Dirijo Minhas Palavras, Meus Irmãos e...
Boyd K. Packer
Dirijo minhas palavras, meus irmãos e irmãs, à juventude da Igreja. Tem sido meu privilégio, ao longo destes últimos anos, viajar por toda a Igreja e travar íntimo conhecimento com os jovens, particularmente os de idade escolar secundária e universitária. ¶
Suponho que, se tenho alguma distinção como uma das Autoridades Gerais, seria minha proximidade com a juventude da Igreja em dois aspectos: primeiro, a recência de meu chamado dentre eles; segundo, minha proximidade a eles em razão de minha idade, ou talvez devesse dizer, da falta dela. ¶
Conquistei essa distinção no dia primeiro de outubro passado, quando ela me foi cedida a contragosto pelo Presidente Marion D. Hanks, do Primeiro Conselho dos Setenta. ¶
Meus jovens amigos, membros da Igreja, não professo compreender-vos plenamente. Creio, porém, que talvez nem vós mesmos vos compreendais plenamente. Mas confesso ter por vós grande amor, grande fé em vós e um intenso desejo de vos ser útil. Espero que possais aproveitar minha experiência e saber que em breve, talvez prematuramente, certamente sem aviso, as responsabilidades de liderança recairão sobre vós, e, reconhecendo isso, gostaria de vos aconselhar um pouco. ¶
Meus jovens amigos, não vos temo, nem temo por vós, e não hesito em falar-vos com bastante franqueza. À medida que aprendi a amar-vos, a conhecer-vos, ao viajar por toda a Igreja, cresceu em mim a convicção de que não só aceitareis um conselho e uma ajuda francos e específicos, como também os desejais ardentemente e os quereis. ¶
Falo com um senso de urgência. ¶
Na sexta-feira, o Irmão Romney citou a octogésima oitava seção de Doutrina e Convênios, e eu gostaria de citar um versículo que precede os lidos pelo Irmão Romney — a octogésima oitava seção, versículo setenta e três, falando o Senhor: ¶
"Eis que apressarei minha obra a seu tempo." Repito: "Eis que apressarei minha obra a seu tempo." ¶
E, meus jovens amigos na Igreja, testifico que este é o dia da pressa, e, ao falar-vos sobre oportunidade e obrigação, ressalto a palavra "obrigação". ¶
Há muitos anos, meus pais moravam numa casa muito modesta na região norte do estado de Utah. Certa manhã, minha mãe atendeu a uma batida à porta e deparou-se ali com um homem grande e de aparência intimidadora, que lhe pediu dinheiro. Ela disse: "Não temos dinheiro." Havia naquele lar inúmeras crianças, mas muito pouco dinheiro. Ele insistiu em seu pedido, exigindo que ela lhe desse algum dinheiro, dizendo por fim: "Estou com fome; gostaria de comer alguma coisa." ¶
"Bem," disse ela, "se é esse o caso, então posso ajudá-lo." Apressou-se então até a cozinha e preparou-lhe uma refeição. ¶
E tenho certeza de que foi a mais modesta das provisões. Ela pôde perceber, ao entregar-lhe a refeição na porta, que ele não estava satisfeito, mas, com pouca resistência, ele pegou a refeição e partiu. Ela o observou enquanto ele descia pela alameda, passava pelo portão e seguia estrada acima. Ele olhou para trás, mas não a viu, parada dentro da porta, e, ao passar da divisa da propriedade, pegou a refeição e a lançou por cima da cerca, no meio do mato. ¶
Ora, minha mãe é uma pequena mulher dinamarquesa, e ficou zangada; ficou zangada com a ingratidão. Naquela casa nada se desperdiçava, e ela ficou zangada por ele ter sido tão ingrato. ¶
O incidente foi esquecido, até que, uma ou duas semanas depois, ela atendeu a outra batida na porta. Ali estava um rapaz adolescente, alto e de ossos salientes, que fez essencialmente a mesma pergunta, com as mesmas palavras: "Precisamos de ajuda; estamos com fome. A senhora poderia nos dar algum dinheiro; poderia nos dar alguma comida?" ¶
Mas, de algum modo, a imagem do primeiro homem lhe veio à mente, e ela disse: "Não," desculpando-se, "sinto muito. Estou ocupada; não posso ajudá-lo hoje. Simplesmente não posso ajudá-lo." O que ela queria dizer era: "Não vou. Não vou. Não serei enganada de novo." Bem, o jovem virou-se sem protestar e saiu pelo portão, e ela ficou parada, olhando-o partir. ¶
Só depois que ele passou pelo portão foi que ela notou a carroça, o pai e a mãe e as outras crianças, e, quando o rapaz ergueu suas longas pernas para dentro da carroça, ele olhou para trás com um ar bastante comovido; o pai sacudiu as rédeas, e a carroça seguiu estrada abaixo. Ela hesitou apenas o suficiente para que já não pudesse mais chamá-los de volta. ¶
Dessa experiência, ela extraiu uma lição pela qual viveu, e que transmitiu a seus filhos, e, embora isso tenha sido, suponho, há quase cinquenta anos, sempre houve um leve toque de dor quando ela relembrava o incidente com esta lição: "Nunca deixeis de dar o que tendes a alguém que esteja em necessidade." Repito: "Nunca deixeis de dar o que tendes a alguém que esteja em necessidade." ¶
Ressalto-vos, meus jovens irmãos e irmãs na Igreja, vossa obrigação de dar aquilo que possuís a qualquer um que possa estar em necessidade. Reconheço que, decerto, vossos bens materiais são escassos em comparação com as necessidades do mundo, mas vossos poderes espirituais são iguais às necessidades do mundo. Exorto-vos a resolverdes, comigo, que, enquanto vivermos, jamais haverá alguém com fome, espiritual ou fisicamente, a quem pudéssemos socorrer e ajudar. ¶
Ora, quanto à obrigação, certo dia dois de nossos meninos tinham uma pequena divergência de opinião. Isso acontece nos melhores lares, segundo me disseram. Havia apenas um pequeno atrito, e eu intervim como árbitro, e, ao separá-los, eles ofereceram alguma resistência. Foi então que o irmão mais novo apareceu na cena e, no que desde então aprendi a apreciar como um magnífico inglês, disse a seus irmãos: "Vocês não sabem que têm que obedecer a quem lhes deu à luz?" ¶
Ora, creio que isso fala mais eloquentemente do que eu poderia falar a meus jovens amigos adolescentes. "Vocês não sabem que têm que obedecer a quem lhes deu à luz, espiritualmente falando?" Vossa responsabilidade de dar está bem à frente. Tendes uma dupla oportunidade. Primeiro, logo à vossa frente, no campo missionário, está a oportunidade de dar o dom que vos foi concedido, como somente a juventude sabe dá-lo. ¶
E então, posteriormente a isso, com o companheiro ou a companheira de vossa vida, dareis àqueles meninos e meninas que povoarão vosso reino aqui na terra. ¶
Lembrais-vos de Clark, o rapaz da outra ala que foi chamado numa missão para o México? Eu o vi na Cidade do México há apenas algumas semanas. Foi inspirador estar perto dele. Ele estava dando; dando o dom que lhe fora concedido, do modo, repito, como somente a juventude sabe dá-lo. Lembrais-vos também de que sua mãe disse, depois que ele estivera no campo missionário por uma ou duas semanas: "Acho que estão fazendo-o trabalhar um pouco demais." "Acho," disse ela, "que ele está sendo pressionado a estender sua capacidade um pouco além de suas forças." ¶
Ora, pode ser que assim seja, mas, meus jovens irmãos e irmãs, não tememos esse desafio, não é mesmo? Não poderei eu representar-vos perante os irmãos aqui presentes como estando dispostos a enfrentar qualquer grau de pressão e trabalho na edificação do reino? ¶
Vosso bem-estar não é negligenciado, e reconheço, naquilo que vi em Clark, a mais profunda representação dos grandes princípios do programa de bem-estar que já testemunhei; pois, em sua vida, o trabalho foi entronizado como princípio soberano. Foi em 1936, neste mesmo púlpito, que o Presidente Heber J. Grant disse: "O trabalho há de ser reentronizado como princípio soberano na vida dos membros de nossa Igreja." ¶
Onde mais, meus jovens amigos, sois pressionados a esse ponto? Onde está o trabalho entronizado em vossa vida, senão no campo missionário? Ora, sabemos que houve os que tropeçaram entre Winter Quarters e o Vale do Lago Salgado, e sabemos que houve os que mancaram dolorosamente a cada passo da grande jornada do Batalhão Mórmon, mas a competição não foi cancelada, e a campanha não foi suspensa. Suponho que, nestes dias, nesta obra, haverá algumas baixas, e espero que possa haver alguma mortalidade. ¶
Mas a luta contra o pecado é real, será longa, mas deve prosseguir, e exorto-vos, jovens amigos na Igreja, a vos alistardes e a colocardes o ombro na roda. ¶
É magnífico ver o que aconteceu com este rapaz Clark. Não lhe veio facilmente. Houve suor em sua fronte, e houve lágrimas em seu travesseiro, antes que ele alcançasse o conhecimento de como trabalhar arduamente, com afinco, mas, sabeis, eu não gostaria que ele voltasse para casa e abrisse um posto de gasolina do outro lado da rua de um que eu estivesse tentando administrar. ¶
Ele sabe como fazer as coisas. Sabe fazê-las com energia, com entusiasmo, com capacidade, com humildade, com profunda preocupação humana. Sabe respeitar seu próximo. Ele não fracassou. Viveu de acordo com a admoestação de "nunca deixar de dar aquilo que se tem a alguém que esteja em necessidade." ¶
Obediente a essa admoestação, meus jovens amigos, gostaria de compartilhar convosco aquilo que me veio por meio de testemunho e convicção. Compreendereis, e não interpretareis mal, se eu disser aquilo que conquistei por meio de convicção, pois é preciso conquistá-lo para recebê-lo: Primeiro, tendo sido tão recentemente chamado para representar-vos, os jovens, entre estes irmãos, digo-vos com seriedade que sustento as Autoridades Gerais da Igreja. Tenho trabalhado com eles de perto durante estes meses. Tenho visto humanidade, e tenho visto dedicação. ¶
Tenho visto trabalho, e tenho visto trabalho, e tenho visto trabalho. Tenho visto humildade, e tenho visto retidão. ¶
Sustento as Autoridades Gerais da Igreja. ¶
Então, meus jovens amigos, quando eu era um pouco mais jovem do que sou agora, pensava que devia vir a alguém que é chamado para ser uma Autoridade Geral da Igreja alguma convicção especial, alguma força interior especial que o edificasse, que o fortalecesse, e testifico-vos, meus jovens amigos, que ela existe. Digo-vos que sei que o evangelho é verdadeiro, e digo também que antes eu sabia que o evangelho era verdadeiro, mas agora eu sei. ¶
Testifico-vos que Jesus é o Cristo, que Ele vive, que Ele é uma realidade. Testifico que nosso Pai vive e nos ama e, como jovens, nos sustentará e nos apoiará, à medida que nos unirmos e estivermos dispostos a dar aquele dom que nos foi concedido àqueles que estão em necessidade, em nome de Jesus Cristo. ¶
Amém. ¶