado e palácio, cedo ou tarde Bato sem ser chamado, uma vez, a cada porta!

“Se estiver dormindo, desperta — se festejando, levanta-te antes Que eu me afaste. É a hora do destino, E os que me seguem alcançam todo estado Que os mortais desejam e vencem todo inimigo, Exceto a morte; mas os que duvidam ou hesitam São condenados ao fracasso, à penúria e à aflição.

Procurem-me em vão e inutilmente implorem — Não respondo e não volto mais.”

— John James Ingalls, “Opportunities”

Oportunidades Perdidas

O mundo está cheio de oportunidades perdidas. Muitos dos impressionantes discursos desta conferência falaram de pessoas que deixaram de aceitar o evangelho quando lhes foi apresentado; de pessoas que abandonaram o ensino médio, a faculdade e o emprego; do desperdício causado por drogas e imoralidades; da recusa em aceitar serviço na Igreja e na comunidade; de deixar passar uma missão de proselitismo; de um casamento civil temporário substituído por um casamento eterno permanente; do uso da pílula, do aborto e de outros meios de prejudicar ou destruir a família e a vida no lar, tão fortemente defendidas como vitais para a continuidade de nossa civilização. Tudo isso nos lembra que, embora devamos estar no mundo, não precisamos ser do mundo.

Que aproveitemos nossas oportunidades, vivamos plenamente o evangelho e nos preparemos para a eternidade de glória, que é nosso destino possível, é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém.

Como citar este discursoSpencer W. Kimball, “Meus irmãos, irmãs e amigos, e...”, 1970 October General Conference, Saturday, October 3, 1970, Afternoon Session (1970-10-03). Pulpit Vault, 1970-10-kimball-my-brothers-and-sisters-and-friends-and. Tradução desta edição, por método de glossário, archive.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).