Julgados Segundo as Obras e a Busca pela Perfeição
Albert E. Bowen
Naturalmente, os pensamentos dos oradores nesta conferência têm-se voltado para o Presidente Smith, tão recentemente falecido. Os meus seguem o mesmo rumo. Se ele estivesse aqui hoje, no lugar em que estou, posso facilmente imaginá-lo suplicando ao povo que vivesse sua religião, isto é, que vivesse na prática à altura dos elevados padrões daquilo que lhe foi ensinado. ¶
Julgados Segundo as Obras
Gostaria, se me permitem, de dizer algo a esse respeito, com referência particular à responsabilidade pessoal de cada indivíduo por aquilo em que se torna. ¶
Foi permitido a João, o Revelador, vislumbrar o futuro, à medida que a revelação das coisas vindouras passava em visão panorâmica diante dele. Entre outras coisas, ele diz: ¶
E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus; ... e foram julgados, cada homem, segundo as suas obras. (Ap. 20:12.) Duas linhas de pensamento, estreitamente relacionadas e de imensa importância para todos nós, são suscitadas por essa declaração vívida. Primeiro, está implícita nela a tese de que a morte não é o fim do homem. ¶
Aqueles reunidos para serem avaliados haviam morrido, pois foram os mortos que João viu. Segundo, sua classificação e recompensa dependiam de seus próprios atos, daquilo que haviam feito enquanto ainda viviam. É a este segundo aspecto da visão que desejo dirigir a atenção. ¶
À medida que as hostes dos mortos passavam diante do trono, cada homem era julgado segundo as suas obras. Isso é justiça no mais elevado sentido do termo. É um juízo fundado na retidão. ¶
Ele alcança completamente o ideal perfeito. Nenhuma falha pode ser encontrada nele, pois cada homem há de ser classificado e recompensado com base em seu próprio desempenho individual. Sempre foi a concepção das nações esclarecidas de homens livres, particularmente daquelas cujas leis se enraízam no código cristão, que somente na medida em que os juízos abarcam a retidão é que se aproximam da justiça. Há muito tempo, o Profeta Amós uniu essas duas coisas em sua devida relação, e nenhum homem de reto pensar jamais conseguiu, ou tentou, romper o vínculo que inseparavelmente as une. ¶
Amós admoestou sua nação: ¶
Corra, porém, o juízo como as águas, e a justiça, como o ribeiro impetuoso. (Amós 5:24.) ¶
O Significado da Retidão
Hesito em usar a palavra retidão, porque a ela se veio a associar o mau cheiro da hipocrisia. Com demasiada frequência, aquele de quem se diz possuir a qualidade da retidão é escarnecido com desdém, como se o termo o caracterizasse como um impostor, um autoglorificador, alguém que se arroga virtudes superiores, como exemplificado na parábola de Jesus sobre o fariseu que publicamente agradeceu a Deus por não ser como os demais homens e proclamou em alta voz suas próprias virtudes. Jesus disse que o publicano que, à parte, sozinho, humildemente orou a Deus que tivesse misericórdia dele, pecador, seria justificado, e não o outro. ¶
Nenhum sentido de opróbrio se associa propriamente ao termo retidão. Ele significa aquilo que está de acordo com o que é reto, ou caracterizado pela integridade ou pela moralidade. Não há outra palavra para substituí-lo. Sou, portanto, obrigado a usá-lo, confiando em que seja entendido em seu sentido adequado. ¶
A declaração de João sobre a base do julgamento deve ser entendida como afirmando que há coisas que se espera que todos façam. ¶
A promessa de recompensas baseadas nas obras pressupõe que há exigências prescritas. Onde não há lei, não pode haver julgamento segundo a lei — este é um princípio tanto do governo divino quanto do secular. As exigências prescritas, naturalmente, devem ser buscadas nos ensinamentos de Jesus, pois João era seu discípulo. E, por sua revelação, João nos conta, foram-lhe mostradas as coisas que viu. ¶
Observância da Lei
Em sua última visita aos discípulos antes de sua ascensão, como já se afirmou hoje, Jesus os comissionou a levar sua mensagem a todos os povos, dizendo-lhes que ensinassem àqueles que convertessem a observar todas as coisas que ele lhes havia ordenado. Eis, então, a lei com base na qual todos hão de ser julgados. Até onde posso discernir, não há uma única coisa em tudo o que Jesus ensinou que, se praticada, não promovesse a retidão e a justiça na terra. Ninguém seria prejudicado pela conformidade universal a cada regra de conduta humana que ele promulgou. Não se pode pensar que jamais se pretendeu que o homem fosse condenado a viver perpetuamente nesta terra em meio à carnificina, à bestialidade, às contendas, ao ódio e à crueldade; à pilhagem de uns pelos outros; ao engano e à ganância; à luta pela vantagem de uns sobre os outros; ao espólio dos semelhantes; ao sufocamento e esmagamento de todos os sentimentos de misericórdia e bondade humana pela violência da força bruta, e pelo soterramento da retidão e de tudo o que torna a vida bela, sob os vis, pútridos, hediondos e feios bandos de vício que se espalham pela terra. Tudo isso, e toda a repugnante feiura da degradação humana desfilada diante de nós pela imprensa diária, está em direta oposição à benevolência e à fraternidade, ao valor e à dignidade da alma humana, com seu direito, dado por Deus, de ser livre da escravidão da opressão; às admoestações ao amor e à misericórdia, a serem puros de coração e a terem fome e sede de retidão, expostas por Cristo como guias para a retidão e para a vida abundante. ¶
Há poucos dias, J. Edgar Hoover disse ao comitê do Senado que investiga o crime organizado nos Estados Unidos que o jogo de azar poderia ser erradicado de imediato se as autoridades dos estados e das cidades fizessem a lei ser honestamente cumprida, em vez de conivência com aqueles dispostos a pagar o preço da proteção para violá-la. Junto com o jogo desapareceria toda a ninhada de males repugnantes que ele gera. Se isso pudesse ser feito, quanto mais infinitamente poderia a terra ser purificada pela simples observância das leis estabelecidas como base para o juízo e a justiça divinos. ¶
Sede Vós, Pois, Perfeitos
Em outra ocasião, ainda antes de sua crucificação, apresentando à vista a missão e o propósito da vida, a meta do esforço do homem, seu destino final, o Senhor disse: "Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus." (Mat. 5:48.) Esta frase concisa resume tudo o que Jesus ensinou sobre a missão da vida e o destino do homem. À primeira vista, parece uma afirmação difícil, e muitos têm sentido que ela impõe uma tarefa além de toda possibilidade de realização, e que não vale a pena tentar; que projeta um ideal tão completamente irrealista que o torna de pouco valor. Poderia haver alguma validade nessa objeção, se a vida devesse ser pensada apenas em termos da provação mortal. Para obter o pleno valor dessa admoestação, precisamos de uma compreensão mais ampla da obra da vida. ¶
O Presidente Brigham Young lançou alguma luz sobre isso em um de seus sermões. Depois de citar a passagem, ele observou: "Se a ... passagem que citei não estiver formulada de modo compreensível para nós, podemos alterar a fraseologia da frase e dizer: 'Sede perfeitos quanto puderdes', pois isso é tudo o que podemos fazer." ¶
"Quando estamos fazendo o melhor que sabemos, na esfera e posição que ocupamos aqui, somos justificados na justiça, na retidão, na misericórdia e no juízo que se apresentam diante do Senhor do céu e da terra. Somos tão justificados quanto os anjos que estão diante do trono de Deus. O pecado que se apegará a toda a posteridade de Adão e Eva é que não fizeram tão bem quanto sabiam fazer." (J. D. 2:129.) ¶
Juízo Justo
Isso coloca a admoestação de ser perfeito sobre uma base prática e viável. Está dentro do alcance da possibilidade de realização. Diz-nos também algo sobre quão elevada prerrogativa é proferir juízo. A dispensação justa da justiça requer onisciência divina. É talvez por isso que Deus reservou o juízo para si mesmo. Aqueles que João viu estavam diante de Deus. ¶
Ele teria conhecimento completo de todos os fatos essenciais, os quais os mortais que proferem juízos humanos talvez jamais tenham, e cuja falta tantas vezes resulta em erro judicial. Deus teria compreensão completa de todas as influências que contribuíram para moldar a vida a ser julgada; o conhecimento possuído e a oportunidade de conhecer; a capacidade de compreender o que lhe fora ensinado; o tipo de convívio e sociedade com que tem capacidade de se relacionar congenialmente; e, a partir de todos os múltiplos fatores envolvidos, colocar aquele que é julgado no lugar que lhe cabe, o que é, na realidade, o juízo final. ¶
Seres em Progressão
Essa interpretação introduz o princípio de que não se pretende que realizemos tudo nesta vida, mas que se espera que sejamos seres em progressão, crescendo em direção ao nosso destino final. ¶
Mas esse princípio, de forma alguma, nos isenta de fazer o melhor que pudermos, ou de adquirir todo o conhecimento que temos capacidade e oportunidade de assimilar ao longo do caminho. Temos ensinamentos bem específicos a esse respeito. As escrituras dizem: ¶
Qualquer princípio de inteligência que alcançarmos nesta vida surgirá conosco na ressurreição. ¶
E se nesta vida uma pessoa, por sua diligência e obediência, adquirir mais conhecimento e inteligência do que outra, ela terá tanto mais vantagem no mundo futuro. (D. & C. 130:18-19.) A inteligência tem sido interpretada como a capacidade de compreender e responder à luz e à verdade. Mas fica claro, pelo que foi citado, que conhecimento e inteligência são companheiros afins; e, além disso, que alcançá-los requer diligência, estudo, esmero e obediência. Sua aquisição é regida pela lei universal da recompensa pelo esforço. Eles não vêm como dádivas gratuitas para o preguiçoso ou o indiferente. ¶
Excelência Através do Esforço
Este é o ponto que eu queria especialmente enfatizar aqui hoje, e é talvez a razão de tudo o que disse antes. Não há nada em toda a história e experiência da raça humana, nada nos ensinamentos de Jesus, nada nas doutrinas da Igreja, que justifique a suposição de que a excelência possa ser alcançada sem esforço, seja no domínio espiritual, seja no domínio temporal; ou que a alta exaltação possa ser obtida por mera profissão de fé, ou pela adesão passiva a um credo ou corpo de doutrinas. Jesus deixou isso amplamente claro ao dizer: ¶
Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. (Mat. 7:21.) Deve-se notar que os ensinamentos de Jesus se referiam principalmente a esta vida. De vez em quando, ele nos dava vislumbres de um futuro glorioso. Mas estes eram condicionados àquilo que fazemos aqui, assim como, pela revelação de João, os mortos foram julgados pelas obras que haviam feito enquanto viviam. Não estamos aqui apenas para nos prepararmos para morrer, mas antes para viver, e para usarmos todo o nosso poder a fim de nos aperfeiçoarmos, adquirindo conhecimento, desenvolvendo nossos talentos, edificando a virtude em nós mesmos, vencendo o mal, praticando as coisas que sabemos. O progresso que fazemos aqui determina nossa condição no futuro. ¶
Uma Religião Prática
Temos uma religião muito prática. Ela diz respeito à nossa vida agora. E a recompensa pela observância da lei não é inteiramente adiada para um futuro do outro lado do túmulo. Edificar o reino envolve coisas bem práticas. Não se ocupa inteiramente do imaterial, situado na esfera etérea. A construção de casas de reunião, lugares de culto, escolas, templos, por exemplo, claramente tem propósitos espirituais. Mas envolvem um grande elemento material. São essenciais para a edificação do reino de Deus. E onde classificaríamos o embelezamento do lar; a criação de um ambiente mais refinado? ¶
É necessário prover as coisas que sustentam a vida, dominar as artes, os ofícios e os negócios que atendem às necessidades de progresso e melhoria. Não creio que consiga encontrar a linha que separa o espiritual do temporal. ¶
Ninguém nesta vida pode alcançar proficiência em todos os domínios do conhecimento, das habilidades ou dos empreendimentos humanos; contudo, eles se complementam, e cada um é essencial para a completude do todo. Pelo esforço cooperativo de todos, em um corpo organizado, cada um fazendo aquilo para que seu talento o capacita, o reino pode ser preparado. Suponho que a retidão daquilo que cada um faz dependa do propósito ou do motivo que estimula essa busca — seja ele a promoção do bem entre os homens, o avanço da retidão, ou a gratificação de uma ambição egoísta, a ser alcançada sem consideração pelas consequências para os outros, ou por sua influência sobre o progresso ou o aperfeiçoamento humano. ¶
Crescimento Através da Atividade
O conhecimento que permanece adormecido, e não é empregado para propósitos úteis, tem muito pouco valor. Pode-se alcançar a condição de membro da Igreja, por exemplo, cumprindo todas as ordenanças iniciatórias exigidas, mas, se a pessoa parar por aí, como alguns fazem, não pode presumir que sua salvação esteja assegurada, por mais correta que, em abstrato, sua conduta pessoal possa ser. É preciso progredir ou regredir. Não se pode ficar parado. A atividade é a lei do crescimento, e o crescimento, o progresso, é a lei da vida. A obediência à lei que governa, a cooperação com os outros, ajudando-os a edificar o reino de Deus, é indispensável. ¶
Não há, propriamente falando, leigos nesta Igreja. Há trabalho para todos, e o trabalho, o labor, o esforço em harmonia e concordância com a lei estabelecida é o único caminho conhecido para o progresso. Salvação é um termo relativo, que admite graus variados. Não pode haver outro sentido para a revelação de João de que "cada um será recompensado segundo as suas obras". O indolente, o preguiçoso ou o indiferente não pode esperar uma alta classificação, por mais loquaz que seja em suas professões de fé, ou por mais profuso que seja em suas declarações de devoção a seus credos. ¶
E oro humildemente para que cada um de nós, ao sairmos daqui, saia com plena consciência de que tudo o que esperamos, tudo o que aspiramos alcançar, dependerá de nossa disposição de pagar o preço no esforço individual. Não podemos apoiar-nos em nenhum outro ser humano, mas podemos ser auxiliados pela ajuda que recebemos de Deus, se o servirmos fielmente e guardarmos os seus mandamentos todos os dias, o que oro para que façamos, em nome de Jesus. Amém. ¶