Os Três Atos: Pré-Existência, Mortalidade e Imortalidade
Sterling W. Sill
Um dos mais importantes negócios do mundo é o negócio de realizar convenções. Esta semana, em todo centro importante deste e de outros países, homens e mulheres estarão se reunindo em grupos para discutir seus problemas, trocar ideias e desenvolver técnicas para realização. Tive a interessante experiência, nestes últimos meses, de reunir-me com vários grupos ocupacionais e ouvi-los discutir seus interesses. Depois de cada experiência, pensei em como são muito mais interessantes, e tremendamente mais importantes, as coisas que discutimos na Igreja, onde nos reunimos e falamos sobre Deus e a vida eterna, e sobre como edificar caráter e divindade em nossas próprias vidas. ¶
Toda educação diz respeito, primordialmente, a nós mesmos. Estudamos medicina para aprender a manter-nos saudáveis fisicamente. ¶
Por meio dos estudos da mente — a psicologia e a psiquiatria — aprendemos a manter-nos saudáveis mentalmente. ¶
A agricultura é o modo como nos alimentamos. ¶
Os estudos sociais nos ensinam a viver juntos, com sucesso. Estudamos direito para tentar manter-nos fora de problemas. Depois temos este importante campo da religião, por meio do qual cuidamos de nosso bem-estar espiritual. ¶
Os maiores problemas envolvidos em qualquer desses campos centram-se em nós. Provavelmente a coisa sobre a qual sabemos menos do que qualquer outra coisa no mundo somos nós mesmos, individualmente. Podeis fazer a um homem muitas perguntas sobre ciência, invenção ou história, e ele vos responderá. ¶
Mas se lhe pedirdes que escreva uma análise de si mesmo, que vos fale de sua mente e das qualidades de sua alma, ou se lhe perguntardes como ele se tornou o tipo de homem que é — talvez não obtenhais respostas muito boas. Ou suponde que lhe pergunteis de onde ele veio, por que está aqui, ou para onde vai. Que tipo de resposta pensais que obteríeis? ¶
Quanto tempo pensais que levaria a alguém chegar a determinado destino, se não soubesse aonde ia nem por que a viagem estava sendo feita? ¶
"Os Três Grandes" entre as perguntas da vida são: Donde? Por quê? Para onde? ¶
O velho filósofo persa Omar Khayyam lutou longa e arduamente com essas perguntas, sem obter respostas muito satisfatórias. Ele resume suas conclusões da seguinte forma: ¶
Vim como a Água, e como o Vento eu vou. ¶
A este Universo, e por que não sabendo Nem donde, como a Água ao acaso fluindo: ¶
E dele saindo, como o Vento ao longo do Ermo, Não sei para onde, ao acaso soprando. ¶
Do Centro da Terra, através da sétima Porta, Subi, e no Trono de Saturno me assentei, E muitos Nós desatei pelo Caminho; Mas não o Nó Mestre do Destino Humano. ¶
Havia uma Porta para a qual não encontrei Chave: ¶
Havia um véu além do qual não pude ver. ¶
(Rubaiyat, Estrofes 28-29, 31-32.) O Macbeth de Shakespeare deu sua opinião sobre a importância e o propósito da existência ao dizer: "É [a Vida] um conto contado por um idiota, cheio de som e fúria, sem significar nada." (Macbeth, Ato V, Cena 5.) E Hamlet acrescentou: "Como me parecem cansativos, obsoletos, insípidos e infrutíferos todos os usos deste mundo! . . . É como um jardim não capinado, que vai a semente; coisas rançosas e grosseiras da natureza o possuem inteiramente." (Hamlet, Ato I, Cena 2.) O que eu gostaria de dizer nesta manhã é que algumas das ideias mais estimulantes já conhecidas no mundo são as respostas empolgantes aos três grandes questionamentos, dadas nas revelações do Senhor. ¶
Nossas vidas foram divididas em três períodos gerais. Primeiro houve uma longa existência pré-mortal, quando vivíamos como filhos espirituais de Deus. A esta se segue uma breve mortalidade. Depois vem uma imortalidade eterna. Há um propósito definido a ser realizado em cada um desses períodos, e nosso sucesso em cada um depende do que fizemos nos períodos anteriores. Nesse sentido, poderíamos comparar a vida a uma peça em três atos. Se entrásseis no teatro depois que o primeiro ato tivesse terminado, e saísseis antes de começar o terceiro ato, talvez não compreendêsseis a peça. Por razões semelhantes, esta vida, tomada isoladamente, simplesmente não fazia sentido para Hamlet, Macbeth ou Omar Khayyam. Contudo, cada período tem grande significado. ¶
O Senhor disse: "E aqueles que guardarem seu primeiro estado receberão um acréscimo; e os que não guardarem seu primeiro estado não terão glória no mesmo reino que aqueles que guardarem seu primeiro estado; e os que guardarem seu segundo estado terão um acréscimo de glória sobre sua cabeça para todo o sempre." (Abr. 3:26.) A fim de traçarmos um roteiro inteligente para a realização de nossas vidas, precisamos saber o que aconteceu no primeiro ato. Também precisamos compreender a tremenda importância dos propósitos a serem alcançados no segundo ato. E precisamos saber muitas coisas sobre o terceiro ato — e precisamos sabê-las antes que o terceiro ato comece. Tenho uma parente que, quando lê um livro, sempre lê primeiro o último capítulo. Ela quer saber aonde vai antes de começar. ¶
E essa é uma ideia bastante boa para aplicar a nosso próprio futuro. Uma inteligente "prévia" do terceiro ato pode ser de suma importância para o desfecho final. Mas, primeiro, suponde que voltemos atrás e revisemos brevemente o primeiro ato. ¶
Na pré-existência, como nos outros dois períodos, Jesus é nosso exemplo. ¶
Nada poderia ser mais claro nas escrituras do que o fato de que a vida de Cristo não começou em Belém, nem terminou no Calvário. É igualmente verdadeiro que nossas vidas não começam nem terminam dentro dos estreitos limites da mortalidade. ¶
As primeiras coisas que soubemos sobre nós mesmos foram no grande conselho no céu, onde nosso próprio futuro estava sendo discutido. Vós estáveis lá; Deus estava lá; todos os filhos espirituais de Deus estavam lá. Então andávamos pela vista. ¶
Todos vimos a Deus; ele é nosso pai; ele nos ajudava a preparar para as grandes experiências de nosso segundo estado. ¶
Toda a vida é primordialmente uma preparação. ¶
Preparamo-nos para a escola; preparamo-nos para o casamento; preparamo-nos para o trabalho de nossa vida; preparamo-nos para a morte. Nossa pré-existência foi também uma preparação. Foi a infância de nossa imortalidade. ¶
Havíamos chegado a um ponto em nossa preparação em que todos os jovens sempre chegam, em que é desejável que se afastem dos lares de seus pais, para que possam ficar por si mesmos. Ainda que seus lares recém-estabelecidos possam carecer de algumas das vantagens dos lares de seus pais, ainda assim é importante que aprendam a ficar de pé por si mesmos, a serem testados, provados e experimentados. No nosso próprio caso, Deus quis que víssemos o bem e o mal lado a lado, e aprendêssemos a fazer as escolhas certas por iniciativa própria. Teríamos muito mais liberdade nisso se vivêssemos por nós mesmos do que na presença mais imediata de Deus. ¶
No grande conselho, nosso segundo estado nos foi explicado. Uma terra seria criada para servir como nosso novo lar. Ser-nos-iam dados maravilhosos e belos corpos de carne e ossos, sem os quais não poderíamos ter plenitude de alegria. Pela primeira vez em nossa existência, seríamos dotados dos poderes de procriação. Teríamos o privilégio de organizar uma família que perduraria através do tempo e da eternidade. Esta deveria ser unida pela autoridade do sacerdócio, e selada e santificada no templo do Senhor. Teríamos a oportunidade de ganhar experiência exercendo nosso livre-arbítrio, para nos ajudar a nos tornarmos almas soberanas. Nesse grande conselho, o Salvador foi selecionado e ordenado a vir à terra e nos redimir de nossos pecados. ¶
Abraão, ao contar uma visão que lhe foi dada da pré-existência, disse: "Ora, o Senhor mostrara a mim, Abraão, as inteligências que foram organizadas antes de o mundo existir; e entre todas essas havia muitas das nobres e grandes; ¶
"E Deus viu que essas almas eram boas; e ele estava no meio delas e disse: A estes farei meus governantes; pois ele se encontrava entre aqueles que eram espíritos, e viu que eles eram bons; e disse-me: Abraão, tu és um deles; foste escolhido antes de nasceres." (Abr. ¶
3:22-23.) Acrescentando à declaração de Abraão de que havia muitos nobres e grandes que foram ordenados a posições de responsabilidade, Joseph Smith indica que também fomos ordenados. Ele disse: "Todo homem que tem um chamado para ministrar aos habitantes desta terra foi ordenado para esse mesmo propósito no grande conselho no céu, antes que o mundo existisse." ¶
(DHC 6:364.) Depois de concluída esta parte de nossa preparação, dizem-nos que "todos os filhos de Deus jubilavam." (Jó 38:7.) Sinto-me certo de que, se soubéssemos agora o que compreendíamos perfeitamente então, estaríamos dispostos a atravessar a vida de joelhos, pela oportunidade de nos provarmos fiéis e dignos de nossas magníficas oportunidades. ¶
Então entramos em nosso segundo estado através do milagre do nascimento. Há alguns que afirmam ter dificuldade em crer na possibilidade de uma literal ressurreição física e corporal. Parece-me que ninguém deveria ter problema em crer na vida eterna do corpo quem pode crer em sua criação por meio do nascimento, para começar — que duas células microscópicas possam unir-se e, por um processo espontâneo de subdivisão, criar esta grande obra-prima que é um ser humano, incluindo corpo, mente e personalidade. ¶
Referindo-se ao nascimento do Salvador, Mateus disse: "E tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, "Dizendo, Onde está aquele que é nascido Rei dos Judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos adorá-lo." (Mat. 2:1-2.) Essa é a pergunta que os sábios têm feito desde então. Desde aquele dia, há quase dois mil anos, homens sábios têm indagado: "Onde podemos encontrar Jesus? Como podemos conhecer o Salvador?" Pois "não é dado qualquer outro nome pelo qual o homem possa ser salvo." ¶
(D & C 18:23.) A jornada dos sábios terminou quando encontraram o rei; e assim é a nossa. ¶
Então entramos no terceiro ato. A maior parte das recompensas vem no último ato. ¶
É ali que encontramos "os finais felizes." É também ali que descobrimos as tragédias, dependendo do tipo de vida que vivemos em nosso segundo estado. ¶
Há uma velha peça grega escrita em torno da queda de Atenas. Ela conta a história de um general romano que havia capturado um filósofo ateniense. O romano havia dito ao ateniense que ele seria morto, mas o filósofo não parecia grandemente perturbado, e o romano pensou que provavelmente ele não entendia. E disse ao ateniense que talvez ele não soubesse o que significava morrer. O ateniense expressou que entendia, mas sentia que o romano não entendia. ¶
Disse ele a seu captor: ¶
"Não sabes o que é morrer, pois não sabes o que é viver. Morrer é começar a viver. É pôr fim a todo trabalho estagnado e cansativo, e começar um mais nobre e melhor. É deixar a companhia dos velhacos enganosos pela sociedade dos deuses e da bondade." ¶
Esse é o nosso objetivo apropriado para o último ato. A morte é a porta de entrada para a imortalidade. A parte mais importante da vida é a morte. O pequeno personagem de James M. Barrie, Peter Pan, num momento extremo, exclamou corajosamente: "Morrer será uma tremenda aventura." Quem pode duvidar de que assim será? Vivemos para morrer, e depois morremos para viver. ¶
Ontem as Mães Cantoras nos inspiraram com o imortal verso de John Howard Payne, "Home, Sweet Home." Quando essa canção foi escrita, em 1822, John Howard Payne vivia em Paris, longe da velha casa que conhecia e amava tão bem. Mas estava se preparando para voltar para casa, para umas ansiadas férias. Ele sabia, como sabemos nós, que os feriados mais felizes são aqueles para os quais voltamos para casa. Voltar para casa é voltar para onde crescemos; o lar é onde estão a mãe e o pai; e John Howard Payne estava voltando para casa. ¶
Mas não faltará muito tempo até que cada um de nós também esteja voltando para casa. ¶
Também estaremos voltando para onde crescemos; estaremos voltando para onde Deus está, para onde estão nossas mães, pais e famílias. ¶
Depois da ressurreição, teremos esses maravilhosos corpos, celestializados e glorificados, com sentidos aguçados, poderes de percepção ampliados e capacidade vastamente aumentada de compreensão, amor e felicidade. Não somente nossos corpos serão imortais e celestiais, mas nossas personalidades também serão imortais e celestiais. Se nos tivermos preparado adequadamente durante nosso segundo estado, então, com que entusiasmo cantaremos com John Howard Payne: "There is no place like home." ¶
Gostaria de deixar convosco meu testemunho de que o evangelho de Jesus Cristo foi restaurado à terra, com a autoridade para administrar em todas as ordenanças que dizem respeito ao reino celestial. Um grande dilúvio de novo conhecimento chegou recentemente ao mundo, incluindo três grandes volumes de nova escritura, delineando, em todos os pormenores, as respostas às mais importantes perguntas de nossas vidas. Que Deus nos ajude a compreender e a viver essas respostas, oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶