Pulpit

Nuvens Pairavam Sobre o Horizonte Oriental...

David O. McKay

1961 October General Conference·First Day Morning Meeting·1961-09-29

PRESIDENTE DAVID O. McKAY

Nuvens pairavam sobre o horizonte oriental nesta manhã. Quando encontrei meus colegas, notei que alguns deles traziam consigo seus sobretudos, mas tenho o prazer de ver o sol brilhando na abertura desta grande conferência. Há muitos no mundo que também veem, pairando sobre o horizonte internacional, nuvens ameaçadoras. Há tempestades pela frente!

Sou levado por essas perspectivas a tomar como texto para as poucas palavras que direi nesta manhã um pensamento animador do Salmo trinta e um: "Sede corajosos, e ele fortalecerá o vosso coração, vós todos que esperais no Senhor." (Salmos 31:24.)

Sessenta ou setenta anos atrás, quando a história dos Estados Unidos era um curso essencial no ensino público elementar, muitos meninos se emocionavam com a declaração dramática de Patrick Henry: "É a vida assim tão querida, ou a paz tão doce, a ponto de serem compradas ao preço de correntes e escravidão? Que o Deus Todo-Poderoso o proíba! Não sei que rumo os outros possam tomar; mas, quanto a mim, dai-me liberdade ou dai-me morte!" Patrick Henry era, então, delegado à Segunda Convenção Revolucionária realizada em Richmond, Virgínia, em 23 de março de 1775.

O Criador, que deu vida ao homem, plantou em seu coração a semente da liberdade. O livre-arbítrio, assim como a vida, é um dom de Deus. "Desejais ser livres? Então, acima de tudo, amai a Deus, amai o vosso próximo, amai-vos uns aos outros, amai o bem comum; então tereis a verdadeira liberdade." (Savonarola.)

No sábado passado, 23 de setembro de 1961, temendo serem privadas desse direito inalienável, duas mulheres — uma de cinquenta e sete anos e outra de sessenta e três — saltaram de um prédio de apartamentos em Berlim Oriental, de frente para uma rua de Berlim Ocidental. Bombeiros de Berlim Ocidental as apararam numa rede de segurança, enquanto a polícia comunista [Vopos] observava sem atirar.

"A polícia de Berlim Ocidental informou que outra família, numa casa na fronteira, se preparava para saltar nas redes dos bombeiros quando as luzes de seu apartamento subitamente se apagaram."

A imprensa local nos conta que "quando as luzes voltaram a acender, os berlinenses ocidentais viram que o apartamento estava cheio de Vopos [policiais]. Não havia sinal dos que pretendiam fugir." (Deseret News-Salt Lake Telegram, 23 de setembro de 1961.)

Um funcionário de Berlim Ocidental disse que o maior número de refugiados já registrado num único dia foi de 3.793 pessoas que fugiram para Berlim em 28 de maio de 1953. Informa-se que as novas chegadas em 1961 (este ano) elevaram para quase 20.000 o número de refugiados que fugiram da Alemanha Oriental durante o mês de agosto. Mais de 150.000 pessoas em busca de liberdade da dominação comunista cruzaram a fronteira até agora este ano — 150.000! (Vide Ibid., 12 de agosto de 1961.)

Em contraste com o domínio bárbaro do Estado comunista, do qual essas pessoas fogem às centenas de milhares, chamo esta manhã a vossa atenção para o espírito amante da liberdade da América. Na Ilha de Bedloe, no porto de Nova Iorque, ergue-se a Estátua da Liberdade — um presente do povo francês ao povo americano. Israel Zangwill, em O Cadinho, dá as palavras ditas por David, o judeu emigrante russo, da seguinte forma:

"Durante toda a minha vida, a América esperava, acenava, brilhava — o lugar onde Deus enxugaria as lágrimas de todos os rostos. Pensar que a mesma grande tocha da Liberdade que lançava sua luz por todos os mares e terras até o meu pequeno sótão na Rússia agora também brilha para todos aqueles outros milhões que choram na Europa, brilhando onde quer que os homens tenham fome e sejam oprimidos, brilhando sobre as aldeias famintas da Itália, da Irlanda, sobre as cidades fervilhantes e famintas da Polônia e da Galícia, sobre as fazendas arruinadas da Romênia, sobre os escombros da Rússia. Quando olho para a nossa Estátua da Liberdade, parece-me ouvir a voz da América clamando: 'Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso.'"

Na edição de setembro de 1961 de Highways to Happiness, um pequeno panfleto que muitos de vós recebem, apreciei o comentário oportuno que, e passo a citar:

"A América é uma terra de um único povo, reunido de muitas nações. Alguns vieram por amor ao dinheiro, e alguns vieram por amor à liberdade. Seja qual fosse o engodo que os trouxe aqui, cada um deu o seu dom. Rapaz irlandês e escocês, inglês e holandês, italiano, grego e francês, espanhol, eslavo, teutônico, nórdico — todos vieram trazendo dons, e os depositaram sobre o altar da América.

"Todos trouxeram música, e seus instrumentos para fazer música.

"Todos trouxeram sua poesia, contos alados das muitas paixões do homem; baladas de heróis e melodias do mar; fragmentos cadenciados colhidos do céu e do campo, ou grandiosos dramas que contam as lutas primordiais do mais profundo significado.

"Depois, cada um trouxe algumas coisas caseiras, algum toque do campo ou da floresta familiar, da cozinha ou do vestuário — uma árvore ou fruta predileta, uma flor costumeira, um estilo de culinária ou de trajes — cada um trouxe alguma coisa familiar e caseira.

"O ódio entre antigos vizinhos, os preconceitos e ambições nacionais, os temores tradicionais, os padrões de vida estabelecidos, a intolerância sem graça, os privilégios de classe e as exigências de classe — esses foram barrados nos portões.

"No altar da América, juramos a nós mesmos uma lealdade simples. Comprometemo-nos a sacrificar-nos e a lutar, a planejar e a trabalhar por esta única terra. Demos, para que pudéssemos ganhar; renunciamos, para que pudéssemos ter a vitória!"

Há uma referência significativa no Apocalipse a "uma guerra no céu." (Vide Apocalipse 12:7.) Não é apenas significativa, mas também aparentemente contraditória, pois pensamos no céu como uma morada celestial de bem-aventurança, uma condição impossível em que a guerra e a contenda poderiam existir. A passagem é significativa na medida em que estabelece o fato de que há liberdade de escolha e de ação no mundo espiritual. Essa contenda no céu surgiu do desejo de Satanás ". . . de destruir o arbítrio do homem, que eu, o Senhor, lhe dera . . ." (Moisés 4:3.)

A liberdade de pensamento, a liberdade de expressão, a liberdade de ação dentro de limites que não infrinjam a liberdade de outrem são direitos inerentes do homem, concedidos por seu Criador — dons divinos "essenciais à dignidade humana e à felicidade humana."

"Animai-vos, portanto, os vossos corações," admoestou um profeta antigo no Livro de Mórmon, "e lembrai-vos de que sois livres para agir por vós mesmos — . . ." (2 Néfi 10:23.)

"Este amor à liberdade que Deus plantou em nós," disse Abraham Lincoln, "constitui o baluarte de nossa liberdade e independência. Não são as nossas ameaçadoras fortificações, as nossas costas eriçadas de canhões, o nosso exército e a nossa marinha. Nossa defesa está no espírito que preza a liberdade como herança de todos os homens, em todas as terras, em todos os lugares. Destruí esse espírito, e teremos plantado as sementes do despotismo bem à nossa porta."

Irmãos, o oposto da liberdade é a servidão, a subserviência, a restrição — condições que inibem a mente, sufocam o espírito e esmagam a virilidade. Coagir, compelir, reduzir à servidão é o plano de Satanás para a família humana.

Ao longo da história do mundo, o homem tem lutado até a morte para libertar-se da servidão e da usurpação, ou para conservar a liberdade que já possuía. Isso é particularmente verdadeiro quanto ao direito de adorar. As tentativas de controlar a consciência dos homens sempre resultaram em conflito. Decidir a própria relação com o Criador e com as suas criações é o direito natural e inalienável de todos.

Igualmente fundamentais e importantes para a felicidade e o progresso do homem são o direito à segurança pessoal, o direito à liberdade pessoal e o direito à propriedade privada. O direito à segurança pessoal consiste no gozo da vida, dos membros, do corpo, da saúde e da reputação. A vida, sendo o dom imediato de Deus, é um direito inerente por natureza a cada indivíduo. Da mesma forma, o homem tem um direito natural e inerente aos seus membros. Sua liberdade pessoal consiste no direito de mudar de situação ou de morada segundo a sua vontade. O direito à propriedade consiste no uso livre, no gozo e na disposição de todas as aquisições, sem controle ou diminuição, salvo pelas leis da terra. O direito à propriedade privada é sagrado e inviolável. Se qualquer parte dessas posses individuais inalienáveis for requerida pelo Estado, só deve ser cedida com o consentimento do povo.

Quando o Rei João da Inglaterra, a quem Dickens chama de "um covarde e detestável vilão," privou seus súditos de suas liberdades e destruiu impiedosamente suas propriedades pelo fogo, o povo se levantou contra ele, levou-o a Runnymede e o obrigou, na segunda-feira, 15 de junho de 1215, a apor sua assinatura à Grande Carta da Inglaterra, pela qual, entre outras coisas, ele se comprometia "a manter a Igreja em seus direitos, a não aprisionar homem algum sem um julgamento justo, e a não vender, retardar ou negar justiça a ninguém."

Quinhentos e cinquenta anos depois, as colônias americanas, imbuídas do espírito que produziu a Magna Carta, declararam:

"Como a felicidade do povo é o único fim do governo, assim também o consentimento do povo é o único fundamento dele, na razão, na moral e na natural conveniência das coisas. E, portanto, todo ato de governo, todo exercício de soberania contra ou sem o consentimento do povo é injustiça, usurpação e tirania. É uma máxima que, em todo governo, deve existir em algum lugar um poder supremo, soberano, absoluto e incontrolável; e ele nunca foi, nem pode ser, delegado a um só homem ou a poucos; pois o grande Criador jamais deu aos homens o direito de investir outros de autoridade sobre eles, ilimitada em duração ou em grau.

"Quando reis, ministros, governadores ou legisladores, portanto, em vez de exercerem os poderes a eles confiados segundo os princípios, as formas e as proporções estabelecidos pela Constituição, e fixados pelo pacto original, prostituem esses poderes aos propósitos da opressão; em vez de preservarem, subvertem as vidas, as liberdades e as propriedades do povo — não devem mais ser considerados magistrados investidos de caráter sagrado, mas se tornam inimigos públicos, e devem ser resistidos." (Adams, Works, I, p. 193.)

Meus irmãos e irmãs, o propósito último do cristianismo no mundo é desenvolver um indivíduo honrado e íntegro, numa sociedade ideal conhecida como o reino de Deus.

Quase dois mil anos se passaram, e o mundo ainda está muito longe de alcançar qualquer uma dessas realizações. Na verdade, hoje o próprio cristianismo, e sua auxiliar, a Democracia, estão sendo julgados perante o tribunal mundial. As condições deste mundo dilacerado pela guerra parecem testemunhar que os homens estão sempre aprendendo, mas nunca chegam ao conhecimento da verdade.

Embora o verdadeiro cristianismo, expresso na lei divina, ". . . amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento . . . e ao teu próximo como a ti mesmo," (Mateus 22:37, 39) ainda não tenha sido aceito e praticado pelas nações do mundo, o Espírito de Cristo tem, como fermento na massa, influenciado a sociedade rumo à realização da liberdade, da justiça e de uma melhor harmonia nas relações humanas.

No mundo de hoje, contudo, o espírito do paganismo voltou a se afirmar e parece estar quase triunfante em seu esforço de derrubar os poucos ideais cristãos que os povos civilizados absorveram.

"Se a civilização ocidental sair a salvo das situações existentes, isso só ocorrerá por meio de uma apreciação mais profunda — notai bem isto — por meio de uma apreciação mais profunda da ética social de Jesus do que a que tem demonstrado até agora. E nosso perigo é maior, não menor, por causa da falsa segurança em que vivem as nossas massas."

Apreciar meramente a ética social de Jesus, contudo, não é suficiente. É necessário que o coração dos homens seja transformado. Em vez do egoísmo, os homens devem estar dispostos a dedicar sua capacidade, seus bens — se necessário, sua vida, sua fortuna e sua honra sagrada — para o alívio dos males da humanidade. O ódio deve ser substituído pela simpatia e pela tolerância.

A força e a compulsão jamais estabelecerão a sociedade ideal. Isso só pode vir de uma transformação dentro da própria alma — uma vida trazida à harmonia com a vontade divina. Precisamos "nascer de novo."

Embora quase 2.000 anos tenham se passado desde que Jesus ensinou o evangelho da fraternidade, parece tão difícil para os homens de hoje quanto o foi nos dias de Cristo crer que a paz e a verdade só podem vir conformando nossa vida à lei do amor. Os homens ainda encontram a maior dificuldade em aceitar este núcleo central dos ensinamentos de Cristo.

Manifestamente, através dos séculos não tem havido muita cessação da inumanidade do homem para com o homem. Não obstante, creio que o direito e a verdade acabarão por triunfar.

Hoje, ao vermos pairar sobre as nações da Terra as nuvens cada vez mais escuras da guerra nuclear, somos levados a pensar que a retidão entre os homens está diminuindo. Em nosso próprio país amado, "uma terra escolhida acima de todas as outras terras," ficamos entristecidos e chocados quando a Suprema Corte profere uma decisão declarando inconstitucional que o Governo Federal ou qualquer Estado exija a "crença na existência de Deus" como qualificação para cargo público; também sentimos apreensão ao sabermos que os inimigos de nossa forma republicana de governo estão se tornando mais ousados; quando vemos demagogos políticos aparentemente cada vez mais bem-sucedidos, a embriaguez e a imoralidade desafiadoramente ostensivas — vendo essas condições, perguntamo-nos se a humanidade está se tornando melhor ou pior. Na vida privada, as decepções, a adversidade, a doença e a tristeza nos desanimam e, por vezes, nos desalentam.

Ainda assim, tenho confiança de que a verdade há de prevalecer, e nessa confiança, digo novamente com o Salmista: "Sede corajosos, e ele fortalecerá o vosso coração, vós todos que esperais no Senhor." (Salmos 31:24.)

Podemos tomar coragem naquilo que creio ser um fato: que no coração de mais milhões de homens e mulheres honestos do que nunca a guerra é abominável. A guerra perdeu seu falso brilho e sua alardeada glória. Essa atitude, ao menos, mantém viva a nossa esperança de que amanheça o dia em que os homens ". . . converterão as suas espadas em enxadões, e as suas lanças em foices; não alçará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerrear." (Isaías 2:4.)

Como é totalmente insensato que os homens briguem, lutem e causem miséria, destruição e morte, quando os dons de um Pai Divino e Amoroso estão ao nosso redor, bastando pedi-los — já estão em nossa posse, se apenas os reconhecêssemos. O convite de Cristo ainda se estende a todos os povos:

"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.

"Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para a vossa alma.

"Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve." (Mateus 11:28-30.)

Estou tão certo quanto de que estou falando convosco de que a paz e a felicidade da humanidade residem na aceitação de Jesus Cristo como o Redentor do mundo, nosso Salvador. Assim como Pedro declarou há mais de 1900 anos, também eu testifico ao mundo hoje que não há "debaixo do céu nenhum outro nome dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." (Atos 4:12.)

Os princípios do evangelho restaurado, tal como revelados ao Profeta Joseph Smith, são o guia mais seguro e confiável para o homem mortal. Cristo é a luz da humanidade. Nessa luz, o homem vê claramente o seu caminho. Quando ela é rejeitada, a alma do homem tropeça nas trevas. Nenhuma pessoa, nenhum grupo, nenhuma nação pode alcançar o verdadeiro êxito sem seguir aquele que disse:

"Eu sou a luz do mundo: quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida." (João 8:12.)

É triste quando indivíduos e nações extinguem essa luz — quando Cristo e seu evangelho são substituídos pela lei da selva e pela força da espada. A grande tragédia do mundo no momento presente é sua descrença na bondade de Deus, e sua falta de fé nos ensinamentos e doutrinas do evangelho.

Para todos os que creem num Deus vivo e pessoal e em sua verdade divina, a vida pode ser tão deliciosa e bela.

Na verdade, é glorioso simplesmente estar vivo. A alegria, e até o êxtase, podem ser experimentados na consciência da existência. Há suprema satisfação em sentir a própria individualidade e em perceber que essa individualidade é parte do grande plano criativo de Deus. Não há ninguém tão pobre, ninguém tão rico, doente ou aleijado, que não possa ter consciência dessa relação.

Sei que, para não poucos de nós, a verdadeira alegria de viver fica encoberta por provações, fracassos, preocupações e perplexidades ligadas ao ganhar a vida e à tentativa de alcançar o êxito. Olhos turvados de lágrimas ficam, muitas vezes, cegos às belezas que nos cercam. A vida às vezes parece um deserto árido e ressecado, quando, na realidade, há conforto, e até felicidade, ao nosso alcance, se apenas pudéssemos, ou quiséssemos, estender a mão para alcançá-los.

O Senhor nos deu a vida e, com ela, o livre-arbítrio; e a vida eterna é o seu maior dom ao homem.

À Igreja em todo o mundo, a mensagem da Primeira Presidência, do Conselho dos Doze e das demais Autoridades Gerais é: Sede verdadeiros e leais ao evangelho restaurado de Jesus Cristo. "Sede corajosos, e ele fortalecerá o vosso coração, vós todos que esperais no Senhor." (Salmos 31:24.)

Que Deus nos ajude a sermos assim verdadeiros, é o que peço, em nome de Jesus Cristo. Amém.

Como citar este discursoDavid O. McKay, “Nuvens Pairavam Sobre o Horizonte Oriental...”, 1961 October General Conference, First Day Morning Meeting (1961-09-29). Pulpit Vault, 1961-10-mckay-clouds-hung-over. Tradução desta edição, por método de glossário, archive.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).