O Apóstolo Pedro, Escrevendo aos Santos...
Hugh B. Brown
O apóstolo Pedro, escrevendo aos santos de seu tempo, disse, conforme registrado em 1 Pedro 2:9: "Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido." ¶
Um Povo Peculiar
Quer todos concordem ou não que essas caracterizações se aplicam aos Santos de nossos dias, tenho certeza de que a maioria concordará, pelo menos, que somos um povo peculiar — não em sentido pejorativo, mas talvez a maioria diria que somos um povo diferente. Meu propósito, pelos próximos momentos, é examinar e discutir algumas dessas diferenças. ¶
Alguns dos antagonismos que existem entre pessoas e entre nações resultam do fato de que elas não se compreendem umas às outras. ¶
"Não compreendido", disse o poeta. ¶
"Colhemos falsas impressões E as abraçamos mais de perto conforme os anos passam, Até que as virtudes muitas vezes nos parecem transgressões; E assim os homens se erguem e caem, e vivem e morrem — Não compreendidos. ¶
"Ó Deus! quisera que os homens vissem um pouco mais claramente, Ou julgassem menos severamente onde não podem ver; Ó Deus, quisera que os homens se aproximassem um pouco mais Uns dos outros; estariam mais perto de Ti — E compreendidos." ¶
— Thomas Bracken (Poems of Inspiration, Halycon House, 1928, p. 188) Podemos discutir nosso assunto sob dois títulos gerais por alguns minutos, a saber, a Paternidade de Deus e a irmandade do homem. As escrituras nos dizem que a vida eterna é conhecer a Deus e a Jesus Cristo, a quem ele enviou. ¶
O Que É o Homem?
Quanto ao homem, unimo-nos a Davi, de outrora, e perguntamos: "Que é o homem mortal, para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?" (Salmos 8:4.) E, precisamente aqui, fazemos a pergunta pertinente: "Qual é o relacionamento existente entre Deus e o homem?" ¶
O Dr. James E. Talmage resumiu essa parte de nosso assunto da seguinte maneira: ¶
"O que é o homem, neste cenário ilimitado de sublime esplendor? Respondo-vos que, potencialmente, agora, e efetivamente por vir a ser, ele é maior e mais grandioso, mais precioso na aritmética de Deus do que todos os planetas e sóis do espaço. ¶
Para ele foram criados. São a obra das mãos de Deus. O homem é seu filho. Neste mundo, ao homem é dado domínio sobre poucas coisas. É seu privilégio alcançar supremacia sobre muitas coisas. ¶
Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. Por mais incompreensivelmente grandiosas que sejam as criações físicas da terra e do espaço, elas foram trazidas à existência como meio para um fim, e são necessárias para a realização do propósito supremo, que, nas palavras do Criador, é assim declarado: Pois eis que esta é minha obra e minha glória: realizar a imortalidade e a vida eterna do homem." ¶
O Que É Deus?
Podemos, então, discutir brevemente nosso assunto no que diz respeito a Deus, e examinar algumas das coisas que têm sido cridas e ensinadas em relação a esse tema. ¶
No início do século dezenove, acreditava-se geralmente que Deus era incorpóreo e imaterial, sem corpo, sem partes ou paixões, desconsiderando o fato de que Deus ama a retidão e odeia a iniquidade, e que amar e odiar, é claro, são paixões. ¶
Alegava-se que Deus não tinha forma, ainda que as sagradas escrituras ensinem que Deus criou o homem à sua própria imagem. De fato, o apóstolo Paulo nos diz que Jesus Cristo era a expressa imagem de seu Pai. ¶
Fomos, então, criados à imagem de uma entidade sem forma? ¶
Para nós, Deus não é uma abstração. Não é uma ideia, um princípio metafísico, uma força ou poder impessoal. Ele é uma pessoa concreta e viva. E, embora, em nossa fragilidade humana, não possamos conhecer todo o mistério de seu ser, sabemos que ele é semelhante a nós, pois nos é revelado na personalidade divina de seu Filho, Jesus Cristo, e ele é, de fato, nosso Pai. ¶
A Igreja ensina que, quando Deus criou o homem à sua própria imagem, não se despojou dessa imagem. Ele ainda está em forma humana e possui qualidades humanas santificadas e aperfeiçoadas, que todos admiramos. Em toda a extensão das sagradas escrituras, o Pai e o Filho são vistos como personagens separados e distintos. Reafirmamos a doutrina das escrituras antigas e de todos os profetas, que afirma que o homem foi criado à imagem de Deus, e que Deus possuía qualidades humanas como consciência, vontade, amor, misericórdia e justiça. Em outras palavras, ele é um Ser exaltado, aperfeiçoado e glorificado. ¶
A Natureza Eterna do Homem
O falecido Presidente Brigham H. Roberts, num de seus últimos escritos, discutiu alguns dos princípios do evangelho que desejo divulgar mais amplamente. Vou citá-lo e parafraseá-lo. ¶
Segundo os ensinamentos não inspirados dos homens e os credos, tal como se aplicam ao homem — pré-mortal, mortal e pós-mortal —, ensinava-se que, embora o corpo do homem tivesse sido criado por Deus, sua origem era puramente terrena. Cremos que, antes da criação do corpo, todos os homens existiam como inteligências. Essas inteligências não foram criadas nem feitas, tampouco poderiam ser; a entidade inteligente no homem, a que chamamos espírito ou alma, é uma entidade autoexistente, incriada e eterna. Assim, o homem é coroado com a dignidade que pertence à sua natureza divina e eterna. ¶
A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (ou a Igreja Mórmon, se preferirdes) reivindica ser uma Igreja ousada, profética e inspirada, edificada sobre a rocha da revelação. Ela conclama o homem a cooperar com Deus em seu propósito declarado de realizar a imortalidade e a vida eterna do homem. ¶
Essa é uma parceria divina, disponível a todos. Ela dá significado adicional ao termo "a irmandade do homem". Não se trata simplesmente de uma filosofia de vida; é um plano ou projeto divino de vida — vida pré-existente, vida mortal e vida pós-mortal. ¶
Um Sistema de Educação Contínua
O evangelho é um sistema de educação contínua, resultando em progresso eterno. A educação é, de fato, parte de nossa religião. Cremos que a glória de Deus é a inteligência. ¶
O Senhor disse: "E dou-vos um mandamento de que vos ensineis a doutrina do reino uns aos outros." (D&C 88:77.) Precisamente aqui, poderíamos fazer a pergunta: existe alguma comunicação entre Deus e o homem, ou já existiu alguma vez? Se já existiu, por que não agora? ¶
Revelação Contínua
E isso nos traz à questão da revelação. ¶
No início do século passado, prevalecia entre quase todas as igrejas cristãs a ideia de que, embora tivesse havido um tempo em que revelações de Deus eram dadas, em que anjos visitavam a terra e transmitiam conhecimento divino aos homens, em que viviam entre os homens certos indivíduos chamados profetas, capazes de declarar a mente e a vontade de nosso Pai Celestial, tudo isso, supostamente, havia cessado. ¶
Embora a crença na revelação contínua pareça ter sido bastante universalmente aceita no passado, o cristianismo ortodoxo sustenta que não pode haver revelação atual; que nenhuma revelação foi dada desde a crucificação de Cristo e a morte dos apóstolos e, além disso, que nenhuma será dada no futuro; que o volume das escrituras está completo e para sempre fechado — nenhum anjo, nenhuma abertura dos céus, nenhum homem autorizado a falar por Deus. Tudo isso teria terminado. ¶
As escrituras declaram que alguns dos profetas falaram com Deus face a face. (Êxodo 33:11.) Por exemplo, somos informados em Êxodo que Moisés falava face a face com Deus, como um homem fala com seu amigo. Em Êxodo 3:6, o Senhor declarou: "Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó." ¶
Afirmamos que a Igreja é edificada sobre o fundamento de apóstolos e profetas divinamente inspirados, sendo o próprio Jesus Cristo a principal pedra angular. ¶
O Ofício de Profeta
Geralmente, quando falamos de um profeta, temos em mente alguém que prediz acontecimentos futuros, alguém que profetiza coisas que hão de acontecer. ¶
De fato, isso é, em parte, o ofício de um profeta — em parte, é o que se espera dele. Mas um profeta deveria ser, primordialmente, um instrutor de homens, um expositor das coisas de Deus. A inspiração do Todo-Poderoso deve dar-lhe entendimento e, quando lhe é dado, ele deve declará-lo, sem temor, ao povo de seu tempo e às gerações futuras. Ele deve ser um vidente capaz de ajudar outros a ver, um mestre enviado por Deus para instruir um povo, para iluminar uma época. ¶
Esse é o principal ofício de um profeta. ¶
Com base nos ensinamentos da Bíblia Sagrada, afirmamos que a revelação do céu era comum em todas as dispensações do evangelho, desde Adão até o tempo em que Cristo esteve sobre a terra. ¶
Concordamos que ela aparentemente cessou por um tempo, devido à apostasia após o início do primeiro século da era cristã. O fundador de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias afirma ter tido uma grande e avassaladora revelação de Deus — de fato, uma visitação na qual contemplou o Pai e o Filho. Mais tarde, outros seres celestiais apareceram. ¶
Há em todos os homens uma essência animada, dominante e característica, ou espírito, que é ele mesmo. Esse espírito, obtuso ou brilhante, mesquinho ou grandioso, puro ou impuro, transparece nos olhos, ressoa na voz e aparece nos modos de cada indivíduo. É isso que chamamos de personalidade. ¶
A Salvação do Homem
Quanto à salvação do homem, alguns têm ensinado que Deus, por vontade própria, havia predestinado alguns homens e anjos à destruição eterna, enquanto outros foram ordenados para a vida eterna e a glória, não por qualquer bem ou mal que tivessem feito ou pudessem fazer, mas porque seu destino era fixado por decreto divino. Aqueles a quem ele salvasse, moveria por graça irresistível à sua salvação; aqueles que ele havia predestinado à condenação não poderiam escapar, por mais persistentemente que lutassem. Nenhuma oração poderia salvá-los; nenhum ato de obediência poderia atenuar seu castigo; nenhuma fome nem sede de retidão lhes traria qualquer bem-aventurança. ¶
Deveriam perecer, e isso eternamente! ¶
Aqueles que perecessem na ignorância de Cristo — as nações pagãs, por exemplo — estavam condenados. Assim diziam os que expunham esse credo. ¶
Outros ensinavam que as crianças que morressem na infância sem receber o batismo cristão estavam condenadas, e isso eternamente. Segundo alguns, a crianças não batizadas era negado sepultamento em solo consagrado. O "Meio Acre do Inferno" era realidade em alguns cemitérios. Nós, humilde mas inequivocamente, proclamamos a verdade eterna e revelada de que, por meio da expiação de Cristo, toda a humanidade pode ser salva, mediante obediência às leis e ordenanças do evangelho. ¶
Salvação e Condenação
Referimo-nos por um momento ao significado dos termos salvação e condenação. Ensinava-se, em dias passados, e até certo ponto ainda hoje, que esses dois termos significavam ou o alcance do céu ou a designação ao inferno — referindo-se ao primeiro, o alcance do céu, como um estado misterioso e indefinido, desfrutado em algum lugar além dos limites do tempo e do espaço, e ao segundo, ao qual muitos seriam relegados, como um lugar de angústia eterna e miséria sem fim. ¶
Cria-se que, se alguém alcançasse o céu por margem por menor que fosse, entraria na posse completa de todo o êxtase supremo desfrutado pelos anjos e pelos mais santos dentre os santos. Se, porém, o perdesse por margem por mais estreita que fosse, estaria condenado a um tormento eterno, a ser suportado junto aos mais perversos dos homens e aos mais vis dos demônios, do qual não haveria libertação. ¶
Um Estado Graduado da Vida Futura
Contra esses dogmas do alcance do céu ou da designação ao inferno, com igualdade de glória num e igual severidade de castigo no outro, afirmamos que um Deus justo proveu um estado graduado de existência para todos os homens na vida futura. ¶
Sobre esse assunto, a Igreja restaurada ensina, com o apóstolo Paulo, que há muitos reinos de glória nos quais os homens podem viver, cada um numa esfera adequada à sua natureza, disposição e grau de inteligência. Paulo ensinou que há uma glória do sol, outra da lua e outra das estrelas, e que os homens existirão em graus variados de glória no porvir; que, assim como as estrelas do céu diferem em graus infinitos de brilho, também os homens, em seu futuro, existirão em lugares e estados de infinita variedade, correspondentes às variações de sua inteligência, conhecimento, gostos, aquisições, inclinações e aspirações. ¶
O Amor a Deus e ao Homem
Em Lucas 10, lemos: "Amarás . . . o Senhor teu Deus . . . de todo o teu entendimento." (Lucas 10:27.) Isso é apenas parte da instrução de Cristo, mas, ao que parece, uma parte não muito enfatizada, seja na imprensa, seja no púlpito. Ouvimos com frequência a respeito da necessidade de amar a Deus de todo o coração e de toda a alma, mas havia um propósito em ele incluir o entendimento em suas instruções. A concepção que qualquer pessoa tem da Divindade deve situar-se dentro de seu horizonte mental, determinado pelo grau de sua inteligência. ¶
O homem, por meio de seu raciocínio, naturalmente atribui a Deus seus próprios ideais mais nobres e elevados, que, se ele for estudioso e devoto, estão sempre crescendo. A atividade intelectual produz um conceito de Deus sempre em mudança, porque sempre em crescimento. ¶
Uma vez que a mente compreendeu a ideia de Deus, ela arderá, brilhará e buscará assimilar e irradiar, adorar e imitar. Esse amor a Deus, pela mente do homem, quando acompanhado do amor a ele com o coração e a alma, iluminará o caminho para a salvação. O Mestre colocou o amor a Deus e ao próximo como preponderante sobre todos os mandamentos divinos. ¶
A Aceitação dos Princípios do Evangelho
Todos os membros da Igreja, então, são exortados a compreender e aceitar os princípios do evangelho, dos quais a fé no Senhor Jesus Cristo é o mais importante. ¶
Devemos receber suas ordenanças de salvação e então prosseguir até a perfeição. ¶
A salvação é uma busca eterna do conhecimento. O homem não pode ser salvo na ignorância. É mais do que uma filosofia de vida: é um plano ou projeto divino de vida — pré-existente, mortal e pós-mortal. ¶
O evangelho de Jesus Cristo é uma religião revelada e desafiadora. Ele conclama todos os homens a cooperar com Deus num esforço para realizar a imortalidade e a vida eterna do homem. ¶
Declaramos firmemente que o evangelho de Jesus Cristo não pertence simplesmente a um mundo antiquado que já passou; é uma força real e poderosa em nosso mundo, aqui e agora, uma força que investe nossa vida individual de significado e propósito. ¶
Sim, sem dúvida, somos, em muitos sentidos, um povo peculiar, um povo diferente. ¶
Não afirmamos ser melhores do que qualquer outro povo. Temos nossas diferenças; temos nossas dificuldades; somos mortais. Mas afirmamos ter uma missão, e, por isso, temos um amplo sistema missionário que permite que pessoas em todo o mundo ouçam a mensagem da restauração do evangelho de Jesus Cristo. Da veracidade dessa mensagem presto humildemente meu próprio testemunho, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶