Bendito Aquele Que Vem Em Nome Do Senhor
Harold B. Lee
O Domingo antes da Páscoa é geralmente celebrado por muitas seitas cristãs como o Domingo de Ramos, em comemoração da entrada triunfal de nosso Senhor em Jerusalém. Meu texto de hoje é tirado do "brado de hosana" que soou da multidão que jubilosamente aclamou Jesus, o humilde Nazareno, ao cavalgar triunfalmente para Jerusalém, vindo de Betânia num jumentinho que fora emprestado para aquela ocasião. Como o animal sobre o qual ele cavalgava fora designado, em sua literatura, como o "antigo símbolo da realeza judaica" (ver Zac. 9:9), e o conhecimento que tinham do poder de sua força messiânica impressionava a propriedade de seu direito régio a tal entrada, lançaram suas vestes diante dele e lançaram ramos de palmeira e outra folhagem em seu caminho, como que tapetando o caminho de um rei. O que a princípio talvez tivesse sido apenas o humilde testemunho de poucos fiéis, cresceu num poderoso coro de vozes, enquanto a multidão bradava em harmonia: ¶
Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Hosana ao Filho de Davi. ¶
E então, talvez lembrando-se do anúncio dos anjos aos pastores na noite de seu nascimento, repetiram reverentemente o tema do cântico dos anjos: "Paz nos céus, e glória nas alturas." E novamente, provavelmente lembrando a incumbência que ele havia dado a seus discípulos de prosseguir depois que fosse tirado deles, e como uma súplica por seu Mestre e por aqueles que prosseguiriam depois de sua ascensão, bem como em lembrança dos antigos profetas que reverenciavam, vieram as expressões de louvor da multidão: "Bendito aquele que vem em nome do Senhor." ¶
No início de seu ministério, ele raramente, e mesmo assim com cautela, havia declarado que era o Cristo que tiraria os pecados do mundo, mas agora seu ministério terrestre se aproximava de sua consumação, e sua terrível agonia na cruz estava próxima. Parecia inteiramente apropriado que ele agora demonstrasse seu lugar régio como o Rei dos Reis e Príncipe da Paz. Assim demonstrado, seus devotados discípulos poderiam depois igualmente testificar da divindade de sua missão como Salvador da humanidade e a "rocha" sobre a qual sua igreja seria fundada no Meridiano dos Tempos. ¶
Houve uma ocasião, durante seu ministério, em que seu principal apóstolo, Pedro, havia declarado fervorosamente sua fé e testemunho da divindade da missão do Mestre: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." O Senhor havia respondido a Pedro, declarando: "não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus," e que sobre "esta rocha," ou em outras palavras, o testemunho revelado do Espírito Santo, a revelação de que Jesus é o Cristo — está fundada sua Igreja, e "as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Foi a este mesmo fundamento sobre o qual a Igreja foi estabelecida que o apóstolo Paulo fez referência quando escreveu aos santos efésios: "Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e da família de Deus; Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina." (Efésios 2:19-20.) ¶
Nos poucos minutos que me foram concedidos neste breve discurso do Church of the Air, gostaria de fazer algumas explicações sobre exatamente "quão bendito é aquele que vem em nome do Senhor," desde aquele dia até o presente. ¶
No início de seu ministério, o Mestre escolheu doze homens, aos quais separou dos demais pelo nome de Apóstolos. Estes seriam testemunhas especiais da santidade de sua vida e de sua missão divina, e responsáveis por transmitir à mais remota posteridade um relato genuíno de suas doutrinas, princípios e ordenanças essenciais à salvação da alma humana. A história registra que estes homens, julgados pelos padrões mundanos, eram "iletrados, pobres e de extração humilde." Parece que ele evitou usar, neste ministério, pessoas dotadas das vantagens de fortuna ou nascimento, ou enriquecidas com os tesouros da eloquência ou do saber, para que "os frutos de sua embaixada, e o progresso do evangelho, não fossem atribuídos a causas humanas e naturais." (Mosheim.) ¶
Os verdadeiros servos no Reino de Deus, quando devidamente autorizados, receberam uma investidura de santo poder, sem a qual seu ministério seria como o "tinir do metal e o soar dos címbalos." Esta investidura celestial a seus Doze escolhidos veio como resultado de três experiências sagradas. Primeiro, foram batizados com água, talvez por João Batista, ou possivelmente, sendo os únicos que ele próprio batizou, pelo próprio Mestre, pois João registra que ele e seus discípulos estavam na Judeia "e ali ele permaneceu com eles, e batizava." (João 3:22.) Depois ele "assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo," (João 20:22) o que, muito provavelmente, foi a confirmação e a incumbência de receber o Espírito Santo, ou o batismo do Espírito, pela imposição das mãos, pois esse foi o procedimento seguido depois disso por seus discípulos. ¶
O significado deste batismo de água e do Espírito Santo, dado por alguém que vem em nome do Senhor, é mais bem compreendido pelas palavras de um profeta do Continente Ocidental. Dirigindo-se a um grupo de conversos batizados, ele disse: "Não há qualquer outro nome pelo qual seja concedida a salvação; quisera, portanto, que tomásseis sobre vós o nome de Cristo, todos vós que haveis feito convênio com Deus de serdes obedientes até o fim de vossa vida." (Mosias 5:8.) ¶
A terceira das notáveis experiências espirituais de que os discípulos tiveram o privilégio é assim descrita pelo próprio Mestre: "Não me escolhestes vós a mim, porém eu vos escolhi a vós, e vos designei — para que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda." (João 15:16.) Tentai imaginar, se puderdes, serdes "chamados" pelo Mestre e "ordenados" sob suas mãos. Que estas ordenações resultaram numa investidura de poder do alto, bem como na concessão de autoridade para agir oficialmente como representantes do Senhor, está bem atestado pelos eventos miraculosos que se seguiram, os quais fizeram deles "homens diferentes," por causa daquela comissão divina. ¶
Não somente estas testemunhas apostólicas especiais receberiam e desfrutariam destes dons celestiais. Foram comissionados a transmiti-los por ordenações a outros que haviam recebido o testemunho da missão divina do Senhor ressuscitado. Agindo pela autoridade de seu ofício sacerdotal, era como se o Senhor estivesse dizendo, como fez por meio de um profeta em tempos recentes: "E imporei sobre ti minha mão, pela mão de meu servo . . . e tu receberás o Espírito Santo." (Doutrina e Convênios 36:2.) ¶
Os historiadores nos deram um resumo e uma descrição empolgante de como homens assim escolhidos e assim ordenados foram abençoados com dons celestiais porque "vieram em nome do Senhor." Após a partida de Jesus, ele lhes deu a primeira prova daquela majestade e poder pelos quais foi exaltado, pelo radiante dom do Espírito Santo derramado sobre eles no dia de Pentecostes, segundo sua promessa . . . O Dr. Mosheim, em sua história eclesiástica, escreve que "assim que os apóstolos receberam este dom especial, este guia celestial, sua ignorância se transformou em luz, suas dúvidas em certeza, seus temores em firme e invencível fortaleza, e sua antiga retração em um zelo ardente e inextinguível . . ." ¶
O crescimento da Igreja entre as nações gentias durante este período foi extremamente fenomenal. Como foi possível que um punhado de apóstolos, que como pescadores e publicanos, pudessem levar tanto os doutos e poderosos como os simples e humildes a abandonar sua religião e abraçar uma nova religião? Só pode haver uma resposta para essa pergunta. Havia marcas indubitáveis de um poder celestial que perpetuamente acompanhava seu ministério. Havia, na própria linguagem deles, uma "energia incrível ou um poder surpreendente de fazer penetrar a luz no entendimento e a convicção no coração." Então os historiadores enumeram os milagres, o dom da profecia, o poder de discernimento, um desprezo pelas riquezas, e uma serena tranquilidade diante da morte, mantendo sempre suas vidas acima de qualquer reprovação, e então concluem com esta declaração: "Assim foram os mensageiros do divino Salvador, os arautos de seu reino espiritual e imortal, providos para sua obra gloriosa, como tão alto testifica a voz da história antiga." (Mosheim's Ecclesiastical History, Vol. 1, pp. 56-58.) ¶
Ao revermos novamente a incomparável e desinteressada devoção destes primeiros profetas e mártires ao evangelho de Cristo, que possamos curvar-nos em reverência e repetir, com maior apreço e compreensão, como fez a multidão em Jerusalém na ocasião da entrada triunfal, as palavras: "Quão bendito é aquele que vem em nome do Senhor." ¶
O lugar destes mensageiros dotados do céu, que representam o Senhor em toda dispensação do evangelho sobre a terra, pode ser ilustrado por um incidente relatado por um viajante no norte da Europa. Nosso viajante partia de barco de Estocolmo, na Suécia, rumo ao mar Báltico. Para isso, o barco tinha de passar por mil ou mais ilhas. De pé no convés dianteiro, o viajante se via ficando impaciente com o que lhe parecia ser um rumo descuidado. Por que não seguir um rumo próximo a esta ilha, ou àquela outra, mais interessante do que a que o piloto havia escolhido? Quase exasperado, ele dizia a si mesmo: "O que há de errado com o velho piloto? Terá ele perdido o senso de direção?" De repente, percebeu marcadores ao longo do curso traçado, que pareciam meros cabos de vassoura fincados na água. Alguém havia explorado cuidadosamente aqueles canais e traçado o curso mais seguro para os navios seguirem. Assim é no curso da vida, no caminho para a imortalidade e a vida eterna: "os engenheiros de Deus," seguindo um projeto feito no céu, traçaram o curso para a passagem mais segura e feliz, e nos advertiram das áreas de perigo. ¶
Quão triste e frustrada é a alma humana que não apenas não vem "em nome do Senhor," mas que desconsidera os marcos indicados pelos "engenheiros de Deus" da ilustração acima! Sobre isso o Apóstolo aos Gentios escreveu: "Se só nesta vida esperamos em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens." (I Cor. 15:19.) Essa miséria certamente só pode ser igualada naquele que, nesta vida, não tem fé nem esperança em Cristo. Sem tal fé, o homem é, como alguém disse, "apenas uma criatura das circunstâncias." Verdadeiramente, como o Mestre instruiu seu fiel Pedro, sua Igreja, a verdadeira religião na qual ele era a "principal pedra da esquina," deveria ser edificada sobre uma "rocha," a rocha da revelação. Todos os demais são jogados de um lado para outro pela tempestade nas ondas do tempo. ¶
Mas que força e fortaleza vêm àquele que põe sua confiança no Senhor! Recentemente ouvi um missionário da Igreja contar um incidente ocorrido num país dominado pelo ateísmo. Uma jovem estudante, com fervorosa crença em Deus e na missão do Salvador do mundo, foi ridicularizada e maltratada por sua professora, que desdenhava da ideia de um Deus. Como castigo, a professora exigiu que ela escrevesse vinte vezes: "Não há Deus." A jovem estudante recusou-se. Enfurecida, a professora exigiu que ela escrevesse sua negação de Deus cinquenta vezes e acrescentou, como ameaça velada: "Se não o fizeres, algo terrível acontecerá." Naquela noite, mãe e filha jejuaram e oraram até tarde da noite àquele Deus a quem não podiam, nem ousavam, negar. Quando chegou a hora da aula na manhã seguinte, mãe e filha foram procurar a professora. A escola se reuniu e a professora não havia chegado. Enquanto esperavam, o diretor da escola veio informá-las de que a professora havia morrido subitamente durante a noite, de um ataque cardíaco. Algo terrível havia acontecido, mas não a esta jovem, que veio sem temor "em nome do Senhor." ¶
A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, comemorada neste Domingo, foi na verdade apenas um prelúdio para o dia maior de triunfo, apenas alguns dias distante. Antes de sua crucificação, ele havia falado de seu triunfo pessoal sobre as coisas do mundo, quando disse: "para que em mim tenhais paz. No mundo tereis aflição; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo." (João 16:33.) Mas ainda haveria aquele dia maior de vitória, quando ele triunfou sobre a morte e abriu o caminho para uma ressurreição universal. O apóstolo Paulo, em júbilo, escreveu aos coríntios: "Tragada foi a morte na vitória — Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória? . . . Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo." (I Cor. 15:54-57.) ¶
Hoje, como fizeram eles em dispensações passadas, declaramos ousadamente que "os princípios fundamentais de nossa religião são o testemunho dos apóstolos e profetas a respeito de Jesus Cristo, que ele morreu, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, e ascendeu aos céus; e todas as demais coisas que pertencem à nossa religião são apenas apêndices a isso." (Ensinamentos, p. 121.) ¶
Oh, quisera que os habitantes de um mundo impenitente se humilhassem e, com fé no Redentor da humanidade, se unissem ao coro da multidão que recebeu o Mestre na Cidade Santa: "Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! Hosana ao Filho de Davi. Paz nos céus, e glória nas alturas. Bendito aquele que vem em nome do Senhor." Por isso rogo humildemente em nome do Rei dos Reis, Jesus Cristo. Amém. ¶