A Primavera Voltou à Comunidade De...
Thomas S. Monson
A primavera voltou à comunidade de Franklin, Idaho. Pode-se ouvir o sempre bem-vindo chilrear do tordo-americano e ver a beleza do primeiro narciso. Aparentemente da noite para o dia, a grama parda e sem vida do inverno se transforma num verde viçoso. Em breve os arados revolverão a terra, as sementes serão plantadas, e um novo ciclo de vida terá início. ¶
Escondido do bulício da atividade e aconchegado contra as colinas amigáveis está o cemitério da cidade. ¶
Há apenas três semanas foi aberta uma nova sepultura — não uma grande — e um pequeno caixão foi baixado à terra-mãe. Três linhas aparecem na atraente lápide: ¶
MICHAEL PAUL SHUMWAY Nascido: 24 de outubro de 1965 Falecido: 14 de março de 1966. Permiti-me apresentar-vos a família Shumway. São meus vizinhos aqui em Salt Lake City, Utah. Mark e Wilma Shumway, e cada um dos filhos, sempre vos saúdam com um sorriso amigável ou um aceno de mão. ¶
Eles alegram uma vizinhança. São boas pessoas. ¶
Podeis imaginar a felicidade no lar daquela família naquele 24º dia de outubro, quando o pequeno Michael nasceu. ¶
O pai estava orgulhoso, os irmãos e as irmãs estavam entusiasmados, a mãe estava humilde, ao dar as boas-vindas a essa doce e nova flor da humanidade, recém-caída do próprio lar de Deus, para florescer na Terra. Seguiram-se meses felizes. ¶
Então chegou aquela fatídica noite de março em que o pequeno Michael foi chamado a seu lar celestial, e o fôlego de vida se foi. Ao visitar Mark e Wilma, tão vergados pela dor da perda de seu precioso filho, notei um dos pequenos brinquedos de Michael repousando perto do berço. Lembrei-me das palavras da obra-prima de Eugene Field, "Little Boy Blue" ("Menininho Azul"): ¶
"O cãozinho de brinquedo está coberto de pó, Mas firme e leal permanece de pé; E o soldadinho de brinquedo está vermelho de ferrugem, E seu mosquete enferruja em suas mãos. ¶
Houve um tempo em que o cãozinho de brinquedo era novo, E o soldado estava lindo e formoso, E foi nesse tempo que nosso Menininho Azul Os beijou e os colocou ali. ¶
" 'Agora, não vão até eu voltar', disse ele, 'E não façam barulho nenhum!' Assim, cambaleando até sua cama baixa, Ele sonhou com os lindos brinquedos. ¶
E enquanto sonhava, um canto de anjo Despertou nosso Menininho Azul, — Ah, os anos são muitos, os anos são longos, Mas os amiguinhos de brinquedo são fiéis. ¶
"Sim, fiéis ao Menininho Azul eles permanecem, Cada um no mesmo lugar de sempre, Esperando o toque de uma mãozinha, O sorriso de um rostinho. ¶
E eles se perguntam, enquanto esperam ao longo dos longos anos, No pó daquela cadeirinha, O que aconteceu com nosso Menininho Azul Desde que ele os beijou e os colocou ali." ¶
Há muitos cãezinhos de brinquedo e muitas bonecas que pertenceram a muitos meninos e meninas que viveram e depois nos foram tirados. E, embora os brinquedos possam se perguntar enquanto esperam, os pais ansiosos não precisam se perguntar. A palavra revelada de um amoroso Pai Celestial fornece respostas às perguntas do coração. ¶
Mark e Wilma, será que poderíeis reunir vossos pequeninos ao redor enquanto discutimos algumas dessas respostas. Há muitas centenas de milhares de outras pessoas, talvez milhões, nos ouvindo, mas elas poderão beneficiar-se de nossa conversa; pois quem não perdeu uma mãe, um pai, uma irmã, um irmão, um filho ou uma filha? ¶
"Morrendo o homem, porventura tornará a viver?" ¶
Toda pessoa reflexiva já fez a si mesma essa pergunta, tão bem formulada pelo antigo Jó: "Morrendo o homem, porventura tornará a viver?" (Jó 14:14.) Por mais que tentemos afastar essa pergunta de nossos pensamentos, ela sempre retorna. A morte chega a toda a humanidade. Chega aos idosos que caminham com passos vacilantes. Seu chamado é ouvido por aqueles que mal alcançaram a metade da jornada da vida, e muitas vezes silencia o riso de crianças pequenas. ¶
Na mensagem de Paulo aos hebreus, ele declarou: ". . . como aos homens está ordenado morrerem uma só vez . . ." (Hebreus 9:27.) Embora a morte seja inevitável, ela pode ser mais bem compreendida quando aprendemos sobre a vida, sim, a vida eterna. ¶
A vida na Terra não marca o início de nossa existência. O poeta William Wordsworth escreveu: ¶
"Nosso nascimento é apenas um sono e um esquecimento: ¶
A alma que se ergue conosco, a estrela de nossa vida, Teve alhures o seu ocaso, E vem de longe: ¶
Não em total esquecimento, E não em completa nudez, Mas arrastando nuvens de glória viemos De Deus, que é o nosso lar: ¶
O céu está ao nosso redor em nossa infância!" ¶
("Ode on Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood.") E quem pode deixar de refletir seriamente diante da declaração do profeta Jeremias: "Assim veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Antes que te formasse no ventre, te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei, e às nações te dei por profeta." (Jeremias 1:4-5.) Na sabedoria de Deus, uma terra foi criada para que o homem nela habitasse. ¶
Gênesis registra que a terra era sem forma e vazia, e havia trevas sobre a face do abismo. Então Deus disse: "Haja luz; e houve luz." ¶
"Haja uma expansão . . . ", e houve uma expansão. ¶
"Produza a terra relva, . . ." ¶
e a terra produziu relva. ¶
(Gênesis 1:3, 6, 11.) Ele fez as aves do céu, as criaturas das águas, os animais da terra. ¶
E então "criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou." (Gênesis 1:27.) Ao homem foi dado domínio sobre todo ser vivente. ¶
A Terra se tornou um campo de provas, uma estação de testes, uma provedora da experiência necessária. ¶
Nós rimos, choramos, trabalhamos, brincamos, amamos, vivemos. E então morremos. ¶
E mortos permaneceríamos, não fosse por um homem e sua missão, a saber, Jesus de Nazaré. Nascido num estábulo, embalado numa manjedoura, seu nascimento cumpriu os pronunciamentos inspirados de muitos profetas. Ele foi ensinado do alto. Proporcionou a vida, a luz e o caminho. Multidões o seguiram. As crianças o adoravam. Os soberbos o rejeitaram. Ele falava em parábolas. ¶
Ele ensinava pelo exemplo. Viveu uma vida perfeita. Por meio de seu ministério, cegos viram, surdos ouviram e coxos andaram. Até mesmo os mortos voltaram à vida. ¶
Embora o Rei dos reis e Senhor dos senhores tivesse vindo, foi-lhe dispensado o tratamento reservado a um inimigo ou traidor. Seguiu-se uma zombaria que alguns chamaram de julgamento. Gritos de "Crucifica-o, crucifica-o" encheram o ar. ¶
(João 19:6.) Então teve início a subida ao Monte Calvário. ¶
Foi ridicularizado, injuriado, escarnecido, vaiado e pregado numa cruz, em meio a gritos de "O Cristo, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para que o vejamos e acreditemos." (Marcos 15:32.) "Salvou outros, a si mesmo não pode salvar-se." (Mateus 27:42.) "Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo . . ." (Lucas 23:39.) Sua resposta: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." (Lucas 23:34.) ". . . Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E havendo dito isso, expirou." (Lucas 23:46.) Seu corpo foi colocado por mãos amorosas num sepulcro escavado na rocha. ¶
No primeiro dia da semana, muito de madrugada, Maria Madalena e a outra Maria vieram ao sepulcro. Para seu espanto, o corpo de seu Senhor havia desaparecido. Lucas registra que dois homens com vestes resplandecentes se puseram junto a elas e disseram: ¶
"Por que buscais o vivente entre os mortos? ¶
"Não está aqui, mas ressuscitou. . . ." ¶
(Lucas 24:1, 5-6.) A pergunta de Jó, "Morrendo o homem, porventura tornará a viver?", acabara de ser respondida. ¶
A sagrada escritura registra os acontecimentos que se seguiram à sua ascensão. Contudo, hoje, como sempre, a voz do cético desafia a palavra de Deus, e cada homem deve escolher a quem dará ouvidos. Clarence Darrow, o famoso advogado e agnóstico, declarou: "Nenhuma vida vale muito, e toda morte é apenas uma pequena perda." Schopenhauer, o filósofo e pessimista alemão, escreveu: "Desejar a imortalidade é desejar a perpetuação eterna de um grande erro." E às palavras deles se somam as de novas gerações, à medida que homens tolos crucificam Cristo novamente. ¶
Pois modificam seus milagres, duvidam de sua divindade e rejeitam sua ressurreição. ¶
Robert Blatchford, em seu livro God and My Neighbor, atacou com vigor as crenças cristãs aceitas, tais como Deus, Cristo, a oração e a imortalidade. ¶
Ele afirmou ousadamente: "Reivindico ter provado tudo o que me propus a provar, de modo tão pleno e decisivo, que nenhum cristão, por maior ou mais capaz que seja, pode responder a meus argumentos ou abalar minha tese." Cercou-se de um muro de ceticismo. Então algo surpreendente aconteceu. Seu muro de repente se desfez em pó. Ficou exposto e indefeso. Lentamente começou a tatear seu caminho de volta à fé que desprezara e ridicularizara. O que causara essa profunda mudança em sua perspectiva? Sua esposa morrera. De coração partido, ele entrou no quarto onde jazia tudo o que restara mortal dela. Olhou para o rosto que tanto amara. ¶
Ao sair, disse a um amigo: "É ela, e no entanto não é ela. Tudo está mudado. Algo que estava ali antes foi tirado. Ela não é a mesma. O que pode ter partido, senão a alma?" ¶
Mais tarde escreveu: "A morte não é o que algumas pessoas imaginam. É apenas como entrar em outro cômodo. Naquele outro cômodo encontraremos . . . as queridas mulheres e homens e as doces crianças que amamos e perdemos." (God and My Neighbor [Chicago: Charles H. Kerr and Company].) Testemunho contra os céticos. Contra a filosofia dominante no mundo de hoje — uma dúvida quanto à autenticidade do Sermão do Monte, um abandono dos ensinamentos de Cristo, uma negação de Deus e uma rejeição de suas leis — buscamos um ponto de referência, uma fonte inquestionável, sim, um testemunho de testemunhas oculares. Estêvão, condenado à cruel morte de mártir, olhou para o céu e clamou: "... eis que vejo os céus abertos, e o Filho do Homem, que está em pé à mão direita de Deus." (Atos 7:56.) Saulo, no caminho de Damasco, teve uma visão do Cristo ressuscitado e exaltado. Pedro e João também testificaram do Cristo ressuscitado. ¶
Quem pode deixar de ser tocado pelo comovente testemunho de Paulo em Corinto? Ele declarou "que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as escrituras: ¶
"E que foi visto por Cefas, e depois, pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte . . . ¶
"Depois foi visto por Tiago; depois, por todos os apóstolos. ¶
E ". . . por último de todos, foi visto também por mim . . ." ¶
(1 Coríntios 15:3-8.) Ao agnóstico, ao cético, ao injuriador, pergunto: "Agnóstico, podes responder?" "Cético, podes salvar?" ¶
"Injuriador, podes redimir?" ¶
Deus, o Pai Eterno, falou à multidão neste continente e disse: ¶
"Eis aqui meu Filho Amado, em quem me comprazo e em quem glorifiquei meu nome — ouvi-o. ¶
". . . ao entenderem, voltaram outra vez os olhos para o céu; e eis que viram um Homem descendo do céu . . . ¶
". . . ele estendeu a mão e falou ao povo, dizendo: ¶
"Eis que eu sou Jesus Cristo, cuja vinda ao mundo foi testificada pelos profetas. ¶
"... eu sou a luz e a vida do mundo; e bebi da taça amarga que o Pai me deu e glorifiquei o Pai, tomando sobre mim os pecados do mundo . . ." (3 Néfi 11:7-11.) "Levantai-vos e aproximai-vos de mim, para que possais meter as mãos no meu lado e também apalpar as marcas dos cravos em minhas mãos e em meus pés, a fim de que saibais que eu sou o Deus de Israel e o Deus de toda a Terra e fui morto pelos pecados do mundo. ¶
"E depois de se terem todos aproximado e verificado por si mesmos, clamaram a uma só voz, dizendo: ¶
"Hosana! Bendito seja o nome do Deus Altíssimo! E lançaram-se aos pés de Jesus e adoraram-no." (3 Néfi 11:14, 16-17.) "Deus amou tanto o mundo . . ." ¶
Esse Deus amoroso que apresentou seu Filho crucificado e ressuscitado não era um Deus destituído de corpo, partes ou paixões — o Deus de uma filosofia inventada pelo homem. Ao contrário, Deus, nosso Pai, tem ouvidos com que ouve nossas orações. ¶
Tem olhos com que vê nossas ações. Tem boca com que fala conosco. Tem coração com que sente compaixão e amor. Ele é real. Ele é vivo. Somos seus filhos, feitos à sua imagem. Somos semelhantes a ele, e ele é semelhante a nós. ¶
Este é o Deus que tanto amou o mundo que deu seu Filho Unigênito para que pudéssemos ter a vida eterna. ¶
A vós, Wilma e Mark Shumway, e a todos os que amaram e perderam um ente querido, ele proporciona a coragem para dizer: ". . . o Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor." (Jó 1:21.) Ao viajardes, vós e vossos filhos, ao lar da família em Franklin, Idaho, onde, terna e amorosamente, colocareis as flores da primavera naquela pequena sepultura, vossos olhos poderão estar úmidos de lágrimas, mas vosso coração arderá com o conhecimento de que os laços da morte foram rompidos e de que os membros de vossa família, embora agora separados pela morte, um dia serão reunidos para partilhar as bênçãos da vida eterna. ¶
Com todo o meu coração e o fervor de minha alma, levanto hoje a voz em testemunho, como testemunha especial, e declaro que Deus vive. Jesus é seu Filho, o Unigênito do Pai na carne. Ele é nosso Redentor; ele é nosso Mediador junto ao Pai. Foi ele quem morreu na cruz para expiar nossos pecados. Tornou-se as primícias da ressurreição. Ah, quão doce a alegria que estas palavras trazem: "Sei que vive meu Redentor!" E que o mundo inteiro o saiba e viva de acordo com esse conhecimento, oro humildemente em nome de Jesus Cristo, o Senhor e Salvador. Amém. ¶