Pulpit

Sacrifício e Serviço Como Princípios de Salvação

Harold B. Lee

1947 April General Conference·First Day Afternoon Session·1947-04-04

Há pouco tempo tive uma conversa com uma irmã que ouvira um sermão fúnebre no qual lhe pareceu que se ensinara a doutrina de que era possível saber qual seria o lugar de alguém nos mundos eternos, mesmo antes do dia do juízo de que fala João, o Revelador, quando disse ter visto os mortos, pequenos e grandes, de pé diante de Deus para serem julgados, cada homem segundo as obras praticadas na carne. E então ela fez a pergunta: "Como é possível saber qual será o lugar de um indivíduo antes que ocorra a ressurreição?"

Uma Pergunta Quanto à Vida Após a Morte

Essa pergunta sugeriu-me algumas escrituras importantes. Ao refletir sobre o que ela perguntara, descobri que, ao que parece, Alma teve uma pergunta semelhante proposta a ele, pois deu a seu filho Corianton esta explicação:

E é imprescindível à justiça de Deus que os homens sejam julgados de acordo com suas obras; e se suas obras foram boas nesta vida e se os desejos de seu coração foram bons, que sejam também no último dia restituídos ao que é bom.

E se suas obras são más, ser-lhes-ão restituídas para o mal. ... porque assim como ele desejou praticar o mal no decorrer do dia, terá a recompensa do mal quando chegar a noite.

E assim é do outro lado. Se ele se arrependeu de seus pecados e desejou retidão até o fim de seus dias, assim também será recompensado com retidão.

. . . e assim se mantêm ou caem; pois eis que são seus próprios árbitros. . . . [Itálico do autor.] (Alma 41:3-7.)

De acordo com essa explicação do profeta Alma, o Senhor, ao revelar o lugar que o mundo ocupará no dia da redenção da humanidade, disse:

Para que os corpos que forem do reino celestial possuam-na para todo o sempre; porque com esse intento foi feita e criada e com esse intento são eles santificados.

E os que não forem santificados por meio da lei que vos dei, sim, a lei de Cristo, herdarão outro reino, sim, um reino terrestre ou um reino telestial.

Porque aquele que não consegue viver a lei de um reino celestial não consegue suportar uma glória celestial.

E aquele que não consegue viver a lei de um reino terrestre não consegue suportar uma glória terrestre.

E aquele que não consegue viver a lei de um reino telestial não consegue suportar uma glória telestial; portanto, não é digno de um reino de glória. Portanto, deve permanecer num reino que não seja um reino de glória. (D&C 88:20-24.)

E, finalmente, temos o testemunho de Amuleque:

Não podereis dizer, quando fordes levados a essa terrível crise: Arrepender-me-ei para retornar a meu Deus. Não, não podereis dizer isso; porque o mesmo espírito que possuir vosso corpo quando deixardes esta vida, esse mesmo espírito terá poder para possuir vosso corpo naquele mundo eterno.

Pois eis que, se deixastes o dia do arrependimento para o dia da vossa morte, eis que vos tendes submetido ao espírito do diabo e ele vos sela como seus; portanto, o Espírito do Senhor se apartou de vós e não tem lugar em vós; e o diabo tem sobre vós todo o poder, e este é o estado final dos iníquos. (Alma 34:34, 35.)

Ao meditar sobre essas escrituras que me foram trazidas à atenção, enquanto discutíamos a pergunta dessa irmã, estas conclusões me pareceram claras. Em primeiro lugar, somos nós mesmos os juízes do lugar que teremos no mundo eterno. Aqui e agora, na mortalidade, cada um de nós tem a oportunidade de escolher que tipo de leis elege obedecer. Ora vivemos e obedecemos leis celestiais que nos farão candidatos à glória celestial, ora vivemos leis terrestres que nos farão candidatos à glória terrestre ou à lei telestial. O lugar que ocuparemos nos mundos eternos será determinado pela obediência que prestarmos às leis desses vários reinos durante o tempo que temos aqui na mortalidade sobre a terra.

Jesus, a Luz do Mundo

O Senhor caracterizou-se como "a luz do mundo". E, nesse testemunho, declarou ainda que aqueles que o seguissem não andariam em trevas, mas teriam a luz da vida no mundo celestial, na presença do Senhor.

O Mestre, em seu Sermão da Montanha, deu-nos um padrão elevado a alcançar:

Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus. (Mateus 5:48.)

E as escrituras nos declaram que o propósito primordial da organização da Igreja foi o "aperfeiçoamento dos Santos". Foi-nos dito o caminho pelo qual o Mestre alcançou a plenitude de seu poder. Disse o apóstolo Paulo:

Ainda que era Filho, todavia aprendeu a obediência pelas coisas que padeceu.

E tendo ele sido aperfeiçoado, veio a ser o autor da eterna salvação para todos os que lhe obedecem. (Hebreus 5:8, 9.)

O Sacrifício e o Serviço São Princípios de Salvação

O próprio cerne daquilo que chamamos cristianismo encontra-se no registro do escritor do evangelho de João, no qual ele citou o testemunho do Mestre acerca de sua própria missão divina como Salvador do mundo. Estas foram as suas palavras:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16.)

Assim foi declarado o mais elevado serviço que podemos prestar aqui na vida mortal, a disposição de sacrificar a nós mesmos pelo bem-estar dos outros. O lugar do sacrifício e do serviço nesse processo santificador da vida foi explicado pelo profeta Joseph Smith:

Uma religião que não exige o sacrifício de todas as coisas jamais tem poder suficiente para produzir a fé necessária à vida e à salvação.

Foi por meio do sacrifício, e somente por ele, que Deus ordenou que os homens desfrutassem a vida eterna. . . .

Se pudéssemos aplicar a nós mesmos e às nossas próprias vidas esse princípio pelo qual poderíamos agarrar-nos a esse precioso dom, seríamos de fato sábios. Foi o rei Benjamim quem ensinou seu povo em seu discurso de despedida:

. . . quando estais a serviço de vosso próximo, estais somente a serviço de vosso Deus. (Mosias 2:17.)

Esse grande princípio de sacrifício e serviço foi exemplificado naquela declaração do Filho de Deus que já citei:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu. . . . [Itálico do autor.]

Dar, portanto, é uma expressão do amor de alguém, e quando alguém verdadeiramente se dá, é evidência de um amor perene naquele indivíduo que assim está disposto a dar. O Mestre tanto amou a humanidade que deu a própria vida. Foi ele quem disse:

Eu sou o bom pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. . . . e dou a minha vida pelas ovelhas.

Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou. (João 10:14, 15, 18.)

O profeta Joseph Smith tanto amou a verdade que lhe fora revelada, que estava disposto a sacrificar tudo o que possuía neste mundo, sem sequer reter a própria vida, tudo a fim de que pudesse dar esse testemunho e que ele pudesse ser ouvido pelas nações da terra. Caracterizou sua vida, nos últimos anos, com estas palavras:

Sou como uma enorme e áspera pedra rolando de uma alta montanha; e o único polimento que recebo é quando algum canto se desgasta ao entrar em contato com outra coisa, ... todo o inferno arrancando um canto aqui e outro ali. Assim me tornarei um eixo liso e polido na aljava do Todo-Poderoso. . . . (Teachings of the Prophet Joseph Smith, edição de 1940, p. 304.)

Os pioneiros, a quem homenageamos neste ano centenário, tanto amaram a liberdade de adorar a Deus segundo os ditames de sua própria consciência, que abandonaram seus lares, abandonaram suas terras e seus bens, deixaram amigos nas terras do leste e vieram até este inóspito deserto montanhoso a fim de que seus justos desejos pudessem realizar-se.

A Experiência de um Militar

Estive visitando uma estaca há alguns meses e fui convidado a entrevistar alguns rapazes como possíveis missionários. Fora-me dito pelo presidente de estaca que um desses rapazes tinha, após um longo período de hospitalização, recuperado-se de um grave choque de guerra que sofrera enquanto servia nas forças armadas. Ao encarar esse rapaz para a entrevista, perguntei-lhe: "Por que desejas ir nesta missão?"

Ele ficou pensativo por vários instantes, e então respondeu: "Quando fui servir, foi a primeira vez que me afastei de meu lar. Encontrei condições estranhas. Encontrei tentação por todos os lados e o convite ao pecado. Eu precisava de força para me manter afastado do pecado, e fui perante meu Pai Celestial e orei-lhe com fé, pedindo-lhe essa força para resistir ao mal. Deus ouviu minha oração e deu-me essa força. Depois que o período de treinamento terminou e nos aproximávamos da área de combate, ouvimos o estrondo dos canhões que anunciava a mensagem de morte que se aproximava constantemente. Fiquei com medo, e tremia todo. Orei a Deus pedindo coragem, e ele me deu coragem, e sobreveio-me uma paz que eu nunca antes desfrutara. Quando chegamos às Filipinas, fui designado para servir como batedor avançado, o que significava que eu estava à frente das forças de combate e, por vezes, quase cercado pelo inimigo. Eu sabia que havia apenas um poder na terra que poderia salvar-me, e orei a esse poder para que me protegesse, para que salvasse minha vida, e Deus ouviu minha oração e trouxe-me de volta à minha companhia."

Disse-me então: "Irmão Lee, tenho todas essas coisas pelas quais ser grato. É pouco o que posso fazer, agora, ao sair como embaixador de Jesus Cristo, para ensinar à humanidade estas bênçãos que recebi ainda criança em meu lar."

Ao ouvir tal expressão de fé daquele jovem, contrastei-a com aqueles que eu ouvira dizer que pensavam que, ao ir para o campo missionário, ganhariam treinamento, veriam o mundo, adquiririam experiência valiosa que os beneficiaria pessoalmente. Desejaria que nossos missionários exemplificassem, em seu serviço, os padrões dos grandes missionários do passado, um dos quais partiu de nós desde a última conferência geral. O irmão Charles A. Callis viveu e morreu como o grande missionário; sim, deu a vida e esteve disposto a sacrificar tudo o que possuía a fim de ensinar essa verdade tão preciosa à sua alma.

A Felicidade Por Meio do Serviço

Nossos jovens chegam ao altar matrimonial tendo sido ensinados, nas escolas públicas, quão importante é fazer certo ajuste no casamento, e muitos deles têm bastante receio quanto a esse ajuste. Se esses jovens compreendessem que a aplicação desse princípio de sacrifício e serviço seria a resposta ao problema do ajuste, seus temores seriam dissipados. Se resolvessem, desde o momento de seu casamento, que dali em diante resolveriam e fariam tudo o que estivesse a seu alcance para agradar um ao outro nas coisas que são corretas, mesmo com o sacrifício de seus próprios prazeres, de seus próprios apetites, de seus próprios desejos, o problema do ajuste na vida conjugal resolver-se-ia por si só, e seu lar seria de fato um lar feliz. O grande amor se constrói sobre o grande sacrifício, e aquele lar em que o princípio do sacrifício pelo bem-estar mútuo é expresso diariamente é o lar onde habita um grande amor.

Uma ganância egoísta por vantagem pessoal não provém dos ensinamentos da verdade, mas antes dos ensinamentos daquele que é inimigo da verdade. Isso é expresso naquela escritura que nos fala da proposta que Satanás fez a nosso Pai Celestial:

. . . Eis-me aqui, envia-me; serei teu filho e redimirei a humanidade toda, de modo que nenhuma alma se perca; e sem dúvida eu o farei; portanto, dá-me a tua honra. (Moisés 4:1.)

Ali estava o egoísmo, e o exemplo dele, perante o mundo.

Aquele homem que é ambicioso por ganho e vantagem pessoais nunca é um homem feliz, pois diante dele estão sempre os horizontes que recuam na vida, que sempre zombarão de suas tentativas de aquisição e conquista. Aquele homem que serve desinteressadamente é o homem que é feliz.

No serviço militar, eram frequentemente concedidas, por feitos notáveis, condecorações nacionais e certificados de mérito, e sempre com a citação vinham estas palavras sugestivas: "Por serviço meritório além do dever."

Nisso reside o caminho pelo qual nós também podemos alcançar os mais altos objetivos e conquistar os merecidos aplausos de nosso Pai Celestial. Aquilo que fazemos além do dever, além do que somos compensados em riquezas materiais, é o que nos dá a maior alegria na vida.

Ao observar as experiências de nossos irmãos e ouvir seus testemunhos, convenço-me de uma grande verdade: sempre que o Senhor tem uma grande bênção para um de seus filhos, ele coloca esse filho ou filha no caminho de fazer um grande sacrifício.

O Caminho Aberto Por Meio da Oração

Sentei-me no templo, há alguns anos, com um membro de meu sumo conselho, ao irmos ao nosso círculo de oração em uma manhã de domingo bem cedo. Ele contou-me suas dificuldades financeiras que quase haviam destruído toda a sua fortuna, e disse: "Eu não tinha para onde me voltar; estava prestes a perder tudo o que tinha no mundo; finalmente, na semana passada, fui a meu Pai Celestial e disse-lhe: 'Pai celestial, se abrires o caminho pelo qual eu possa refinanciar-me, darei mais do que meus dízimos e minhas ofertas. Farei sacrifícios maiores por isso, se apenas me ajudares a salvar o que tenho.'" E disse: "Irmão Lee, levantei-me de joelhos, e o caminho abriu-se de maneira muito milagrosa. O Senhor fez a parte dele, e agora quero que me ajudes a fazer a minha parte. Podes ajudar-me a encontrar um meio pelo qual eu possa fazer maiores sacrifícios por esta Igreja?"

Do planejamento daquele homem surgiu uma das coisas que, hoje, tem sido um marco nas atividades de bem-estar daquela estaca. Hoje temos o programa de bem-estar que nos dá um meio para o sacrifício e para maior serviço. Ouvimos hoje os relatórios e os apelos das necessidades deste programa. Certamente não devemos deixar que essas coisas caiam em ouvidos surdos, pois se, neste dia, a Igreja se levantar ao chamado da Primeira Presidência, e se os membros da Igreja sacrificarem seus bens, seu tempo, seus talentos para a edificação do reino de Deus, sem sequer reter a própria vida, se isso fosse necessário, então virá a este povo, e àquele indivíduo que assim estiver disposto a consagrar-se, a maior alegria que pode vir à alma humana.

Que Deus nos abençoe para que possamos ensinar a nossa juventude o caminho pelo qual essa felicidade virá, e planejemos nossos banquetes para a juventude de tal maneira que deem à juventude a oportunidade de banquetear seus líderes, em vez de os líderes fazerem todo o sacrifício em benefício da juventude. Dai-lhes a alegria do serviço e esperai deles os sacrifícios que forem necessários para edificar a fé necessária a agarrar-se à vida eterna, é o que peço humildemente em nome do Senhor Jesus Cristo. Amém.

Como citar este discursoHarold B. Lee, “Sacrifício e Serviço Como Princípios de Salvação”, 1947 April General Conference, First Day Afternoon Session (1947-04-04). Pulpit Vault, 1947-04-harold-b-lee-conference-address. Tradução desta edição, por método de glossário, catalog.churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).