Presidente McKay, Irmãos, Irmãs e Amigos...
Spencer W. Kimball
• Presidente McKay, irmãos, irmãs e amigos: ¶
Ouvistes a impressionante mensagem do Profeta do Senhor. Permiti-me expressar a esperança de que dareis ouvidos a suas admoestações e o seguireis pelo caminho seguro e certo para a vida eterna. ¶
Um Desafio Estimulante
Quando eu era jovem, chegou-me um desafio estimulante que muito me comoveu. Não consigo lembrar quem lançou o desafio nem em que circunstâncias ele surgiu. Lembro-me apenas de que me atingiu como um “raio caído de um céu azul”. A voz desconhecida postulou: ¶
“A ‘Igreja Mórmon’ manteve-se firme durante as duas primeiras gerações — mas esperem até que cheguem a terceira, a quarta e as gerações seguintes! ¶
A primeira geração, inflamada por uma nova religião, desenvolveu grande entusiasmo por ela. Cercada pela amargura e pelas calúnias de um mundo hostil, perseguida ‘de um lado para outro’, foi forçada a reunir-se para sobreviver. Havia boas razões para esperar que vivessem e morressem fiéis à causa que haviam abraçado. ¶
“A segunda geração nasceu de entusiastas, zelosos e devotos. ¶
Nasceram de homens e mulheres que haviam desenvolvido grande fé e se acostumado às dificuldades e aos sacrifícios por sua fé. Herdaram dos pais e absorveram de lares religiosos aquilo de que são feitos os fiéis. Tinham plenos reservatórios de força e fé dos quais podiam retirar. ¶
“Mas esperem até que cheguem a terceira e a quarta gerações”, disse a voz cínica. “O fogo terá se apagado — a devoção terá sido diluída — o sacrifício terá sido anulado — o mundo pairará sobre eles, os cercará e os corroerá — a fé terá sido despendida, e o fervor religioso terá vazado.” ¶
O Treinamento Faz a Diferença
Naquele dia percebi que era membro da terceira geração. Naquele dia cerrei meus punhos em crescimento. Rangei os dentes e assumi firme compromisso comigo mesmo de que ali havia alguém da “terceira geração” que não cumpriria aquela terrível previsão. ¶
E agora estamos na sexta e na sétima gerações desde o converso original da Igreja, e ainda encontramos pessoas firmes na maioria dos ramos da família, centenas nos campos missionários e muitas outras em cargos de responsabilidade na Igreja. E passei a perceber que não é o número da geração que faz a diferença, mas o cuidado e a exatidão com que os pais ensinam, treinam e fortalecem seus filhos. ¶
A Importância da Água
Cresci numa região seca. Parecia-me que quase nunca havia chuva suficiente distribuída ao longo do período de cultivo para nos sustentar durante a estação — não havia água bastante no rio para distribuir entre os muitos canais famintos e as dezenas de milhares de acres sedentos, nem para irrigar todas as lavouras. ¶
Aprendemos a orar por chuva — sempre orávamos por chuva. ¶
Quando eu ainda era muito pequeno, sabia que as plantas não conseguiam sobreviver numa região seca por mais de duas ou três semanas sem água. Sabia atrelar a velha égua a uma rabiça — uma tora bifurcada sobre a qual se colocava um barril — e levava o animal até o “grande canal”, o Canal Union, que ficava a um quarteirão abaixo de nossa casa. Com um balde, retirava água do pequeno córrego ou das poças e enchia o barril; então o cavalo o arrastava de volta, para que eu pudesse derramar baldes daquele precioso líquido sobre as rosas, as violetas, outras flores, os pequenos arbustos, as sebes e as árvores novas. A água era como ouro líquido; assim, os reservatórios tornaram-se a urdidura e a trama do tecido de minha vida. À mesa, falávamos de água, irrigação, lavouras, enchentes, semanas quentes e secas e céus sem nuvens. ¶
Costumávamos procurar nuvens um tanto como Elias e seu povo depois da seca de três anos. ¶
Depois da dramática experiência com os profetas de Baal, Elias subira ao cume do Monte Carmelo e dissera ao rei Acabe: “. . . há ruído de uma abundante chuva”. O servo de Elias foi a um lugar alto e procurou nuvens promissoras. Nas primeiras seis vezes que olhou, voltou e relatou: “Não há nada”; mas na sétima vez informou que subia do mar uma pequena nuvem como a mão de um homem. Logo os céus ficaram negros de pesadas nuvens carregadas, e “houve uma grande chuva”. (Ver 1 Reis 18.) ¶
Represas e Reservatórios
Durante os verões quentes e secos, parecíamos estar sempre procurando nuvens escuras e pesadas. E todos os anos as nuvens se acumulavam, vinham as tempestades, os leitos secos corriam por algumas horas e o rio rugia por seu canal. ¶
Mas os canais continuavam vazios, e as represas de galhos e pedras eram levadas rio abaixo pela primeira torrente violenta. Então vinha o chamado para que os homens fortes corressem às cabeceiras dos canais a fim de construir novas represas e enchê-los antes que toda a água do rio tivesse descido para o mar. E, ao trabalhar na enchente, transportando galhos e árvores, pedras e terra, os cavalos se debatiam, às vezes se afogavam, e os homens escapavam por pouco. ¶
Anos depois, construímos soleiras de concreto protegidas por pedras e gabiões de arame. ¶
Mais tarde aprendi que mesmo as confiáveis represas de desvio não eram suficientes. ¶
Era necessário um reservatório — uma represa alta que acumulasse as chuvas do outono, inverno e primavera e as conservasse para a necessidade futura. ¶
Muitas Espécies de Reservatórios
E, ao ponderar, passei a perceber que havia reservatórios de muitas espécies — reservatórios para armazenar água, alguns para armazenar alimentos, como fazemos em nosso programa de bem-estar familiar, alguns como os celeiros e armazéns que José estabeleceu na terra do Egito, nos quais se guardaram os sete anos de abundância para sustentá-los durante os sete anos de seca e fome. ¶
Percebi que deveria haver reservatórios de conhecimento para atender às necessidades futuras; reservatórios de coragem para vencer as inundações de medo que introduzem incerteza na vida; armazenamento de força física para ajudar-nos a enfrentar as frequentes contaminações e epidemias; reservatórios de bondade; reservatórios de perseverança; reservatórios de fé. Sim, reservatórios de fé, para que, quando o mundo nos pressione, permaneçamos firmes e fortes; quando as tentações de um mundo decadente ao nosso redor drenem nossas energias, minem nossa vitalidade espiritual e procurem puxar-nos para o nível do mundo mundano, necessitamos de uma reserva de fé que conduza os jovens através da adolescência sedutora e dos problemas dos anos posteriores. Fé para levar-nos além dos momentos enfadonhos, difíceis e aterrorizantes, das decepções, desilusões e anos de adversidade, privação, confusão e frustração. ¶
A Obra dos Pais
E quem deve construir esses reservatórios? Não é esta a razão pela qual Deus deu a cada filho dois pais? ¶
Quem, senão os antepassados, limparia as florestas, lavraria a terra e abriria caminho para o futuro? Quem estabeleceria os negócios, cavaria os canais e levantaria o mapa do território? Quem plantaria os pomares, começaria os vinhedos e ergueria os lares? ¶
Em sua onisciência, nosso Deus deu a cada filho um pai e uma mãe para desbravar o caminho. E, assim, espera-se que esses pais que os geraram e deram à luz lancem alicerces e lhes segurem as mãos nos tenros anos, a fim de construir celeiros, tanques, armazéns e reservatórios. ¶
Não disse o Senhor, falando dos pais: “E também ensinarão seus filhos a orar e a andar em retidão perante o Senhor”? (D&C 68:28.) Não é obra dos pais construir para que os filhos habitem em casas que não construíram, comam o fruto de árvores que não plantaram e uvas de vinhas que não começaram? ¶
Os pais devem dedicar-se sobriamente à obra de sua vida de construir reservatórios e ajudar a enchê-los para os filhos que ainda são pequenos demais para capinar, cavar ou arar. ¶
Gratidão pelos Pais
Sou grato a meus pais, pois fizeram reservatórios para meus irmãos, minhas irmãs e para mim. Encheram-nos de hábitos de oração, estudo, atividades, serviços positivos, verdade e retidão. Todas as manhãs e todas as noites, ajoelhávamo-nos junto a nossas cadeiras, de costas para a mesa, e orávamos, revezando-nos. Quando me casei, o hábito persistiu, e nossa nova família continuou a prática. ¶
Alguns pais são casuais, descuidados ou deixam de cumprir seu dever. Isso constitui vazamentos nas represas. A história de Pedro com o polegar no dique pode ser um mito, mas a moral não é um mito. ¶
Leí e Saria
Leí e Saria construíram e encheram reservatórios para seus filhos. Um deles disse: ¶
“Eu, Néfi, tendo nascido de bons pais, recebi, portanto, alguma instrução em todo o conhecimento de meu pai; . . . havendo adquirido um grande conhecimento da bondade e dos mistérios de Deus, faço, por isso, um registro de meus feitos durante minha vida. ...” (1 Néfi 1:1.) Embora dois dos irmãos ignorassem aqueles ensinamentos, usando o próprio arbítrio, Néfi e outros de seus irmãos foram fortemente fortalecidos e, durante toda a vida, puderam retirar abundantemente do reservatório construído e cheio por pais dignos. ¶
Abraão Construiu um Reservatório
Abraão construiu tal reservatório para seu filho Isaque, e parecia que ele jamais vazou até secar, pois encontramos seu filho como um dos patriarcas e sempre associado ao Deus de Abraão, ao Deus de Isaque e ao Deus de Jacó. E ele parece adequar-se às palavras de Jeremias: ¶
“Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, e a sua folha fica verde, e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto.” (Jeremias 17:8.) ¶
O Testemunho de Enos
Jacó, outro dos filhos de Leí, retirou abundantemente da reserva que herdara de seu pai e transmitiu o mesmo a seu filho Enos, que testificou: ¶
“. . . eu, Enos, sabia que meu pai era um homem justo — pois instruiu-me em seu idioma e também nos preceitos e na admoestação do Senhor — e bendito seja o nome de meu Deus por isso — ¶
“Eis que saí para caçar animais nas florestas; e as palavras que frequentemente ouvira de meu pai sobre a vida eterna e a alegria dos santos penetraram-me profundamente o coração.” (Enos 1:1, 3.) Enos perguntou como poderia ocorrer tal milagre como o perdão, e a resposta veio do Senhor: “Por causa da tua fé em Cristo, a quem nunca ouviste nem viste antes. . . . tua fé te salvou.” ¶
(Enos 1:8.) Enos pôde retirar abundantemente do reservatório de fé que seus pais haviam preparado para os filhos. ¶
Exemplo de Duas Famílias
Um dia encontrei um casal encantador — santos dos últimos dias fiéis, com uma família esplêndida e vida bem-sucedida. Contaram-me a história de sua família. O marido era um dos sete filhos de uma família de pessoas ativas, em que o Senhor era o centro da vida. Todos, exceto um dos sete, permaneceram fiéis, cumpriram missões honrosas, casaram-se no templo e tiveram famílias bem-sucedidas e felizes, assim como seus pais antes deles. Um desviou-se e teve problemas conjugais e outros problemas graves. ¶
Por outro lado, a esposa era uma dos sete filhos de uma família contemporânea em que a Igreja pouco significava, e eles haviam deixado de lado o dízimo, as orações e todas as atividades da Igreja, ignorando a parte espiritual de sua vida. Todos os sete filhos foram criados no mesmo lar, sujeitos às mesmas condições, e todos eles, exceto esta, ignoraram suas obrigações espirituais, como seus pais haviam feito antes deles. ¶
Os primeiros pais haviam construído e enchido para os filhos um alto e forte reservatório de hábitos e qualidades de fé. ¶
Ambas as famílias tinham a mesma origem comunitária. ¶
A segunda família não construiu reservatório de força espiritual, mas dependeu do escoamento. As pequenas represas incertas, como as nossas de galhos e pedras, foram levadas quando as torrentes inundaram. Havia rachaduras na represa e vazamentos no reservatório. Numa família, seis dos sete permaneceram retos; na outra, seis dos sete seguiram os caminhos descuidados dos pais na iniquidade, e apenas um dos sete permaneceu fiel. ¶
O Senhor ordenara que “Quem não oferecer suas orações perante o Senhor no momento devido, que seja lembrado perante o juiz de meu povo”. (D&C 68:33.) E o Senhor também expressara preocupação e desaprovação por seu povo em Sião, entre o qual havia ociosos: “e seus filhos também estão crescendo em iniquidade; também não buscam sinceramente as riquezas da eternidade, mas seus olhos estão cheios de cobiça”. (D&C 68:31.) ¶
Os Reservatórios de Dois Irmãos
Novamente, ao lembrar-me das chamadas terceira e quarta gerações condenadas, havia dois irmãos da segunda geração. Ambos tinham agora famílias grandes, na sexta e sétima gerações, chegando a muitas centenas em cada uma. Um dos irmãos tornou-se descontente, e o outro permaneceu fiel. Os filhos do primeiro, em sua terceira geração, começaram a afastar-se, como fizera seu pai. ¶
A atividade diminuiu; havia apenas casamentos ocasionais no templo, e poucos saíam em missões. Depois, na quarta geração, não havia casamentos no templo, nem missões, poucos batismos e muito pouca atividade nas coisas espirituais. ¶
A quinta geração degenerou em completa apostasia. Na sexta geração, salvo uma exceção ocasional, toda a tribo estava afastada da Igreja. ¶
O antepassado não conservara seu reservatório intacto e cheio para que sua posteridade dele retirasse. ¶
Por outro lado, o segundo irmão permaneceu fiel por toda a vida e por fim “morreu no serviço”. Suas terceira, quarta e quinta gerações também permaneceram verdadeiras e fiéis, com poucas exceções. A maioria da posteridade de um estava fora da fé, como os pais, e a maioria da outra seguiu os pais na atividade e na fé. Reservatórios espirituais! ¶
Construir Bons Lares
Um editorial da Seção da Igreja do Deseret News diz: ¶
“Bons lares devem dar alto valor à companhia entre filhos e pais, a uma casa bem organizada, ao amor entre os pais e entre filhos e pais. ¶
“Devem construir lealdades retas, bom caráter, disposição para trabalhar, espírito de humildade e ausência de orgulho injusto, e devem ensinar fé profunda e duradoura em Deus.” ¶
Para esse fim, o Senhor inspirou sua igreja a colocar ênfase grande e crescente nesse processo de construção. ¶
Toda família é instada a fazer regularmente orações familiares à noite e pela manhã e a dedicar pelo menos uma noite por semana ao lar, na doce união familiar, sem perturbação do mundo ou de qualquer de suas seduções. Planejarão desligar a televisão e o rádio, deixar o telefone sem resposta, cancelar todas as chamadas ou compromissos e passar juntos uma noite acolhedora no lar. ¶
Embora um objetivo seja alcançado simplesmente por estarem juntos, o valor adicional e maior pode advir das lições da vida. O pai ensinará os filhos. Ali podem aprender integridade, honra, confiabilidade, sacrifício e fé em Deus. As experiências da vida e as escrituras são a base do ensino e isso, envolto em amor filial e parental, causa um impacto que nenhuma outra coisa pode causar. Assim, os reservatórios de retidão são cheios para conduzir os filhos pelos dias escuros da tentação e do desejo, da seca e do ceticismo. À medida que crescem, os filhos cooperam na construção dessa reserva para si mesmos e para a família. ¶
E assim temos a noite familiar, as orações familiares e as coisas simples que nos foram ensinadas todos os nossos dias. ¶
Reservatório Danificado, Reparado
Há muito tempo, atravessamos uma fronteira para uma cidade distante, onde muros e cortinas separavam as pessoas; e, atrás dos muros, ensinavam-se estranhas ideologias e “doutrinas perniciosas” ¶
eram promulgadas todos os dias nas escolas e de outras maneiras. ¶
Todos os dias as crianças ouviam professores escolares com doutrinas, filosofias e ideais estrangeiros e estranhos. ¶
Alguém disse que “o gotejar constante desgasta a pedra mais dura”. Eu sabia disso, por isso perguntei sobre as crianças: ¶
“Elas conservam a fé? Não são vencidas pela pressão constante de seus professores? Como podeis ter certeza de que não vos deixarão e abandonarão a simples fé em Deus?” ¶
A resposta era inconfundível. “Reparamos o reservatório danificado todas as noites”, disseram eles. “Ensinamos a nossos filhos retidão positiva, para que as falsas filosofias não se enraízem e, caso alguma tenha se alojado durante o dia, nós a desalojamos à noite. ¶
Nossos filhos estão crescendo em fé e retidão, apesar das pressões esmagadoras de fora.” ¶
Em geral, represas rachadas podem ser reparadas e salvas, e sacos de areia podem conter a inundação; e a verdade reiterada, a oração renovada, os ensinamentos do evangelho, uma inundação de amor e o interesse dos pais podem salvar a criança e mantê-la no caminho certo. ¶
Um Guarda-Chuva Espiritual
Gosto de comparar a noite familiar, a oração familiar e as outras atividades associadas da Igreja para salvar a família, quando são realizadas conscienciosamente, a um guarda-chuva. Se o guarda-chuva não for aberto, será pouco mais que uma bengala e oferecerá pouca proteção contra as tempestades da natureza. Do mesmo modo, os planos dados por Deus têm pouco valor, a menos que sejam usados. ¶
O guarda-chuva aberto estica o tecido de seda. Quando a chuva cai, ela escorre; quando a neve cai, ela desliza; quando vem o granizo, ele rebate; quando o vento sopra, é desviado em torno do guarda-chuva. E, de modo semelhante, esse guarda-chuva espiritual afasta os inimigos da ignorância, superstição, ceticismo, apostasia, imoralidade e outras formas de impiedade. ¶
É minha oração que todos abramos nossos guarda-chuvas espirituais para a proteção de nossas famílias e conservemos nossos reservatórios cheios de fé e integridade; e podemos prometer que a terceira e a quarta gerações, e de fato a décima e a quinquagésima, ainda serão fiéis, dignas e tementes a Deus. ¶
Que esta seja nossa feliz bênção, oro em nome de Jesus Cristo. ¶
Amém. ¶