Uma Carta Escrita a Uma Mãe Enlutada
Spencer W. Kimball
Meus amados irmãos aqui presentes, e irmãos e irmãs da audiência de rádio: É um grande privilégio e inspiração estar aqui nesta conferência da Igreja de nosso Senhor, Jesus Cristo. Que a paz do céu esteja convosco e conosco. ¶
O Conselho de um Bramane a Uma Mãe
Uma mulher no Extremo Oriente que havia perdido seu filho foi ao bramane e disse: "Tens de devolver- me meu filho, tens, tens." O bramane, com serena dignidade, disse-lhe: "Vem, filha, tens de sair e colher as folhas de uma planta (que era tão comum entre nós quanto a mais comum das ervas daninhas) e fazer um chá com as folhas, e beber o chá, e eu te devolverei teu filho. Mas as folhas devem ser colhidas do quintal de uma família que jamais conheceu a tristeza." ¶
A mulher viajou de vilarejo em vilarejo, e de província em província, e finalmente, de coração pesado e pés cansados, voltou a seu mestre dizendo: "Pai, viajei por toda esta terra, mas não consigo encontrar um único lar onde a tristeza não tenha estado presente." Ela havia voltado, não para recuperar seu filho, mas para se contentar com sua sorte. ¶
Ontem nos disseram, em conferência, que cerca de novecentos de nossos valorosos filhos haviam sido sacrificados neste diabólico holocausto mundial. Pareceu-me ainda mais do que isso, pois, ao percorrer a Igreja, tenho-me deparado com tal tristeza em todas as partes do país. ¶
Essas trágicas histórias de filhos mortos nos campos de treinamento e nos teatros de guerra não se limitaram a nenhum indivíduo, nem a nenhuma localidade, mas em toda parte nossos parentes e amigos choram em sua solidão e tristeza. ¶
Uma Carta Escrita a Uma Mãe Enlutada
Permiti-me ler-vos uma carta que escrevi há algum tempo a uma mãe de meu conhecimento cujo filho acabara de ser morto em combate? Rogo sinceramente que algum pensamento nela contido lhe tenha trazido, e possa trazer a outros, um pouco de esperança, conforto e coragem. ¶
Prezada Irmã: ¶
Muito recentemente tenho sido recebido nos lares de pais que perderam filhos jovens, ainda adolescentes e no início dos vinte anos; filhos que eram tão puros e amáveis em suas vidas quanto suas mães; filhos que tinham capacidade e haviam desenvolvido seus talentos, e possuíam também o espírito e o desejo de usá-los para o progresso da obra do Senhor. Isso me tem feito refletir profundamente. ¶
Uma determinada mãe, que derramou sua alma diante de mim, estava inclinada à amargura. Ela disse: ¶
Por que tiraria o Senhor meu filho de mim? Por que o Senhor não respondeu a minhas orações e o salvou? Sei que meu filho permaneceu puro; por que teria de ser levado? Não só ele, mas toda a família sempre foi fiel; por que nossa dignidade não é reconhecida? Por que teria ele de morrer tão jovem, quando era tão justo? ¶
Bem, sabeis a responsabilidade que senti ao tentar responder-lhe. Com toda a minha alma orei para que o Pai me ajudasse a trazer-lhe conforto. ¶
Enquanto eu estava sentado em meditação, minha mente voltou a uma pequena colina, distante, sobre a qual se recortavam, contra as sombras que se aprofundavam de um dia negro e trágico, três cruzes nas quais seres humanos se contorciam nas agonias da morte, e o Central clamou: ¶
Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mateus 27:46.) ¶
E pareço ver, aos pés da pesada cruz, a figura encolhida de uma mãe rasgada pela agonia, dizendo: ¶
Por que teria ele de morrer? Tão jovem, tão puro, tão capaz de ensinar ao mundo um caminho melhor? Por quê, ó, por quê? ¶
Então pareço ver outro quadro, mais moderno, de uma mãe transtornada pela dor, observando a caravana que se aproximava trazendo dois filhos amados de volta ao lar, de um vil martírio numa prisão a certa distância, e quase posso ouvi-la, entre soluços: ¶
Por que teriam eles de ser mortos? Por que teriam de ser tirados da Igreja em sua infância, que tanto precisa deles? Por que teriam de morrer, tão jovens, tão puros, tão fortes? ¶
Então percebo que Deus não toma essas vidas. É permitido porque os homens têm seu arbítrio. ¶
Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é necessário que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem! (Mateus 18:7.) ¶
Houve frustração no martírio de Joseph Smith? Joseph foi protegido e sua vida preservada em cada instância de perseguição, até que sua obra estivesse terminada e ele houvesse cumprido sua parte na restauração do evangelho e do sacerdócio e de todas as demais chaves da dispensação, e até que a organização do reino estivesse efetuada. Ele não podia ser morto antes desse tempo, ainda que todo o inferno se enfurecesse contra ele. Ele queria viver. A vida lhe era doce. Continha a promessa de doces convívios com sua família, seus irmãos, e a satisfação de ver a obra desabrochar em plena flor. Mas sua obra estava feita; outros líderes fortes já podiam prosseguir; ele era necessário em outros campos. Com apenas trinta e poucos anos, um homem ainda muito jovem, ele morreu, e começou sua obra em outros domínios. ¶
Houve derrota na crucificação de Jesus, o Cristo? Se assim fosse, toda a criação estaria condenada, e o homem teria permanecido no pecado. Se assim fosse, a crucificação não teria ocorrido senão numa data posterior -- até que sua hora houvesse chegado. Sua vida não lhe foi tirada -- ele a deu. A Pedro, que decepara a orelha de um dos que compunham a turba, ele disse: ¶
... não beberei eu o cálice que o Pai me deu? (João 18:11) e pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e ele me daria mais de doze legiões de anjos? (Mateus 26:53.) ¶
Ele era jovem, com apenas 33 anos. Ele também amava a vida. Queria viver pela riqueza que via nela -- seus amigos, seu reino crescente, seus irmãos, sua mãe. A vida lhe era doce. Não orou ele no Getsêmani: ¶
... Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; porém, não seja como eu quero, mas como tu queres. (Mateus 26:39.) ¶
Então, à medida que o tempo passava, e nenhuma resposta positiva vinha à sua súplica, ele clamou de novo em seu tormento: ¶
Meu Pai, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade. (Mateus 26:42.) ¶
Na primeira oração, ele ainda parecia ter um vislumbre de esperança de que algo pudesse ser feito a respeito, mas na segunda parecia ter-se decidido definitivamente em sua mente que nenhum ajuste poderia ser feito, e que, para que os propósitos de Deus não falhassem, ele precisava beber o cálice amargo. ¶
Ele foi tirado de sua mãe, ainda que isso lhe partisse o coração. Sua oração, talvez a mais sincera e digna já proferida, não foi respondida como ela teria desejado. A dele foi a vida perfeita, pura, inocente, divina, e ainda assim ele partiu. Sua mãe era devota, como também o eram alguns de seu povo, e no entanto a vida dele se esvaiu. Ele era jovem e não tivera tempo de se estabelecer na vida. Seus primeiros trinta anos foram passados em preparação; os três anos seguintes, originando e desenvolvendo seu programa, e agora, quando poderia ter transferido a seus seguidores grande parte dos pormenores da obra, e poderia talvez ter desfrutado da família e de outros convívios, ele foi crucificado. Por quê? Havia uma razão definida. Sendo divino e mortal, tinha ele uma obra a fazer que não podia ser feita na mortalidade, o que exigia sua transferência para outras esferas de atividade. Foi sua obra frustrada? Ela deixou, de fato, uma mãe enlutada. Havia irmãos entorpecidos de dor. Havia talvez muitos entes queridos que duvidaram e questionaram. Mas em sua morte, e em sua ressurreição, veio à humanidade uma bênção que somente este Filho de Deus poderia trazer. Teríamos nós preferido a indiferença? Teríamos salvado sua vida, se pudéssemos, agora que sabemos que ele, por meio dessa própria circunstância, trouxe redenção ao mundo? Desejaria hoje sua mãe angustiada que fosse diferente, ao olhar para trás, para todo o programa? Desejariam os apóstolos, sobre quem recaiu o fardo do reino, que fosse diferente? ¶
E estou certo de que os milhares de nossas mães Santos dos Últimos Dias que, como Maria, a mãe do Senhor, hoje permanecem, chorando impotentes, aos pés de uma pesada cruz, hão de chegar a ver claramente, e podem até abençoar o dia em que seus filhos puros, talentosos e valorosos partiram para outras esferas. ¶
Na morte, choramos por aquele que parte, ou é isso autopiedade? Duvidar da sabedoria e da justiça da partida de um ente querido é impor um limite ao termo da vida. É dizer que é mais importante continuar a viver aqui do que ir para outros campos. Choramos quando nosso filho se forma no colégio local e é enviado para longe de casa, a uma universidade de estudos superiores? Choramos inconsoláveis quando nosso filho é chamado para longe de nosso abraço diário, a terras distantes, para pregar o evangelho? Continuar a chorar sem fé, sem entendimento e sem confiança quando um filho vai para outro mundo é questionar o vasto plano de Deus, a vida eterna com todas as suas oportunidades e bênçãos. ¶
Deus é bom, tão bom, de fato, que mal podemos conceber a profundidade e a riqueza de sua bondade. Ele é justo; tão justo que nós, mortais, não conseguimos compreender a equidade de sua justiça. Estou certo de que nenhum mortal jamais deixará de receber toda bênção e toda glória que merece. A morte mortal não pode roubá-lo. Haverá um caminho, e cada promessa de Deus será cumprida. Um jovem virtuoso, progressivo e ativo não sacrificará nenhuma bênção a que tinha direito por sua partida (para nós) prematura para a eternidade. Podemos não compreender plenamente como isso será realizado, mas podemos saber que será. Lembrai-vos do que o próprio Senhor disse: ¶
... As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem são as que Deus preparou para os que o amam. (1 Coríntios 2:9.) ¶
Não podemos confiar na bondade do Senhor? Lembrai-vos de que ele é também o Pai deste filho. Ele é o Progenitor da parte viva; vós, apenas do tabernáculo. Não estará ele infinitamente mais preocupado com o bem-estar deste filho do que nós, mortais, jamais poderíamos estar? Não podemos saber isto: "Seus propósitos não falham, nem há quem possa deter sua mão"? Não há tragédia senão no pecado. Saibamos, portanto, que a vida é eterna, e que Deus faz todas as coisas bem; e que este filho justo, descendente de Deus, não nasceu para um dia, uma década ou um século, mas para a eternidade. Somente a própria falta de retidão poderia jamais privá-lo de qualquer bênção prometida pelo Senhor. "Teu Filho vive" e continua a irradiar vida, não morte; luz, não trevas; começo, não fim; certeza, não incerteza; alegria eterna, não tristeza; doçura, não amargura; maturidade juvenil, não senilidade; progresso, não estagnação; luz do sol, não nuvens; clareza de visão, não confusão e obscuridade; realização, não frustração; um portão aberto com luz adiante, não janelas trancadas com trevas além. ¶
Que nosso Pai Celestial traga sua paz a todos vós que agora estais passando por vosso Getsêmani. ¶
Sinceramente vosso irmão, ¶
Spencer W. Kimball ¶