Élder Marion D. Hanks, Assistente Do...
Marion D. Hanks
Élder Marion D. Hanks Assistente do Conselho dos Doze ¶
Ontem à noite, vários rapazes adolescentes falaram deste púlpito a muitos milhares de jovens e homens mais velhos numa grande reunião. Gostaria de tomar meu tema esta manhã, em parte, de algo dito por um deles: "Se não posso respeitar mamãe e papai, a quem vejo, como posso respeitar meu Pai Celestial, a quem não vejo?" ¶
O Batismo De Crianças É Um Erro
Para estabelecer brevemente um fundamento, permitam-me referir-me a um artigo de revista recente que começava com estas palavras: "O batismo de crianças está sob fogo." Seguem-se vários exemplos deste significativo desenvolvimento teológico ao redor do mundo entre pensadores protestantes e católicos, e depois esta declaração: ¶
"Talvez o desafio mais formidável ao batismo de crianças tenha sido feito recentemente pelo venerável Karl Barth, da Suíça. ... Em seu último livro, Barth argumenta que não há base bíblica para o batismo de crianças e que o ritual não é um ato da graça de Deus, mas uma resposta humana a ela — o que significa que o indivíduo deve ser suficientemente maduro para compreender o significado de tal decisão. A compreensão tradicional do sacramento, diz ele, é simplesmente 'um velho erro da igreja.' " ¶
(Time, 31 de maio de 1968, p. 58.) ¶
"Dos Tais É O Reino"
Com a essência disto estamos em completo acordo. Quando os discípulos perguntaram a Jesus: "Quem é o maior no reino dos céus?" ¶
o Salvador "chamando uma criança, a pôs no meio deles, e disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus." (Mat. 18:1-4.) "Trouxeram-lhe então alguns pequeninos, para que lhes impusesse as mãos, e orasse; mas os discípulos os repreendiam. ¶
"Jesus, porém, disse: Deixai os pequeninos, e não os impeçais de vir a mim; ¶
porque dos tais é o reino dos céus. ¶
"E tendo-lhes imposto as mãos." ¶
(Mat. 19:13-15.) A isto pode-se acrescentar o testemunho de um profeta do Livro de Mórmon: ". . . aquele que diz que as criancinhas necessitam de batismo, nega as misericórdias de Cristo e despreza a sua expiação e o poder de sua redenção . . . ¶
pois eis que todas as criancinhas estão vivas em Cristo." (Morô. 8:20, 22.) Em outra escritura sagrada nos é ensinado que as crianças são "inocentes perante Deus . . . ," e então é acrescentada esta declaração significativa: "E vem o ser maligno e tira a luz e a verdade dos filhos dos homens pela desobediência e por causa da tradição de seus pais." ¶
(D&C 93:38-39.) "Eu, porém," disse o Senhor, "ordenei que criásseis vossos filhos em luz e verdade" e que "pusésseis em ordem vossa própria casa." ¶
(D&C 93:40, 43.) ¶
A Tradição De Seus Pais
É à frase "por causa da tradição de seus pais" que eu gostaria de dar atenção especial nestes poucos momentos, e à ordem de "pôr em ordem a própria casa." ¶
Anteriormente, deste púlpito, expressei meu respeito por filhos que superaram os caminhos de pais negligentes, e minha compaixão por pais dedicados que se esforçaram sinceramente para criar seus filhos no caminho em que deveriam andar, apenas para ver esses filhos usar seu arbítrio e individualidade para seguir outros caminhos. O Senhor nos ensinou que, aos seus olhos, o filho não arcará com a iniquidade do pai; nem o pai arcará com a iniquidade do filho. Cada um que é responsável deve, em última instância, prestar contas de suas próprias decisões. ¶
Mas multidões de nós ainda têm seus filhos em casa, ou têm netos, ou têm influência nos lares ou com os filhos de outros. Um grande número de casais jovens está apenas começando suas famílias, ou logo estará. ¶
Todos nós devemos ser levados a uma reflexão solene pela sóbria palavra de que, embora as crianças sejam "inocentes perante Deus," o "ser maligno" é capaz de tirar "luz e verdade" ¶
"pela desobediência" e "por causa da tradição de seus pais." ¶
A primeira definição de "tradição" num dicionário moderno é: "O conhecimento, as doutrinas, os costumes, as práticas, etc., transmitidos de geração em geração. . . ." ¶
Nossas Tradições
Qual é a tradição em seu lar individual e no meu? Que "conhecimento, doutrinas, costumes, práticas," ¶
e assim por diante estão sendo ou serão transmitidos de nossa geração para nossos filhos e os filhos deles? ¶
Deus nos ensina que os filhos devem honrar seus pais. O que há em nós, em nossas vidas, em nosso caráter, em nosso comportamento, que é digno de sua honra? O que há em nós que é nobre, responsável, fiel, gracioso, atencioso? O que é digno de seu respeito e de sua emulação? ¶
Ensinamos honestidade sendo honestos? Adoro lembrar a história do homem que, enquanto seu filhinho estava com ele, parou junto a um campo de milho isolado numa estrada rural remota, e depois de olhar para frente e para trás, para a esquerda e para a direita, começou a escalar a cerca para se apropriar de algumas espigas do milho do fazendeiro. Disse seu filho: ¶
"Papai, você esqueceu de olhar para cima." ¶
Integridade No Lar
O que acontece ao menino cujo pai se orgulha do negócio esperto que fez, no qual outros foram enganados? ¶
Anos atrás, o falecido Joseph Welch disse, na ocasião em que foi nomeado Pai do Ano: ¶
"Se estivesse em meu poder conceder à juventude da nação uma única qualidade, eu não escolheria, penso, o espírito ou a sabedoria ou mesmo aquela grande dádiva, a educação. Se eu pudesse escolher apenas uma, escolheria a integridade. Se um dia meus filhos e netos disserem uns aos outros: 'Ele nos ensinou a valorizar a integridade,' eu ficarei contente. ¶
"Como é a qualidade da integridade transmitida aos filhos no lar? ¶
Ela é transmitida vivendo-se uma vida de integridade, de sóbria honestidade, de cidadania responsável. Como pode alguém deixar de transmitir com certeza essa qualidade preciosa aos filhos no lar? Sendo um pouco fora da lei; sendo um arranjador; sendo um trapaceiro e um velhaco. Não faz muito tempo, um de meus dois filhos me disse estas palavras sóbrias. Ele disse: 'Quando nós dois éramos jovens, houve momentos em que você e mamãe claramente se propunham a nos dizer como viver a boa vida. Sempre reconhecíamos esses momentos e fechávamos nossos ouvidos e nossas mentes. Seus momentos mais influentes foram os mais involuntários. Nós tendíamos a imitar o que você realmente era — não o que dizia ser ou mesmo o que talvez acreditasse ser.' "Se seus filhos devem ter integridade, precisam encontrá-la no lar e em você. Se vivem numa atmosfera de completa integridade, aceitarão isso como uma atitude e nunca mais vacilarão depois disso. E, tendo integridade, encontrarão eles mesmos a liberdade; e, tendo-a encontrado, alegremente a concederão a todos os demais." ¶
Ideais E Valores
Todo pai deveria perguntar: Que ideais e valores meu filho está aprendendo? Qual é a imagem que ele tem de si mesmo? ¶
Qual é a visão dos outros que ele está desenvolvendo em nosso lar? A experiência dele com os pais lhe traz uma consciência crescente de que a "luz brilhante de Deus" está sobre tudo, e uma confiança crescente na presença de seu Pai Celestial? ¶
Na Nova Zelândia aprendemos um antigo provérbio maori: "Um pássaro precisa de penas para voar." Os pais têm a responsabilidade primária de emplumar nossos filhos para o voo. Uma criança que vive numa atmosfera de desrespeito, crítica ou vergonha não estará inclinada a se respeitar ou a se aceitar; e sobre a vergonha, foi escrito de forma impactante: ¶
"Holocaustos não são causados apenas por explosões atômicas. Holocaustos são causados sempre que uma pessoa é envergonhada." (Abraham J. Heschel, The Insecurities of Freedom.) ¶
Nosso Tratamento Para Com Os Outros
Nosso tratamento para com os outros certamente condicionará a atitude de uma criança para com os outros. Filhos que veem e sentem nos pais uma preocupação genuína com os outros, expressa em atos de bondade, compaixão e desprendimento, tenderão eles mesmos a pensar bem da humanidade e a fazer o que as escrituras ordenam: "socorrer os fracos, erguer as mãos que pendem e fortalecer os joelhos enfraquecidos." (D&C 81:5.) Jovens assim abençoados também podem estar menos sujeitos à perplexidade que confronta alguns em nossa geração, com a ênfase paradoxal nos direitos e privilégios do homem enquanto simultaneamente o rebaixam como criatura de seu ambiente, condicionado por fatores sociológicos e psicológicos, não possuindo os poderes e capacidades do arbítrio livre, de pensar e crer, de escolher e determinar, não a personalidade única que Deus nos ensinou que somos. A versão do "reflexo condicionado" ¶
do behaviorista não consegue inspirar o mistério, o assombro e a admiração que são a glória do homem. Saber, ao invés, que cada indivíduo é uma pessoa eterna, um deus ou deusa em potencial, capaz de profundo amor, gentileza e misericórdia, mais do que humano, é nos preparar para viver com coragem e senso de responsabilidade, para inspirar autoconfiança, autorrespeito e verdadeiro respeito pelos outros. ¶
Tradição De Disciplina
Qual é a tradição de disciplina em nossos lares? Nosso filho é mimado, tolerado, autorizado, num momento de crise, a transferir sua culpa para outros — seus pais, colegas, família, a época em que vive, a sociedade? Como ele lidará com a decepção e o fracasso se não for ensinado a enfrentar seus erros honestamente? Não estamos falando de impor punição sem sentido. Estamos falando de realidades, de fatos a serem enfrentados, de regras justas que são compreendidas e cumpridas, com sanções consistentemente impostas quando são violadas. "O autorrespeito," disse alguém, "é o fruto da disciplina; o senso de dignidade cresce com a capacidade de dizer NÃO a si mesmo." (Heschel, ibid.) ¶
Outras Tradições A Transmitir
O que devemos dar aos filhos? ¶
Orem por um senso de humor. "O riso alivia a vida" e traz um espírito ensolarado. ¶
Orem também para poder transmitir a vontade de trabalhar, e o impulso pela excelência; a capacidade de indignação moral, e a coragem de ficar sozinho; o desdém pelo mal, e o amor à justiça; a capacidade de amar sem condição nem questionamento. Vocês conhecem a história da menina de oito anos num orfanato, sem atrativos, com maneirismos irritantes, mal vista pelas professoras e administradoras? Certa tarde, informou-se que ela tinha quebrado uma regra que justificaria sua expulsão da instituição. Contra os regulamentos, ela fora vista depositando um bilhete num galho de árvore que se estendia sobre a cerca. ¶
O bilhete foi recuperado. Dizia: "Para quem encontrar isto: eu te amo." ¶
Como está, em seu lar e no meu, a tradição do patriotismo? ¶
No sábado à noite, pouco antes do Natal do ano passado, dois jovens limpos e bem-apessoados — rapazes, na verdade — com seu equipamento de batalha empilhado por perto, ficaram diante de um grande grupo de seus companheiros em China Beach, perto de DaNang, no Vietnã do Sul, e cantaram "Noite Feliz". ¶
Não tinham acompanhamento algum, e o som doce e claro de suas vozes sempre será lembrado, assim como a emoção que todos sentimos. Na manhã seguinte, antes do amanhecer, um daqueles jovens veio a meus aposentos para se despedir e apertar as mãos mais uma vez, ao se juntar ao seu batalhão para partir para o mato numa missão de busca e destruição. Não era a atividade sabática que ele teria escolhido — ficou desapontado por não poder adorar com os companheiros de serviço em nossa reunião programada — mas seguiu seu caminho para cumprir sua tarefa. Não há dúvida quanto à tradição transmitida no lar deste rapaz. ¶
Autocontrole Nos Lares
Pais, mães, que tradição estamos plantando em outra geração, em nossos lares, quanto ao autocontrole — controle de nossas línguas, temperamentos e apetites? Em 1884, Henry Drummond fez uma declaração sobre este tema que poderia ser lida regularmente, com proveito, por cada um de nós: ¶
"Estamos inclinados a considerar o mau temperamento uma fraqueza bastante inofensiva. ¶
Falamos dele como uma mera fragilidade da natureza, uma falha familiar, uma questão de temperamento, não uma coisa a ser levada muito a sério na avaliação do caráter de um homem. E, no entanto . . . a Bíblia repetidamente volta a condená-lo como um dos elementos mais destrutivos na natureza humana. ¶
"A peculiaridade do mau temperamento é que é o vício dos virtuosos. É frequentemente a única mancha num caráter, do contrário, nobre. . . . Esta compatibilidade do mau temperamento com o alto caráter moral é um dos problemas mais estranhos e tristes da ética. A verdade é que há duas grandes classes de pecados: pecados do Corpo e pecados da Disposição. . . . Nenhuma forma de vício, nem a mundanidade, nem a avidez pelo ouro, nem mesmo a embriaguez, faz mais para descristianizar a sociedade do que o mau temperamento. ¶
Por amargar a vida, por desfazer comunidades, por destruir os relacionamentos mais sagrados, por devastar lares, por murchar homens e mulheres, por tirar o viço da infância; em suma, por seu puro e gratuito poder de produzir miséria, esta influência está sozinha." (Henry Drummond: The Greatest Thing in the World, pp. 43-46.) ¶
Tradições Para Lares Futuros
Que tradições estamos transmitindo para outros lares em tempos futuros, dignas das memórias que nós mesmos temos? Ocasionalmente, ao longo dos anos, tive a bênção de pedir a grandes grupos de líderes adultos que meditassem por um momento sobre a conclusão de uma frase inacabada, e depois compartilhassem seus pensamentos. A frase diz: "A coisa de que melhor me lembro da minha infância em casa, com meus pais e minha família, é " ¶
Suspeito que as respostas de vocês seriam mais ou menos as mesmas que já ouvi. Nunca ninguém mencionou um alto padrão de vida, ou bens materiais. Sempre falaram, como eu falaria, de atenção da mamãe ou do papai; de convivência familiar, tradições, sacrifícios, aventuras juntos; de livros lidos em voz alta, canções cantadas, trabalho realizado; de orações familiares e conselhos de família; de pequenos presentes preparados com amor e desprendimento; de memórias caseiras, saudáveis e felizes. Minha única pergunta a eles sempre foi, e a faço hoje: "O que estamos dando a nossos próprios filhos que eles se lembrarão com igual alegria e apreço?" ¶
Tradição Do Cântico Das Crianças
Desde nossa última conferência, minha esposa e eu tivemos o privilégio de visitar Samoa e outras ilhas nos mares distantes. Uma tarde, nos altos das montanhas de Upolu, na Samoa Americana, na aldeia de Sauniatu, tivemos uma experiência notável, pertinente a este momento. A aldeia estava deserta, exceto por algumas crianças bem pequenas e um ou dois que tinham ficado em casa com elas. Os demais estavam trabalhando nos campos ou em outras tarefas. Enquanto caminhávamos pela única via de Sauniatu, entre as fileiras de fales, do monumento em direção à nova capela e escola, ouvimos crianças cantando. ¶
Eram talvez meia dúzia delas, nenhuma com mais de quatro anos, e cantavam com a doçura da infância uma canção que reconhecemos instantaneamente, e ficamos maravilhados, em lágrimas, ao ouvir: "Sou um Filho de Deus." ¶
Naquele alto reduto montanhoso, no fim de uma longa e tortuosa estrada, numa ilha do mar, encontramos pequenas crianças de pele escura, nenhuma delas tendo visto mais do mundo que sua pequena aldeia, cantando o que haviam aprendido por meio da tradição de seus pais, a maior verdade em existência, salvo uma: eu sou um filho de Deus. ¶
Aquela outra verdade? Que há um Deus que ouve as vozes de seus filhos. ¶
Que Deus nos abençoe para vivermos e ensinarmos de tal forma que possamos promover uma restauração do lar, a ressurreição da paternidade, para que o "ser maligno" nunca possa tirar "luz e verdade" de nossos filhos "por causa da tradição de seus pais." Em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶