A Religião de Cristo, Não Diluída
Albert E. Bowen
Por quase dois dias já venho observando os semblantes daqueles que se congregaram aqui, notando a evidência de devoção ao propósito que os trouxe juntos. Todo aspecto de suas feições tem indicado que vieram com intenção solene. ¶
Não que haja tristeza; há uma sobriedade jubilosa manifesta em seus semblantes. ¶
Noto também uma manifestação de expectativa estampada em vossos rostos, e isso é muito sério, porque percebo que esperais algo daqueles que assumem esta posição. O propósito, não tenho dúvida, é que possais tirar daqui alguma fortificação para a vossa fé, e alguma ajuda fortalecedora para enfrentar as questões da vida e lidar com seus problemas à medida que se vos apresentam dia a dia. ¶
Muito raramente pegamos hoje em dia uma revista ou um jornal que não nos advirta, em algum ponto, que alguém disse que a grande necessidade deste mundo hoje é uma espiritualidade maior. ¶
Essa ideia é expressa de várias formas. ¶
Às vezes é expressa como uma dedicação maior à religião, uma incorporação mais completa dos princípios da religião em nossas vidas, e isso é proclamado como uma das coisas que poderiam curar os males do mundo. ¶
Mas, ao ouvir exposições mais aprofundadas, encontro grande vaguidão nessas expressões. Não tenho certeza de saber exatamente o que aqueles que as usam querem dizer. ¶
Não tenho certeza de saber exatamente o que, em suas mentes, a religião significa. ¶
Há muitas dissertações eruditas sobre o que é a religião, os aspectos que a constituem e quais são os fatores essenciais nela. ¶
Não é meu propósito aqui entrar em nenhuma dessas discussões. Este não é nem o momento nem o lugar para isso. Mas vou presumir que posso vos dizer o que é a nossa religião, e pretendo dizer, e digo, que a nossa religião compreende os ensinamentos, a vida e as ações de Jesus de Nazaré. Isso constitui a nossa religião. ¶
Tudo se centra em Jesus, o Cristo. Até onde sei, em toda a leitura que consegui fazer, em toda a pesquisa realizada, não há princípio de ação correta, nenhum princípio ético, reconhecido no mundo hoje, que não esteja compreendido nos ensinamentos de Jesus Cristo. Creio que, se todos os livros de ética fossem queimados hoje, e nos restassem apenas as palavras do Cristo e os ensinamentos dos Apóstolos a quem ele comissionou para levar sua mensagem ao mundo, teríamos um guia perfeito e concreto para a conduta humana. ¶
A nossa religião compreende mais do que apenas o código ético. Contém um corpo de princípios, mediante cuja observância nos é prometida a grande recompensa da vida eterna e da salvação no reino de Deus. ¶
Quero voltar-me aqui para as palavras de Pedro, tal como registradas em Atos: Porém Pedro, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto conhecido, e escutai as minhas palavras; ¶
Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia. ¶
(Ele se referia, é claro, à suposição de que os Apóstolos deviam estar embriagados por causa das manifestações do Espírito Santo pelas quais eram movidos.) Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens verão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos; . . . ¶
Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; ¶
A este, sendo entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos; ¶
Ao qual Deus ressuscitou, libertando-o das dores da morte, pois não era possível que fosse retido por ela; . . . ¶
Saiba, pois, com certeza, toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo. (Atos 2:14-17, 22-24, 36.) Esse é o tipo de ensinamento que introduziu o evangelho de Jesus Cristo nos tempos antigos. Não há equívoco, não há hesitação, não há desvio da questão. Há a declaração direta de que este homem que havia vivido entre eles era reconhecido por Deus, que o haviam tomado com mãos vis e destruído sua vida, mas que ele havia sido ressuscitado e se tornara, e era reconhecido por Deus, como Senhor e Cristo. ¶
Essa é a nossa religião. É isso que acreditamos. Apagai isso, e nada nos resta sobre o que apoiar a nossa fé. É básico a todo princípio reconhecido em nosso ensinamento ou no ensinamento daqueles que, sob a orientação do Cristo, foram seus mensageiros para estabelecer sua obra. ¶
Esta é uma grande Igreja que ensina. O seu negócio é ensinar. Os homens podem ser persuadidos, suas vidas reformadas por meio da persuasão. Nenhum homem pode ser coagido, e nenhuma crença jamais foi estabelecida por tentativa de coação ou força. Jesus recorreu ao método da persuasão, e o nosso negócio, como seus representantes, é persuadir as pessoas sobre quem possamos ter influência a aceitar a doutrina, e, quando a tiverem aceitado em seus corações, nascem de novo. Não desejam mais recorrer às práticas más das quais foram convertidas. ¶
Desejam ordenar suas vidas de acordo com a pureza dos ensinamentos dele. ¶
Entre os principais ensinamentos que Jesus proferiu estava o seu reconhecimento de Deus, o Pai. A ele orava. Disse que viera para fazer a vontade do Pai, não a sua própria. Disse a seus discípulos que nada havia feito senão o que vira o Pai fazer, colocando-se em humilde submissão diante do poder onipotente do Deus do céu. ¶
Ao enviar seus mensageiros, disse-lhes que deveriam levar sua mensagem e ensiná-la a todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-as a guardar todas as coisas "que eu vos tenho ordenado". Isso é tudo o que se exige de qualquer homem. ¶
Se fizéssemos todas as coisas que Deus ordenou, ou seu Filho, Jesus Cristo, o que dá na mesma em termos de autoridade, não teríamos problemas neste mundo. Haveria paz, harmonia e boa vontade. ¶
A guerra seria impossível. Toda a feiúra da vida, tudo o que destrói a beleza e o que é desejável seria eliminado da terra. Nessa instrução está compreendido todo o alcance do ensinamento do evangelho. ¶
Ele ensinou que o homem tem um destino, qual é esse destino, e como alcançá-lo; que tudo depende da conformidade com o plano dado. Ouvimos algo, nesta conferência, a respeito de um plano. É um plano concebido. É o único plano que assegura a salvação aos filhos dos homens; a promessa está condicionada à suposição de que obedeçamos aos ensinamentos desse plano. ¶
Tudo o que sabemos, por registro, sobre a vida terrena do Filho de Deus está contido nos livros do Novo Testamento — os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos. Já se disse que, se apagássemos os livros dos Atos, deixaríamos um grande vazio cobrindo um período muito importante na vida e no ministério de Jesus, anterior à sua morte e ressurreição, bem como acontecimentos posteriores a esse período. ¶
Voltamo-nos a esses livros como a fonte autorizada de nossa informação, aceitando-os como a palavra de Deus para a orientação de seus filhos. E essa mesma fidelidade de propósito, a mesma corajosa convicção e declaração dela, tal como foi proclamada por Pedro naquele dia de Pentecostes, tem ecoado através dos tempos desde então. ¶
Paulo não era daqueles que tinham vivido com o Cristo, caminhado com ele. Era, antes, um perseguidor de seus santos — segundo seu próprio relato, havia-os perseguido de forma viciosa —, mas se tornou um grande expoente da fé. Foi assim que aconteceu. ¶
Estando de pé, em cadeias, diante de Agripa, para responder às acusações feitas contra ele, disse: ¶
Ao meio dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, que excedia o esplendor do sol, a qual me rodeou a mim e aos que iam comigo com sua claridade. ¶
E caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me falava, e em língua hebraica dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões. ¶
E disse eu: Quem és, Senhor? E ele respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. (Idem, 26:13-15.) É o testemunho daqueles que caminharam com ele durante sua vida mortal. É o testemunho daqueles que receberam o seu testemunho e se convenceram em suas próprias almas. Foi o testemunho de Paulo. É o único caminho seguro para viver segundo os ensinamentos que ele expôs, e essa mesma declaração autorizada de conhecimento pessoal desceu através de todas as épocas do tempo e foi repetida em nossos dias, e assim lemos que o Profeta Joseph Smith e Sidney Rigdon, no templo, declararam isto: ¶
E enquanto meditávamos sobre essas coisas, o Senhor tocou os olhos do nosso entendimento e eles se abriram; e a glória do Senhor cercou-nos de resplendor. ¶
E contemplamos a glória do Filho, à direita do Pai, e recebemos de sua plenitude; E vimos os santos anjos e os que são santificados diante de seu trono, adorando a Deus e ao Cordeiro, a quem adoram para todo o sempre. ¶
E agora, depois dos muitos testemunhos que se prestaram dele, este é o testemunho, último de todos, que nós damos dele: Que ele vive! ¶
Porque o vimos, sim, à direita de Deus; e ouvimos a voz testificando que ele é o Unigênito do Pai — Que por ele e por meio dele e dele os mundos são e foram criados; e seus habitantes são filhos e filhas gerados para Deus. (D. & C. 76:19-24.) Aqui está uma declaração sóbria de homens, assim como aqueles que estiveram associados ao Cristo deram o seu testemunho do que tinham visto e ouvido, e esses testemunhos não podem ser postos de lado com displicência. Merecem toda a credibilidade que normalmente se concede às palavras de qualquer homem honesto cuja integridade não tenha sido posta em dúvida. ¶
Esse é o fundamento da nossa religião. ¶
Esse é o tipo de ensinamento que abriu caminho até se estabelecer como religião reconhecida do grande império de Roma, depois de um período de perseguição. Essa é a única espécie de fé que manterá os homens seguros no caminho que leva à salvação eterna. ¶
Isso realmente aconteceu. Aconteceu por graus lentos. Ninguém pode dizer exatamente quando começou, mas essas declarações sóbrias começaram a encontrar alguma dúvida, e os homens começaram a filosofar sobre essas declarações sóbrias. Gradualmente, os questionamentos começaram a surtir efeito por infiltração e diluição, até que essa profunda fé foi tristemente abalada. ¶
Por volta do terceiro ou quarto século, ela quase foi apagada como simples declaração de fé por meio de uma tentativa de mistura com a filosofia grega e outras filosofias. Essa é a consequência inevitável quando os homens tentam racionalizar a palavra de Deus, o testemunho de seus servos, para acomodá-la aos ensinamentos de suas filosofias e torná-la mais palatável ao seu entendimento ou aos seus gostos. Desde aquele dia até hoje, a Igreja tem sido negligente em seu dever de proclamar a palavra não diluída, de modo que agora, quando os homens nos dizem: "Precisamos de um avivamento da religião", muitos dos que usam essas frases nem sequer creem na existência de Deus. ¶
Não creem que Jesus fosse o Filho de Deus, nem que ele tenha ressuscitado dos mortos. Estão usando frases vazias. Se os homens realmente cressem, fariam algo a respeito, e, se essa crença fosse implementada na vida dos homens neste mundo, curaria os males sob os quais o mundo geme. ¶
Durante a guerra, o editor de uma revista nacional, a revista Fortune, para ser exato, redigiu uma série de perguntas que distribuiu a um grande número de clérigos, perguntando suas opiniões sobre certas crenças. As respostas o decepcionaram por suas circunlocuções verbosas e por evitarem compromissos positivos. ¶
Ele escreveu um editorial muito perspicaz a respeito. Isto, entre outras coisas, foi o que ele disse: ¶
Uma liderança cristã passou das mãos da igreja para as mãos dos leigos ativos e práticos — os estadistas e educadores, os colunistas e especialistas, os cientistas e os grandes homens de ação, e isso é apenas outra forma de dizer que não existe absolutamente nenhuma verdadeira liderança cristã. Pelo que mostram os registros, o povo americano faria tão bem por suas almas seguindo o conselho dos líderes industriais quanto seguindo o conselho dos líderes espirituais. Assim, o rebanho está guiando o pastor. ¶
Enquanto a Igreja finge, ou presume, pregar valores absolutos, mas na verdade prega valores relativos e secundários, apenas apressará o processo de desintegração. Somos convidados a nos voltar para a igreja em busca de esclarecimento, mas, quando o fazemos, descobrimos que a voz da igreja não é inspirada. A voz da igreja hoje, descobrimos, é o eco de nossas próprias vozes, e o resultado dessa experiência é a desilusão. ¶
Esta é a desilusão espiritual profunda e absoluta que surge do fato de que, quando consultamos a igreja, ouvimos apenas o que nós mesmos dissemos. O efeito dessa experiência sobre a geração atual tem sido profundo. É o efeito de uma espiral viciosa, como falam os economistas, que leva a depressões, mas nessa espiral está em jogo não meramente a prosperidade, mas a civilização. ¶
Só existe uma saída dessa espiral. A saída é o som de uma voz. Não a nossa voz, mas uma voz vinda de algo que não somos nós, em cuja existência não podemos deixar de crer. É a tarefa terrena dos pastores ouvir essa voz, fazer com que a ouçamos, e nos dizer o que ela diz. Se não puderem ouvi-la, ou se falharem em nos dizer, nós, como leigos, estamos completamente perdidos. Sem ela, não somos mais capazes de salvar o mundo do que fomos de criá-lo, em primeiro lugar. ¶
Essa é uma análise perspicaz da causa dos males do mundo. Para conquistar favor, para aumentar nossa popularidade, para evitar ofender, adotamos as teorias dos homens e tentamos integrá-las aos ensinamentos do Filho de Deus, e elas não se misturam. ¶
O resultado é que a igreja, em vez de estabelecer o padrão, de traçar o caminho, tem adotado aquilo que se tornou prática entre os homens de negócios — os trabalhadores, os leigos do mundo —, e a voz dos leigos, modificada e dotada de essência pelas coisas que desejam fazer e gostam de praticar, guiada por seus interesses egoístas, tem abafado a voz da igreja, e os líderes da igreja perderam sua poderosa influência orientadora. Os homens se recusaram a atender às suas palavras, encontrando nelas apenas o eco das palavras dos próprios leigos de quem se fala. ¶
Na minha opinião, só existe uma segurança; só existe uma cura; e é tomar a palavra pura e não adulterada de Deus e estabelecê-la como nosso padrão de medida, e medir todo credo, doutrina e dogma por esse critério. Aquilo que não se ajustar às declarações do Deus Todo-Poderoso podemos deixar de lado como inadequado à necessidade do homem, e nos orientarmos novamente por aquela declaração de Pedro, reecoada por Paulo, por todos os discípulos do Cristo, enquanto seus ensinamentos permaneceram não corrompidos e sem mácula, e estabelecer isso como o guia para o nosso curso de vida. ¶
Então não teremos mais esses apelos, não precisaremos mais desses apelos aos homens para que modifiquem seus governos, porque seus governos estarão fundados na retidão, e a retidão prevalecerá. ¶
Que Deus conceda que seja assim, oro em nome de Jesus. Amém. ¶