Dedicação e Consagração
ElRay L. Christiansen
Estou tão grato, meus irmãos e irmãs, pelas bênçãos que me vieram desta conferência. Tenho pensado nisso da seguinte maneira: "E se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas." (Ver Mateus 5:41.) Como alguém já disse: "A primeira é uma obrigação; a segunda, uma consagração." ¶
Decidi que, doravante, por causa das coisas maravilhosas que aqui foram ditas, estarei mais determinado a dedicar aquilo que possuo de energia e de bens à obra do Senhor aqui na terra — mais determinado do que jamais estive antes. ¶
Parece-me que a vida de um Santo dos Últimos Dias deve ser uma vida de dedicação e de consagração às coisas de Deus. O evangelho de Jesus Cristo é um programa para o aperfeiçoamento do membro individual mediante sua adesão aos princípios desse evangelho. Ele foi concebido para nos ensinar a esquecer de nós mesmos, a sermos desprendidos. Cheguei a pensar que o egoísmo, da parte daqueles de nós que a isso se inclinam, é um dos grandes obstáculos ao nosso progresso e à realização de um destino divino. Estejamos determinados a vencer o egoísmo e a autopromoção pessoal, compartilhando com outros aquilo que temos, dedicando-nos à obra que temos em mãos a fazer, mediante a dedicação de nossos talentos, nosso tempo, nossos bens, nossos dízimos e nossas ofertas, nosso amor, nossa bondade e gentileza uns para com os outros, sempre enxergando o bem que sempre se pode encontrar nos outros. ¶
Quando participamos do sacramento, irmãos e irmãs, presumivelmente tomamos sobre nós o nome de Cristo. Concordamos em fazer como ele faria, em agir como ele agiria: ¶
". . . servi-vos uns aos outros pela caridade. Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo." (Gálatas 5:13-14.) ¶
A recompensa do serviço desprendido nos foi dita pelo Senhor, quando disse que ". . . aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por causa de mim [entendo, a seu serviço e ao serviço de seus semelhantes], achá-la-á." (Mateus 16:25.) ¶
A doçura e a alegria da vida se encontram quando estamos dispostos a nos negarmos em prol do bem e do benefício alheio. O serviço aos outros, o serviço na Igreja, o dar de nossos bens, fazem parte da vida de um Santo dos Últimos Dias. Somos ensinados de que o sacrifício traz as bênçãos do céu. De nenhuma outra maneira, a meu ver, pode o Senhor levantar um povo que esteja apto para o reino, que o tenha pronto para a sua vinda. ¶
Ao oferecer-se a si mesmo como sacrifício pelos pecados do mundo e pela redenção da humanidade da morte, Jesus nos deu um exemplo incomparável de sacrifício e de amor pelo próximo. ¶
Também, quando Abraão e Sara foram ordenados pelo Senhor — ou, pelo menos, solicitados — a oferecer em sacrifício seu filho Isaque, podemos imaginar o que deve ter se passado em suas mentes. Contudo, enfrentaram a prova. O Senhor assim procedeu para ver o quanto o amavam. Abraão foi sustentado, tenho certeza, por uma confiança inabalável em Deus. Tenho certeza de que Abraão sabia que, para cumprir seus propósitos, Deus poderia, se assim quisesse, levantar Isaque dentre os mortos, mesmo depois de ele ter morrido. Mas que lição é essa de serviço, de dedicação, de consagração daquilo que ele tanto amava! Não é de admirar que Abraão tenha sido chamado "amigo de Deus." ¶
A outro homem foi dada uma oportunidade de demonstrar seu amor ao Senhor. Ele possuía muitos bens e teve a chance de pôr à prova seu desprendimento quando perguntou ao Senhor: "Mestre, que farei para herdar a vida eterna?" (Lucas 10:25.) Ora, esse homem havia feito muitas coisas boas. Guardara a maior parte dos mandamentos, segundo entendo, mas se tornara egoísta por causa de seus muitos bens. Evidentemente pensava mais neles do que na vida eterna, pois, quando o Salvador lhe disse que, para obter a vida eterna, deveria vender tudo o que possuía e dar aos pobres, e tomar sua cruz e segui-lo, ele ficou triste, e, segundo o registro, ". . . retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades." (Marcos 10:22.) Não havia aprendido o significado da dedicação e da consagração. ¶
Comparemos esse homem com certa pobre viúva que lançou na arca do tesouro suas duas pequenas moedas, que formavam um quadrante — tudo o que ela tinha. Sua contribuição valia muito pouco em valor monetário, cerca de meio centavo de nosso dinheiro, mas não foi a pequenez de sua oferta que a tornou especialmente aceitável ao Senhor, ao vê-la depositar seu dinheiro na arca do tesouro, e sim o espírito de sacrifício que ela demonstrou. Ao observar outros lançando seu dinheiro na arca do tesouro, diz o registro: ¶
". . . chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva lançou mais do que todos os que lançaram na arca do tesouro; porque todos ali lançaram do que lhes sobejava, mas esta, da sua pobreza, lançou tudo o que tinha, todo o seu sustento." (Ibid., 12:43-44.) ¶
A dedicação, parece-me, em alguma forma, é a verdadeira essência de toda religião. A dedicação à vontade do Senhor e à sua obra é a religião dos Santos dos Últimos Dias. Nesta dispensação do evangelho, milhares enfrentaram a prova quando foram chamados a sacrificar suas posições pessoais, seu tempo e até mesmo suas vidas, a fim de estabelecer e defender o reino de Deus na terra. ¶
O Profeta Joseph Smith permitiu que fosse tomado pela turba e morto, e junto com ele, Hyrum, cuja vida foi perdida pela bala de um assassino, no mesmo aposento e ao mesmo tempo. O Dr. Willard Richards e John Taylor, que se recusaram a deixá-lo, e Dan Jones, e outros que foram leais e devotados, e teriam dado suas vidas de bom grado em preferência à vida do Profeta. Eles nos deram um exemplo nesta dispensação! Não há quase fim para a lista dos que fizeram o mesmo ou dos que hoje se dispõem a fazer tudo o que lhes for exigido. Um espírito de dedicação, a disposição de servir em qualquer capacidade e de se sacrificar, se necessário, caracteriza o verdadeiro Santo dos Últimos Dias. ¶
Não faz muito tempo, estive em uma das estacas no sul de Idaho. Fui solicitado a entrevistar cinco jovens entre vinte e cinco e trinta e cinco anos de idade, a maioria deles casados e com um ou dois filhos, para ver se estavam prontos para receber um ofício no Sacerdócio de Melquisedeque para o qual haviam sido recomendados. Tive a emoção da minha vida. De algum modo, decidi — não sei se cometi um erro ou não — mas decidi ver qual era a profundidade de sua disposição a se sacrificar. À medida que cada um entrava na sala, eu me sentava com ele, apresentava-me e o conhecia melhor. Então eu declarava que a Igreja havia adquirido uma grande extensão de terra em Brush Creek e desejava prepará-la para o assentamento dos santos. Era preciso trazer água até lá, desbastar o mato e nivelar a terra, construir lares, erguer escolas, e tudo teria de ser feito a partir do zero. Não seria coisa fácil. Eu dizia: "Se lhe fosse pedido que fosse, você levaria sua esposa e sua família, deixaria o que tem e iria estabelecer-se em Brush Creek?" Todos aqueles jovens disseram que sim. Eu perguntava: "O que sua esposa pensaria a respeito?" Em todos os casos, disseram, em essência: "Tenho certeza de que ela sentiria como eu sinto, que, se a Igreja o exigisse, iríamos." Então eu explicava que havia inventado a história. ¶
Senti vontade de abraçar cada um daqueles jovens. Eu os elogiei, e então me ajoelhei e agradeci ao Senhor por jovens como esses, de nossos dias, prontos a se dedicar, a se consagrar, a deixar tudo o que tinham e ir, não importa para onde fossem chamados a ir, para edificar Sião. Essa é a prova que todos nós deveríamos estar prontos a enfrentar. ¶
Há um verdadeiro exército de homens e mulheres assim nos quóruns, nas missões, nas alas e estacas, e em todos os lugares, onde servem sem pensar em recompensa. Não há fim para a lista — os professores orientadores das alas, que fazem um bom trabalho, todos os que servem, todos vós. É louvável, e deve ser agradável aos olhos do Senhor. Entre eles, para não esquecer, estão aqueles homens e mulheres muito despercebidos e não celebrados que, dia após dia, mês após mês, ano após ano, trabalham nos templos do Senhor, prestando serviço vicário em favor dos mortos. Junto a eles estão os que fazem trabalho de pesquisa, escondidos atrás de mesas e arquivos, onde ninguém sabe deles, gastando horas, dinheiro, tempo e energia para que a obra seja aperfeiçoada. É uma coisa, sabeis, fazer algo por aqueles que podem retribuir a bondade e podem agradecer-nos, mas essas pessoas — esse grande exército dos que prestam serviço vicário, que não esperam retribuição em agradecimentos, pelo menos neste momento — penso que merecem nossa mais sincera consideração e nossa admiração por esse tipo de dedicação. ¶
Paulo disse que ". . . aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e aquele que semeia em abundância, em abundância também ceifará." ¶
". . . cada um dê, não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria." (2 Coríntios 9:6-7.) ¶
Com o apóstolo Paulo, irmãos e irmãs, digamos, ao sairmos desta conferência, ¶
"Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem os poderes, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor." (Romanos 8:38-39.) ¶
Que assim seja conosco. Testifico que esta é a obra de Deus; que seu poder está dentro desta Igreja — o poder de trazer a redenção aos mortos e a salvação aos vivos, e sinto-me honrado de estar filiado aos membros desta Igreja e de fazer minha pequena parte no progresso da obra. Que Deus vos abençoe, vos guarde e vos console quando precisardes de consolo, oro humildemente, em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém. ¶