A Firmeza dos Princípios Eternos
Albert E. Bowen
A constância é uma virtude de grau tão elevado que Tiago, em sua epístola às tribos de Israel, declarou-a como uma das características distintivas da Divindade. Ele escreveu: ¶
Toda boa dádiva e todo dom perfeito ... desce do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. (Tiago 1:17.) ¶
Da mesma forma, Paulo, escrevendo aos hebreus, diz do Senhor: ¶
Jesus Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente. (Hebreus 13:8.) ¶
Deus Imutável ¶
Pela própria natureza das coisas, o Todo-Poderoso deve possuir essa firmeza. Para ser adorado, ele deve merecer a confiança implícita de quem o adora. A menos que haja uma fé permanente na integridade da Divindade, não poderia haver confiança. Mas não poderia haver nem fé nem confiança se ele fosse inconstante, mutável, caprichoso ou instável. É preciso saber que se pode contar com ele. Suas promessas devem ser infalivelmente certas de se cumprirem, e a mesma aprovação ou condenação deve fluir infalivelmente dos mesmos atos, independentemente de quem os tenha cometido, onde, ou em que época do mundo, com a devida consideração ao conhecimento e à luz disponíveis aos que agiram. A lei última pela qual a conduta do homem há de ser julgada deve ser a mesma lei amanhã que é hoje, e assim por diante ao longo de todos os amanhãs. Tal é o nosso conceito da imutabilidade do curso de Deus. Há algo imensamente sólido nesse conceito. Ele fala de perpetuidade e proporciona uma sensação de algo duradouro sobre o qual apoiar-se. ¶
A Solidez dos Princípios ¶
Mas essa não é uma ideia popular nestes dias, em que princípios, práticas, instituições e crenças, tornados veneráveis pela idade, são postos de lado com desprezível abandono, muitas vezes por nenhuma outra razão senão a de serem antigos. Até inventamos alguns nomes para aqueles que se recusam a lançar ao mar os princípios pelos quais viveram e prosperaram. Na linguagem de hoje, sem dúvida, Tiago e Paulo seriam chamados de reacionários, antiliberais, não progressistas. Seria facilmente demonstrável que a maioria das supostamente novas e progressistas propostas de hoje são, na verdade, antiquíssimas, já tendo sido experimentadas, consideradas ilusórias e descartadas num passado remoto. Seus defensores, longe de apontar o caminho do progresso, são os verdadeiros reacionários, conduzindo de volta a fracassos há muito desacreditados. Tenho a impressão de que a qualidade reacionária ou progressista de uma doutrina deveria ser determinada pela solidez ou falta de solidez dos princípios que ela incorpora, e não por sua idade. Tomemos, por exemplo, os Dez Mandamentos. ¶
Os Dez Mandamentos ¶
Eles são bastante antigos. Mas qual deles vós eliminaríeis? Em que medida os princípios que estabelecem encontraram seu lugar nas leis promulgadas pelos corpos legislativos das nações modernas? Haveria alguém, em todo o mundo, que ficasse pior por observá-los? Podem eles ser violados sem consequências prejudiciais para quem os viola? Esses são testes justos de sua natureza eterna. É seguro dizer que sua observância jamais trouxe remorso ao indivíduo, nem causou dano ou sofrimento a outrem. Pelo contrário, remorso, autoacusação, tristeza e dano a outrem são as consequências inevitáveis da violação da maioria deles. ¶
"Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Êxodo 20:16) merece particularmente nossa atenção nestes tempos de campanha eleitoral. Se toda a falsidade e o engano calculado fossem espremidos de muitos dos discursos que ouvimos, eles poderiam ser reduzidos a cerca de um minuto de duração, em vez de trinta. ¶
"Não cobiçarás ... coisa alguma do teu próximo." (Êxodo 20:17.) A observância dessa lei livraria o mundo da maior parte de suas contendas. Por uma experiência razoavelmente longa em lidar com as disputas dos homens, e suas causas, estou persuadido de que a maioria delas surge de um desejo cobiçoso de obter alguma coisa material ou de colher alguma vantagem à qual o contendor não tem direito. Se todos quisessem fazer o que sabem ser certo — agir com justiça, homem a homem — e se contentassem com o que pudessem justamente reivindicar, não haveria muito litígio nem contenda. Se isso se aplicasse à conduta das nações, não haveria guerra. A guerra resulta quando uma nação cobiça o que outra possui, ou busca domínio sobre ela. A vítima não quer abrir mão nem de sua posse nem de sua independência. O que planeja o ataque diz: "Sou maior do que tu", ou "Tenho um exército maior ou melhor equipado, por isso tomarei à força o que quero." O outro resiste, e temos a guerra. ¶
O décimo mandamento precisa ser obedecido para que a guerra e a contenda possam cessar. Ele estabelece um princípio universal, verdadeiro para todos os tempos; por isso, não está sujeito nem a mudança nem a concessão. O mesmo se pode dizer de todos os mandamentos de Deus. Não consigo pensar em nenhum cuja observância seja prejudicial a quem o guarda ou a qualquer outra pessoa. Pelo contrário, ela traz paz interior. Grande estabilidade resulta, para indivíduos e nações, da adesão firme a eles. ¶
A Qualidade da Estabilidade ¶
John Ruskin, naquele livro singular, As Sete Lâmpadas da Arquitetura, fala da estabilidade como uma qualidade essencial dos próprios edifícios que erguemos e que são a expressão de nossa cultura: ¶
A maior glória de um edifício não está em suas pedras, nem em seu ouro. Sua glória está em sua Idade, e naquele profundo senso de expressividade ... é na pátina dourada do tempo que devemos buscar a verdadeira luz, a cor e a preciosidade da arquitetura; e não é senão quando um edifício assumiu esse caráter, quando lhe foi confiada a estrutura, e foi santificado pelos feitos dos homens, quando suas paredes foram testemunhas de sofrimento, e seus pilares se ergueram das sombras da morte, que sua existência, mais duradoura do que a dos objetos naturais do mundo ao seu redor, pode ser dotada até mesmo daquilo que estes possuem de linguagem e de vida. ¶
Hoje, porém, os homens não constroem para a durabilidade, seja em suas estruturas, em suas vidas, em suas fés religiosas ou em suas instituições. O resultado é um mundo perturbado. Por toda parte há ansiedade e o pavor que surge da incerteza, que interrompe ou paralisa todos os processos normais da vida. Tudo isso surge de uma única causa — a falta de fidelidade aos princípios corretos — princípios que são conhecidos e não misteriosamente ocultos. Os homens têm falhado em sua fidelidade aos princípios religiosos, e as nações não têm sido fiéis aos seus princípios políticos. As duas infidelidades andam juntas. Quando há um colapso da constância religiosa, segue-se inevitavelmente a deterioração da moralidade política. Ambas têm a mesma causa raiz, a saber, o afastamento dos princípios sólidos, ou seu comprometimento. Isso equivale a fugir da realidade e ceder ao impulso de evitar as disciplinas duras e rigorosas inerentes ao enfrentamento das questões da vida, tentando alcançar objetivos sem percorrer o caminho espinhoso que a eles conduz. Queremos evitar todas as coisas desagradáveis. Estamos tentando viver sob uma economia de prazer, num mundo de prazer. Assim, vivemos, na verdade, por coisa nenhuma: por nenhum Deus, por nenhuma piedade para com o passado, por nenhum orgulho de raça ou de personalidade. Outrora vivíamos pela liberdade, empenhando "nossas vidas, nossas fortunas e nossa sagrada honra." A própria expressão implica sacrifício e sofrimento, disciplina da alma para enfrentar a realidade. Agora queremos ser poupados de sofrimento de qualquer tipo — físico, emocional ou mental. Buscamos segurança, uma jornada de seis horas, um carro e uma pensão. Mas, o tempo todo, a vida nos escapa, a paz de espírito nos escapa, e temos insatisfação, tumulto, incerteza e pavor. ¶
A Necessidade de Continuidade nas Mudanças ¶
É verdade que as instituições humanas, trazendo em si mesmas as imperfeições inerentes à sabedoria e às capacidades limitadas daqueles que as moldam e as operam, ficam aquém da permanência característica das coisas divinas e podem estar sujeitas a mudança com o progresso da sabedoria e da experiência que se desdobram. Mas a mudança deve caminhar em direção ao ideal e não deve ultrapassar a prontidão para recebê-la e assimilá-la sem rupturas violentas, sob pena de resultar em dano em vez de melhoria. A mudança assim realizada se dará sem destruir a continuidade, fator vital para o progresso ordenado. ¶
Permiti-me ilustrar isso com um exemplo. Quando as colônias americanas se rebelaram contra a mãe-pátria, não foi com o propósito de descartar os princípios pelos quais haviam vivido. Como ingleses, eles apenas reivindicavam os direitos reconhecidos dos ingleses, direitos esses que, segundo alegavam, lhes estavam sendo negados como residentes das colônias. Se a Grã-Bretanha tivesse atendido a seus pedidos, eles teriam se contentado em permanecer súditos do reino, e não teria havido revolução. A Grã-Bretanha não cedeu a suas exigências. Assim, eles declararam uma separação política e travaram uma guerra para tornar efetiva sua declaração. Tendo alcançado isso, tiveram de estabelecer uma nova estrutura de governo para prosseguir. Mas não jogaram fora seus antigos princípios. Eles os perpetuaram sob seu novo governo. O princípio pelo qual haviam lutado era a liberdade — os direitos dos homens livres. Isso continuou a ser o propósito de seu novo governo e foi o núcleo de continuidade que ligava o antigo ao novo. Eles continuavam sendo, como seus antepassados ingleses haviam sido, uma nação cristã temente a Deus, firmada em seu direito de ser livre. O governo que moldaram preocupava-se principalmente em assegurar esse antigo direito. Tentaram, por toda a arte e todo o recurso que conheciam, precaver-se contra uma nova violação dele. Foi preciso um pouco de tateio, um período de labuta, antes que seu governo se pusesse em funcionamento; mas, quando isso aconteceu, não constituiu ruptura alguma com o passado, e essa continuidade conferiu maravilhosa estabilidade à nova nação; ela começou sua vida livre de purgas sangrentas, represálias e excessos. Já há cento e sessenta anos ela segue seu curso ininterrupto. Assim começados e assim perpetuados, os Estados Unidos da América alcançaram uma transcendência sem paralelo entre as nações. Eles se erguem hoje como a última esperança dos homens livres, o único apoio estabilizador para este mundo cambaleante. ¶
A Fúria da Revolução Francesa ¶
Contrastai isso com a história da Revolução Francesa, que veio pouco depois. Ela foi inaugurada por uma fúria selvagem de assassinato, pilhagem e vingança cega, com monstros disputando a supremacia, e o vencedor enviando o vencido à guilhotina. Os excessos foram se agravando em espiral, com fanáticos enlouquecidos empurrando sempre a extremos ainda maiores. No fundo estava o abandono total dos princípios. Procurou-se apagar o passado. Deus foi destronado e escarnecido com zombaria; a razão foi deificada e um novo culto proclamado. Com o fio da continuidade completamente rompido, não podia haver assentamento numa ordem estabilizada, e o terror reinou até que Napoleão apontou contra eles seus canhões e estabeleceu seu governo pessoal. Desde então, governos têm surgido e caído na França: república transformando-se em império totalitário, e império voltando a república, e república em república, com a própria existência da atual em jogo. A incerteza, a confusão e a falta de firmeza que a acompanham são sua praga. ¶
A Experimentação Socialista ¶
E, no entanto, tendo diante de nós este e inúmeros outros exemplos da história, temos hoje, nesta terra, aqueles que destruiriam nossos alicerces sólidos, importando para cá, do Velho Mundo, aquilo de que nossos antepassados fugiram para vir plantar profundamente no solo virgem desta nova terra as raízes da árvore da liberdade. A notícia está vazando de que agora se está formando, para ser lançado publicamente assim que as eleições terminarem, um novo partido, encabeçado por homens que, tendo desfrutado de uma breve hora de poder, mas agora fora de favor no partido que os elevou, relutam em ver a autoridade escapar-lhes das mãos. Seu propósito é fazer acontecer aqui a experimentação socialista que está destruindo a força da Inglaterra e abalando aquela nação até seus alicerces. Essa experiência foi apropriadamente descrita como "a estação intermediária no caminho para o totalitarismo." ¶
A terra também é fecunda em pseudorreligiosos cultos que se multiplicam como uma pestilência. Já perdemos parte de nossa própria estabilidade, e não a recuperaremos se o povo se render ao chamariz sedutor de fantasmas especiosos, religiosos ou políticos, renunciando aos princípios sólidos sobre os quais estamos alicerçados e sobre os quais a Igreja e a nação cresceram em grandeza e poder. ¶
Inquietação e Tumulto no Exterior ¶
Olhai para o mundo hoje e vereis inquietação fervilhante, tumulto, confusão, pavor, suspeita, inveja, desconfiança e preparação para uma guerra devastadora. O que aconteceu? ¶
A Grã-Bretanha e a França entraram em guerra para garantir a integridade territorial da Polônia. Fizemos daquela causa a nossa causa. O princípio era que nenhuma nação deveria ser permitida ser pisoteada por um invasor impiedoso de sua terra. O inimigo foi subjugado, mas o princípio de proteção de um povo contra as incursões e a opressão de um tirano estrangeiro, pelo qual a guerra foi ostensivamente travada, foi abandonado, e uma grande parte do território da Polônia foi permitida ser tomada, e todo o seu povo, trazido sob o domínio de um déspota tão impiedoso e cruel quanto o primeiro invasor. A invasão da Finlândia foi denunciada como um ato de brutalidade gratuita, e o autor da invasão, como um déspota tão tirânico quanto qualquer outro no mundo. Então, por uma volta da roda da fortuna, aquele déspota passou para o nosso lado — ou, mais propriamente falando, nós passamos para o lado dele — e fechamos os olhos ao seu desmembramento daquela terra infeliz e às indenizações desmedidas que impôs a seu povo. ¶
Sem sequer consultar nossa antiga amiga, a China, demos nosso consentimento à tomada de uma vasta porção de seu território e ao controle de suas comunicações vitais. ¶
Uma Verdade e Uma Moralidade ¶
O mundo está colhendo o fruto desse abandono dos princípios. Há apenas uma verdade e uma moralidade. Uma vez descobertas, não importa se encontram aplicação em observâncias religiosas ou em sistemas políticos. Elas trazem a marca da eternidade e não podem, impunemente, ser abandonadas ou comprometidas. ¶
A estabilidade virá quando os homens voltarem a viver segundo as promessas que fazem e, em sua moralidade pública como em sua conduta privada, em sua vida religiosa como em sua vida política, desenvolverem integridade de propósito, firmeza de princípios e adesão a leis conhecidas, alicerçadas na sabedoria do eterno. ¶
Ao lutarmos para avançar rumo a essa meta, mantenhamos firmemente diante de nossos olhos o farol resplandecente da ordem perfeita de Cristo, conforme nos foi declarado por Alma: ¶
... ele não pode andar por veredas tortuosas; nem se desvia daquilo que disse; nem há nele sombra de desviar-se da direita para a esquerda, ou seja, daquilo que é certo para aquilo que é errado; portanto, o seu caminho é um círculo eterno. (Alma 7:20.) ¶
Que Deus nos conceda a sabedoria e a força para alcançar essa estabilidade, é o que oro, em nome de Jesus. Amém. ¶