Hoje É, Na Verdade, Amanhã Nas...
Thomas S. Monson
Hoje é, na verdade, amanhã nas Ilhas Tonga, que ficam a cerca de 4.300 quilômetros a sudoeste do Havaí. A capital de Tonga, Nuku'alofa, está situada 20 minutos a leste da Linha Internacional de Data, o que confere a Tonga o título de "o lugar onde o tempo começa." Os tonganeses se comprazem em pensar que, de todo o povo que Deus criou e colocou sobre a extensão deste maravilhoso mundo, eles são os primeiros a saudar o novo dia, os primeiros a se ajoelhar em oração matinal para agradecer a um amoroso Pai Celestial por suas abundantes bênçãos. ¶
As Ilhas Amigas
O Capitão James Cook, um dos primeiros exploradores do Pacífico, ficou grandemente impressionado com a amabilidade desse povo nativo. Em suas cartas náuticas, ele designou Tonga como as Ilhas Amigas. Sua designação não poderia ter sido mais descritiva. Os tonganeses são bem-humorados, educados, extrovertidos e, acima de tudo, amigáveis. ¶
Talvez as Ilhas Amigas não tenham correspondido totalmente ao seu nome, na avaliação daqueles primeiros missionários mórmons que chegaram à ilha de Tongatabu em 15 de julho de 1891. Um ano inteiro se passaria antes que uma capela de madeira pudesse ser erguida, uma humilde e modesta escola aberta, e o primeiro novo membro batizado. Frustração seguiu-se a frustração, até que o progresso se deteve. Após um interlúdio de 20 anos, a obra foi retomada com o estabelecimento da Missão Tonganesa. ¶
Primeiros Missionários
Mais uma vez, homens de fé, chamados por Deus, deixaram para trás o lar e a família e navegaram para Tonga. O sucesso veio mais facilmente, mas não sem cobrar seu preço. A febre tifoide fez suas vítimas. Hoje, seis túmulos bem cuidados marcam o lugar de descanso daqueles que estavam dispostos a dar tudo pela causa da verdade. As palavras do Senhor fornecem um epitáfio apropriado para suas vidas e para o serviço desses primeiros missionários: "Portanto, não vos canseis de fazer o bem, porque estais lançando o alicerce de uma grande obra. E de pequenas coisas provém aquilo que é grande." (D&C 64:33.) ¶
Daquela pequena escola de madeira procedeu o Liahona College e um sistema escolar administrado pela Igreja, que abençoa as vidas da escolhida juventude das Ilhas Amigas. Professores, tanto tonganeses quanto americanos, unidos por um vínculo comum de fé, proporcionam não apenas formação para a mente, mas também preparação para a vida. ¶
Bem poderiam dizer: ¶
"Construímos, em tristeza ou alegria, um templo que o mundo talvez não veja; que o tempo não pode manchar nem destruir — construímos para a eternidade." ¶
(N. B. Sargent, "Construindo para a Eternidade.") ¶
Lição Em Sala De Aula
Em uma visita recente a Tonga, testemunhei um desses projetos de construção. Ao entrar em uma sala de aula típica, notei a atenção absorta que as crianças dedicavam a seu instrutor nativo. O livro didático dele e o delas jaziam fechados sobre as carteiras. Em sua mão, ele segurava uma isca de aparência estranha, feita de uma pedra redonda e grandes conchas do mar. Isso, eu soube, era um maka-feke, ou armadilha de polvo. ¶
Os pescadores tonganeses deslizam sobre o recife, remando suas canoas com balancim com uma das mãos e balançando o maka-feke sobre a lateral. Os polvos disparam de suas tocas rochosas e agarram a isca, confundindo-a com um caranguejo do mar. Tão tenaz é o seu aperto, e tão firme é o seu instinto de não abrir mão da preciosa presa, que os pescadores conseguem lançá-los diretamente para dentro da canoa. ¶
Foi uma transição fácil para o professor apontar aos jovens ávidos e de olhos arregalados que o Maligno, o próprio Satanás, frequentemente fabrica um maka-feke para enredar pessoas desprevenidas e tomar posse de seu destino. ¶
Diante de alguns, ele balança o maka-feke do tabaco, com o chamado astuto: "Este é o caminho para a facilidade social." Aquele que agarra, assim como o polvo, acha difícil largar a isca. ¶
Diante de outros, ele apresenta o maka-feke do álcool com o canto: "Aqui está o caminho para relaxar e esquecer suas preocupações." A vítima desprevenida se vê não livre de cuidados, mas mantida cativa. ¶
A nova moralidade é um maka-feke habilmente concebido. Em uma corrida precipitada em busca do que imaginam ser aceitação social, os de vontade fraca, enganados por uma isca falsa, não descobrem aceitação social, mas experimentam rejeição social. ¶
Amor, Uma Fonte De Força
O que levou aquele professor inspirado a fechar o livro didático tradicional e, por um breve momento, ensinar uma lição inesquecível? O amor é a resposta — um amor por seus alunos e uma genuína preocupação com o bem-estar deles. ¶
Esse mesmo espírito de amor duradouro e genuína preocupação tem caracterizado o crescimento da Igreja em Tonga, desde aquele humilde começo em 1891 até os dias de hoje. ¶
Hoje, um em cada sete tonganeses é membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Belas capelas pontilham a paisagem. O programa completo da Igreja é conduzido de maneira vigorosa e bem-sucedida. Justamente no mês passado, juntamente com o Élder Howard W. Hunter, tive o privilégio de participar da criação de uma estaca de Sião em Nuku'alofa. Encontramos um povo preparado. Descobrimos que de "pequenas coisas" havia procedido "aquilo que é grande." ¶
Em sua jornada rumo à grandeza, os tonganeses não negligenciaram nem esqueceram uma grande fonte de sua força — este amor duradouro e genuína preocupação uns pelos outros. ¶
Fé Dos Tonganeses
No início deste ano, um menino nasceu ao presidente da Missão Tonganesa e sua esposa, o Presidente e a Sra. John H. Groberg. O pequeno John Enoch era seu primeiro filho, o amado irmão de cinco irmãs e o encanto dos membros tonganeses. No início, o pequenino ia bem, mas então veio a doença. Os médicos exerceram sua perícia, os pais exerceram sua fé, mas o bebê não melhorava. ¶
Tarde de uma noite, houve uma batida à porta. Do visitante tonganês, o Presidente Groberg soube que, em cada ilha, em cada lar e em cada coração, oração fervorosa e jejum fiel se tornaram um apelo unido ao Deus Todo-Poderoso para que John Enoch Groberg vivesse. Visitando Tonga naquela ocasião, testemunhei essa fé. Testifico do resultado. A causa da doença foi descoberta; a deterioração foi contida. Hoje o bebê é robusto e forte. Ele é um testemunho vivo do poder da oração e do milagre do amor. ¶
Visita Ao Palácio Real
Durante essa mesma visita a Tonga, acompanhei o Presidente Groberg ao palácio real, onde nos foi concedida uma audiência com Sua Real Majestade, o Rei Tupou IV. Nossa recepção foi cordial e das mais agradáveis. Ao final da audiência, a inspiração do Espírito Santo guiou o Presidente Groberg enquanto ele dava fervoroso testemunho ao rei acerca da verdade do evangelho eterno e das bênçãos que ele proporciona aos fiéis. Nenhuma palavra mais eloquente ou comovente já ressoou naquelas câmaras reais. Nenhuma maior coragem já vi manifestada. ¶
Veio-me à mente a inspirada defesa do apóstolo Paulo diante de outro rei, o próprio Agripa. Aqui em Tonga havia alguém ¶
chamado de Deus, que "não foi desobediente à visão celestial." Aqui foi proferido um testemunho de que "o Cristo devia padecer, e sendo o primeiro da ressurreição dos mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios." (Atos 26:19, 23.) Eu podia imaginar o Rei Tupou dizendo, como o Rei Agripa: "Por pouco me persuades." ¶
Trocamos saudações, deixamos o palácio; mas eu não esqueci, nem esquecerei, aquela experiência. O que provocou tal coragem, tal fé, tal convicção em um jovem presidente de missão? A resposta: o milagre do amor. John H. ¶
Groberg ama o povo tonganês — todos eles. ¶
Experiência De Um Jovem Élder
Como um rapaz de apenas 20 anos, chamado para a Missão Tonganesa, foi designado para uma ilha remota, com um missionário nativo como companheiro. Após oito dias de enjoo e noites sem dormir em um mar açoitado pela tempestade, alcançaram seu destino. Nenhuma alma na ilha falava inglês. ¶
Ali ele adquiriu seu dom para a língua. Então veio um furacão devastador que atingiu a ilha isolada com intensidade tropical, destruindo a plantação de alimentos e contaminando o abastecimento de água. Não havia meio de comunicação com o mundo exterior. ¶
O barco de suprimentos não era esperado por quase dois meses. Após quatro semanas, a preciosa reserva de alimentos, principalmente taro, um vegetal nativo, foi severamente racionada. ¶
Passaram-se mais quatro semanas. Toda a comida acabou. Nenhuma ajuda chegou. Os corpos foram ficando emaciados, a esperança minguava, a confiança esmorecia, alguns morreram. Em desespero, John Groberg adentrou o pântano, onde insetos cobriam seu rosto, e, com um movimento da mão, muitos entravam em sua boca — seu único alimento. ¶
O fim se aproximava. Os habitantes da ilha permaneciam em um torpor inerte. Certa manhã, nove semanas após o furacão, John Groberg sentiu uma mão suave sobre seu ombro. Virou a cabeça e olhou nos olhos de um idoso tonganês. Lentamente e com meticuloso cuidado, o velho desembrulhou um precioso tesouro, sua posse mais estimada — uma pequena lata de geleia de fruta silvestre. Ele falou: "Sou velho; penso que posso morrer. Você é jovem; você pode viver. Aceite meu presente." ¶
Quais foram as palavras escritas por Charles Dickens? "É uma coisa bem, bem melhor a que faço do que qualquer outra que já fiz; é um descanso bem, bem melhor a que vou do que qualquer outro que já conheci." (Um Conto de Duas Cidades.) Acrescentem a elas a declaração do Salvador: "Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes." (Mateus 25:40.) Então veio aquele pontinho no horizonte e um grito de alegria quando o navio de suprimentos apareceu à vista. John H. Groberg já não era mais um menino. Sua fé havia sido provada; sua vida havia sido poupada; seu amor pelo povo tonganês estava para sempre assegurado. ¶
"Eis-me Aqui"
As Sagradas Escrituras registram que, na quietude silenciosa da noite tranquila, o menino Samuel ouviu o chamado do Senhor e respondeu: "Eis-me aqui." (1 Samuel 3:4.) Na desoladora colina de Moriá, Abraão demonstrou sua disposição de sacrificar tudo — até mesmo seu único filho. Ele ouviu o chamado do anjo do Senhor e respondeu: "Eis-me aqui." (Gênesis 22:11.) Na manhã de um belo dia de primavera, em um bosque sagrado em Palmyra, o menino Joseph Smith contemplou uma visão celestial e o aparecimento do Pai e do Filho. Ele recebeu seu chamado, e sua vida demonstrou sua resposta: "Eis-me aqui." ¶
Em uma distante ilha do Pacífico, um fiel missionário, John H. Groberg, havia respondido: "Eis-me aqui." ¶
Tantas vezes o chamado para servir não é acompanhado pelo som de uma banda marcial, pela multidão em festa, ou pelos aplausos daqueles cujo favor se considera tão grande. Tais distrações não se encontravam no caminho de Damasco, no bosque de Palmyra, no monte Moriá, no jardim de Getsêmani, nem no cume da colina do Gólgota. ¶
Com uma confiança jamais minguante no povo de Tonga, John H. Groberg os ensinou a não orar por tarefas iguais às suas forças, mas antes a orar por forças iguais às suas tarefas. Então a realização de sua obra não será um milagre, mas eles próprios serão o milagre. ¶
Uma Terna Despedida
No mês passado, achei difícil despedir-me de Tonga e de seu precioso povo. Ali havia homens de fé, mulheres de paciência, e até crianças de promessa. ¶
Embarcamos no avião. Lentamente ele taxiou até a pista de grama e, com um rugido, ganhou velocidade e se ergueu suavemente rumo ao céu azul. Olhei para a multidão que nos havia despedido. Ao longe, vi o grande complexo escolar. ¶
Em minha memória, pensei nos seis túmulos daqueles primeiros missionários. ¶
Silenciosamente repeti um verso do "Recessional" de Kipling: ¶
"O tumulto e os gritos se dissipam, Os capitães e os reis partem; Ainda permanece o teu antigo sacrifício, Um coração humilde e contrito; Senhor Deus dos exércitos, permanece ainda conosco, Para que não nos esqueçamos, para que não nos esqueçamos." ¶
O Milagre Do Amor
Da janela da cabine, lancei um último e rápido olhar a Nuku'alofa, que, traduzido, significa "a morada do amor." Percebi que o amor não é apenas o milagre das Ilhas Amigas; o amor é o guia para a felicidade mortal e um requisito para a vida eterna. ¶
Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho. O Redentor amou tanto a humanidade que deu a sua vida. A vós e a mim ele declarou: "Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei a vós. . . . ¶
"Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos." (João 13:34-35.) Com todo o meu coração, oro para que sejamos obedientes a tal visão celestial, pois testifico que ela veio do Filho de Deus, que é nosso Redentor, nosso mediador com o Pai, o próprio Jesus Cristo, o Senhor. Disto dou testemunho, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶