No Décimo Nono Capítulo de João Lemos...
Howard W. Hunter
No décimo nono capítulo de João lemos a história de um homem influente que era secretamente discípulo de Cristo, mas que, por medo, não era discípulo abertamente. Aqueles que se declaravam seguidores de Cristo não eram populares em Jerusalém durante esse período de controvérsia. José de Arimateia era secretamente discípulo, mas seu medo do que os outros pudessem pensar ou fazer o impediu de declarar sua lealdade até depois da crucificação do Mestre. ¶
José de Arimateia era homem de riqueza e posição em Jerusalém. Podemos supor que tinha um vasto círculo de relações e era homem de influência. Era membro do Sinédrio, a assembleia de setenta e um homens que constituía o supremo conselho da aristocracia e que administrava a lei judaica. Foi por causa de sua participação neste tribunal que ele era chamado de "conselheiro". Marcos refere-se a ele como "... honrado membro do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus, . . ." ¶
(Marcos 15:43.) Ele permaneceu em segundo plano, nada fazendo para apoiar ou sustentar o Mestre. Sem dúvida ele ouvira Jesus e escutara seus ensinamentos, pois nos é dito que era discípulo secreto do Salvador. ¶
Quando o conselho foi convocado a reunir-se de manhã cedo, após a Última Ceia e a traição, José ausentou-se do conselho ou recusou-se a votar. Não tomou parte nas deliberações, esperando, sem dúvida, salvar sua própria consciência. Ele não levantaria um dedo para condenar o Salvador, nem tampouco o defenderia abertamente. ¶
Há muitos como José de Arimateia, que não declaram lealdade ao Senhor Jesus Cristo, mas apenas "esperam o reino". Como José, são seguidores secretos de Jesus e cristãos mornos e indecisos. Os discípulos secretos de Cristo estão quase na mesma categoria dos que são antagônicos. São muito semelhantes às pessoas, entre nós hoje, que têm apenas um interesse indeciso por nosso grande modo de vida democrático, e que são tão perigosas para a futura liberdade do mundo quanto aquelas que abertamente se declaram a destruir a democracia. ¶
Teríamos maior respeito por José se ele tivesse tomado uma posição firme no conselho e defendido Jesus. Não podemos supor que isso teria mudado o julgamento ou salvo o Mestre da cruz, pois ele próprio declarou, na ceia, que em breve os deixaria. ¶
Não obstante, temos respeito por aquele que se firma em suas convicções morais e defende o que é certo. ¶
Temos mais respeito por aquele que honestamente duvida do que por aquele que teme declarar sua lealdade. Tomé duvidou. Ele percorreu o caminho da fé, pelo vale da dúvida, até novas alturas de fé. ¶
Este é o rumo que muitos seguem na vida. Quando crianças, aceitávamos como fato as coisas que nos eram ditas por nossos pais ou professores, por causa da confiança que neles depositávamos. Um menininho saltará de um lugar alto sem medo se seu pai lhe disser que o apanhará. O pequenino tem fé de que seu pai não o deixará cair. À medida que as crianças crescem, começam a pensar por si mesmas, a questionar e a ter dúvidas a respeito das coisas que não estão sujeitas a prova tangível. ¶
Tenho simpatia pelos rapazes e moças quando dúvidas honestas lhes entram na mente e eles se envolvem no grande conflito de resolver essas dúvidas. Essas dúvidas podem ser resolvidas, se tiverem o desejo honesto de conhecer a verdade, mediante o exercício de esforço moral, espiritual e mental. Eles emergirão do conflito com uma fé mais firme, mais forte e mais ampla, por causa da luta. Passaram de uma fé simples e confiante, através da dúvida e do conflito, para uma fé sólida e substancial que amadurece em testemunho. ¶
A Bíblia está repleta de exemplos como esse. ¶
Pensamos em Abraão, no Antigo Testamento, e em Tomé, na época de Cristo. ¶
Voltando agora a José de Arimateia, o registro não nos indica que ele duvidasse como Tomé duvidou. Sabemos que ele era "... discípulo de Jesus, mas oculto, por medo. . . ." (João 19:38.) Ele acreditava secretamente porque temia a opinião pública. Entre o nosso próprio povo, em nossas comunidades, em nossa nação e em todo o mundo, há seguidores secretos de Jesus e cristãos indecisos — espectadores que assumem uma atitude de não se comprometer. Por que será que tantos não se comprometem? ¶
José de Arimateia era apenas discípulo secreto por causa do que os outros pensariam dele. Ele não arriscaria sua posição social nem o respeito de seus associados. É o medo que faz os homens se absterem de um compromisso. Eles têm medo de declarar sua lealdade e assumir responsabilidade ativa. O caminho fácil é deixar que outro seja o líder e assuma a responsabilidade. O mundo precisa de homens dispostos a dar um passo à frente e declarar-se. O mundo precisa de homens que ponham sobre os próprios ombros o peso da responsabilidade e o carreguem bem alto sob a bandeira de Jesus Cristo — homens dispostos a defender abertamente o que é certo. Sinto-me sempre impressionado com os missionários desta Igreja. Estão dispostos a aceitar o chamado para servir dois anos ou mais, às suas próprias custas, e a dar livremente de seu tempo, sem remuneração monetária, para clamar arrependimento e declarar que Jesus é o Cristo. ¶
Este é o tipo de devoção a princípios de que o mundo precisa hoje. ¶
Como podem os homens de consciência ignorar os ensinamentos do Mestre em seus afazeres cotidianos, nos negócios ou no governo? ¶
Ficamos parados e fechamos os olhos a muitas coisas porque temos medo de fazer algo a respeito. Podemos ser contra o crime ou o comunismo, mas o que fazemos a respeito? ¶
Podemos ser contra a corrupção no governo ou contra a delinquência juvenil, mas o que fazemos a respeito? Podemos crer no evangelho de Jesus Cristo, mas o que estamos fazendo a respeito? ¶
Precisamos relegar o medo a segundo plano e apresentar-nos com uma declaração definida e positiva, e assumir a responsabilidade. ¶
O caminho para a exaltação está bem definido. Diz-se-nos que tenhamos fé — fé no Senhor Jesus Cristo — e que nos arrependamos daquilo que não está de acordo com seus ensinamentos. Depois dessa mudança de atitude mental, e com firme resolução, devemos declarar-nos, entrando nas águas do batismo, fazendo assim um convênio com o Senhor de guardar seus mandamentos. Poderíamos, depois disso, ser discípulos secretos? Poderíamos ficar à margem, apenas observando? Este é o dia para a ação. Este é o momento da decisão, não amanhã, não na próxima semana. ¶
Este é o momento de fazermos nosso convênio com o Senhor. Agora é o momento para que aqueles que têm sido indecisos, ou que têm tido apenas um interesse morno, se manifestem com ousadia e declarem sua crença em Cristo, dispostos a demonstrar a fé por meio das obras. ¶
Adquirimos maior consideração por José de Arimateia à medida que continuamos a ler. Embora ele fosse "discípulo de Jesus, mas oculto, por medo . . ." e embora fosse um daqueles que "esperava o reino de Deus", ele finalmente foi levado à ação. O relato continua: ¶
"Este chegou a Pilatos, e pediu-lhe o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que o corpo lhe fosse dado. ¶
"E José, tomando o corpo, envolveu-o num fino e limpo lençol, "E o pôs no seu sepulcro novo, que havia lavrado numa rocha: ¶
e revolvendo uma grande pedra para a porta do sepulcro, foi-se." (Mateus ¶
27:58-60.) Pergunto-me se não haveria uma lágrima nos olhos de José ao colocar o corpo de Jesus no sepulcro. Certamente ele pensou nos acontecimentos que se haviam dado mais cedo naquele dia, quando, como membro do Conselho, deixara de vir em defesa do Mestre. Não deveríamos examinar nossa própria alma e indagar de nós mesmos se somos leais? Somos nós também apenas discípulos secretos de Cristo? ¶
Este mesmo Jesus que morreu na cruz, e cujo corpo foi colocado no sepulcro, ressurgiu no terceiro dia depois. ¶
Ele ressuscitou e vive hoje — o Salvador do mundo. ¶
Este é o meu testemunho. Ele está diante de nós, de braços estendidos à nossa visão, e aquelas mesmas palavras ditas aos discípulos em Jerusalém deveriam ressoar em nossos ouvidos: ¶
"Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me; ¶
"Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por causa de mim, achá-la-á." (Idem, 16:24-25.) Que sejamos seus discípulos abertamente, sem temor e com devoção, humildemente oro em seu nome. Amém. ¶