Irmãos e Irmãs, Peço-vos Que...
Marion G. Romney
Irmãos e irmãs: peço-vos que unais vossa fé e vossas orações às minhas, para que o que eu disser esteja em harmonia com o que já foi dito. O que tenho pensado, creio, está em harmonia com a grande mensagem do Presidente Clark. Oro para que eu possa ter o Espírito do Senhor enquanto falo. ¶
Para sugerir o que tenho em mente dizer, cito estas palavras que Jesus falou aos judeus incrédulos: ". . . se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados." (João 8:24.) Gostaria de dirigir minhas palavras particularmente a este grande grupo de cantores aqui no coro da Universidade Brigham Young, e a todos os demais estudantes — estudantes que são desafiados pelas maravilhas do universo, que desejam aprender mais sobre elas e que, ao mesmo tempo, procuram provar-se fiéis e verdadeiros à fé de seus pais. ¶
Tal estudante, ao retornar de uma célebre universidade do leste, disse recentemente, em substância: "Alguns dos meus colegas estudantes aparentemente estão tão bem quanto nós. Eles aparentemente observam nossos padrões quanto à castidade, à Palavra de Sabedoria, à linguagem limpa, e têm ideais elevados. O que temos nós que eles não têm? Se há uma diferença entre nós, qual é exatamente?" ¶
Uma pequena reflexão, creio, sugerirá uma série de diferenças, mas a que desejo enfatizar nesta manhã é nossa crença e fé em Jesus Cristo — não nossa crença de que existe um Deus, mas sim nosso conceito peculiar acerca de sua natureza e identidade, e de nosso relacionamento com ele. É quando descemos aos detalhes que as diferenças aparecem. De fato, parece que a crença na existência de um Deus é quase universal. Pessoas pensantes em toda parte, particularmente os cientistas, estão aceitando a hipótese de que existe um Deus que criou e agora controla o universo. O conceito materialista que nega Deus por completo está sendo substituído pela teoria apresentada pelo falecido cientista francês, Dr. Pierre Lecomte du Nouy, em seu grande livro, Human Destiny [Destino Humano]. Sua tese é a de que existe "uma ideia, uma vontade transcendente, uma suprema inteligência," um "acaso contrário" que sustenta o universo. A essa suprema inteligência ele chama de Deus. ¶
Estimulado pelo que ele chama de "a desmoralização universal" e a perda de fé resultante do "ceticismo paralisante e do materialismo destrutivo," ¶
ele examina "criticamente o capital científico acumulado pelo homem": e deriva "daí consequências lógicas e racionais" que, para ele e para muitos outros eminentes cientistas, "conduzem inevitavelmente à ideia de Deus." A existência de tal Ser é, conclui ele, um fato científico. É sua esperança que a aceitação de sua tese fornecerá aos homens uma base e lhes dará um motivo que sustentará a fé em Deus e no elevado destino do homem — uma fé que manterá os homens lutando para alcançar o plano moral e espiritual exemplificado por Jesus. "É preciso fazer os homens entenderem," diz ele, "que o importante é desenvolver o que há dentro deles, purificar-se, aperfeiçoar-se, aproximar-se do ideal perfeito que é Cristo." ¶
Ora, é claro que cremos com ele que existe um Deus que é o Criador e governante do universo. Sua afirmação de que o propósito de Deus é levar os homens "mais perto do ideal perfeito que é Cristo" está, quando interpretada à luz de nossa crença em Jesus, em harmonia com a declaração do Senhor de que ". . . ¶
esta é minha obra e minha glória — levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem." (Moisés 1:39.) Contudo, não vemos as coisas da mesma forma que ele quanto à natureza dessa perfeição, nem quanto ao processo pelo qual ela pode ser alcançada. Nossas diferenças quanto a esses assuntos surgem de nossas crenças incompatíveis acerca da natureza e da identidade de Deus e de Jesus, e de nosso relacionamento com eles. Uma comparação dessas crenças evidenciará as diferenças. Quanto às suas crenças, deixemo-lo falar por si mesmo. Primeiro, quanto a Deus: ¶
"Qualquer esforço para visualizar Deus," diz ele, "revela uma surpreendente ingenuidade. ¶
Não podemos concebê-lo mais do que podemos conceber um elétron." E novamente, ". . . a ideia de Deus é uma ideia pura, como a ideia de força, ou de energia, e não precisa ser visualizada; nem pode sê-lo. . . ." E, finalmente: "Quando fomos levados a recorrer a uma ação externa para explicar o surgimento da vida e o desenvolvimento da evolução, admitimos que a única interpretação possível e lógica coincidia com aquela que reconhecia a existência de Deus. E ... fomos impelidos, a fim de explicar o universo e a evolução, a aceitar a ideia. . . . Contudo, tomamos o cuidado de não definir os atributos dessa força, que evidentemente corresponde à ideia admitida de Deus. Usamos, portanto, o nome consagrado, mas evitamos, tanto quanto possível, qualquer ideia antropomórfica." ¶
Ora, isso, é claro, não é o nosso conceito de Deus. Mas penso que devemos respeitar o desejo desse cientista de estabelecer uma base científica para a fé em Deus. Ele fez o melhor que pôde com a luz sob a qual trabalhou. Não ficaremos perturbados nem decepcionados com sua conclusão se tivermos em mente o fato de que a verdade acerca da Divindade não está no âmbito da pesquisa científica nem da interpretação filosófica, mas sim no campo da revelação direta. ¶
Quanto ao seu conceito de Jesus, ele diz: ¶
". . . não nos esqueçamos de que o homem perfeito não é um mito; ele existiu, na pessoa de Jesus," que, segundo ele, "pode ser assimilado," [isto é, comparado ou equiparado] "a uma das formas intermediárias . . . talvez um milhão de anos à frente da evolução." ¶
Como são familiares à maioria de nós, não revisarei aqui em detalhe nossas crenças acerca de Jesus. O Presidente Clark as expôs com muita clareza nesta manhã. Mas eu vos afirmo que esses conceitos postulados de Deus e de Jesus omitem todo aspecto essencial do divino Redentor que adoramos. ¶
Eles excluem sua e nossa pré-existência, sua divina Filiação, a queda de Adão, a expiação de Cristo, a ressurreição de Cristo e a nossa, seu papel passado, presente e futuro nas cortes celestiais, e nosso progresso e destino eternos no mundo vindouro. ¶
Repito que, em nossas crenças e fé peculiares em Jesus Cristo, que abrangem as verdades acima e outras verdades reveladas a respeito dele, diferimos grandemente dos demais povos da terra. ¶
Mas fará alguma diferença quais crenças os homens aceitam? Lembrando que Jesus disse que uma árvore pode ser conhecida por seu fruto, examinemos esta questão por um instante. Um dos frutos dos conceitos acima mencionados sobre Jesus é que a vida boa que ele projetou pode ser alcançada aceitando-se e aplicando-se seus assim chamados "ensinamentos éticos e morais," tais como os expressos no Sermão da Montanha, ao mesmo tempo em que se nega sua divindade e se ridicularizam as doutrinas fundamentais de seu evangelho. Eis uma citação de um dos mais fervorosos defensores dessa teoria. ¶
"Qual foi a ascendência de Jesus? Era ele descendente de José e Maria, ou de Deus e Maria? Ele era descendente de José e Maria. Ele foi o ser humano mais perfeito que já viveu, mas não era o Filho de Deus." E, além disso, "a crença n[a] . . . , na Virgem Maria, na expiação, na trindade, etc., não ajudará a fazer um mundo melhor, mas a crença nos fundamentos da democracia de Jesus e nos valores sociais mencionados no Sermão da Montanha, sim." (The Good Society, de Willis, p. 58.) Ora, eu vos afirmo que toda a história, inclusive o estado atual dos assuntos mundiais, testifica que os frutos dos ensinamentos de Jesus Cristo não podem ser obtidos aceitando-se alguns de seus ensinamentos, rejeitando-se o restante e negando-se sua divindade. De todos os males do mundo, nenhum é mais trágico do que a negação de Jesus Cristo, o Filho de Deus, por tantas pessoas que professam crer nele. ¶
Outro fruto da teoria da suprema inteligência é que Deus estabeleceu uma meta para o homem, mas "não prescreveu os meios" pelos quais essa meta poderia ser alcançada. Isso foi deixado, segundo essa teoria, para que o homem descobrisse por tentativa e erro. Tal doutrina é a antítese de nosso conhecimento de que Jesus Cristo prescreveu o curso exato pelo qual os homens podem alcançar a perfeição que ele ordenou. ¶
"Ele marcou a senda e nos conduziu, E cada ponto definiu, Rumo à luz, à vida e ao dia sem fim, Onde a plena presença de Deus resplandece." ¶
(Eliza R. Snow) Agora, chegando diretamente ao ponto destas palavras, consideremos os frutos de crer que Jesus era o que afirmava ser — o literal Filho de Deus em espírito e em carne; a revelação de Deus ao homem, o Redentor, nosso advogado junto ao Pai. O que faz tal crença por alguém? ¶
De modo geral, ela se torna a força motriz na vida de alguém. Especificamente, ela induz a pessoa a prestar obediência aos princípios e ordenanças iniciatórios do evangelho de Jesus Cristo. Isto é, ter fé em Jesus, arrepender-se, ser batizado por imersão para a remissão dos pecados e receber o dom do Espírito Santo pela imposição das mãos. A obediência sincera a esses princípios e ordenanças purificadores e santificadores opera, na vida do verdadeiro crente, um milagre de grande alcance. Em primeiro lugar, ela lhe confere a condição de membro do reino literal de Deus, identificando-o como ovelha do verdadeiro Pastor. ¶
Por meio da obediência a esses princípios e ordenanças, introduz-se na vida da pessoa uma nova luz, uma luz que transmite à sua mente e abre seu entendimento a ". . . conhecimento puro, que grandemente expandirão a alma, . . ." (Ver D&C 121:42.) Tal pessoa é, em sentido real, readmitida à presença de Deus. A linha direta de comunicação entre Deus e ela é reaberta. Por isso, ela é sustentada em sua crença em Jesus Cristo com uma certeza além da compreensão dos não iniciados. ¶
Essa grande fonte de conhecimento puro, sabedoria, luz e inteligência é, naturalmente, o Espírito Santo, que o Salvador disse que guiaria os homens a toda a verdade. ¶
Para entender e apreciar esse grande dom, é preciso experimentá-lo. Mas eu vos testifico que ele é real e operará um milagre em vosso entendimento. Vós vos lembrareis de que, sem ele, Pedro negou Jesus na noite de seu grande julgamento. Possuindo-o, Pedro e João desafiaram seus captores (embora esses captores tivessem o poder de matá-los e, em certo sentido, tivessem a disposição de fazê-lo) com esta declaração: ". . . ¶
julgai vós se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes a vós do que a Deus. ¶
"Porque não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos." (Atos 4:19-20.) Enquanto alguém desfruta desse dom, sua crença em Jesus Cristo permanece segura. ¶
Ora, o terceiro efeito de cumprir esses princípios do evangelho é o perdão dos pecados. Isso é, em si mesmo, um poderoso milagre. O pecado é iniquidade, e ". . . iniquidade nunca foi felicidade." ¶
(Alma 41:10.) A maior parte do sofrimento e da angústia suportados pelas pessoas desta terra é resultado do pecado não arrependido e não remitido. Paulo falou duas verdades universais quando disse aos romanos: ". . . o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor." (Romanos 6:23.) Assim como o sofrimento e a tristeza acompanham o pecado, a felicidade e a alegria acompanham o perdão dos pecados. ¶
Alma disse acerca de seu sofrimento pelo pecado, ". . . nada pode haver tão intenso e cruciante como o foram minhas dores," e então, falando da alegria que lhe sobreveio quando, por meio do arrependimento, recebeu o perdão, disse: "Sim, e digo-te novamente, . . . que, por outro lado, nada pode haver tão belo e doce como o foi minha alegria." ¶
(Alma 36:21.) O perdão dos pecados é pré-requisito para a plena comunhão na Igreja de Jesus Cristo. É um pré-requisito para desfrutar do dom do Espírito Santo. De fato, toda bênção do evangelho de Jesus Cristo está condicionada ao recebimento do perdão dos pecados; pois, como disse Jesus, ". . . nada que seja imundo pode entrar em seu [de Deus] reino; portanto, nada entra em seu descanso, a não ser aqueles que tenham lavado suas vestes em meu sangue, por causa de sua fé e do arrependimento de todos os seus pecados e de sua fidelidade até o fim." (3 Néfi 27:19.) Então ele acrescentou: ¶
"Ora, este é o mandamento: Arrependei-vos todos vós, confins da Terra; vinde a mim [isto é, crede em mim] e sede batizados em meu nome, a fim de que sejais santificados, recebendo o Espírito Santo, para comparecerdes sem mancha perante mim no último dia." (3 Néfi 27:20.) Nessa declaração, Jesus Cristo deu a única prescrição existente para se obter o perdão dos pecados e, portanto, o único caminho para a felicidade, o único caminho para um conhecimento puro de Deus, nosso Pai Eterno, e de seu Filho Jesus Cristo, nosso Redentor. Seguir essa prescrição depende inteiramente da crença de cada um em Jesus Cristo. ¶
Oro sinceramente para que, se surgir a pergunta: "O que temos nós que os outros não têm?", nos lembremos e procuremos entender as verdades eternas implícitas na declaração de Jesus aos judeus incrédulos: ". . . se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados." (João 8:24.) Que Deus conceda que cada um de nós possa escapar de tal morte, crendo, como Pedro, que Jesus é "o Cristo, o Filho do Deus vivo." Humildemente oro em seu nome. Amém. ¶