Pulpit

Presidente McKay, Irmãos, Irmãs e Amigos...

Spencer W. Kimball

Conferência Geral de Outubro de 1969·First Day Morning Meeting·1969-10-03

• Presidente McKay, irmãos, irmãs e amigos:

Ouvistes a impressionante mensagem do Profeta do Senhor. Permiti-me expressar a esperança de que dareis ouvidos a suas admoestações e o seguireis pelo caminho seguro e certo para a vida eterna.

Um Desafio Estimulante

Quando eu era jovem, chegou-me um desafio estimulante que muito me comoveu. Não consigo lembrar quem lançou o desafio nem em que circunstâncias ele surgiu. Lembro-me apenas de que me atingiu como um “raio caído de um céu azul”. A voz desconhecida postulou:

“A ‘Igreja Mórmon’ manteve-se firme durante as duas primeiras gerações — mas esperem até que cheguem a terceira, a quarta e as gerações seguintes!

A primeira geração, inflamada por uma nova religião, desenvolveu grande entusiasmo por ela. Cercada pela amargura e pelas calúnias de um mundo hostil, perseguida ‘de um lado para outro’, foi forçada a reunir-se para sobreviver. Havia boas razões para esperar que vivessem e morressem fiéis à causa que haviam abraçado.

“A segunda geração nasceu de entusiastas, zelosos e devotos.

Nasceram de homens e mulheres que haviam desenvolvido grande fé e se acostumado às dificuldades e aos sacrifícios por sua fé. Herdaram dos pais e absorveram de lares religiosos aquilo de que são feitos os fiéis. Tinham plenos reservatórios de força e fé dos quais podiam retirar.

“Mas esperem até que cheguem a terceira e a quarta gerações”, disse a voz cínica. “O fogo terá se apagado — a devoção terá sido diluída — o sacrifício terá sido anulado — o mundo pairará sobre eles, os cercará e os corroerá — a fé terá sido despendida, e o fervor religioso terá vazado.”

O Treinamento Faz a Diferença

Naquele dia percebi que era membro da terceira geração. Naquele dia cerrei meus punhos em crescimento. Rangei os dentes e assumi firme compromisso comigo mesmo de que ali havia alguém da “terceira geração” que não cumpriria aquela terrível previsão.

E agora estamos na sexta e na sétima gerações desde o converso original da Igreja, e ainda encontramos pessoas firmes na maioria dos ramos da família, centenas nos campos missionários e muitas outras em cargos de responsabilidade na Igreja. E passei a perceber que não é o número da geração que faz a diferença, mas o cuidado e a exatidão com que os pais ensinam, treinam e fortalecem seus filhos.

A Importância da Água

Cresci numa região seca. Parecia-me que quase nunca havia chuva suficiente distribuída ao longo do período de cultivo para nos sustentar durante a estação — não havia água bastante no rio para distribuir entre os muitos canais famintos e as dezenas de milhares de acres sedentos, nem para irrigar todas as lavouras.

Aprendemos a orar por chuva — sempre orávamos por chuva.

Quando eu ainda era muito pequeno, sabia que as plantas não conseguiam sobreviver numa região seca por mais de duas ou três semanas sem água. Sabia atrelar a velha égua a uma rabiça — uma tora bifurcada sobre a qual se colocava um barril — e levava o animal até o “grande canal”, o Canal Union, que ficava a um quarteirão abaixo de nossa casa. Com um balde, retirava água do pequeno córrego ou das poças e enchia o barril; então o cavalo o arrastava de volta, para que eu pudesse derramar baldes daquele precioso líquido sobre as rosas, as violetas, outras flores, os pequenos arbustos, as sebes e as árvores novas. A água era como ouro líquido; assim, os reservatórios tornaram-se a urdidura e a trama do tecido de minha vida. À mesa, falávamos de água, irrigação, lavouras, enchentes, semanas quentes e secas e céus sem nuvens.

Costumávamos procurar nuvens um tanto como Elias e seu povo depois da seca de três anos.

Depois da dramática experiência com os profetas de Baal, Elias subira ao cume do Monte Carmelo e dissera ao rei Acabe: “. . . há ruído de uma abundante chuva”. O servo de Elias foi a um lugar alto e procurou nuvens promissoras. Nas primeiras seis vezes que olhou, voltou e relatou: “Não há nada”; mas na sétima vez informou que subia do mar uma pequena nuvem como a mão de um homem. Logo os céus ficaram negros de pesadas nuvens carregadas, e “houve uma grande chuva”. (Ver 1 Reis 18.)

Represas e Reservatórios

Durante os verões quentes e secos, parecíamos estar sempre procurando nuvens escuras e pesadas. E todos os anos as nuvens se acumulavam, vinham as tempestades, os leitos secos corriam por algumas horas e o rio rugia por seu canal.

Mas os canais continuavam vazios, e as represas de galhos e pedras eram levadas rio abaixo pela primeira torrente violenta. Então vinha o chamado para que os homens fortes corressem às cabeceiras dos canais a fim de construir novas represas e enchê-los antes que toda a água do rio tivesse descido para o mar. E, ao trabalhar na enchente, transportando galhos e árvores, pedras e terra, os cavalos se debatiam, às vezes se afogavam, e os homens escapavam por pouco.

Anos depois, construímos soleiras de concreto protegidas por pedras e gabiões de arame.

Mais tarde aprendi que mesmo as confiáveis represas de desvio não eram suficientes.

Era necessário um reservatório — uma represa alta que acumulasse as chuvas do outono, inverno e primavera e as conservasse para a necessidade futura.

Muitas Espécies de Reservatórios

E, ao ponderar, passei a perceber que havia reservatórios de muitas espécies — reservatórios para armazenar água, alguns para armazenar alimentos, como fazemos em nosso programa de bem-estar familiar, alguns como os celeiros e armazéns que José estabeleceu na terra do Egito, nos quais se guardaram os sete anos de abundância para sustentá-los durante os sete anos de seca e fome.

Percebi que deveria haver reservatórios de conhecimento para atender às necessidades futuras; reservatórios de coragem para vencer as inundações de medo que introduzem incerteza na vida; armazenamento de força física para ajudar-nos a enfrentar as frequentes contaminações e epidemias; reservatórios de bondade; reservatórios de perseverança; reservatórios de fé. Sim, reservatórios de fé, para que, quando o mundo nos pressione, permaneçamos firmes e fortes; quando as tentações de um mundo decadente ao nosso redor drenem nossas energias, minem nossa vitalidade espiritual e procurem puxar-nos para o nível do mundo mundano, necessitamos de uma reserva de fé que conduza os jovens através da adolescência sedutora e dos problemas dos anos posteriores. Fé para levar-nos além dos momentos enfadonhos, difíceis e aterrorizantes, das decepções, desilusões e anos de adversidade, privação, confusão e frustração.

A Obra dos Pais

E quem deve construir esses reservatórios? Não é esta a razão pela qual Deus deu a cada filho dois pais?

Quem, senão os antepassados, limparia as florestas, lavraria a terra e abriria caminho para o futuro? Quem estabeleceria os negócios, cavaria os canais e levantaria o mapa do território? Quem plantaria os pomares, começaria os vinhedos e ergueria os lares?

Em sua onisciência, nosso Deus deu a cada filho um pai e uma mãe para desbravar o caminho. E, assim, espera-se que esses pais que os geraram e deram à luz lancem alicerces e lhes segurem as mãos nos tenros anos, a fim de construir celeiros, tanques, armazéns e reservatórios.

Não disse o Senhor, falando dos pais: “E também ensinarão seus filhos a orar e a andar em retidão perante o Senhor”? (D&C 68:28.) Não é obra dos pais construir para que os filhos habitem em casas que não construíram, comam o fruto de árvores que não plantaram e uvas de vinhas que não começaram?

Os pais devem dedicar-se sobriamente à obra de sua vida de construir reservatórios e ajudar a enchê-los para os filhos que ainda são pequenos demais para capinar, cavar ou arar.

Gratidão pelos Pais

Sou grato a meus pais, pois fizeram reservatórios para meus irmãos, minhas irmãs e para mim. Encheram-nos de hábitos de oração, estudo, atividades, serviços positivos, verdade e retidão. Todas as manhãs e todas as noites, ajoelhávamo-nos junto a nossas cadeiras, de costas para a mesa, e orávamos, revezando-nos. Quando me casei, o hábito persistiu, e nossa nova família continuou a prática.

Alguns pais são casuais, descuidados ou deixam de cumprir seu dever. Isso constitui vazamentos nas represas. A história de Pedro com o polegar no dique pode ser um mito, mas a moral não é um mito.

Leí e Saria

Leí e Saria construíram e encheram reservatórios para seus filhos. Um deles disse:

“Eu, Néfi, tendo nascido de bons pais, recebi, portanto, alguma instrução em todo o conhecimento de meu pai; . . . havendo adquirido um grande conhecimento da bondade e dos mistérios de Deus, faço, por isso, um registro de meus feitos durante minha vida. ...” (1 Néfi 1:1.) Embora dois dos irmãos ignorassem aqueles ensinamentos, usando o próprio arbítrio, Néfi e outros de seus irmãos foram fortemente fortalecidos e, durante toda a vida, puderam retirar abundantemente do reservatório construído e cheio por pais dignos.

Abraão Construiu um Reservatório

Abraão construiu tal reservatório para seu filho Isaque, e parecia que ele jamais vazou até secar, pois encontramos seu filho como um dos patriarcas e sempre associado ao Deus de Abraão, ao Deus de Isaque e ao Deus de Jacó. E ele parece adequar-se às palavras de Jeremias:

“Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, e a sua folha fica verde, e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto.” (Jeremias 17:8.)

O Testemunho de Enos

Jacó, outro dos filhos de Leí, retirou abundantemente da reserva que herdara de seu pai e transmitiu o mesmo a seu filho Enos, que testificou:

“. . . eu, Enos, sabia que meu pai era um homem justo — pois instruiu-me em seu idioma e também nos preceitos e na admoestação do Senhor — e bendito seja o nome de meu Deus por isso —

“Eis que saí para caçar animais nas florestas; e as palavras que frequentemente ouvira de meu pai sobre a vida eterna e a alegria dos santos penetraram-me profundamente o coração.” (Enos 1:1, 3.) Enos perguntou como poderia ocorrer tal milagre como o perdão, e a resposta veio do Senhor: “Por causa da tua fé em Cristo, a quem nunca ouviste nem viste antes. . . . tua fé te salvou.”

(Enos 1:8.) Enos pôde retirar abundantemente do reservatório de fé que seus pais haviam preparado para os filhos.

Exemplo de Duas Famílias

Um dia encontrei um casal encantador — santos dos últimos dias fiéis, com uma família esplêndida e vida bem-sucedida. Contaram-me a história de sua família. O marido era um dos sete filhos de uma família de pessoas ativas, em que o Senhor era o centro da vida. Todos, exceto um dos sete, permaneceram fiéis, cumpriram missões honrosas, casaram-se no templo e tiveram famílias bem-sucedidas e felizes, assim como seus pais antes deles. Um desviou-se e teve problemas conjugais e outros problemas graves.

Por outro lado, a esposa era uma dos sete filhos de uma família contemporânea em que a Igreja pouco significava, e eles haviam deixado de lado o dízimo, as orações e todas as atividades da Igreja, ignorando a parte espiritual de sua vida. Todos os sete filhos foram criados no mesmo lar, sujeitos às mesmas condições, e todos eles, exceto esta, ignoraram suas obrigações espirituais, como seus pais haviam feito antes deles.

Os primeiros pais haviam construído e enchido para os filhos um alto e forte reservatório de hábitos e qualidades de fé.

Ambas as famílias tinham a mesma origem comunitária.

A segunda família não construiu reservatório de força espiritual, mas dependeu do escoamento. As pequenas represas incertas, como as nossas de galhos e pedras, foram levadas quando as torrentes inundaram. Havia rachaduras na represa e vazamentos no reservatório. Numa família, seis dos sete permaneceram retos; na outra, seis dos sete seguiram os caminhos descuidados dos pais na iniquidade, e apenas um dos sete permaneceu fiel.

O Senhor ordenara que “Quem não oferecer suas orações perante o Senhor no momento devido, que seja lembrado perante o juiz de meu povo”. (D&C 68:33.) E o Senhor também expressara preocupação e desaprovação por seu povo em Sião, entre o qual havia ociosos: “e seus filhos também estão crescendo em iniquidade; também não buscam sinceramente as riquezas da eternidade, mas seus olhos estão cheios de cobiça”. (D&C 68:31.)

Os Reservatórios de Dois Irmãos

Novamente, ao lembrar-me das chamadas terceira e quarta gerações condenadas, havia dois irmãos da segunda geração. Ambos tinham agora famílias grandes, na sexta e sétima gerações, chegando a muitas centenas em cada uma. Um dos irmãos tornou-se descontente, e o outro permaneceu fiel. Os filhos do primeiro, em sua terceira geração, começaram a afastar-se, como fizera seu pai.

A atividade diminuiu; havia apenas casamentos ocasionais no templo, e poucos saíam em missões. Depois, na quarta geração, não havia casamentos no templo, nem missões, poucos batismos e muito pouca atividade nas coisas espirituais.

A quinta geração degenerou em completa apostasia. Na sexta geração, salvo uma exceção ocasional, toda a tribo estava afastada da Igreja.

O antepassado não conservara seu reservatório intacto e cheio para que sua posteridade dele retirasse.

Por outro lado, o segundo irmão permaneceu fiel por toda a vida e por fim “morreu no serviço”. Suas terceira, quarta e quinta gerações também permaneceram verdadeiras e fiéis, com poucas exceções. A maioria da posteridade de um estava fora da fé, como os pais, e a maioria da outra seguiu os pais na atividade e na fé. Reservatórios espirituais!

Construir Bons Lares

Um editorial da Seção da Igreja do Deseret News diz:

“Bons lares devem dar alto valor à companhia entre filhos e pais, a uma casa bem organizada, ao amor entre os pais e entre filhos e pais.

“Devem construir lealdades retas, bom caráter, disposição para trabalhar, espírito de humildade e ausência de orgulho injusto, e devem ensinar fé profunda e duradoura em Deus.”

Para esse fim, o Senhor inspirou sua igreja a colocar ênfase grande e crescente nesse processo de construção.

Toda família é instada a fazer regularmente orações familiares à noite e pela manhã e a dedicar pelo menos uma noite por semana ao lar, na doce união familiar, sem perturbação do mundo ou de qualquer de suas seduções. Planejarão desligar a televisão e o rádio, deixar o telefone sem resposta, cancelar todas as chamadas ou compromissos e passar juntos uma noite acolhedora no lar.

Embora um objetivo seja alcançado simplesmente por estarem juntos, o valor adicional e maior pode advir das lições da vida. O pai ensinará os filhos. Ali podem aprender integridade, honra, confiabilidade, sacrifício e fé em Deus. As experiências da vida e as escrituras são a base do ensino e isso, envolto em amor filial e parental, causa um impacto que nenhuma outra coisa pode causar. Assim, os reservatórios de retidão são cheios para conduzir os filhos pelos dias escuros da tentação e do desejo, da seca e do ceticismo. À medida que crescem, os filhos cooperam na construção dessa reserva para si mesmos e para a família.

E assim temos a noite familiar, as orações familiares e as coisas simples que nos foram ensinadas todos os nossos dias.

Reservatório Danificado, Reparado

Há muito tempo, atravessamos uma fronteira para uma cidade distante, onde muros e cortinas separavam as pessoas; e, atrás dos muros, ensinavam-se estranhas ideologias e “doutrinas perniciosas”

eram promulgadas todos os dias nas escolas e de outras maneiras.

Todos os dias as crianças ouviam professores escolares com doutrinas, filosofias e ideais estrangeiros e estranhos.

Alguém disse que “o gotejar constante desgasta a pedra mais dura”. Eu sabia disso, por isso perguntei sobre as crianças:

“Elas conservam a fé? Não são vencidas pela pressão constante de seus professores? Como podeis ter certeza de que não vos deixarão e abandonarão a simples fé em Deus?”

A resposta era inconfundível. “Reparamos o reservatório danificado todas as noites”, disseram eles. “Ensinamos a nossos filhos retidão positiva, para que as falsas filosofias não se enraízem e, caso alguma tenha se alojado durante o dia, nós a desalojamos à noite.

Nossos filhos estão crescendo em fé e retidão, apesar das pressões esmagadoras de fora.”

Em geral, represas rachadas podem ser reparadas e salvas, e sacos de areia podem conter a inundação; e a verdade reiterada, a oração renovada, os ensinamentos do evangelho, uma inundação de amor e o interesse dos pais podem salvar a criança e mantê-la no caminho certo.

Um Guarda-Chuva Espiritual

Gosto de comparar a noite familiar, a oração familiar e as outras atividades associadas da Igreja para salvar a família, quando são realizadas conscienciosamente, a um guarda-chuva. Se o guarda-chuva não for aberto, será pouco mais que uma bengala e oferecerá pouca proteção contra as tempestades da natureza. Do mesmo modo, os planos dados por Deus têm pouco valor, a menos que sejam usados.

O guarda-chuva aberto estica o tecido de seda. Quando a chuva cai, ela escorre; quando a neve cai, ela desliza; quando vem o granizo, ele rebate; quando o vento sopra, é desviado em torno do guarda-chuva. E, de modo semelhante, esse guarda-chuva espiritual afasta os inimigos da ignorância, superstição, ceticismo, apostasia, imoralidade e outras formas de impiedade.

É minha oração que todos abramos nossos guarda-chuvas espirituais para a proteção de nossas famílias e conservemos nossos reservatórios cheios de fé e integridade; e podemos prometer que a terceira e a quarta gerações, e de fato a décima e a quinquagésima, ainda serão fiéis, dignas e tementes a Deus.

Que esta seja nossa feliz bênção, oro em nome de Jesus Cristo.

Amém.

Como citar este discursoSpencer W. Kimball, “Presidente McKay, Irmãos, Irmãs e Amigos...”, Conferência Geral de Outubro de 1969, First Day Morning Meeting (1969-10-03). Pulpit Vault, 1969-10-kimball-president-mckay-brethren-brothers-and-sisters-and. Tradução desta edição, por método de glossário, archive.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).