Pulpit

Recentemente, Um Companheiro De Assento Num Avião...

Sterling W. Sill

1959 October General Conference·Third Day Morning Meeting·1959-10-11

Recentemente, um companheiro de assento num avião estava me contando algo sobre a interessantíssima ciência da balística.

Ele salientou que, quando uma bala é disparada através do cano de uma arma, ela recebe um conjunto de marcas características que para sempre a identificarão com aquele cano específico pelo qual foi disparada.

Nossa conversa então passou para outro conjunto de fatos que poderíamos chamar de balística mental ou balística espiritual.

Isto é, quando uma ideia passa pela mente, a mente recebe um conjunto de marcas características; por exemplo, quando alguém pensa pensamentos negativos, adquire uma mente negativa. Se pensa pensamentos depravados, sua mente se torna depravada. Se pensa pensamentos condenáveis, o resultado será uma mente condenada. Salomão falava como uma espécie de perito em balística quando disse: "Porque, como imagina no seu coração, assim ele é. . . ." (Provérbios 23:7.) No decorrer de nossa viagem, fomos obrigados a esperar por uma hora entre um voo e outro. Durante essa espera, examinamos o tipo de literatura que era distribuída na banca de revistas do aeroporto. Ficamos impressionados — como qualquer um há de ficar impressionado — com o fato de que um dos problemas mais sérios de nossos dias, seja considerado do ponto de vista da igreja, seja do ponto de vista da nação em geral, é o baixíssimo nível das ideias que compõem uma parte tão substancial de nossa dieta mental.

William James certa vez disse: "A mente é constituída daquilo de que se alimenta." Jamais pensaríamos em alimentar nosso corpo com comida contaminada, e, no entanto, frequentemente alimentamos nossa mente e nossa alma com pensamentos contaminados, e com isso fazemos correr emoções contaminadas por nosso coração, às vezes com resultados fatais.

Uma de nossas necessidades mais urgentes hoje em dia é fazer uma faxina em nosso pensamento.

Como dois pensamentos opostos não podem coexistir na mente no mesmo momento, a melhor maneira de nos livrarmos de pensamentos indesejáveis é combatê-los com o bem. A melhor maneira de tirar a escuridão de um cômodo é enchê-lo de luz. A melhor maneira de eliminar o negativo é cultivar o positivo, e a melhor maneira de melhorar nossa vida é melhorar nossos pensamentos. E uma das melhores maneiras de melhorar nossos pensamentos é desenvolver o amor pela grande literatura.

O jovem Abraham Lincoln certa vez disse: "O que eu quero saber está nos livros, e meu melhor amigo é aquele que me conseguir um livro que eu ainda não li." E, em uma das vozes mais autorizadas das escrituras dos últimos dias, o Senhor disse: "É impossível ao homem ser salvo em ignorância." (D&C 131:6.) E é igualmente impossível ser salvo lendo o tipo de histórias picantes e mistérios de assassinato que compõem tão grande parte de nossa literatura contemporânea.

Esta manhã, gostaria de compartilhar convosco algumas citações relacionadas ao valor das grandes ideias e dos ideais estimulantes, tais como nos são disponibilizados através dos bons livros. Alguém já disse: "Os livros estão entre as posses mais preciosas da vida. São a mais notável criação do homem. Nada mais do que o homem constrói perdura para sempre. Monumentos caem, civilizações perecem, mas os livros continuam."

"A leitura de um grande livro é, por assim dizer, uma entrevista com os homens mais nobres das épocas passadas que o escreveram."

Charles Kingsley certa vez disse: "Não há nada mais maravilhoso do que um livro.

Pode ser uma mensagem para nós vinda dos mortos, de almas humanas que nunca vimos, que viveram talvez a milhares de quilômetros de distância, e, no entanto, essas pequenas folhas de papel nos falam, nos despertam, nos ensinam, abrem nosso coração e, por sua vez, abrem seu coração para nós como irmãos."

"Sem livros, Deus se cala, a justiça dorme, a filosofia manca."

John Milton disse: "Os livros não são coisas mortas, mas contêm em si certa potência de vida, tão ativa quanto a alma de que são progênie. Preservam, como que num vidro, a mais pura eficácia do intelecto vivo que os gerou."

Naturalmente, a grande literatura do mundo tem seu centro na Bíblia Sagrada. Somente as obras de Shakespeare contêm cerca de 550 citações e alusões bíblicas.

As obras de Tennyson têm 330 referências bíblicas. As obras de Emerson estão repletas de ideias bíblicas, e o Novo Testamento registra oitenta e nove ocasiões em que o próprio Mestre citou as grandes escrituras.

Pensai no efeito que a Bíblia teve em vidas individuais. Olhando para trás, vemos o jovem Abraham Lincoln deitado diante da lareira acesa, lendo a Bíblia, e é fácil acompanhar a influência bíblica em sua vida ao longo de toda a sua carreira. Uma única passagem bíblica na mente de outro jovem, de nome Joseph Smith, ajudou a mudar a história religiosa do mundo. Ou pensai no efeito que o ensino bíblico teve na ascensão e queda das nações. A maioria das nações do passado caiu porque desobedeceu à lei divina. Certamente isso continuará a ser um fator determinante em todo êxito nacional.

Com aguda perspicácia, Daniel Webster certa vez fez esta declaração profética: "Se nos apegarmos aos princípios ensinados na Bíblia, nosso país continuará a prosperar; mas se nós, ou nossos filhos, negligenciarmos seus ensinamentos e sua autoridade, ninguém pode dizer quão repentinamente alguma calamidade poderá nos sobrepujar e sepultar toda a nossa glória num profundo esquecimento."

Inscrevemos em nossas moedas o lema "Em Deus Confiamos." Ao menos deveríamos saber que tipo de Deus é esse de que falamos.

Já se observou que: "Não sabemos o que o futuro reserva, mas sabemos quem tem o futuro em suas mãos." E podemos ter certeza de que tanto nossa prosperidade nacional quanto nossa exaltação individual dependem de quão bem utilizamos este grande reservatório de verdade espiritual.

Em nossa era de incertezas, precisamos das grandes escrituras mais do que nunca.

Nosso problema, é claro, é que, por maior que seja nossa literatura, ainda que tenhamos a própria palavra de Deus falada em nossos dias, ela pouco nos ajuda se não sabemos o que foi dito e não regemos nossa vida de acordo.

O quinto capítulo do livro de Moisés relata como Deus procurou ensinar à posteridade de Adão os princípios do evangelho. Mas Satanás veio entre eles dizendo: "Não o creiais," e muitos não creram. Este mesmo problema tem afligido o mundo desde então.

Uma de nossas grandes Regras de Fé diz: "Cremos ser a Bíblia a palavra de Deus, desde que esteja traduzida corretamente; também cremos ser o Livro de Mórmon a palavra de Deus." Mas Satanás não apenas está entre nós dizendo: "Não o creiais," ele vai muito mais longe e também diz: "Nem sequer o leiais." E as pesquisas de leitura mostram que a maioria das pessoas, dentro e fora da Igreja, tem seguido essa infeliz direção. Há pouquíssimas pessoas que leem a Bíblia regularmente com um propósito, e a grande maioria quase não a lê.

Contaram que certa professora de Escola Dominical certa vez perguntou aos membros de sua classe se sabiam o que havia na Bíblia, e uma menininha levantou a mão.

A professora disse: "Muito bem, Mary Jane, levante-se e diga à classe o que há na Bíblia." E Mary Jane disse: "Há um cacho de cabelo de bebê nela; há algumas violetas prensadas do namorado de minha irmã; e há algumas cartas de amor de minha avó." Devemos lembrar que há algumas coisas na Bíblia sobre as quais, ao que parece, Mary Jane nunca tinha ouvido falar.

Primeiro, nela estão as doutrinas da vida eterna. A Bíblia nos ensina a respeito de Deus, nosso Pai Eterno, e de qual deveria ser nosso relacionamento com ele. Certa vez perguntaram a Lord Calvino qual seria a maior descoberta já feita, e ele respondeu: "A maior descoberta que se pode fazer é quando um homem descobre a Deus." Jesus indicou essa mesma verdade quando orou: "E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." (João 17:3.) Pensai na vantagem que o jovem Timóteo teve sobre muitos de nossos filhos.

Paulo disse a Timóteo: ". . . desde a tua meninice sabes as sagradas escrituras, as quais podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus." Depois disse: "Toda escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça;" (II Timóteo 3:15-16.) Pensai no proveito que nossa vida mostraria se pudéssemos absorver as lições das grandes parábolas, ou a filosofia da Regra de Ouro, ou o espírito da responsabilidade individual do homem para com Deus, ou o estímulo contido na doutrina do progresso eterno. Ou, suponhamos que obtivéssemos as respostas de Deus para as grandes perguntas da vida, inclusive aquela feita pelo jovem governante rico quando perguntou: "Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?" (Lucas 18:18.) Há alguns importantes "não fareis" na Bíblia. O Senhor disse que há certas coisas que simplesmente não devemos fazer. A maioria dos Dez Mandamentos se enquadra nessa categoria. A Bíblia nos fala de fruto proibido, de terreno proibido, de desejos proibidos e de pensamentos proibidos. Como Cecil B. De Mille observou: "Não nos é possível quebrar os Dez Mandamentos; só podemos quebrar-nos contra eles."

Há na Bíblia um conjunto do que alguém chamou de "notas promissórias."

Todo mandamento tem uma bênção vinculada ao seu fiel cumprimento. Mas o Senhor disse: "Eu, o Senhor, estou obrigado quando fazeis o que eu digo; mas quando não o fazeis, não tendes promessa alguma." (D&C 82:10.) Ele disse: "Eu mando, e os homens não obedecem; revogo, e eles não recebem a bênção." (Idem, 58:32.) Isso significa que nem todas as bênçãos se aplicam a nós individualmente. Só se aplicam a nós aquelas leis que realmente vivemos; por exemplo, o Senhor disse por meio de Malaquias: "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro . . . ," e então prometeu: "e provai-me nisto . . . se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal, até que não haja mais lugar para a recolherdes." (Malaquias 3:10.) Mas isso não se aplica a nós, a menos que paguemos nosso dízimo.

Suponhamos que arranquemos da Bíblia aquelas partes que não se aplicam a nós pessoalmente. Isto é, se não guardamos o dia de sábado como santo, ou se deixamos de observar as leis da honestidade, da castidade, da temperança, do arrependimento e do batismo; então seria melhor arrancarmos essas partes das escrituras, para não nos enganarmos desnecessariamente imaginando que se aplicam a nós. Seria interessante que cada um de nós descobrisse quão grande seria sua própria versão particular da Bíblia nessas circunstâncias. Certa vez perguntaram a alguém se ele era cristão, e ele respondeu que era, em partes. Suponho que seja melhor ser cristão em partes do que não ser cristão de forma alguma. Mas devemos ter em mente que, quando nosso cristianismo vem em partes, nossas bênçãos também virão em partes.

Até onde sei, a ideia mais empolgante e emocionante que existe no mundo é que, se assim escolhermos, podemos viver cada um destes grandes mandamentos de Deus, e com isso podemos nos tornar beneficiários de cada uma destas notas promissórias das escrituras.

Há grande inspiração na Bíblia.

Às vezes expressamos uma necessidade humana importante ao dizer: "Se ao menos eu tivesse alguém para me dar um estímulo de vez em quando, alguém a quem admirar. Alguém para reavivar minha fé e dar corda ao meu entusiasmo." A maior necessidade da maioria de nós é apenas por uma inspiração simples e sincera. Quando sentirdes tal necessidade, suponde que vos volteis para este grande volume que alguém chamou de "o Quem É Quem de Deus"; isto é, as escrituras falam dos homens que são importantes para Deus, e são eles os que melhor podem enobrecer nossa vida. Thomas Carlyle certa vez disse: "Não se pode olhar para um grande homem sem ganhar algo dele." Certamente não se pode estudar a vida de figuras tão eminentes como Abraão e Moisés, Pedro e Paulo, sem sair edificado.

Por meio da Bíblia, podemos nos valer das experiências acumuladas de alguns dos maiores homens que já viveram. Um estudante assíduo das escrituras adquire um novo poder de pensar, de sentir e de desfrutar. É fonte do mais requintado e duradouro deleite ter a mente repleta de pensamentos valiosos, expressões belas e ideais estimulantes.

Ou podemos reviver os grandes acontecimentos da Bíblia em nossa própria vida. Suponhamos, por exemplo, que em imaginação subamos ao Monte Sinai, onde, ao som dos relâmpagos e trovões daquele monte sagrado, Deus deu a Moisés a lei. Vemos o grande profeta descer da presença de Jeová com a glória de Deus repousando sobre ele com tal intensidade que o povo não podia suportar sua presença.

Depois, num instante, poderíamos escolher passar os 1.500 anos seguintes e sair para as colinas da Judeia, para o primeiro Natal, e celebrar, com aquele coro angelical, o acontecimento mais importante que jamais ocorreu nesta terra, o nascimento do Salvador do mundo. Suponhamos, então, que o sigamos durante aqueles trinta e três anos em que caminhou pelas estradas poeirentas desta terra, e tentemos aprender as lições que sua vida ensina.

Uma das linhas mais inspiradoras de toda a escritura foi proferida pela mãe de Jesus na festa de casamento em Caná.

Ela disse aos servos: "Fazei tudo quanto ele vos disser." (João 2:5.) Que lema inspirador isso faria para nossa vida individual! Ou suponhamos que, em espírito, o acompanhemos ao Jardim do Getsêmani, enquanto, sob o peso de nossos pecados, ele suou grandes gotas de sangue por todos os poros. Ou poderíamos ir e permanecer de cabeça descoberta e coração contrito diante da cruz erguida naquela colina árida da Judeia, enquanto este Sofredor coroado de espinhos pagava a última medida do preço de nossa redenção. Como nossa gratidão aumentaria, e nossa vida seria santificada, por reviver com compaixão estes grandes acontecimentos, todos ocorridos em nosso favor! Não devemos culpar somente o povo daquela época por entregar Jesus à morte na cruz. Devemos também levar nossa parte de culpa. Foram os vossos pecados e os meus que tornaram necessário que ele se oferecesse voluntariamente à própria morte. Mas agora a maior oportunidade de nossa vida é assegurar que sua expiação não tenha sido feita em vão.

Emerson certa vez tocou em um de nossos maiores perigos atuais quando disse: "À beira de um oceano de vida e verdade, estamos miseravelmente morrendo.

Às vezes estamos mais distantes justamente quando estamos mais próximos." Pensai quão perto estavam aqueles que viveram na mesma época de Jesus. Ele andou entre eles.

Eles ouviram seus ensinamentos. Conheceram seus milagres, e, no entanto, estavam tão distantes. Quando Satanás veio entre eles dizendo: "Não o creiais," eles pronunciaram sua própria condenação ao dizer: "O seu sangue seja sobre nós e sobre nossos filhos." (Mateus 27:25.) E assim tem sido, e assim pode ser conosco.

Estamos tão perto. Temos as grandes escrituras. Temos o julgamento do tempo brilhando sobre a vida de Cristo.

O evangelho foi restaurado numa plenitude nunca antes conhecida no mundo.

Temos o testemunho escrito de muitas testemunhas, tanto antigas quanto modernas, e, no entanto, se "não o cremos," podemos estar tão distantes. Mesmo nesta grande era de maravilhas e esclarecimento, Satanás ainda nos induz a marcar nossa alma com a contaminação de pensamentos inferiores, quando a maior oportunidade de nossa vida é ler mais, estudar mais, crer mais e viver mais essa palavra de Deus que ainda é capaz de nos fazer sábios para a salvação.

Uma das realizações mais emocionantes em que consigo pensar é que, como Igreja e como nação, podemos aspirar a dizer, a partir de um pleno entendimento: "Cremos ser a Bíblia a palavra de Deus." Que possamos ordenar nossa vida de tal maneira que esta grande realização se torne realidade, oro em nome de Jesus Cristo. Amém.

Como citar este discursoSterling W. Sill, “Recentemente, Um Companheiro De Assento Num Avião...”, 1959 October General Conference, Third Day Morning Meeting (1959-10-11). Pulpit Vault, 1959-10-sill-recently-a-seat-companion-in-an-airplane. Tradução desta edição, por método de glossário, archive.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).