Que Pensais Vós do Cristo?
Harold B. Lee
As excelentes palavras do Élder Sterling W. Sill nesta manhã trouxeram-me à memória uma história que ouvi repetida numa alocução muito impressiva que foi proferida recentemente, num local onde fui designado a dedicar uma nova capela. Nossa atenção foi chamada para o nome na fachada do edifício — A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Esta é a história que deveria imprimir em nós a nossa responsabilidade para com Aquele em cujo nome estávamos então reunidos. ¶
Foi em 1909, na Universidade de Edimburgo. Lord Balfour, então Primeiro-Ministro da Inglaterra, proferia um discurso sobre o tema dos valores morais que unem as nações. Falou do conhecimento comum e dos recursos comerciais comuns que uniam as nações, do intercâmbio social possibilitado pelas relações diplomáticas, dos laços de amizade humana, e dos métodos aprimorados de comunicação; e então encerrou seu discurso em meio aos aplausos estrondosos daqueles que haviam ouvido sua, pelos padrões do mundo, magistral alocução. ¶
Mas os aplausos foram interrompidos por um estudante japonês que estudava na Universidade. Ele se levantou na galeria e perguntou: "Mas, senhor Balfour, e quanto a Jesus Cristo?" Houve um silêncio abafado enquanto o presidente da sessão se levantava para encerrar a reunião. Haviam ouvido uma severa repreensão assim proferida por alguém de uma nação pagã ao representante de uma das maiores nações supostamente cristãs da face da terra, pois em seu discurso o senhor Balfour omitira o maior e mais fundamental de todos os laços essenciais que uniriam as nações da terra. ¶
A essencialidade desse conhecimento do Salvador e de sua missão divina foi impressa pelo Mestre numa ocasião em que disse aos fariseus que se haviam reunido a seu redor, como costumavam fazer para tentar envergonhá-lo ou lhe armar uma cilada: "Que pensais vós do Cristo?..." ¶
E responderam: "É filho de Davi" ¶
(Mateus 22:42) — referindo-se, é claro, à sua linhagem israelita. ¶
Muito provavelmente o Mestre estava tentando trazê-los de volta ao que João, o precursor do Mestre, ensinara quando impressionara a importância vital deste conhecimento essencial em sua declaração: ¶
"Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; porém aquele que não crê no Filho não verá a vida; mas a ira de Deus sobre ele permanece." (João 3:36.) Durante seu ministério houve outros, sem fé, que se haviam declarado a respeito do Mestre. ¶
Em sua terra natal, Nazaré, haviam dito em escárnio: ¶
"Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, e José, e Simão, e Judas?" ¶
"... E escandalizavam-se nele." ¶
O Mestre respondeu com tristeza: ¶
"Não há profeta sem honra, senão na sua pátria e na sua casa." ¶
(Mateus 13:55, 57.) Em outra ocasião, disseram dele com desdém: ¶
"O Filho do homem veio comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores... (Ibid., 11:19.) Em Jerusalém os escribas que haviam descido disseram: Tem Belzebu, e pelo príncipe dos demônios expulsa os demônios." (Marcos 3:22.) Em contraste com esses epítetos desagradáveis, seus fiéis seguidores, como Pedro, o principal dos apóstolos, declararam: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." (Mateus 16:16) — e de sua fiel Marta: "Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo." ¶
(João 11:27.) E de outro de seus discípulos, depois de ter visto e tocado o Senhor Ressuscitado, Tomé imprimiu seu testemunho com estas simples palavras: "Senhor meu, e Deus meu!" (Ibid., 20:28.) A medida da diferença entre esses dois grupos de indivíduos que responderam à pergunta "Que pensais vós do Cristo?" (Mateus 22:42) era a qualidade da qual o Mestre falara em seu grande Sermão do Monte: "Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus." (Ibid., 5:8.) ¶
Nossa responsabilidade, como membros da Igreja de Jesus Cristo, de declarar a missão do Salvador foi-nos recentemente impressa numa reunião de conselho quando o Presidente David O. McKay fez esta significativa declaração: ¶
Esta é a Igreja de Jesus Cristo, e é nossa obrigação pregar ao mundo que ele é o Filho de Deus, nosso Redentor e nosso Salvador — não apenas um grande instrutor, mas em realidade o Filho de nosso Pai celestial, e o Redentor do mundo; que ele rompeu os laços da morte e trouxe a ressurreição, que por meio dele, pela obediência ao evangelho, alcançaremos a exaltação eterna em seu reino. Que o Senhor nos dê poder e aumente nossa capacidade de representá-lo perante o mundo. ¶
Naquela memorável Carta de Wentworth, historicamente importante para a Igreja, em que o Profeta Joseph Smith respondeu à pergunta sobre o que a Igreja acreditava, estava a declaração: "Cremos em Deus, o Pai Eterno, e em seu Filho, Jesus Cristo, e no Espírito Santo." ¶
O simbolismo de nossa crença e de nossa declaração ao mundo se encontra em toda parte. Ao ver as fotografias do Templo Suíço, li as palavras acima da entrada e novamente me recordei que em muitas de nossas outras estruturas sagradas se encontram aquelas mesmas palavras significativas: "Santidade ao Senhor." Ao sairdes deste Tabernáculo, olhai para as torres oeste do grande Templo de Salt Lake, e bem abaixo das ameias vereis a constelação da Ursa Maior apontando para a Estrela Polar — o simbolismo, como explicado por Truman O. Angell, o arquiteto do templo, num artigo escrito no Millennial Star para os santos britânicos, sugerindo que, por meio do sacerdócio do Deus Todo-Poderoso, os perdidos poderão achar seu caminho. Ao entrardes no grande Templo de Salt Lake, vereis o que os pioneiros fizeram para simbolizar cada passo que deveriam dar ao longo daquele edifício sagrado. Mesmo em quase todas as maçanetas foram fundidas na beleza de sua arte aquelas mesmas palavras: "Santidade ao Senhor." Por esse símbolo, toda porta nos templos de nosso Deus, na verdade cada passo que damos na vida, é aberta àqueles que avançam em "Santidade ao Senhor!" ¶
A mais desoladora perspectiva que se pode imaginar para aqueles que não somente têm esses símbolos para constantemente lhes lembrar, mas também o testemunho daquele humilde rapaz que contou da vinda do Pai e do Filho em pessoa para conversar com ele, que testificou que outros dignos vieram e restauraram seus poderes e suas chaves do sacerdócio — a mais desoladora perspectiva daqueles nesta Igreja que possuem esses testemunhos e esse conhecimento a eles concedido é a que se encontra na repreensão do Senhor àqueles que receberam um chamado divino por um mandamento divino e desobedeceram, quando ele disse: "Os que não são escolhidos pecaram gravemente, pois andam em trevas ao meio-dia." (D&C 95:6.) Então ele acrescentou: "Se não guardardes meus mandamentos, o amor do Pai não continuará convosco; portanto, andareis em trevas." (Ibid., 95:12.) ¶
Sob a legenda de um artigo, "O Que Torna os Homens Fortes?", recentemente, J. Edgar Hoover, o diretor do Federal Bureau of Investigation, fez esta significativa declaração: ¶
Quando um homem se apoia em seu próprio entendimento, quando vive de sua própria força, quando se orgulha de sondar os mistérios do átomo, as profundezas do mar, ou os segredos do espaço sideral, ele esquece Deus e afirma ser seu próprio senhor. O resultado é sofrimento incalculável. Ainda que sua posição se mantenha, ainda que a riqueza material aumente, o sucesso logo se converte em fracasso quando Deus foi esquecido. Não há paz de espírito, nenhuma satisfação pessoal, nenhuma experiência pessoal de alegria interior. "Confiar no Senhor de todo o teu coração" é uma marca de força, e é o único caminho para a felicidade, o sucesso e a verdadeira realização. ¶
Comparo o temeroso Pedro que, na noite da traição, negou conhecer o Salvador, com aquele Pedro que, em outra ocasião, depois de ter presenciado as aparições do Mestre, na prisão, sendo preparado para outro interrogatório por seus injustos captores, não se surpreendeu quando um anjo o tocou e disse: "Levanta-te depressa," e as algemas caíram dele, e quando foi até a porta a encontrou aberta. Foi até o pátio externo, e este estava aberto; então foi até a casa de seus amigos, e eles se surpreenderam, pois desde o tempo de seu encarceramento haviam estado orando para que o Senhor, por seus poderes incomparáveis, desfizesse o mal que agora tentava anular a obra desta grande Igreja. Ele não temia. Por quê? Porque Pedro conhecia o poder do Senhor ressuscitado. (Ver Atos 12.) ¶
Penso agora em dois incidentes contrastantes. Um querido amigo recebeu uma daquelas mensagens fatídicas: "Lamentamos informar que seu filho foi morto em combate." Fui à sua casa, e ali vi a família despedaçada, possuidora de tudo aquilo que o dinheiro poderia comprar — riqueza, posição, as coisas que o mundo chamaria de honrosas, mas ali estavam eles, com suas esperanças e sonhos destroçados ao redor deles, buscando algo que não haviam vivido para obter e, a partir daquele momento, aparentemente não obtiveram. O consolo que poderiam ter conhecido não estava ali. ¶
Contrastei isso com uma cena que testemunhei no Hospital LDS há cerca de seis meses, quando um de nossos queridos e fiéis presidentes de missão ali morria lentamente. Estava em dor extrema, mas em seu coração havia alegria, porque sabia que por meio do sofrimento, muitas vezes, os homens aprendem a obediência, e o direito de parentesco com aquele que sofreu além de tudo o que qualquer um de nós jamais poderá sofrer. Ele também conhecia o poder do Senhor ressuscitado. ¶
Hoje deveríamos nos perguntar, em resposta ao que o Mestre perguntou aos de sua época: "Que pensais vós do Cristo?" Deveríamos perguntar, como o diríamos hoje: "Que pensamos nós do Cristo?" e então tornar isso um pouco mais pessoal e perguntar: "Que penso eu do Cristo?" Penso nele como o Redentor de minha alma? Penso nele, sem nenhuma dúvida em minha mente, como aquele que apareceu ao Profeta Joseph Smith? Creio que ele estabeleceu esta Igreja sobre a terra? Aceito-o como o Salvador deste mundo? Sou fiel a meus convênios, os quais, nas águas do batismo, se compreendi bem, significavam que eu me colocaria como testemunha dele em todos os momentos, em todas as coisas, e em todos os lugares onde eu estivesse, mesmo até a morte?" ¶
Muitas vezes ouvimos e cantamos aquele hino, ¶
Que eu pudesse ter visto seu olhar bondoso quando disse: "Deixai vir a mim as criancinhas." Eu gostaria de ter estado com ele então. ¶
Alguns disseram que gostariam de ter vivido nos dias do Profeta Joseph, para que pudessem ter sido seus defensores. Heber C. Kimball escreveu isto: ¶
Permiti que eu diga que muitos de vós vereis o tempo em que tereis todo o problema, provação e perseguição que puderdes suportar, e muitas oportunidades de mostrar que fostes fiéis a Deus e à sua obra. Esta Igreja terá muitos apertos pelos quais precisará passar antes que a obra de Deus seja coroada de vitória. Para enfrentar as dificuldades que estão por vir, será necessário que tenhais um conhecimento da verdade desta obra por vós mesmos. As dificuldades desta obra serão de tal natureza que um homem ou mulher que não possua esse conhecimento pessoal cairá. Lembrai-vos destas palavras, pois muitos de vós vivereis para vê-las cumpridas. Está chegando o tempo em que nenhum homem ou mulher poderá subsistir com luz emprestada. Cada um terá que ser guiado pela luz que há dentro de si. Se não a tiverdes, não permanecereis firmes. ¶
Depois de algumas das perseguições e da evidência do poder do mal sobre nossos primeiros missionários em Londres, esses missionários retornaram ao Profeta para buscar uma resposta sobre por que essas experiências com espíritos maus lhes haviam sobrevindo. Teriam feito algo de errado para que o mal assim tentasse derrubá-los? E o Profeta respondeu: "Alegrei-me quando ouvi sobre vossas experiências, porque já passei por experiências semelhantes, e quero dizer-vos isto: quanto mais um homem se aproxima do Senhor, maior poder será manifestado pelo adversário para impedir a realização de seus propósitos." ¶
Foi isso que o Mestre quis dizer quando afirmou: ¶
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, falarem todo mal contra vós por minha causa. ¶
Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós. (Mateus 5:11-12.) ¶
Ouvi alguns dos testemunhos de homens como o Irmão Hugh B. Brown e o Irmão Adam S. Bennion, e o Irmão Richard L. Evans, que, ao serem chamados para suas altas posições, foram submetidos às provações do poder do mal. Não tenho dúvida de que estavam próximos do Senhor, e o diabo o sabia, e tentava confundi-los e, se possível, destruí-los. ¶
Vós e eu estamos hoje sob o sol dos grandes aplausos das pessoas em todo o mundo. Regozijamo-nos porque a perseguição que costumava haver já não existe, e ainda assim me sinto ponderado pelo aviso que o Mestre deu quando advertiu: ¶
Ai de vós quando todos os homens de vós falarem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas. (Lucas 6:26.) ¶
Quando penso nesse aviso, lembro-me das palavras que sensibilizaram o povo da Inglaterra depois de uma de suas grandes celebrações de jubileu, quando Kipling escreveu: ¶
O tumulto e os gritos se apagam; Os Capitães e os Reis partem: Ainda permanece Teu antigo sacrifício, Um coração humilde e contrito. Senhor Deus dos Exércitos, esteja ainda conosco, Para que não esqueçamos, para que não esqueçamos. ¶
Permiti que eu ecoe e parafraseie essas palavras de Kipling e diga que, embora hoje nos gloriemos naquilo que nosso Presidente nos relatou como o bom sentimento dos povos do mundo — permiti que eu diga a todos nós, a cada um de nós individualmente, não esqueçamos que a medida de nossa aceitação no reino de nosso Deus será nossa resposta à pergunta que devemos fazer honestamente a nós mesmos: "Que penso eu de Jesus Cristo? Que tipo de testemunho tenho da divindade de sua missão?" ¶
Deus conceda que não percamos esse testemunho. Presto-vos meu testemunho de que sei que ele é o Salvador deste mundo, e presto esse testemunho humildemente e em nome do Senhor Jesus Cristo. Amém. ¶