Não se Pode Ter o Cristianismo sem Cristo
Albert E. Bowen
Se eu puder, gostaria hoje de fazer uma pequena comparação. ¶
Há pouco mais de mil novecentos anos, doze homens obscuros, com convicção e uma mensagem, empreenderam uma tarefa que transformou o mundo e moldou o curso da história. ¶
A Comissão do Senhor Eles agiam sob uma comissão que lhes fora dada pelo Senhor ressuscitado, como a injunção final de seu ministério terreno. Vindo a eles num lugar determinado, por ocasião de sua última aparição, ele fez este anúncio que marcou época: "É-me dado todo o poder no céu e na terra." (Mateus 28:18.) Aquela foi uma afirmação monumental de autoridade. Foi a premissa sobre a qual baseou sua solene incumbência: ¶
Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ¶
Ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado. (Idem, 28:19-20.) Conforme Marcos narra o episódio, a comissão foi acompanhada de uma promessa de igual peso, positivo e solene: "Quem crer... será salvo." (Marcos 16:16.) É certo que certos requisitos foram impostos aos crentes como condição para o cumprimento da promessa, mas estes decorreriam como consequência de uma crença genuína e sincera — o tipo de crença de que Jesus falava. Uma qualidade tremendamente marcante de todo esse assunto é o tom de finalidade que o permeia. Não há incerteza, nenhuma qualificação, nenhuma hesitação. É a voz da mais completa segurança, da suprema confiança, da autoridade final, tal como não se encontra igual nas palavras de nenhum outro homem que já viveu na mortalidade. Está em harmonia com o caráter daquele que se declarou o Filho de Deus, o Redentor do mundo. ¶
Durante o período de seu ministério mortal, a multidão havia percebido essa qualidade em suas palavras e dizia entre si, admirada, que "os ensinava como tendo autoridade." (Mateus 7:29.) Tampouco se percebe ali qualquer arrogância, vaidade ou pretensiosa arrogação de poder. Direto e claro, no tom calmo e autoritativo daquele que havia vencido a morte e assim redimido a humanidade de seu poder, vieram as palavras: "É-me dado todo o poder no céu e na terra." (Idem, 28:18.) É essa a rocha sobre a qual repousa o fundamento de todos os seus ensinamentos. Ninguém mais em todo o mundo jamais falou dessa maneira, e ninguém pode refutar tal afirmação. Pelo contrário, houve, e há, vastas multidões que, por quase dois mil anos, têm proclamado e continuam a proclamar a certeza de sua veracidade. ¶
Uma Incumbência Formidável Seria difícil conceber uma incumbência mais formidável do que aquela recém-mencionada, dada pelo Senhor a seus discípulos escolhidos. Considerai por um momento sua condição. Eram homens humildes — pescadores e camponeses — sem riqueza, posição social, ou amigos bem colocados. Não tinham prestígio político nem poderio armado. Viviam numa remota província do mais altivo e poderoso império da terra, cujas orgulhosas legiões haviam levado seus estandartes aos cantos mais remotos. Membros de uma raça turbulenta, problemática e, portanto, impopular, foram incumbidos de levar uma mensagem desconhecida e até então inaudita a todo o mundo, conclamando seus habitantes a observar todas as coisas que o Senhor crucificado houvesse mandado, prometendo salvação a todos os que cressem e obedecessem. Diante da magnitude dessa tarefa, o mais valente coração poderia bem ter fraquejado. ¶
Quais eram seus sentimentos pessoais, não nos é dito. O registro é silencioso. Somos deixados a inferir pelo que fizeram a respeito. Parece que não ficaram tomados nem sobrecarregados de apreensão. Talvez não tenham ficado tão assustados porque anteriormente já haviam sido enviados como emissários sob a direção pessoal do Mestre e tinham experiência pessoal de seu poder sustentador. ¶
Durante o período de seu ministério mortal, haviam estado sob sua tutela pessoal e o haviam ouvido declarar com firme certeza: ¶
... Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. (João 11:25.) E ainda: Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. ¶
E a vontade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. (João 6:38, 40.) Com igual firmeza o haviam ouvido declarar: ¶
Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pasto. ¶
Por isso o Pai me ama, porque dou a minha vida, para tornar a tomá-la. ¶
... Este mandamento recebi de meu Pai. (João 10:9, 17, 18.) Haviam-no visto crucificado e, em cumprimento de suas palavras, ressuscitar dos mortos. Tudo isso deve ter-lhes dado uma imensa confiança fortalecedora em sua promessa. Seja como for, foram sem hesitar a seu trabalho. ¶
A Fé Posta à Prova A qualidade de sua fé e de sua coragem logo foi posta à prova. Quando Pedro e João, subindo ao templo, curaram o coxo, foram levados perante os governantes, que lhes exigiram por que poder ou em que nome haviam feito aquilo. Pedro respondeu ousadamente. ¶
Seja conhecido a vós todos, e a todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dos mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. ¶
(Atos 4:10.) Foi-lhes proibido ensinar mais naquele nome e, ignorando a advertência, foram lançados na prisão. Sendo libertados, continuaram seus ensinamentos e foram açoitados e proibidos de ensinar; mas ainda assim persistiram, dizendo: ... Julgai vós se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes a vós do que a Deus; ¶
Porque não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos. ¶
(Idem, 4:19-20.) Pedro disse a seus inquisidores, cara a cara: ¶
O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-o no madeiro. ¶
Deus com a sua destra o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. ¶
(Idem, 5:30-31.) Esse era o poder de sua mensagem, e a base de sua força. ¶
Perseguições O número deles multiplicou-se com espantosa rapidez, e assim também a perseguição. Foram caçados, forçados a esconder-se, açoitados e apedrejados. Pelo relato de Saulo de Tarso, algo da amargura de seu sofrimento pode ser conhecido, mas ainda assim seguiram em frente, seu número multiplicado espalhando-se por todo o império e até a própria capital. Um édito de extermínio foi decretado contra a seita. Foram forçados a esconder-se, cruelmente torturados, lançados às feras no circo para diversão do povo, onde eram despedaçados membro por membro. Mas ainda assim a obra se espalhou, um triunfo da fidelidade a uma causa e da sinceridade em sua defesa. ¶
Esses homens criam. Homens não suportam esse tipo de perseguição sem profunda convicção. Ali não havia mero louvor de lábios, nem simulação, nem apologética, nem adulteração das doutrinas para agradar aos gostos ou práticas dos ouvintes. Esse é o tipo de crença, e esses eram o tipo de homens que perpetuaram os ensinamentos de Jesus na terra, resgatando-os de cair no esquecimento, e levaram a fé cristã triunfalmente até seu estabelecimento como a adoração da maioria do povo do próprio império que outrora a havia proscrito e decretado o extermínio de seus fiéis. Esse é o tipo de crença de que Jesus falava quando disse: "Quem crer será salvo." ¶
O Filho de Deus No cumprimento de sua comissão, os discípulos perceberam claramente que sua primeira tarefa era fazer com que ele fosse aceito, fazer com que os homens cressem que ele era o Filho de Deus, o Senhor ressuscitado que havia redimido a humanidade da escravidão da morte. Todo o seu ensino, portanto, girava em torno desse tema central. Sem isso, não haveria esperança de induzir o mundo a aceitar suas doutrinas morais e religiosas. ¶
O modelo de seu discurso foi prefigurado pela ousada declaração de Pedro aos governantes: "Seja conhecido a vós todos, e a todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dos mortos, em nome desse é que este está são diante de vós." Isso foi o que deu sanção autoritativa aos seus ensinamentos sobre o modo de vida que Jesus ensinou, e que tão profundamente influenciou o mundo inteiro. ¶
A Influência dos Ensinamentos Cristãos Foi claramente a intenção e o propósito do Salvador que os homens, os povos e as nações viessem a ordenar suas vidas segundo os princípios que ele estabeleceu, e é algo digno de admiração o quão profundamente esses ensinamentos por fim penetraram naquelas nações que abraçaram a fé cristã e forneceram os padrões de valores e julgamentos aos quais professam apegar-se. As nações formadas da desagregação do Império Romano, assim como as novas nações que surgiram ou foram povoadas a partir delas, em geral caíram sob a influência dos ensinamentos cristãos e foram chamadas nações cristãs. As próprias estruturas de seus governos foram coloridas e moldadas por esses princípios, e suas convicções cristãs tornaram essas nações dominantes no mundo por mil e quinhentos anos. ¶
Várias filosofias gregas, e romanas também, ensinaram regras de vida, mas as que sobreviveram fizeram-no penetrando na fé cristã, que as ofuscou como o poder espiritual dominante do mundo ocidental. Nas nações cristãs, quando os homens julgavam a conduta ou a validade de princípios, avaliavam-nos como bons ou maus segundo sua conformidade ou não conformidade com os padrões estabelecidos no código cristão. ¶
Antes que Mussolini e Hitler pudessem corromper a juventude de seus países, tiveram de minar, derrubar e destruir a crença nos princípios ensinados por Cristo, que por séculos seus países haviam sido ensinados a reverenciar como ideais, por mais que ficassem aquém deles na prática. Embora a igreja cristã tenha comprometido muitos de seus princípios vitais e, nessa medida, tenha se enfraquecido e subvertido seu propósito inicial, ainda assim prestava homenagem de lábios a Cristo e certa veneração por ele e seus preceitos, o que dava coloração dominante às instituições e práticas do mundo cristão. ¶
Sinais Inquietantes Mas algo ominoso está acontecendo agora. Há sinais inquietantes de que, por toda a cristandade, os alicerces da fé cristã estão sendo derrubados. O desmoronamento do padrão cristão é de grave presságio. Antigos suportes podem ser arrancados, mas o que nos amparará então? Começa a parecer que o mundo está retrocedendo à posição em que se encontrava quando o Senhor comissionou seus discípulos a levar sua mensagem a todas as nações. A tarefa novamente parece ser fazer com que os homens creiam nele — fazer com que ele seja aceito. Há algo altamente sugestivo no fato de que as convulsões que ameaçam a destruição do mundo civilizado se seguem tão de perto à negação aberta, por cristãos professos, da crença em Cristo como o Filho de Deus e da divindade de seus ensinamentos. ¶
Suponho que sempre tenha sido verdade que pessoas individualmente renegaram a crença em Jesus como o Messias, mas geralmente isso não ocorreu em escala de massa. Onde tal incredulidade foi declarada, geralmente professava-se que, ainda assim, os ensinamentos morais e éticos de Cristo continuavam sendo reconhecidos como do mais alto valor e válidos, sem a aceitação da reivindicação de seu messianismo ou de sua ressurreição. Mas o repúdio não pode ir até a metade e parar. A negação de sua divindade é apenas o primeiro passo no processo de negação completa a que a lógica dessa posição inevitavelmente conduz. E agora parecemos estar experimentando, em escala nunca antes imaginada, o repúdio de qualquer validade superior a todo o credo cristão. Em outras palavras, somos agora conduzidos, pela lógica dos acontecimentos, a reconhecer que não se pode ter o cristianismo sem Cristo, e aqueles que decidiram passar sem ele são levados a escolher se também vão transigir em seus princípios. Isso tem consequência quase mundial, porque o cristianismo penetrou nas nações não cristãs muito mais do que os credos delas penetraram no mundo cristão. ¶
Crítica ao Cristianismo Foi há apenas dois ou três anos que o presidente de uma congregação em nosso país, que antigamente se assumia cristã, disse: ¶
O cristianismo tem sido culpado de arrogância espiritual em escala mundial, rotulando todas as outras religiões como falsas, e afirmando que somente quando toda a humanidade aceitar a única religião verdadeira haverá alguma esperança de cooperação e paz mundiais. Isso equivale a imperialismo espiritual e está tão fora de moda em nosso mundo atual quanto qualquer outra forma de imperialismo. ¶
Num escrito recente, um ministro ordenado, que ocupara muitos pastorados, propõe e defende a necessidade de uma nova religião para uma nova era. Ele começa demolindo o Deus cristão e despedaçando a igreja cristã, protestante e católica igualmente. Diz-nos que o cristianismo é um grupo minoritário mesmo na América, e ridiculariza a ideia de que a grande maioria vá abandonar suas próprias crenças para aceitar "o Deus cristão." ¶
Mas é precisamente isso que Cristo determinou a seus discípulos que ensinassem o mundo a fazer. Além disso, é isso que o grande corpo do mundo romano professadamente fez em sua conversão do paganismo ao cristianismo. ¶
O autor do artigo afirma dogmaticamente: "Deus não fala com você." Todas as formas de religião conhecidas hoje, diz ele, e todas as ideias de Deus são feitas pelo homem. Não são eternas; surgiram do sentimento do homem de que era impotente para alcançar seus ideais e transferiu a tarefa de realizá-los a um poder sobrenatural. Ele propõe, como religião para a era moderna, uma que seja secular, presidida não por um ministério, nem por um clero, nem por qualquer pessoa agindo sob ordenação, mas administrada por profissionais, empresários, trabalhadores e artistas. Descreve a organização de um admirável mundo novo em que todo homem que tiver um talento será chamado a usá-lo. Notar-se-á, num exame cuidadoso, que, nesse esquema de coisas, não há lugar para Deus. ¶
O autor deixa bem claro que Ele não existe, nem há qualquer estado futuro para o homem. Parece que o próprio homem, e certamente a religião, não passaria de instrumento do Estado. ¶
Propostas Alternativas É possível concordar com muito do que o autor diz sobre o fracasso da Igreja Cristã em trazer a desejada condição de paz e boa ordem no mundo e a convivência harmoniosa entre os homens. Ele aponta a guerra e a frustração e as decepções das esperanças humanas por meio das falhas do comportamento humano. Mas, em todos os princípios e práticas que ele estabelece como aqueles que devem ser incorporados em sua nova religião, não há um sequer que já não esteja estabelecido nos ensinamentos de Jesus Cristo. Ele não propõe virtudes novas. ¶
Não fica claro como o ideal da vida boa para todos deve ser implementado ao substituir o evangelho ensinado por Jesus por um regime secular-político-econômico-sociológico, embora haja alguma indicação de que isso se daria por meio dos poderes autoritários de um Estado onipotente, o que é um conceito em direta discordância do que Jesus ensinou. Aqui gostaria de interpolar, sem usar mais palavras, o discurso emocionante que acabamos de ouvir do Presidente David O. McKay a respeito da dignidade humana e do direito de todos os homens de serem livres. ¶
Uma Revelação de Deus Chegamos, assim, ao final, à simples pergunta de se a religião é uma revelação de Deus, de validade permanente em todos os tempos, e por meio da qual o homem pode trabalhar seu caminho rumo à perfeição, ou se é uma criação humana sem sanção mais elevada do que a sabedoria do homem, sujeita a mudar com os humores passageiros dos tempos que mudam. ¶
Uma dá estabilidade, constância e propósito à vida, a razão de ser, com liberdade para escolher o próprio rumo; a outra deixa o homem à deriva, sem nada permanente a que se apegar e pouca esperança para inspirar uma vida nobre. ¶
No breve tempo de que disponho, sei que não pude fazer um retrato completo da ideia que está por trás de minha mente. Ousei esperar que pudesse propor algo suficientemente sugestivo para pôr vossas mentes a trabalhar sobre a ideia, o bastante para que pudésseis preencher o que, por necessidade, deixei incompleto. ¶
Tive mais particularmente em mente aqueles que, por suas ocupações diárias ou associações ou influências do ambiente, poderiam ficar confusos ou até mesmo perturbados pelo humanismo ímpio tão prevalente no pensamento de hoje. Se quiserdes enfrentar o escolasticismo com escolasticismo para reforçar vossa confiança nos ensinamentos e promessas do Mestre, podeis consolar-vos ao saber que muitos dos mais profundos eruditos deste e de outros tempos ainda depositam confiança em Deus, com quem se pode comungar por meio da oração. ¶
Recordo aqui as palavras de Henry George, o economista e cientista político, muitas de cujas opiniões políticas, econômicas e sociológicas estão em maior favor hoje do que quando ele as propôs pela primeira vez: "A economia política e a ciência social," disse George, "não podem ensinar nenhuma lição que não esteja abrangida nas simples verdades que foram ensinadas a pobres pescadores e camponeses judeus por alguém que, há 1800 anos, foi crucificado." ¶
Que todos os homens aprendam a reverenciar os ensinamentos do Senhor e Salvador. Que venham a saber que neles há poder salvador e que, fora deles, dentro do domínio da sabedoria humana, não há nada que possa salvar, oro em nome de Jesus. Amém. ¶