Não Estamos Sós na Vida
Richard L. Evans
Meus queridos amigos: ¶
Ao vermos e falarmos com outras pessoas (e mesmo, às vezes, ao olharmos para dentro do nosso próprio coração), é evidente que há muita solidão na vida — não apenas a solidão que vem da falta de companheirismo com as pessoas — mas também a solidão que vem da falta de propósito, da falta de compreensão das razões pelas quais vivemos. ¶
Sem dúvida, parte da solidão vem do fato de sermos sempre, inseparavelmente, nós mesmos. Alguns pensamentos, algumas experiências, algumas intuições, parte da consciência que temos dentro de nós não podemos partilhar plenamente com ninguém mais. Viemos ao mundo sós. Deixamo-lo sós. Somos sempre e eternamente nosso próprio eu separado. ¶
Mas a solidão é mais do que simplesmente solidão física. (Uma pessoa pode sentir-se muito só num lugar movimentado e cheio de gente.) E há um tipo de solidão que vem de um sentimento de não pertencer, de não se encaixar, de não conhecer o nosso lugar no quadro geral — de não saber o que somos, ou quem somos, ou de onde viemos, ou para onde vamos, ou por que estamos aqui, ou qual é, no fundo, o sentido da vida. ¶
Os anos mortais da vida passam depressa e logo. E não fossem algumas certezas gloriosas e eternas, bem poderia haver um sentimento universal de frustração. Trabalhamos longamente por coisas que sustentam a vida e por coisas que proporcionam um pouco de prazer passageiro — mas não há nada, dentre essas coisas tangíveis, que possamos levar conosco. ¶
Estas coisas que chamamos de nossas são nossas apenas por um curto período. Os campos do agricultor, não faz muito tempo, pertenciam a outra pessoa, e em breve pertencerão novamente a outra pessoa. As ações, os títulos, os edifícios, as casas que temos, tudo aquilo de que temos título, todos nós deixaremos dentro em pouco — e a nossa partida fará troça de todos os títulos da nossa posse terrena. ¶
Tudo o que, afinal, podemos levar conosco é o conhecimento e o caráter que adquirimos, a inteligência que desenvolvemos ou aperfeiçoamos, o serviço que prestamos, as lições que aprendemos, e a bendita certeza de que poderemos ter a nossa vida e os nossos entes queridos, para sempre e eternamente — como nos assegura um Pai sábio e bondoso, de quem todos somos filhos. E conhecê-lo, e saber o que Ele é para nós (e o que somos uns para os outros), qual é o seu propósito ao nos enviar aqui de sua presença, é uma das mais seguras salvaguardas contra a solidão e os sentimentos de frustração. ¶
Há poucas noites, sentei-me para jantar ao lado de um distinto e bem-sucedido industrial, que me contou, simples e brevemente, como enfrentava os pesados problemas de sua vida e como tomava as decisões de cada dia: ¶
"Quando me levanto de manhã", disse ele, "muitas vezes sinto que não posso enfrentar o dia, mas, ao ajoelhar-me e dizer simplesmente 'Deus, ajuda-me a fazer o que tenho de fazer hoje', a força vem, e sinto que estou à altura disso. E penso nele como meu Pai, e falo com ele tão simples e diretamente como costumava falar com meu pai quando ele ainda vivia." ¶
E acrescentou: "Às vezes faço coisas que sei que não deveria fazer. Mas, quando as faço, não minto a Deus quanto aos meus motivos. Sei que não adianta. Sei que ele conhece o meu coração, os meus pensamentos. Sei o que fiz, e ele sabe o que eu fiz. E não tento enganá-lo, nem a mim mesmo." ¶
Fiquei enternecido e humilhado pelo espírito direto e simples deste amigo com quem me sentei outra noite. Ele não era da minha fé, mas, em minha sincera convicção, ele não poderia ter falado com Deus com tanta satisfação ou segurança se pensasse nele meramente como uma força, ou como uma essência inefável, cuja natureza e propósito ele nada conhecesse — ou, ao menos, nada que lhe desse a segurança certa de que estava, de fato, falando com o seu Pai. ¶
É urgentemente importante na vida chegar mais perto do conhecimento da natureza de Deus, e da nossa relação com ele e uns com os outros. E que melhor lugar para começar do que o primeiro livro da Bíblia — que melhor lugar para nos voltarmos do que a linguagem literal das escrituras?: ¶
"No princípio, Deus criou os céus e a terra... E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança... Assim Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou... E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom." (Gênesis 1:1, 26, 27, 31.) Era um bom mundo; é um bom mundo — apesar da tolice e das perversidades dos homens. É bom por causa das suas belezas e fartura, e por causa do glorioso propósito e das possibilidades ilimitadas que um Pai amoroso deu a seus filhos — um Pai de quem as escrituras testificam ser pessoal e acessível, como Paulo mesmo proclamou em sua Epístola aos Hebreus, dizendo que Jesus Cristo era "a expressa imagem" ¶
da pessoa de seu Pai. (Hebreus 1:3.) As escrituras registram que muitos homens viram Deus, entre eles Moisés e Arão e os setenta anciãos de Israel (Êxodo 24:9-11) — assim como João registrou em Apocalipse que "os seus servos o servirão: e verão o seu rosto." (Ap. 22:3, 4.) E Estêvão, o Mártir, "estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu... Jesus... à direita de Deus." (Atos 7:55.) E Jesus frequentemente se dirigia a seu Pai. No Getsêmani: "Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice." (Mat. 26:39.) No Calvário: "Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem." (Lucas 23:34.) E anteriormente com os Doze: "Jesus disse essas coisas, e levantou seus olhos ao céu, e disse: Pai, é chegada a hora... ¶
"E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo... com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse... ¶
"Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós... ¶
["E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste..."] (João 17:1, 5, 11, 33.) Há muito mais nas escrituras que afirma a unidade de propósito do Pai e de seu amado Filho — e que também afirma a sua separação de pessoa como um fato literal, físico. E assim como Jesus se aproximava dele, também nós podemos nos aproximar do Pai, em todas as nossas necessidades. Em todo problema, na tristeza e no sucesso, em todas as coisas com que lutamos dia a dia, podemos recorrer a ele com a certeza de que ele está ali. Ele vive. Ele fala. Sua voz não é apenas para os antigos, mas até em nossos próprios dias há testemunho de sua presença pessoal. Ele é um Deus de revelação contínua, de cuidado contínuo por todos nós, e não se encerra nos céus se nós o deixarmos entrar em nossas vidas. ¶
Ele nos enviou aqui, de onde estávamos com ele antes do nascimento, para um breve período de experiência mortal, com nosso arbítrio, nosso direito de escolha, com princípios e mandamentos, e com seu Espírito para nos iluminar através da vida, e nos assegurou a vida eterna com a gloriosa promessa de progresso e possibilidades ilimitados e eternos, com toda a doçura da convivência de família e amigos na paz e na proteção de sua presença — se assim quisermos. Ele nos assegurou que "os homens são para que tenham alegria" (Livro de Mórmon, II Néfi 2:25) e declarou ser seu propósito "levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem." (Pérola de Grande Valor, Moisés 1:39.) Conhecendo os nossos sentimentos por nossos próprios entes queridos, por nossos próprios filhos, podemos ter confiança na misericórdia, no amor, na compreensão e na presteza de nosso Pai celestial, que não deixará o mais humilde de seus filhos, nem o mais só de nós, sozinho na vida. ¶
Vós que estais doentes — vós que estais atormentados pela dor, vós que estais confinados por enfermidade física — não estais sós na vida. Há fé, há esperança, há misericórdia, há ajuda dele. "Aquele que te guarda não tosquenejará." (Salmos 121:3.) Vós que estais desanimados, cujas obrigações são pesadas, cujos melhores esforços de algum modo parecem ficar aquém do sucesso; vós que fostes tratados injustamente; vós que sofrestes reveses e decepções, vós que perdestes a coragem: ¶
Há um Pai bondoso, justo e misericordioso nos céus a quem podeis recorrer, e que fará com que não percais nada que devesse ser vosso. ¶
Ele pode trazer paz aos vossos corações, e restaurar a fé e o propósito. Não estais sós. ¶
E vós que sois provados e tentados por apetites, pelo mal em suas formas sutis; vós que fostes descuidados em vossa conduta, que vivestes o tipo de vida que fica aquém do que sabeis que deveríeis ter vivido — e que lutais com a consciência e estais dilacerados por dentro: vós também não estais sós na vida, pois o Senhor Deus que vos deu a vida também vos deu o glorioso princípio do arrependimento, o qual, mediante um sincero afastar-se dos falsos caminhos, pode restaurar de novo a bendita paz que vem com a consciência tranquila. ¶
Vós que fostes feridos — feridos no coração, feridos no espírito, vós que fostes ofendidos e vos retiraste-vos e tornaste-vos um pouco distantes — não precisais estar sós. A porta está aberta. ¶
Vós que tendes perguntas sem resposta (como todos nós temos); vós que estais divididos entre os ensinamentos de mestres em contenda, que estais confusos por teorias conflitantes: mantende a fé. Reservai o julgamento. Sede pacientes. Deus vive. Ele é a fonte de toda a verdade, e onde parecem existir discrepâncias é simplesmente porque não sabemos o suficiente. ¶
As teorias dos homens mudam rapidamente, mas "a glória de Deus é inteligência" (Doutrina e Convênios 93:36), e não há verdade em todo o universo que o Pai de todos nós não desejasse que buscásseis e aceitásseis — pois o homem não pode ser "salvo em ignorância." (Doutrina e Convênios 131:6.) Mantende a mente aberta e o coração aberto e um espírito ensinável. "Buscai diligentemente... e pela fé." (Doutrina e Convênios 88:118.) E vós que sois jovens, que tendes ambições para o futuro, mas que enfrentais sérias incertezas: ide em frente e vivei as vossas vidas com fé. Olhai bem à frente; decidi-vos por algum bom objetivo. Estudai, trabalhai e preparai-vos. Fazei planos sólidos e persegui propósitos sólidos e não deis ênfase indevida aos prazeres passageiros e triviais. Quando chegar o momento próprio, formai os vossos lares e tende as vossas famílias, e enfrentai os vossos problemas com fé. Vosso Pai celestial vos conhece e vos compreende, e vos ajudará e vos conduzirá à felicidade e à utilidade aqui, e ao vosso alto destino no futuro, se vos mantiverdes próximos dele e o tomardes por confidente. ¶
E vós que perdestes os vossos entes queridos: não estais sós. Deus, que é o Pai dos espíritos de todos os homens, nos enviou aqui de sua presença até que ele nos chame de volta. E os nossos entes queridos que nos deixaram serão sempre eles mesmos, e poderemos vê-los e conhecê-los e estar com eles novamente, para sempre e eternamente — se apenas dermos os passos que levam ao reencontro eterno da família. Eles estão mais próximos de nós do que sabemos. ¶
Nenhum de nós está só na vida. Pertencemos a uma família eterna. Pertencemos também uns aos outros — e Deus, que nos fez à sua imagem, é o Pai de todos nós. E há justiça e misericórdia e oportunidade justa e adequada para todos nós, da parte daquele que é e tem sido atento a todos nós, desde o nascimento e antes dele — através da morte e além. ¶
Ele está ali e ao nosso alcance. ¶
Ele nos guiará e nos iluminará e nos elevará. ¶
Ele é a fonte da verdade, do conforto, da proteção, e da paz que excede todo o entendimento, e a fonte da doce e satisfatória certeza de que a vida e a verdade são ilimitadas e eternas, e que, apesar de todos os problemas e todas as perplexidades, não somos deixados sós na vida. ¶
Testificamos hoje, a todos os que nos ouvem, da viva realidade daquele que nos fez à sua própria imagem — que ele vive, que falou, que ainda fala; que enviou seu Filho ao mundo, o qual é nosso Salvador e de cuja divindade hoje testificamos; e que os céus foram abertos nestes dias e nesta dispensação. ¶
Nenhum de nós está só na vida, mas estamos nas mãos daquele a quem seu Filho, nosso Salvador e Redentor, ofereceu esta sublime oração: ¶
"Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; e não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém." ¶