Gostaria de Falar a Toda a...
Gordon B. Hinckley
• Gostaria de falar a toda a terra aos jovens que são o futuro da Igreja e a esperança das nações. ¶
Conversa com um Jovem
Encontrei meu tema numa conversa com um jovem num aeroporto sul-americano, onde ambos estávamos atrasados por aviões que chegavam tarde. Seus cabelos eram longos e o rosto barbado, seus óculos grandes e redondos. Usava sandálias e roupas que davam a aparência de total indiferença a qualquer padrão de estilo geralmente aceito. ¶
Isso não me incomodava. Ele era sério e evidentemente sincero. Era instruído e ponderado, formado numa grande universidade norte-americana. ¶
Sem emprego e sustentado pelo pai, viajava pela América do Sul. ¶
O que procurava na vida? perguntei. ¶
“Paz — e liberdade”, foi sua resposta imediata. Usava drogas? Sim, eram um de seus meios para obter a paz e a liberdade que buscava. A palestra sobre drogas levou a palestras sobre moralidade. Falou com naturalidade da nova moralidade que proporcionava muito mais liberdade do que qualquer geração anterior jamais conhecera. ¶
Em nossas apresentações iniciais, ele soubera que eu era homem da Igreja; e deixou-me saber, de modo um tanto condescendente, que a moralidade de minha geração era uma piada. Então, com seriedade, perguntou como eu poderia defender honestamente a virtude pessoal e a castidade moral. Eu o choquei um pouco ao declarar que sua liberdade era uma ilusão, que sua paz era uma fraude e que eu lhe diria por quê. ¶
Nossos voos foram chamados pouco depois, e tivemos de nos separar. Desde então, tenho pensado muito em nossa conversa. Esperaria que ele pudesse estar ouvindo em algum lugar hoje. Ele faz parte de uma geração desafiadora, de milhões, que, na busca de liberdade da restrição moral e de paz de uma consciência reprimida, abriu uma comporta de práticas que escravizam e degradam e que, se não forem refreadas, destruirão não somente indivíduos, mas também as nações das quais fazem parte. ¶
Situação de um Jovem Casal
Pensei nessa liberdade e nessa paz quando recentemente enfrentei, do outro lado da mesa de meu escritório, um rapaz e uma moça. Ele era bonito, alto e varonil. Ela era uma moça bonita, excelente aluna, sensível e perceptiva. ¶
A moça soluçava, e lágrimas caíam dos olhos do rapaz. Eram calouros na universidade. Casar-se-iam na semana seguinte, mas não no tipo de casamento com que haviam sonhado. Haviam planejado que isso aconteceria três anos mais tarde, após a formatura. ¶
Agora se encontravam numa situação de que se arrependiam e para a qual nenhum dos dois estava preparado. Seus sonhos de estudo estavam despedaçados, bem como os anos de preparação que sabiam que cada um necessitava para o mundo competitivo que os esperava. ¶
Em vez disso, agora teriam de estabelecer um lar, e ele se tornaria o provedor com o melhor salário que suas escassas habilidades pudessem obter. ¶
O rapaz levantou os olhos em meio às lágrimas. “Fomos enganados”, disse. ¶
“Enganamos um ao outro”, respondeu ela. “Enganamos um ao outro e aos pais que nos amam — e enganamos a nós mesmos. Fomos traídos. Caímos na bobagem de que a virtude é hipocrisia; e descobrimos que a nova moralidade, a ideia de que o pecado está somente na mente, é uma armadilha que nos destruiu.” ¶
Coração Partido e Escravidão
Falaram de mil pensamentos que lhes tinham passado pela mente nos dias temerosos e noites ansiosas das últimas semanas. Deveria ela procurar um aborto? A tentação existia na assustadora contemplação da provação que os aguardava. Não, nunca, concluiu ela. A vida é sagrada em qualquer circunstância. Como poderia ela viver consigo mesma se tomasse medidas para destruir o dom da vida, mesmo nessas condições? ¶
Talvez ela pudesse ir a algum lugar onde não fosse conhecida, e ele poderia continuar seus estudos. A criança poderia ser colocada para adoção. ¶
Havia excelentes organizações que poderiam auxiliar num programa assim, e havia boas famílias ansiosas por filhos. Mas eles descartaram esse pensamento. ¶
Ele jamais a deixaria enfrentar sua provação sozinha. Era responsável e enfrentaria essa responsabilidade, mesmo que isso arruinasse o futuro com que sonhara. ¶
Admirei sua coragem, sua determinação de fazer o melhor numa situação difícil; mas meu coração doía ao observá-los, desamparados e soluçando. ¶
Ali estava a tragédia. Ali estava o coração partido. Ali estava a armadilha. Ali estava a escravidão. ¶
Tinham-lhes falado de liberdade, de que o mal era apenas coisa da mente. ¶
Mas descobriram que haviam perdido a liberdade. Tampouco conheciam paz. ¶
Tinham trocado sua paz e liberdade — a liberdade de casar quando escolhessem casar, a liberdade de obter a educação com que haviam sonhado e, mais importante, a paz do respeito próprio. ¶
Meu jovem amigo no aeroporto poderia ter contestado minha história dizendo que eles não foram inteligentes. Se tivessem sido sábios a respeito das coisas a seu alcance, não se encontrariam nessa triste situação. ¶
Eu teria respondido que a situação deles está longe de ser única e que a cada dia se torna mais grave. Em 1968, houve 165.700 nascimentos de colegiais solteiras somente nos Estados Unidos, com aumento anual médio de 12.000. (Reader's Digest, setembro de 1970, p. 170.) ¶
Miséria da Indulgência
Pode haver paz no coração de qualquer homem, pode haver liberdade na vida de alguém que deixou somente miséria como fruto amargo de sua indulgência? ¶
Pode haver algo mais falso ou desonesto do que a satisfação da paixão sem aceitar responsabilidade? ¶
Vi na Coreia as trágicas consequências da guerra nos milhares de órfãos nascidos de mães coreanas e pais soldados. Foram abandonados, criaturas de tristeza, indesejados, os destroços de uma maré miserável de imoralidade. ¶
Assim é no Vietnã. Dezenas de milhares desses, segundo relatos. ¶
Paz e liberdade? Não pode haver nenhuma das duas para aquele que se entregou desenfreadamente, nem para os deixados como vítimas inocentes e trágicas de sua concupiscência. ¶
Os homens tendem a vangloriar-se de suas conquistas imorais. Que vitória barata e maculada. Não há conquista nisso. É somente autoengano e uma fraude miserável. A única conquista que traz satisfação é a conquista de si mesmo. Dizia-se antigamente que “o que domina a si mesmo é maior do que o que toma uma cidade”. ¶
Ainda não são apropriadas as palavras de Tennyson: “Minha força é como a força de dez, porque meu coração é puro.” (Alfred, Lord Tennyson, “Sir Galahad”.) ¶
Conclusões dos Historiadores
Esperam que eu fale assim. Mas ouçam a conclusão dos renomados historiadores Will e Ariel Durrant. A linguagem deles pode soar um pouco indelicada para uma ocasião como esta, mas meus jovens amigos a compreenderão. Da vasta experiência de escrever mil anos de história, o Dr. e a Sra. Durrant dizem: ¶
“Nenhum homem, por mais brilhante ou bem informado que seja, pode, numa vida, chegar a tal plenitude de entendimento que possa julgar e descartar com segurança os costumes ou instituições de sua sociedade, pois estes são a sabedoria de gerações após séculos de experiência no laboratório da história. Um jovem fervendo de hormônios perguntará por que não deve dar plena liberdade a seus desejos sexuais; e, se não for refreado por costume, moral ou leis, poderá arruinar sua vida antes de amadurecer o suficiente para compreender que o sexo é um rio de fogo que deve ser contido e arrefecido por uma centena de restrições, se não houver de consumir no caos tanto o indivíduo como o grupo.” (The Lessons of History, pp. 35–36.) ¶
Um Mundo Saturado de Sexo
A autodisciplina nunca foi fácil. Não duvido que hoje seja mais difícil. ¶
Vivemos num mundo saturado de sexo. Não obstante as conclusões de uma comissão governamental, que tenho satisfação em dizer ter sido amplamente repudiada, estou convencido de que muitos de nossos jovens, e muitos mais velhos, mas não menos crédulos, são vítimas dos elementos persuasivos que os cercam — a literatura pornográfica que se tornou neste país, por si só, um negócio de 500 milhões de dólares por ano, filmes sedutores que excitam e sancionam a promiscuidade, padrões de vestuário que convidam à familiaridade, decisões judiciais que destroem a restrição legal, pais que muitas vezes, sem saber, empurram os filhos que amam para situações das quais depois se arrependem. ¶
Um escritor sábio observou que “uma nova religião está emergindo no mundo inteiro, uma religião em que o corpo é o supremo objeto de adoração, com exclusão de todos os outros aspectos da existência. ¶
“A busca de seus prazeres transformou-se num culto ... para seu ritual nenhum esforço é poupado. ¶
“Trocamos santidade por conveniência, . . . sabedoria por informação, alegria por prazer, tradição por moda.” ¶
(Abraham Heschel, The Insecurity of Freedom, p. 200.) ¶
Redemoinho da Decadência
A nudez tornou-se a marca de grande parte do entretenimento público. Vai além disso, para o campo da perversão sádica. Como observou um experiente crítico de Nova York: “Não é somente a nudez; é a grosseria.” ¶
Pode haver qualquer dúvida razoável de que, ao semearmos o vento da pornografia, estamos colhendo o redemoinho da decadência? ¶
Precisamos ler mais história. Nações e civilizações floresceram e depois morreram, envenenadas por sua própria doença moral. Como observou um comentarista, Roma pereceu quando os godos transbordaram suas muralhas. Mas não foi “porque as muralhas eram baixas. Foi porque a própria Roma era baixa”. (Jenkin Lloyd Jones, U. S. News & World Report, 26 de maio de 1962, p. 90.) ¶
Força nos Lares
Nenhuma nação, nenhuma civilização pode perdurar por muito tempo sem força nos lares de seu povo. Essa força deriva da integridade daqueles que estabelecem esses lares. ¶
Nenhuma família pode ter paz, nenhum lar pode estar livre das tempestades da adversidade, a menos que essa família e esse lar sejam construídos sobre alicerces de moralidade, fidelidade e respeito mútuo. Não pode haver paz onde não há confiança; não pode haver liberdade onde não há lealdade. A luz cálida do amor não nascerá de um pântano de imoralidade. ¶
Como o botão, assim a flor. ¶
A juventude é o tempo de semeadura para o futuro florescimento da vida familiar. Esperar paz, amor e alegria da promiscuidade é esperar aquilo que jamais virá. Desejar liberdade da imoralidade é desejar algo que não pode existir. Disse o Salvador: “Todo aquele que comete pecado é servo do pecado.” (João 8:34.) ¶
O Caminho para a Liberdade e a Paz
Há uma razão válida para a virtude? Ela é o único caminho para a liberdade do remorso. ¶
A paz de consciência que dela flui é a única paz pessoal que não é falsificada. ¶
E, além de tudo isso, está a infalível promessa de Deus aos que andam em virtude. Declarou Jesus de Nazaré, falando no monte: “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.” (Mateus 5:8.) Esse é um convênio feito por Aquele que tem o poder de cumpri-lo. ¶
E novamente, a voz da revelação moderna expressa uma promessa — uma promessa sem igual que segue um mandamento simples: ¶
Eis o mandamento: “. . . deixa que a virtude adorne teus pensamentos incessantemente.” E eis a promessa: “. . . ¶
Então tua confiança se fortalecerá na presença de Deus. . . . ¶
“O Espírito Santo será teu companheiro constante, . . . e teu domínio será um domínio eterno e, sem medidas coercivas, fluirá para ti eternamente.” ¶
(Doutrina e Convênios 121:45–46.) ¶
Confiança na Presença de Deus
Somente uma ou duas palavras sobre essa promessa maravilhosa — ¶
Tive o privilégio, em várias ocasiões, de conversar com presidentes dos Estados Unidos e homens importantes de outros governos. Ao término de cada ocasião, refleti sobre a gratificante experiência de estar com confiança na presença de um líder reconhecido. E então pensei: que coisa maravilhosa seria estar com confiança — sem medo, sem vergonha e sem embaraço — na presença de Deus. Esta é a promessa oferecida a todo homem e mulher virtuosos. ¶
Não conheço promessa maior feita por Deus ao homem do que esta, feita aos que deixam a virtude adornar seus pensamentos incessantemente. ¶
Um Mundo Diferente
Channing Pollock certa vez observou: ¶
“Um mundo em que todos acreditassem na pureza das mulheres e na nobreza dos homens, e agissem de acordo, seria um mundo muito diferente, mas um lugar grandioso para se viver.” (Reader's Digest, junho de 1960, p. 76.) Asseguro-lhes, meus jovens amigos, que seria um mundo de liberdade no qual o espírito do homem poderia crescer para uma glória inimaginável, um mundo de paz, a paz da consciência limpa, do amor imaculado, da fidelidade, da confiança e lealdade infalíveis. ¶
Isso pode parecer um sonho inatingível para o mundo. Mas, para cada um de vocês, pode ser uma realidade, e o mundo se tornará muito mais rico e forte pela virtude de sua vida individual. ¶
Que Deus os abençoe para realizarem essa liberdade, conhecerem essa paz e obterem essa bênção, humildemente oro, ao deixar-lhes meu testemunho da verdade destas coisas; e, como servo do Senhor, prometo-lhes que, se semearem em virtude, colherão em alegria agora e em todos os anos que hão de vir, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶