Perdoai, e Sereis Perdoados
Albert E. Bowen
E quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. ¶
Mas tu, quando orares, entra no teu aposento, e fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em oculto; e teu Pai, que vê em oculto, te recompensará publicamente. ¶
E orando, não useis vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos. ¶
Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes. ¶
Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; ¶
Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; ¶
O pão nosso de cada dia dá-nos hoje; ¶
E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. (Mateus 6:5-12.) Essa última é a passagem particular desta oração para a qual quero chamar a atenção. Se aprendemos alguma coisa através dos trabalhos desta conferência neste dia, é que este evangelho não é algo sobre o qual apenas se fala. É algo que exige obras. Requer ação, e é somente aquilo que fazemos, não o que dizemos ou o que professamos, que conta. ¶
O povo desta Igreja pode levar esta mensagem consigo para os seus lares, ou para onde quer que vá, e assentá-la como o princípio fundamental da sua fé, a promessa do futuro. ¶
Perdão
É somente à medida que fazemos a vontade de Deus que temos direito às bênçãos prometidas, e uma das coisas particulares que quero enfatizar é o princípio inerente a esta frase, na sublime oração que acabei de ler: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores." Isso requer ação. Requer autodomínio. ¶
Requer pôr em prática efetiva um dos ensinamentos que o Senhor nos deu. ¶
Não é fácil de praticar. Todos nós estamos dispostos a ser muito caridosos para conosco mesmos e com os nossos próprios erros, os nossos próprios fracassos e fraquezas. Esperamos que o Senhor seja caridoso conosco, que, quando comparecermos perante o tribunal da justiça, não obstante as exigências da lei que devem ser cumpridas, e não obstante as nossas próprias faltas, aquele que conhece o coração, e conhece o desejo, e conhece o esforço, e que, portanto, possui todos os fatores essenciais a um julgamento justo, será de algum modo bondoso e generoso, e levará em conta os nossos bons esforços, as nossas tentativas de viver retamente, a piedade dos nossos propósitos, as lutas que travamos contra as adversidades, e ele há de pesar todos esses dignos desejos do coração e lutas da carne contra as nossas falhas, e as coisas em que pecamos e deixamos de alcançar o padrão pleno da perfeição completa. ¶
Todos nós esperamos isso em nosso próprio favor, mas não nos é tão fácil conceder a mesma generosa consideração àqueles que sentimos que transgrediram contra nós. Estamos mais propensos a exigir o pagamento integral da dívida que nos é devida pessoalmente, ao passo que, em nosso íntimo, esperamos que Deus seja indulgente em seu julgamento de nós. ¶
Amor ao Próximo
Penso que está envolvido neste princípio a doutrina do primeiro grande mandamento, e do segundo: "... Amarás o teu próximo como a ti mesmo." (Idem, 22:39.) São palavras fáceis de dizer, mas ponderamos o que elas significam? Como amo a mim mesmo? Certamente não desejo para mim mesmo nenhum azar. Não desejo para mim mesmo nenhum infortúnio. Espero que os meus esforços prosperem. Espero ser poupado da miséria, da angústia, da doença e do sofrimento. Espero ter poder para fazer as coisas que tenho no coração fazer, e ter êxito nos meus empreendimentos. Se amo o meu próximo como amo a mim mesmo, então devo estar igualmente ansioso por ele, para que prospere, para que escape à miséria, ao sofrimento, à provação e à angústia, para que os seus empenhos sejam frutíferos de bem. ¶
Não posso esperar galgar a posição que desejo alcançar pisando nas costas de outro e esmagando-o para que eu possa ganhar o lugar favorável dele. Suponhamos que eu seja violinista. Excelo na minha profissão, na minha arte. Há muito tempo desfruto da reputação de ocupar o primeiro lugar entre os membros da minha comunidade. Sou o maior de todos eles. Então, um dia, surge um homem mais jovem, como inevitavelmente há de acontecer, e ele por acaso me excede na arte, e eu me vejo em perigo de perder a minha posição de primeiro lugar. ¶
Suponho que eu deveria desejar-lhe que quebrasse a mão, para que não pudesse mais tocar, e assim eu não seria derrubado do pináculo que ocupei, e ainda poderia ser supremo na prática da minha arte. Isso não é guardar o mandamento. Isso não é amar o meu próximo como amo a mim mesmo. Eu não desejaria para mim mesmo tal infortúnio. Eu sempre quereria fazer o meu melhor, livre de impedimentos artificiais. Eu deveria, se fosse obedecer ao mandamento, sem consideração pelas consequências para mim pessoalmente, para as minhas próprias ambições e desejos, regozijar-me com a excelência do desempenho do meu rival, e desejar para ele somente todo o bem que desejaria para mim mesmo. ¶
Eu hei de, se estiver honestamente observando o mandamento, desejar-lhe o sucesso, a glória que me foi concedida em razão da minha posição passada. É fácil dizer aquelas palavras, "Ama o teu próximo como a ti mesmo", mas como é difícil trazê-las até a prática real, mesmo quando a nossa própria superioridade de posição possa estar em jogo, o sacrifício dela. Se realmente pudéssemos nos trazer a pleno acordo com aquele mandamento, deveríamos regozijar-nos exultantemente com as boas fortunas que acompanham os esforços dos nossos semelhantes, não importa em que grau eles possam eclipsar-nos ou quão longe possam exceder-nos. Vede, isso requer que arranquemos pela raiz a inveja, que arranquemos pela raiz o egoísmo, e essa é a maneira pela qual crescemos no desenvolvimento do caráter e no cultivo daquelas perfeições que Deus determinou que nos esforcemos por alcançar. ¶
"Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus." (Idem, 5:48) foi a admoestação de Jesus, e, se quisermos alcançar aquela condição e trazer-nos a esse grau de conquista das nossas próprias ambições, então teremos de nos regozijar com a boa fortuna, as realizações, os feitos dos nossos semelhantes, sem consideração pelo nosso próprio eclipse. ¶
Perdoar e Ser Perdoado
Voltando ao texto, não podemos esperar que Deus nos perdoe se nos recusarmos a perdoar aqueles a quem encontramos ocasião de criticar. A medida da realização do homem não está inteiramente em aonde ele chega. É preciso considerar o lugar de onde ele partiu, e o grau do seu avanço, embora não tenha alcançado um lugar tão elevado quanto o de algum dos seus semelhantes, pode ser maior por causa da desvantagem da posição de onde partiu. ¶
Todos nós esperamos, confiamos, oramos e dependemos da misericórdia de Deus. Esperamos que ele seja misericordioso conosco, mas não temos o direito de esperar que a extensão da sua misericórdia para conosco seja maior do que estamos dispostos a estender misericórdia, caridade e perdão aos nossos semelhantes, cujas ações examinamos com muito mais cuidado e menos indulgência do que examinamos a nós mesmos e aos nossos próprios atos. ¶
Praticantes da Palavra
Essas são algumas das coisas que temos de aprender a fazer. Isso é pôr em aplicação prática alguns dos requisitos positivos deste evangelho. Estamos aprendendo a fazer, a ser praticantes da Palavra, e não apenas ouvintes. Assim é com todos os demais preceitos. Não há ensinamento em todo o âmbito do evangelho de Jesus Cristo que jamais tenha trazido dano ou prejuízo a algum homem. ¶
Segui-los traz somente felicidade, alegria, paz, conforto e progresso. Nunca houve nada exigido do homem que o degradasse ou o rebaixasse na escala do ser. Estamos seguros quando guardamos os mandamentos. ¶
Mas devemos analisar os mandamentos. Devemos saber o que eles significam. Devemos saber o que eles exigem de nós individual e pessoalmente, e a nossa maior preocupação não é com outra pessoa. A nossa maior preocupação é conosco mesmos. Estamos à altura? ¶
Que Deus conceda que, em nossos afazeres diários, em nossos esforços diários, estejamos sempre atentos ao fato de que não é o que professamos ou o que fingimos, mas somente aquilo que fazemos, e o grau em que cumprimos, em nossas próprias ações, os mandamentos de Deus, que conta. ¶
Isto oro em nome de Jesus. Amém. ¶