O Lugar do Homem no Plano de Deus
Hugh B. Brown
Meus queridos irmãos e irmãs, junto convosco tenho por grande bênção assistir a esta maravilhosa conferência, e especialmente ouvir o profundo e inspirador discurso de abertura de nosso Presidente. Gostaria de acrescentar meu tributo ao Coro do Tabernáculo. Parece-me que o coro atingiu hoje novas alturas. ¶
Estou certo de que todos vós vos unis a mim também em expressar gratidão ao Senhor por sua bênção ao Presidente Clark, ao permitir-lhe falar-nos apesar de sua enfermidade física. Somos gratos por não haver diminuição em seu grande intelecto, em seu maravilhoso espírito, ou em sua poderosa voz. ¶
Expressamos apreço, também, pelo que foi dito esta tarde pelos demais Irmãos. Mas tudo isso, em conjunto, aumenta minha timidez e torna a necessidade de seguir tais homens uma experiência verdadeiramente humilhante. ¶
À medida que esta Igreja continua a estender suas fronteiras e aumentar seu número de membros, recebemos um número cada vez maior de pedidos para explicar e distinguir alguns dos princípios do mormonismo. ¶
Talvez os dois conceitos mais frequentemente questionados sobre a Igreja tenham a ver com, primeiro, nossa crença num Deus vivo e pessoal; e, segundo, nosso entendimento sobre a posição e o papel singulares do homem em seu plano divino. É necessário que se tenha fé no primeiro antes que se possa compreender e aceitar o segundo destes princípios, a saber, a relação do homem com a Divindade. Se essa relação for real, então certamente o homem ocupa não apenas uma posição singular, mas semelhante à de Deus, e é para isso que gostaria de dirigir vossa atenção por um momento. ¶
As realizações do homem nos últimos cem anos, sua busca sempre crescente pela verdade, seu apetite insaciável pelo conhecimento, sua descoberta e domínio parcial das leis da natureza, são evidências convincentes da posição suprema do homem entre as criações de Deus. ¶
Algum animal jamais contemplou os céus e se maravilhou? ¶
Diz-se-nos que, nos últimos cento e cinquenta anos, acumulou-se mais verdade, adquiriu-se mais conhecimento, do que a soma total de toda a verdade previamente reunida. O fato de o homem possuir o gênio para descobrir e dominar parcialmente as forças elementares da natureza leva os homens a pasmarem-se e a perguntarem novamente a antiga pergunta: "Que é o homem?" ¶
Essa pergunta foi formulada pelo Salmista quando disse: ¶
"Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que firmaste, que é o homem mortal, para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? ¶
"Pois pouco o fizeste menor do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. ¶
"Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés." (Salmos 8:3-6.) Alguém se pergunta, ao ler isso, como o Salmista teria formulado sua pergunta se tivesse tido o benefício dos recursos modernos ao contemplar os céus. Estou certo de que isso teria tendido a aprofundar e confirmar sua fé no grande Organizador de tudo isso. ¶
Mas, ao considerarmos o conhecimento e o poder crescentes do homem, não devemos esquecer que o poder pode ser muito perigoso. ¶
O General Omar Bradley, ex-Chefe do Estado-Maior, falando a uma turma de formandos há algum tempo, proferiu esta advertência com as seguintes palavras: ¶
"Com as armas monstruosas que o homem já possui, a humanidade corre o perigo de ficar presa neste mundo por sua adolescência moral. Nosso conhecimento científico claramente ultrapassou nossa capacidade de controlá-lo. (Temos homens de ciência demais; homens de Deus de menos.) Apoderamo-nos do mistério do átomo e rejeitamos o Sermão do Monte. O homem tropeça cegamente por uma escuridão espiritual enquanto brinca com os precários segredos da vida e da morte. O mundo alcançou brilho sem sabedoria, poder sem consciência. Sabemos mais sobre a guerra do que sobre a paz; mais sobre matar do que sobre viver. Esta é a reivindicação de distinção e progresso de nosso Século XX!" ¶
Mas a pergunta, "Que é o homem?", ¶
foi respondida muito antes de o Salmista a formular. No primeiro capítulo de nosso mais antigo livro aqui, lemos: ¶
"E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou. ¶
"E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que se move sobre a terra." (Gênesis 1:27-28.) Disto é evidente que, desde o princípio, o homem teve um estado singular, uma natureza de imagem; e que lhe foi atribuído um papel participativo no grande plano de redenção. A afirmação, "criado à imagem de Deus", jamais foi feita a respeito de qualquer outra de suas vastas criações. Somente o homem é feito à sua imagem: somente o homem é seu filho. ¶
Há algum tempo, ouviu-se um estudante cético dizer que o homem não passa de uma combinação fortuita de moléculas. ¶
Mas seu professor, mais idoso e mais modesto, respondeu-lhe perguntando: "Algum átomo ou molécula já teve algum pensamento? Alguma combinação de elementos já deu origem a uma ideia? Alguma lei natural já construiu uma catedral ou um templo?" ¶
Dentro da vida de alguns de nós surgiram maravilhas como automóveis, aviões, comunicação sem fio; e, depois, rádio, televisão, radar, mísseis guiados, energia atômica, etc. Ao pensarmos nessas coisas, e ao utilizá-las, cientistas e estudiosos voltam sua atenção e seus instrumentos para a consideração do maior fenômeno, ou, como disse o Presidente Clark, o maior milagre de Deus — o homem. ¶
Somos devedores a um cientista de renome internacional, o Dr. Henry Eyring, por uma erudita discussão sobre o mundo do homem. Ele disse: ¶
"Vivemos em cinco mundos diferentes, nenhum dos quais foi plenamente explorado. ¶
Diferem uns dos outros no tamanho das unidades de espaço e tempo. ¶
"1. Em nosso mundo prático do dia a dia, nos damos bem com unidades como pés e segundos. ¶
"2. No mundo químico das moléculas e átomos, os elétrons completam suas revoluções em um cem milionésimo de segundo, enquanto cem milhões de átomos, lado a lado, cobrem apenas a distância de uma polegada. ¶
"3. Dentro do núcleo de um átomo entramos num terceiro mundo, onde os eventos acontecem um milhão de vezes mais rapidamente ainda, e as distâncias são mil vezes menores do que no átomo. ¶
"4. No quarto mundo, os astrônomos medem as revoluções dos planetas em anos e a unidade de distância, o ano-luz, em cerca de dez mil milhões de milhas. ¶
"5. Finalmente, chegamos ao mundo espiritual, onde o tempo se mede em eternidades e o espaço é ilimitado, de modo que, em pensamento, podemos viajar do quase infinitesimalmente pequeno ao infinitamente grande." ¶
Ao considerarmos a vastidão de um universo ordenado, governado por leis imutáveis, a majestade do Organizador e o lugar privilegiado do homem, somos levados a reavaliar o significado e o propósito da vida. ¶
Será provável, por exemplo, que as criaturas mais inteligentes do universo estejam aqui por acaso? Será possível que Deus ignore a existência do homem, ou que seja indiferente ao seu destino? ¶
O mormonismo afirma, pela autoridade da revelação divina, que o homem é a figura central de um plano integrado, e, como disse o Dr. Talmage, ele é potencialmente maior e mais precioso do que todos os planetas e sóis do espaço; pois foi para ele que foram criados; são obra das mãos de Deus; o homem é seu filho. O Senhor disse: ¶
". . . esta é a minha obra e minha glória: levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem." (Moisés 1:39.) A exortação de Jesus, "Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus" (Mateus 5:48), claramente prevê uma eternidade para sua realização, pois nenhum homem mortal pode alcançar a perfeição durante sua breve estada na terra. ¶
O Salvador declarou ainda: ". . . e a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." (João 17:3.) Se, então, somos, de fato, os filhos de Deus, e se é vida eterna conhecê-lo, todos os homens deveriam buscá-lo, familiarizar-se com suas leis e harmonizar suas vidas com elas. ¶
O Apóstolo João captou a visão do estado do homem e exclamou: "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Porém sabemos que, quando se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos." (1 João 3:2.) O espírito do homem estava com seu Pai no princípio; ele foi criado para ser livre, e esperava-se que ganhasse sabedoria e inteligência no exercício de seu livre-arbítrio. Sua liberdade é, depois da própria vida, sua posse mais preciosa. Ele tem liberdade para pensar, para explorar, para descobrir e para agir. Encorajamos os homens a buscar a verdade, a não temer ideias novas, que são e sempre foram degraus para o progresso. ¶
Segundo as sagradas escrituras, nossa vida terrena não foi acidental; não apenas foi planejada e propositada, mas também foi voluntária. Quando o Senhor perguntou a Jó onde ele estava quando os fundamentos da terra foram lançados, indicou claramente um estado pré-existente do homem, e afirmou que todos os filhos de Deus gritaram de alegria, sem dúvida ante a perspectiva da vida terrena. ¶
Quando os homens falam de valores últimos e satisfatórios, seus conceitos devem envolver a relação do indivíduo com os outros, com o universo e com Deus. Os homens não devem ser abordados como animais, pois são imagens inteligentes de um Pai Divino. Ele disse: ". . . o valor das almas é grande à vista de Deus." (D&C 18:10.) O homem, então, é filho de Deus, criado à sua imagem. Está destinado a ser livre, e, embora sujeito à morte, seu espírito continuará a viver, unir-se-á novamente a seu corpo, e ele se tornará uma alma viva e imortal. "Qualquer princípio de inteligência que alcançarmos nesta vida surgirá conosco na ressurreição." (Idem, 130:18.) Embora tenhamos plena liberdade para atender ou desprezar os impulsos do espírito ou os ensinamentos dos profetas, lembremo-nos sempre de que devemos arcar com as consequências de nossa escolha. ¶
"Por cada desvio do elevado caminho da bela verdade, Por cada grave erro que retarda a alma, Por essa treva e solidão da alma pagamos, E pela jornada retardada até sua meta." ¶
Embora possamos aproximar-nos dele por meio da contemplação intelectual de sua obra, é mais importante que busquemos a comunhão espiritual, pela qual somente podemos obter um testemunho dele e da relação do homem com ele. Este pensamento inspira a oração: ¶
"Ajuda-me, ó Deus, a ter de mim mesmo uma alta opinião." ¶
Esta doutrina inspirada sobre a relação do homem com a Divindade envolve comunicação entre ambos, sem a qual a cooperação inteligente é impossível. ¶
A revelação contínua de nosso Pai Celestial é uma terceira doutrina singular da Igreja restaurada. Testificamos humildemente da existência de um Deus vivo e pessoal, da filiação e herança do homem, e da revelação contínua à Igreja por meio de autoridade constituída, pelo que agradecemos humildemente a Deus, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶