Há um Conceito Crescente Entre os...
Howard W. Hunter
Há um conceito crescente entre os homens do mundo de que a religião é algo reservado para o dia de sábado, ou para a hora passada em lugares de adoração ou em oração. Os homens distinguem entre os assuntos cotidianos que ocupam suas mentes e dirigem suas atividades no atarefado mundo dos negócios, e aquelas coisas dentro do domínio da teologia. "Não misture religião com negócios", dizem alguns. Pode a religião ser eliminada dos assuntos da vida cotidiana? ¶
Como cristãos, suponho que poderíamos definir a religião como uma crença em Deus e uma devoção a ele, crença essa que estimula um amor por Deus e um desejo de servi-lo. ¶
Tiago disse: "Se alguém entre vós supõe ser religioso, e não refreia a sua língua, mas engana o seu coração, a religião desse é vã. ¶
"A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se imaculado do mundo." (Tiago 1:26-27.) Em outras palavras, a religião é mais do que um conhecimento de Deus ou uma confissão de fé, e é mais do que teologia. ¶
A religião é o fazer da palavra de Deus. É ser, entre outras coisas, guardião de nosso irmão. Guardar-se imaculado do mundo não significa que se deva retirar-se de todo convívio com o mundo, mas antes manter-se afastado dos males do mundo; ou, como está mais lindamente expresso em um de nossos hinos, "Livre das manchas da terra." ¶
Podemos ser religiosos na adoração no dia de sábado, e podemos ser religiosos em nossos deveres nos outros seis dias da semana. O Apóstolo Paulo, escrevendo aos que foram chamados "santos" em Corinto, declarou: ¶
"De sorte que, quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus." (1 Coríntios 10:31.) Se coisas tão pequenas como comer e beber devem ser feitas para a glória de Deus, quanto mais importante deve ser que todos os nossos pensamentos, as palavras que falamos, ou atos, conduta, relações com os vizinhos, transações comerciais e todos os nossos assuntos cotidianos estejam em harmonia com nossas crenças religiosas. Nas palavras de Paulo, "fazei tudo para a glória de Deus." (Idem.) Podemos, portanto, eliminar a religião de nossos assuntos dos dias úteis e relegá-la apenas ao dia de sábado? Certamente não, se seguirmos a admoestação de Paulo. ¶
A religião pode fazer parte de nosso trabalho diário, de nossos negócios, de nossas compras e vendas, construção, transporte, manufatura, nosso ofício ou profissão, ou de qualquer coisa que façamos. Podemos servir a Deus com honestidade e trato justo em nossas transações comerciais, da mesma forma que fazemos na adoração dominical. Os verdadeiros princípios do cristianismo não podem estar separados e apartados dos negócios e de nossos assuntos cotidianos. ¶
A religião é, com frequência, vista como oposta ao prazer, mas a razão de Deus para criar o homem é que este possa ter alegria. ¶
"Adão caiu para que os homens existissem; e os homens existem para que tenham alegria." ¶
(2 Néfi 2:25.) Não há razão para que a alegria seja posta para fora antes que a religião possa entrar. Muitas pessoas imaginam a pessoa religiosa como alguém de semblante triste e vestida de preto, mas não é assim. Quando o anjo do Senhor apareceu aos pastores para anunciar o nascimento do Salvador, ele disse: ¶
". . . Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo." (Lucas 2:10.) O próprio Cristo disse: ¶
". . . eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância." (João 10:10.) A alegria existia na pré-existência, antes que os alicerces da terra fossem lançados, ". . . e todos os filhos de Deus jubilavam." (Jó 38:7.) Pedro, em sua epístola, falando da aparição de Jesus Cristo, disse: ¶
". . . não o vendo agora, porém crendo, exultais com alegria inefável e gloriosa:" (1 Pedro 1:8.) Não há nada triste ou sombrio em uma pessoa que aceita as verdades do evangelho e incorpora esses princípios em seu viver diário. Deus quer que todos os seus filhos sejam alegres e contentes, e podemos ter essa bênção se estivermos dispostos a guardar seus mandamentos e a viver por sua palavra em tudo o que fazemos. Assim, viver a própria religião deve aplicar-se aos assuntos temporais tanto quanto àquelas coisas que consideramos espirituais. ¶
Há alguns que perguntam por que a Igreja se preocupa com assuntos temporais. A Igreja se interessa pelo bem-estar de cada um de seus membros. Esse interesse, portanto, não pode se limitar apenas às necessidades espirituais do homem, mas se estende a cada fase de sua vida. As necessidades sociais e econômicas são importantes para todos. O homem também tem necessidade de orientação física, mental e moral. Nossas vidas não podem ser unilaterais, nem podemos separar o espiritual do temporal. O Senhor disse: ¶
"Portanto, em verdade vos digo que todas as coisas são espirituais para mim e em tempo algum vos dei uma lei que fosse terrena; nem a homem algum nem aos filhos dos homens nem a Adão, vosso pai, a quem criei. ¶
"Eis que lhe permiti que fosse seu próprio árbitro; e dei-lhe mandamentos, mas nenhum mandamento terreno lhe dei, porque meus mandamentos são espirituais; eles não são naturais nem físicos nem carnais nem sensuais." (D&C 29:34-35.) O Senhor não faz distinção entre mandamentos temporais e espirituais, pois disse que todos os seus mandamentos são espirituais. Quando entendemos o plano de vida e salvação, isso se torna evidente para nós. ¶
A mortalidade é apenas uma parte de nossa vida eterna. ¶
Sabemos de onde viemos. As sagradas escrituras nos dizem que nascemos filhos espirituais de nosso Pai Celestial, que habitamos com ele em uma existência espiritual antes de nosso nascimento na mortalidade. O objetivo divino de nossa vinda à terra é obter um corpo de carne e ossos, aprender, pelas experiências que nos advêm nesta vida mortal, a diferença entre o bem e o mal, e realizar aquelas coisas que o Senhor ordenou. Assim, esta vida é a sala de aula de nossa jornada pela eternidade. Há trabalho a fazer e lições a aprender, para que possamos preparar-nos e qualificar-nos para entrar na existência espiritual que se seguirá. ¶
O homem distingue entre o temporal e o espiritual, provavelmente porque, vivendo na mortalidade entre a pré-existência espiritual e a vida espiritual futura, ele deixa de reconhecer o pleno significado de suas atividades durante os anos que passa na terra. Para o Senhor, tudo é ao mesmo tempo espiritual e temporal, e as leis que ele dá são, consequentemente, espirituais, porque dizem respeito a seres espirituais. ¶
Cada fase de nossa vida, portanto, torna-se preocupação da Igreja. ¶
O grande programa de bem-estar da Igreja demonstra este princípio. A Igreja se interessa por nossas necessidades sociais e recreativas, educacionais, pela vida familiar, por nossos assuntos comerciais e por tudo o que fazemos. ¶
Não há como separarmos as atividades de adoração no dia de sábado das muitas ocupações dos dias úteis, chamando uma de religiosa e a outra de temporal. Ambas são espirituais. Deus assim as ordenou, pois consistem em nossos pensamentos e ações à medida que trilhamos nosso caminho por esta parte da eternidade. ¶
Assim, nossas transações comerciais, nossos trabalhos diários, nosso ofício ou profissão, ou o que quer que façamos, tornam-se parte de viver o evangelho. ¶
Isso nos impõe um elevado dever e uma elevada responsabilidade. Se todos os homens vivessem em obediência a esses princípios em sua vida diária e em suas relações uns com os outros, e se esse mesmo código prevalecesse entre aqueles que estão em posição de liderança entre os povos e nações do mundo, a retidão prevaleceria, a paz retornaria, e as bênçãos do Senhor seriam derramadas sobre seus filhos. ¶
O viver reto deve começar na vida dos indivíduos. Cada um de nós tem o dever. Deve ser incorporado à vida familiar. Os pais têm a responsabilidade de viver esses princípios e ensiná-los a seus filhos. A religião deve fazer parte de nosso viver. O evangelho de Jesus Cristo deve tornar-se a influência motivadora em tudo o que fazemos. É preciso haver mais esforço interior para seguirmos o grande exemplo dado pelo Salvador, se quisermos tornar-nos mais semelhantes a ele. Este se torna nosso grande desafio. ¶
Nossa oração diária poderia bem ser expressa nas palavras do hino: ¶
"Mais santidade dá-me, Mais força para vencer; Mais livre das manchas da terra, Mais saudade do lar; Mais apto para o reino, Mais útil eu seria; Mais bendito e mais santo, Mais, Salvador, como tu." ¶
Testifico que Jesus é o Cristo, o Salvador do mundo. Se ao menos pudéssemos captar a visão e conformar nossa vida a seus ensinamentos, encontraríamos aquela alegria que nos foi prometida. Em tudo o que comermos ou bebermos, ou em tudo o que fizermos, que tudo seja feito para a glória de Deus, oro humildemente, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶