Oro por Orientação Divina, ao...
Hugh B. Brown
Oro por orientação divina, ao empreender humildemente falar a esta vasta audiência. ¶
Que o Espírito Santo dite o que é dito, e então será a verdade, e que esse mesmo Espírito, que é o Espírito da verdade, acompanhe a palavra proferida para nossa edificação e bênção. ¶
Uma breve explicação de nossa interpretação e aceitação da mais fundamental de todas as doutrinas cristãs pode ajudar tanto amigos quanto membros a responder à pergunta recorrente: Os Santos dos Últimos Dias, ou Mórmons, são cristãos? ¶
Poderíamos, com proveito, e esperamos que com algum interesse, considerar a pergunta: O que significa ser cristão? O dicionário define cristão como aquele que segue os preceitos e o exemplo de Jesus Cristo, ou aquele cuja vida está conformada às doutrinas de Jesus de Nazaré. ¶
Ora, não podemos, é claro, discutir esta manhã, nem poderíamos sequer enumerar os vários princípios salvadores do evangelho de Cristo, mas há um acontecimento doutrinário que prenuncia e prevalece sobre toda a demais doutrina cristã. Refiro-me à expiação de Cristo, e parece apropriado, ao nos aproximarmos da época da Páscoa. "Cremos que, mediante a Expiação de Cristo, toda a humanidade pode ser salva, mediante a obediência às leis e ordenanças do Evangelho." ¶
(Terceiro Artigo de Fé.) A fé neste único acontecimento transcendente, o mais importante de toda a história, é o fundamento duradouro sobre o qual se ergue o verdadeiro evangelho cristão. Sobre ele repousa a salvação de toda a família humana. Aquele que compreende e aceita o pleno significado do sacrifício vicário de Jesus Cristo, e se conforma aos princípios e ordenanças que essa aceitação impõe, pode ser propriamente classificado como cristão. ¶
Mas deve haver mais do que mera obediência de lábios; a fé sozinha não basta. ¶
Jesus disse: "E assim, pelos seus frutos os conhecereis. ¶
"Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus." ¶
(Mateus 7:20-21.) O que se deve fazer para se tornar cristão, ou para ser salvo, é uma pergunta antiga e repetida com frequência, que foi respondida por Pedro, o apóstolo, no dia de Pentecostes, quando, através de seu poderoso sermão, o povo se convenceu e se compungiu em seus corações e clamou: "Varões irmãos, que faremos?" e o apóstolo disse: ". . . Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo." (Atos 2:38.) O perdão em termos de arrependimento é um princípio cristão básico. Mas alguém é salvo apenas por cumprir estas exigências preliminares? O Apóstolo Paulo, em uma de suas dinâmicas cartas, falando desses princípios, disse: ". . . prossigamos até a perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento das obras mortas, e da fé em Deus," ¶
(Hebreus 6:1.) E acrescenta que a obra de aperfeiçoar os Santos (o povo da Igreja em tempos antigos era conhecido como Santos) deve prosseguir "Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo:" ¶
(Efésios 4:13.) A salvação é um processo contínuo, progressivo. É um aperfeiçoar-se, um alcançar, um tornar-se eternos — sim, e um superar-se. De certa forma, pode ser análoga à educação, que é um processo contínuo de superação da ignorância. ¶
Quando um homem está educado? Quando um homem está salvo? Cremos que um homem se salva na exata medida em que adquire conhecimento, pois "a glória de Deus é inteligência." (Ver D&C 93:36.) Está um homem educado quando se matricula na faculdade, ou quando obtém seu bacharelado, seu mestrado ou doutorado? Sim, relativamente, é um homem instruído, mas ainda tem toda uma vida — na verdade, uma eternidade — em que buscar conhecimento e verdade. ¶
Os mais altos alcances da vida não passam de embrionários à luz da eternidade, e o homem tem toda razão para esperar que uma vida futura lhe proporcione plena oportunidade para uma realização maior e mais completa. ¶
Esta Igreja, que traz o nome de Cristo, tem, desde o início, ensinado uniformemente que a fé no Senhor Jesus Cristo é o primeiro princípio salvador do evangelho, mas, como diz o poeta, "O céu não se alcança de um único salto, mas construímos as escadas pelas quais nos erguemos, da terra humilde às abóbadas celestes, e ascendemos a seu cume degrau por degrau." ¶
A fé deve ser confirmada e demonstrada pela aceitação ativa de todos os demais princípios e ordenanças ensinados por aquele cujo nome está incorporado na palavra cristão. ¶
Não pretendemos compreender plenamente a expiação em todo o seu alcance ilimitado e infinita bênção; mas Deus revelou detalhes suficientes a respeito da necessidade, do propósito e da aplicação universal da expiação de Cristo para justificar a doutrina de que a ressurreição dos mortos está assegurada a todos os homens. ¶
João disse: "E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus; e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida: ¶
e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras." (Ap. 20:12.) A vida eterna e a exaltação, porém, possibilitadas pelo sacrifício vicário de Cristo, podem ser progressivamente alcançadas pela cooperação voluntária do homem com a vontade e o propósito divinos. Quando pensamos em qualquer reconciliação, apaziguamento ou acordo, consideramo-lo em conexão com algum ato ou acontecimento anterior do qual é sequência. Por exemplo, um tratado de paz é a sequência de uma guerra. A liquidação de uma reclamação ou de uma obrigação implica que houve uma conta com saldo devedor. Quando falamos da expiação realizada por Jesus Cristo, vislumbramos uma dívida não paga, uma transgressão precedente; algo a expiar. ¶
Todos os estudiosos da Bíblia que aceitam o Novo Testamento veem em sua expiação uma sequência da transgressão de Adão, geralmente conhecida como a Queda de Adão. Através da Queda, Adão e Eva e toda a sua posteridade tornaram-se sujeitos à desintegração corporal e à morte, e também ao banimento da presença de Deus, o que constitui uma espécie de morte espiritual, e isto apesar do fato de que a causa foi a transgressão individual. Pela expiação individual de Cristo, a livre redenção da transgressão de Adão está assegurada a todos. ¶
Paulo nos assegura que: ". . . a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. ¶
"Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também em Cristo todos serão vivificados." ¶
(1 Coríntios 15:21-22.) A transgressão de Adão, com todas as suas consequências, foi prevista e a expiação providenciada antes que os alicerces do mundo fossem lançados. Naquele concílio primevo, do qual falam as escrituras, quando "todos os filhos de Deus jubilavam" (ver Jó 38:7), Cristo ofereceu-se como resgate. ¶
Não foi coagido nem obrigado a fazer este sacrifício. Seu livre-arbítrio não foi de forma alguma cerceado ou tolhido. Foi uma oferta livre, inspirada pelo amor, que poderia ter sido retirada a qualquer momento. ¶
Foi opcional até o exato momento de sua crucificação. Repreendeu gentilmente Pedro, lembram-se, que o teria defendido com uma espada no momento da traição, e Jesus disse: "Ou pensas tu que não poderia eu agora orar a meu Pai, e ele me daria mais de doze legiões de anjos?" ¶
(Mateus 26:53.) A pergunta é às vezes feita: ¶
Por que um sacrifício tal, do amado Filho de Deus, foi permitido ou aceito? Por que não deixar que outro pagasse essa dívida? ¶
Por que não Adão? ¶
A resposta encontra-se no fato de que, entre todos os filhos de Deus, apenas Cristo poderia qualificar-se, pois foi o único homem sem pecado que já andou sobre a terra. ¶
Além disso, foi o Primogênito, o mais velho dos filhos de Deus no espírito, e o Unigênito na carne, e, portanto, o único que possuía os plenos poderes da Divindade e da humanidade. Ouçam-no referir-se àquela existência pré-mortal na mais bela oração já registrada, encontrada no capítulo 17 de João; ele orou: "E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse." ¶
(João 17:5.) Cristo foi o único inteiramente livre do domínio de Satanás, o único que possuía o poder de suspender a morte, e de morrer somente quando quisesse fazê-lo, o único que poderia vencer a morte. Ele disse: "Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim concedeu também ao Filho ter a vida em si mesmo;" (João 5:26.) E novamente: "Por isso o Pai me ama, porque dou a minha vida, para tornar a tomá-la. ¶
"Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la" (João 10:17-18.) A pergunta é ouvida às vezes: ¶
Por que Cristo se ofereceria voluntariamente a fazer este sacrifício? Qual foi o motivo que o inspirou e sustentou desde o momento daquele concílio no céu até o momento de seu clamor angustiado, "Está consumado"? (João 19:30.) A resposta a esta pergunta é dupla: primeiro, sua devoção inabalável à vontade de seu Pai. Ele disse: ". . . A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e consumar a sua obra." (Ibid., 4:34.) Em segundo lugar, foi seu supremo e abrangente amor pela humanidade, que, sem sua mediação, teria permanecido na total escuridão do desejo sem esperança por toda a eternidade. ¶
Como disse, muito bela e verdadeiramente, o falecido Presidente Taylor, falando da expiação: "A justiça foi desonrada? Não; ela foi satisfeita, a dívida está paga. A retidão se afastou? Não; este é um ato de retidão. Todas as exigências foram atendidas. O julgamento foi violado? Não; suas exigências foram cumpridas. ¶
A misericórdia triunfa? Não; ela simplesmente reclama o que é seu. Justiça, julgamento, misericórdia e verdade se harmonizam como os atributos da Divindade. 'A justiça e a verdade se encontraram, a retidão e a paz se beijaram.' A justiça e o julgamento triunfam tanto quanto a misericórdia e a paz;" (The Mediation and Atonement, edição de 1950, p. 167.) Qual seria a alternativa à expiação? E se não tivesse havido expiação? Se não tivesse havido expiação, todos os homens estariam condenados à morte eterna, pois, se Cristo não tivesse rompido seus laços, a morte teria sido vitoriosa. Todos os que morreram antes do Meridiano dos Tempos ainda estavam em seus túmulos quando Cristo saiu triunfante do sepulcro e rompeu os laços que os mantinham cativos. ¶
Mateus registra que: ". . . abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados, "E saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos." ¶
(Mateus 27:52-53.) Assim, ele se tornou as primícias dos que dormiam. Quando o Apóstolo Paulo compreendeu o pleno significado deste acontecimento sem precedentes, exclamou com alegria: "Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?" (1 Coríntios 15:55.) E Jesus confortou e reassegurou todas as Martas aflitas do mundo com estas palavras imortais: ". . . Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá: ¶
"E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. . . ." (João 11:25-26.) Mas a vitória sobre a morte não é o único benefício decorrente da expiação do Messias; sua expiação não apenas libertou todos os homens da morte eterna, mas, através da expiação, o perdão de nossos pecados individuais pode ser obtido. Ele tornou possível a nós, através da fé, do arrependimento e da retidão contínua, obtermos absolvição dos efeitos dos pecados pessoais. Ninguém obtém o pleno benefício da expiação simplesmente reconhecendo-a. ¶
Os homens não podem ser salvos em seus pecados, porque, por decreto divino, coisa alguma impura pode entrar no reino dos céus; contudo, através do arrependimento, do batismo e do poder do Espírito Santo, os homens podem ser salvos de seus pecados. ¶
Nenhum homem pode, por um único ato, por maior ou mais sincero que seja, livrar-se da necessidade daquela "perseverança paciente em fazer o bem" da qual fala Paulo. Deve ainda seguir o Mestre e perseverar até o fim. Jesus ensinou clara e impressivamente esta verdade ao jovem que veio a ele dizendo: ¶
". . . Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? ¶
"E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus; se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. ¶
"Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; "Honra teu pai e tua mãe: ¶
e amarás o teu próximo como a ti mesmo. ¶
"Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade: que me falta ainda? ¶
"Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me." (Mateus 19:16-21.) Portanto, não basta apenas guardar os mandamentos ou obedecer à lei, nem sequer vender tudo e dar aos pobres. A exigência final é seguir o Mestre. O poeta nos faz cantar: ¶
"Jesus, tomei minha cruz, para tudo deixar e seguir-te; "Nu, pobre, desprezado, abandonado, tu, desde já, serás o meu tudo. ¶
"Que pereça toda ambição vã, tudo o que pensei, esperei ou conheci; "No entanto, quão rica é minha condição, Deus e o Céu ainda são meus!" ¶
Que todos os homens são pecadores em graus variados é repetidamente afirmado no Novo Testamento. Paulo escreveu aos Romanos: "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;" (Romanos 3:23.) E João acrescenta: "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós." (1 João 1:8.) Pedro disse: "E vós também, pondo nisso mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude, o conhecimento, "E ao conhecimento, temperança; e à temperança, paciência; e à paciência, piedade; "E à piedade, amor fraternal; e ao amor fraternal, caridade. ¶
"Porque se em vós houver e abundarem essas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo." ¶
(2 Pedro 1:5-8.) Que as bênçãos da expiação hão de ser disponibilizadas não apenas a todos os que viveram antes do tempo de Cristo, mas também a todos os que morrem sem oportunidade de ouvir o evangelho, é evidenciado pela declaração de Pedro: "Porque para isso foi o evangelho pregado também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, porém vivessem segundo Deus em espírito." (1 Pedro 4:6.) O próprio Salvador confirma isso assim: "Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus: e os que a ouvirem viverão." ¶
(João 5:25.) Em resposta, então, à pergunta do que significa ser cristão e se somos cristãos, respondemos que as doutrinas que ensinamos são cristãs por todo teste da escritura e da revelação. ¶
Na prática, confessamos que muitas vezes ficamos aquém. ¶
Contudo, esforçamo-nos sinceramente por trazer nossas vidas em plena harmonia com suas leis e, assim, tornarmo-nos merecedores das plenas bênçãos da expiação, e nos tornarmos progressivamente melhores cristãos. ¶
Nenhum de nós se justifica ao orar como orou o fariseu de antigamente: "Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens. . . ." (Lucas 18:11.) Não há espaço na verdadeira vida cristã para uma atitude de "mais santo do que tu". Cada um que afirma ser cristão poderia, com mais graça, orar como orou o publicano: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador." (Ibid., 18:13.) Humildemente damos testemunho de que Deus é uma realidade; ele é pessoal e é nosso Pai; que Jesus de Nazaré é o Redentor e Salvador do mundo; que o evangelho de Jesus Cristo foi restaurado à terra; e desejamos que todos os homens pudessem ouvir e aceitar essa mensagem. ¶
Como disse Pedro, em resposta à pergunta do Salvador, "Quem dizeis vós que eu sou?" ¶
dizemos com ele: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." (Ver Mat. ¶
16:15-16.) Que Deus esteja convosco até nos reencontrarmos, oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶