Pensamentos Sobre o Retorno dos Soldados
John A. Widtsoe
Meus queridos irmãos e companheiros de trabalho: ¶
Em seu discurso desta manhã, o Presidente Clark falou dos problemas do pós-guerra. São muitos, e continuam a martelar em nosso pensamento. O Presidente Clark discorreu sobre os mais importantes desses problemas. Gostaria de chamar vossa atenção para um ou dois problemas menores, embora também importantes, que estão sendo muito discutidos no momento presente. Se parecer ser em grande parte de natureza temporal, minha defesa é que no Evangelho de Jesus Cristo não há, na verdade, distinção entre o temporal e o espiritual. Falando ao Profeta Joseph Smith, o Senhor disse: ¶
... em verdade vos digo que todas as coisas são espirituais para mim e em tempo algum vos dei uma lei que fosse terrena... (Doutrina e Convênios 29:34.) ¶
Pensamentos Sobre o Retorno dos Soldados
Numa conferência de estaca recente, um belo jovem, um soldado, gozando de uma breve licença, dirigiu-se à congregação. Estava claramente perplexo. Perguntava-se por que, no calor da batalha, escapara da bala que tirara a vida de seu companheiro. Falou da interrupção de seus estudos; da frustração dos planos de sua vida; e do inferno a que chamamos guerra, no qual fora arremessado. Declarou sua disposição de morrer, se necessário, pela liberdade do homem; mas se perguntava por que os homens deveriam ter de morrer para possuir a liberdade, que pertence a todo homem pelo direito de sua existência. "Continuará esta autodestruição do homem?", perguntou. Ao sentar-se, deu voz à pergunta hoje feita por milhões de homens: "E quanto ao futuro?" ¶
Pensei nos 80.000 jovens e moços de nossa fé, membros da Igreja, dos quais quase todos retornarão, depois da guerra, íntegros no corpo, mas talvez feridos no espírito, e marcados na memória, pela vida antinatural no exército e na marinha, e pelos horrores inexprimíveis da guerra, tal como conduzida pelo homem "civilizado". Retornarão a um mundo que foi abalado e transformado pela agitação e tumulto da batalha no ar, na terra e sob o mar. Será um mundo novo. Não voltarão a ver o mundo que um dia conheceram. As forças da mudança terão cavado sulcos profundos na face da existência humana. ¶
Estes homens que retornam foram arrancados de sua terra natal pelas raízes. No campo de guerra, foram nutridos com o veneno da destruição. Como transplantá-los, revigorá-los plenamente, e assegurar seu crescimento normal depois da guerra, é talvez o principal problema entre os muitos que surgirão na proposta reconstituição do mundo. ¶
A história humana não justifica a crença de que os exércitos que retornam serão adequadamente reabilitados por esforços governamentais. Concessões de pequenas somas de dinheiro, ou o oferecimento de oportunidades a poucos, não podem restaurar o que se perdeu, nem suprir as necessidades dos muitos que precisarão de ajuda. Isso já foi tentado antes, sem êxito. A salvação pelo governo, seja espiritual ou temporal, antes ou depois de uma guerra, é uma miragem enganosa e ilusória. Com a ajuda de Deus, os homens conquistam o êxito pelo próprio esforço, e apenas assim. ¶
Dever para com os Defensores de Nosso País
A responsabilidade por nossos rapazes que retornam ao lar, que são de fato a geração vindoura, recairá, como em eras passadas, sobre a família e o lar e o conjunto das famílias e lares da vizinhança. Cada homem deve carregar seu próprio fardo. A ajuda de que precisar deve vir da família e dos amigos íntimos. Por meio de tal distribuição do trabalho entre muitos, qualquer tarefa se realiza facilmente, muito além do poder de qualquer governo. Em todo lar devemos converter nossa fé pela paz, e nosso amor por nossos rapazes, que se dispuseram a enfrentar a morte por nós, em planejamento sóbrio e ação direta. Devemos examinar as muitas possibilidades em benefício dos jovens que retornam. Este dever, que devemos a nossos defensores, não pode ser transferido a outros. Nem pode uma agência central assumi-lo com êxito. Além disso, esse é sempre o método do Evangelho de Jesus Cristo. ¶
Agora é o momento de empreender tal planejamento e a consequente preparação. Não deve haver demora. Devemos estar preparados. Construir é mais lento do que destruir. Nossos rapazes poderão em breve estar voltando para casa. Estarão então prontos para a próxima aventura. Não devemos recompensar seus sacrifícios com decepção. Ao contrário, devemos também estar prontos com o conselho e a ajuda necessários. Poderá ser tarde demais se não começarmos agora. ¶
Neste assunto importante, os Santos dos Últimos Dias precisam apegar-se aos ideais bem estabelecidos da Igreja. Entre eles há um que prezamos grandemente. Temos a reputação de ser um povo produtivo e criativo; e de fato o merecemos. Sempre procuramos melhorar o mundo, deixá-lo mais rico do que o encontramos, espiritual e temporalmente. Em nossos assuntos temporais, tomamos o Senhor por sua palavra; de que ele deu ao homem domínio sobre a terra, sob a condição de que buscasse subjugá-la com o suor de sua fronte. Provamos que esta promessa é verdadeira; sabemos que só à medida que labutamos vencemos os obstáculos. Aprendemos também que sempre que a energia humana é aplicada aos recursos da terra, produz-se riqueza. Esse é, de fato, o único modo pelo qual a verdadeira riqueza, muita ou pouca, pode ser acrescentada às posses do mundo. Por esse método, este povo transformou o deserto em jardim; e por esse método melhorou suas próprias condições econômicas; e conduziu outros por caminhos de prosperidade. Por esse método, todo homem pode conquistar riqueza suficiente para suas necessidades. É o caminho mais seguro para a suficiência. Somos um povo de mentalidade prática. Disso nos orgulhamos. Este princípio fundamental deveria estar diante de nós ao planejarmos para nossos filhos que retornam. ¶
A Educação Deve Ser Incentivada
É igualmente um princípio bem estabelecido entre os Santos dos Últimos Dias que a ignorância não espera por ninguém. O domínio da terra estará, por fim, nas mãos daqueles que sabem e usam seus poderes com inteligência. Portanto, como povo, cremos na educação -- na aquisição do conhecimento e no treinamento da mente. A própria Igreja é, na verdade, uma instituição educacional. Tradicionalmente, somos um povo amante da educação. Lembrai-vos do grupo valoroso, jovens e velhos, que há mais de cem anos se reuniam diariamente nas salas superiores do Templo de Kirtland? Foram eles, na verdade, os fundadores da educação de adultos no mundo moderno. Aprofundaram-se no inglês, na matemática, na história, na ciência, no direito e nos idiomas. Foram destemidos em suas aspirações educacionais. Exemplificaram as palavras de Brigham Young: "A religião abraçada pelos Santos dos Últimos Dias... os impele a buscar diligentemente o conhecimento." Lembrai-vos, também, da sucessão de instituições educacionais que marcam a história progressiva da Igreja! Escolas, faculdades e universidades atestam o alto lugar da educação na filosofia "mórmon". Não esqueçais o padrão educacional atual, extraordinariamente elevado, de nosso povo. ¶
Nossos jovens que retornam da frente de batalha devem ser incentivados a retomar seus estudos de onde os deixaram quando o país, em sua necessidade, os convocou ao serviço; e devem ser exortados a prosseguir até o fim de seu programa. Apesar da perda de tempo durante o período de guerra, e da aparente necessidade financeira, cometeriam um erro se se lançassem apressadamente à vida ativa sem o desenvolvimento e o treinamento apropriados; sem as perspectivas que abrem a mente e os olhos, resultantes da sábia disciplina das escolas. A era vindoura exigirá o serviço de mentes e corpos treinados mais do que antes. Durante a recente depressão financeira, poucos homens que tinham profissões, incluindo a agricultura e os ofícios, estavam desempregados. O grupo sem treinamento foi o que mais sofreu. Devemos zelar para que nossos rapazes que retornam, mesmo com nosso próprio pesado sacrifício, concluam suas ambições educacionais. Assim protegeremos melhor seu futuro. Alguma ajuda poderá ser oferecida pelo governo federal. As escolas farão o máximo possível, podemos ter certeza, para intensificar e abreviar os cursos exigidos para homens que amadureceram rapidamente em meio às duras realidades da guerra. ¶
A educação cultiva os poderes inatos do homem, e lhe dá uma visão da verdade eterna e dos grandes ganhos dos séculos. Deve também ajudar a pessoa a ganhar a vida, e a desempenhar melhor o trabalho que provavelmente lhe será exigido, e do qual tira seu sustento. Nesse sentido, toda educação, tratando de homens com necessidades terrenas, deve ser prática. Provavelmente a maioria de nossos jovens já decidiu sua ocupação de vida; todos deveriam fazê-lo, e fazer de seu treinamento educacional um instrumento a serviço das necessidades de sua vida. Todo o seu aprendizado, incluindo o que a princípio parece remoto, deve encaixar-se na ambição de vida do estudante. Pais sábios, e todos os jovens, atentarão a este assunto com cuidado; e dirigirão seus esforços educacionais a um objetivo definido. Oportunidades educacionais desperdiçadas raramente se recuperam. ¶
A Agricultura Promete Êxito
Entre os membros da Igreja, predominam os agricultores e os artesãos. São verdadeiros produtores de riqueza, pois convertem os elementos ao nosso redor em artigos de que o homem necessita. Pelos esforços desses produtores de riqueza, a prosperidade do mundo pode ser melhor medida. Por isso, a Igreja sempre defendeu que seus membros se mantenham próximos da agricultura, dos ofícios e das indústrias. Eles formam a base segura da pirâmide da vida social e econômica na terra. Há mais de cem anos, o Profeta Joseph Smith, então construindo a cidade de Nauvoo, sublinhou este princípio em termos inequívocos. ¶
Provavelmente mais da metade dos membros de nossa Igreja é agrícola. Disso nos orgulhamos; por isso somos gratos; esperamos que seja sempre assim. Os lavradores da terra são um elemento firme e confiável na sociedade. Há uma estabilidade incomum na vida dos agricultores e das comunidades agrícolas. Sabem, melhor do que qualquer outro grupo, que assim como semeamos, também colhemos. A sucessão de tempo de semear e de colher lhes fala de um universo ordenado. As estações que mudam revelam poderes além do controle do homem, para os quais ele deve se preparar nos anos favoráveis. Grandes lições de vida vêm da profissão da agricultura. Raramente surge uma filosofia social, econômica ou política insensata daqueles que, na terra, enfrentam o vento e o tempo para seu sustento. Se o agricultor é apanhado, por algum tempo, pela promessa untuosa e as perspectivas fúteis de um demagogo eloquente, é geralmente o primeiro a se arrepender, muitas vezes em saco e cinzas, e a voltar a uma ordem de vida sensata e legítima. Um forte contingente rural traz à Igreja uma segurança não obtenível de outro modo. Assim é também na nação. ¶
Cremos na vida rural. Com isso não queremos dizer apenas viver numa ¶
fazenda, mas numa comunidade rural, composta de agricultores e dos artesãos, comerciantes e profissionais necessários. Se viver alegremente é o propósito da vida, a pequena comunidade, na qual todas as vantagens e confortos modernos já podem estar disponíveis, tem uma vantagem nítida sobre a cidade congestionada. Por isso, homens de negócios e profissionais eminentes, que operam em grandes centros, frequentemente se deslocam diariamente até seus lares em bairros rurais. Os dois principais candidatos atuais ao cargo de presidente dos Estados Unidos mantêm seus lares em comunidades rurais. Já há um forte movimento em direção à descentralização da indústria, de modo que os trabalhadores possam ser colocados em comunidades menores, com a horta doméstica e outras vantagens semelhantes. São notáveis as experiências de Henry Ford no campo da combinação de indústria e agricultura. ¶
A cidade de Sião, tal como planejada pelo Profeta Joseph Smith, foi projetada para acomodar entre 15.000 e 20.000 pessoas -- uma cidade relativamente pequena para a capital de um reino -- o reino de Deus. Toda a cidade seria dividida em vinte e quatro alas, com seiscentas a oitocentas almas em cada ala. Cada lote teria quatro por vinte varas, suficiente para uma casa de moradia, construções auxiliares e jardins. Todos os edifícios públicos seriam colocados no centro de fácil acesso da cidade. Tal plano seria ideal em nossos dias, se o que se considera é viver de modo abundante. De fato, chegamos perto desse ideal ao planejarmos nossas cidades na região intermontanhosa. O sistema mórmon de vilarejos contribuiu muito para nossa força e nossa felicidade, tanto como indivíduos quanto como povo. É uma das muitas contribuições mórmons ao plano do bem-estar humano. É interessante que muitos pensadores sensatos de nosso tempo estejam defendendo cidades e vilarejos semelhantes. ¶
A maioria dos homens da Igreja em serviço militar veio da fazenda. Estão familiarizados com as condições rurais. Seria sábio incentivá-los a retornar à fazenda. Não cometeriam erro algum se assim o fizessem. A agricultura moderna tornou-se uma profissão de igual dignidade em relação às antigas, ditas, profissões liberais. É um bom negócio, se praticada corretamente. Tem o poder incomparável de proporcionar, dia após dia, sã alegria ao agricultor e à sua família. E, de geração em geração, forma homens e mulheres de força para o serviço do mundo. ¶
Se a fazenda familiar for pequena demais para ser dividida, ainda podem ser obtidas terras. Tais oportunidades costumam ser conhecidas em cada comunidade. A comunicação com o comitê agrícola do programa de bem-estar revelará muitas localidades onde se podem obter terras sob condições que nossos jovens possam atender. Nossas terras do oeste estão longe de estarem plenamente ocupadas. ¶
A Conservação da Água
Além disso, na área irrigada, onde vive tantos de nossos membros, o povo tem em suas próprias mãos, em sua própria localidade, o poder de aumentar a área de terra cultivável. Ao conservar, e utilizar de modo mais racional, a água hoje disponível, a área irrigada pode ser bastante ampliada. Quase em toda parte há um grande desperdício de água. Persiste a falácia de que quanto mais água se usa, melhor é para a planta. Segue-se daí a irrigação excessiva. O fato é que o rendimento de uma colheita se completa com muito menos água do que geralmente se aplica. A água economizada pode ser usada para recuperar mais terras, das quais há excedente no Oeste. ¶
Imensas quantidades de água se perdem por infiltração. Numa comunidade dos Santos dos Últimos Dias idealmente localizada, quase metade da água armazenada no reservatório se perde no trajeto de três ou quatro milhas até as fazendas. A tarefa de tornar este canal impermeável é pequena, comparada ao trabalho dos pioneiros que colonizaram aquela comunidade e escavaram os primeiros canais. Há também centenas de lugares onde a água hoje desperdiçada poderia ser armazenada, ou onde água de nascente poderia ser retida para colheitas futuras. Por um pequeno esforço unido da parte do povo, tais projetos poderiam ser concluídos com mais facilidade do que os projetos pioneiros dos fundadores do Oeste. Por que esperar que outros o façam por nós? Façamo-lo nós mesmos! ¶
Melhores Condições na Agricultura
Além disso, a introdução de colheitas novas, mais intensivas e mais lucrativas está aumentando a renda por acre nas fazendas, ampliando assim automaticamente a área agrícola. A fazenda relativamente pequena, se bem cultivada, é a mais satisfatória. Ainda há terra disponível para nossos jovens veteranos de guerra. ¶
Vós que porventura aconselheis nossos rapazes a retornar à fazenda deveis também lembrar-vos de que a profissão da agricultura avançou junto com o vasto progresso dos últimos anos. Grande parte do labor foi retirada do cultivo da terra. Implementos motorizados, desde a aração da terra até o enfardamento do feno, mesmo na pequena fazenda, sob o controle de um só homem, reduziram o antigo trabalho manual. Ainda outro dia vi o filho de um fazendeiro conduzir uma manada de vacas leiteiras de raça pura, lustrosas, até o galpão cooperativo, para serem ordenhadas mecanicamente. Quando esta manada retornava, outra tomava seu lugar junto à "vaqueira" de ferro. Tais dispositivos, que auxiliam o agricultor, estão em constante aumento. O agricultor não precisa mais ser mantido ocupado do amanhecer ao anoitecer. O trabalho da mente é hoje o principal requisito do agricultor. O dia do pioneiro não terminou. O progresso jamais tem fim, na fazenda como em toda parte. Problemas acenam a todo homem de coragem; e há alegria na conquista. ¶
Quando pensamos em nossos rapazes que partiram, dispostos a enfrentar a morte, se necessário, por nossa liberdade, nossos corações se aquecem. Eles têm direito à nossa ajuda quando retornarem para trilhar caminhos que conduzam ao serviço e à alegria. Quando fazemos o melhor e o máximo por eles, não fazemos demais. ¶
Que o Senhor nos abençoe neste assunto; e que ele abençoe e proteja nossos filhos que foram postos em formação de batalha, e os guie sabiamente em seu retorno. Isto oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶