Pulpit

A Dor de Jesus por Jerusalém

David O. McKay

Conferência Geral de Outubro de 1944·Sessão da Tarde do Segundo Dia·1944-10-07

Rogo que possa ter vossa simpatia, fé e orações enquanto me ponho diante de vós para cumprir este dever.

Muitas referências apropriadas foram feitas durante esta conferência quanto à desejabilidade da paz. Pergunto-me se, e quando a paz de fato vier, as nações serão suficientemente sábias para evitar uma terceira guerra mundial.

A Dor de Jesus por Jerusalém

E quando já ia chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela,

Dizendo: Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! mas agora isso está encoberto aos teus olhos. (Lucas 19:41-42.)

Segundo a tradição, quando estas palavras foram proferidas, Jesus estava no Monte das Oliveiras, em frente a um ponto nas muralhas que cercavam Jerusalém, poucos metros ao sul da Porta Formosa. Deste local pode-se contemplar uma bela vista daquela cidade histórica.

É maravilhosamente pitoresca, com suas peculiares casas de telhado plano, torres de igrejas e cúpulas de mesquitas cobrindo as quatro colinas sobre as quais Jerusalém está edificada. A vista é impressionante mesmo agora; deve ter sido inspiradora quando Jesus a contemplou em todo o seu esplendor herodiano.

Mas foram os habitantes da cidade, não os belos edifícios nem a vista imponente, que o Salvador viu através de olhos toldados de lágrimas quando exclamou: "Se tu conhecesses... o que à tua paz pertence! mas agora isso está encoberto aos teus olhos." (Lucas 19:42.) Ele viu o povo dividido em seitas conflitantes e contendoras, cada uma professando mais santidade e retidão do que a outra, e todas fechando os olhos à verdade. Havia os judeus hebraicos conservadores, apegados rigidamente à lei mosaica; havia os judeus helenistas, de mente mais liberal, cujas opiniões haviam sido modificadas pela filosofia pagã; havia alguns essênios, com seu ascetismo e rejeição do Sacerdócio Aarônico; havia os saduceus, com sua observância sem vida e formal do sábado, e sua negação da ressurreição; e, finalmente, os fariseus, com sua "esmola ostentosa", suas "filactérias alargadas", sua "gulosa avareza", sua "altiva afirmação de preeminência", sua "hipocrisia malamente disfarçada", muitas vezes escondida sob uma venerável pretensão de santidade superior.

Não admira que o Salvador, vendo tal divisão entre o povo, orasse tão fervorosamente ao Pai em favor de seu próprio pequeno rebanho, para que os mantivesse "um, como nós somos um." Não admira que o Salvador, discernindo perfeitamente o engano e a hipocrisia sob a aparência polida da religião, proferisse tão dura repreensão quando disse:

... Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque fechais aos homens o reino dos céus; porque nem vós entrais nem deixais entrar os que estão entrando. (Mateus 23:13.)

Tal era o povo que o Filho do Homem viu quando esteve, há vinte séculos, no Monte das Oliveiras e "contemplou a cidade e chorou sobre ela."

A História Se Repetindo

Assim podemos imaginá-lo hoje a chorar sobre um mundo que se debate numa orgia de sangue porque uns poucos criminosos, inflamados pelo egoísmo, pela vingança e pelo desejo de conquista, enlouqueceram. Impelidos pela ávida avareza, e arrogando a si mesmos a superioridade racial, avançaram para subjugar, conquistar e matar. Nada mais restava aos povos ordeiros e amantes da paz a não ser tentar impedir suas depredações e assassinatos. O resultado é o troar de um milhão de canhões, a devastação de cidades e fazendas, o pranto e o sofrimento de mulheres e crianças, os gemidos dos feridos e dos moribundos, e a morte da juventude escolhida de nossa terra.

Há aproximadamente apenas um quarto de século, o mundo ouviu o estrépito das armas das nações que lutavam numa guerra mundial que supostamente poria fim para sempre à guerra. Até aquele momento, foi a guerra mais sangrenta da história.

Novamente, líderes desorientados das nações, adorando o deus do materialismo, provocaram a Segunda Guerra Mundial, e a menos que as nações evitem os males que causaram esta guerra, haverá uma Terceira Guerra Mundial ainda mais destrutiva, mais terrível que o presente conflito assassino. Causas semelhantes produzem efeitos semelhantes.

Agora, enquanto as duras exigências da guerra nos torcem o coração, pareceria sensato que os homens examinassem algumas das causas básicas que produzem o conflito armado, com vistas a evitá-las no futuro.

O Desenvolvimento de Instintos Brutais

As sementes da guerra residem na natureza do homem. Essas sementes germinam ao primeiro impulso natural de autopreservação, autoperpetuação ou desejo de conquista.

O fruto dessas sementes é o ódio e a brutalidade.

Sabendo disso, o principal criminoso do mundo treinou sua juventude para ser brutal. Em antecipação, ou melhor, em glorificação do conflito armado, esse homem declarou que treinaria a juventude para ser brutal. "Em minha grande obra educativa," disse ele, "estou começando pelos jovens.... A fraqueza tem de ser expulsa deles a golpes.... Uma juventude violentamente ativa, dominadora, intrépida, brutal -- é isso que busco. Não deve haver nela fraqueza nem ternura. Quero ver de novo em seus olhos o brilho do orgulho e da independência da fera de rapina."

É significativo que, cem anos antes de esse líder egocêntrico começar a envenenar a mente da juventude, um filósofo alemão -- Heinrich Heine -- advertiu o povo alemão de que:

Males se seguirão à ascensão do "panteísmo germânico", pois então despertará nele aquela loucura combativa que encontramos entre os antigos germanos, que não lutam nem para matar nem para conquistar, mas simplesmente para lutar. O cristianismo tem -- e esse é seu mais belo mérito -- mitigado um pouco aquela brutal sede germânica de batalha. Mas não pôde destruí-la; e uma vez quebrado o talismã domador, a cruz, a selvageria dos antigos combatentes há de flamejar novamente, a fúria insana de que tanto falam e cantam os bardos nórdicos. Esse talismã é quebradiço. Chegará o dia em que ele desmoronará lastimosamente. Então os antigos deuses de pedra se erguerão dos escombros esquecidos e esfregarão dos olhos a poeira de mil anos; e Thor saltará e, com seu martelo gigante, começará a espatifar catedrais góticas... e quando ouvirdes um estrondo como nunca houve estrondo na história do mundo, sabereis que o trovão alemão atingiu o alvo. A esse som as águias cairão mortas do céu, e os leões no deserto mais distante da África recolherão o rabo e se esgueirarão para dentro de suas cavernas reais.

Um drama será representado que fará a Revolução Francesa parecer, em comparação, um idílio inofensivo.

Cuidado! Desejo-vos bem; é por isso que vos digo a amarga verdade. Tendes mais a temer de uma Alemanha liberada do que de toda a Santa Aliança, com todos os seus croatas e cossacos. (Heinrich Heine, Works of Prose, ed. por Herman Kesen, pp. 51-53.)

O Colapso dos Princípios Humanitários

A substituição do cristianismo por antigos deuses foi seguida pelo colapso dos princípios humanitários, e, como disse Will Erwin em "An Appeal to Common Sense," os homens voltaram à ética das hordas bárbaras. Os bárbaros do século vinte antes de Cristo matavam da maneira que sua imaginação sugerisse. E assim fazem agora os homens civilizados do século vinte depois de Cristo. Os bárbaros do século vinte antes de Cristo matavam as mulheres e crianças do inimigo conforme parecesse ditar o interesse tribal, e assim fazem agora os assim chamados homens civilizados do século vinte depois de Cristo. Os bárbaros do século vinte antes de Cristo escravizavam o povo conquistado, ou o forçavam a pagar tributo; praticamente o mesmo fazem os homens civilizados do século vinte depois de Cristo.

"Uma juventude brutal," tendo em seus olhos "o brilho da fera de rapina," retrocede à lei da selva, tão distante do ensinamento de Cristo quanto o hades do céu! É a doutrina da avareza, do egoísmo e do ódio.

Há algumas coisas que o homem deveria odiar -- deveria odiar a injustiça, odiar a hipocrisia, odiar a maldade em todas as suas formas, mas nunca odiar a humanidade.

Esperamos e rogamos que esta segunda guerra mundial logo chegue ao fim, e que os povos, cansados da guerra e de coração pesado, possam novamente ter paz. E então? Depois de todo o sofrimento, depois de toda a destruição de vidas humanas, seremos tão cegos a ponto de deixar tudo recomeçar? Se ao germe do ódio for permitido desenvolver-se, se nações fortes se esforçarem por dominar as fracas, como Mussolini fez com a Etiópia, como o Japão fez com a Manchúria; se as poucas nações dominantes, poderosas nos instrumentos de guerra, buscarem dominar as nações mais fracas e dizer-lhes como viver e o que fazer; se buscarem o êxito apenas no materialismo e fecharem os olhos ao valor das almas humanas; se rejeitarem os ensinamentos de Cristo e perseguirem seus interesses egoístas, a história se repetirá, o mundo será lançado a outra guerra, e novamente o Senhor, com compaixão e tristeza, chorará sobre a loucura e a cegueira da raça humana.

A paz virá e será mantida somente pelo triunfo dos princípios da paz, e pela consequente subjugação dos inimigos da paz, que são o ódio, a inveja, o ganho mal adquirido, o exercício do domínio iníquo dos homens. Ceder a esses males traz miséria ao indivíduo, infelicidade ao lar, guerra entre as nações, com a resultante miséria e morte.

Há dois mil anos Jesus chorou sobre Jerusalém, cujos habitantes estavam cegos às coisas que pertenciam à sua paz. Hoje a contenda, a luta e o ódio se manifestam entre o capital e os sindicatos trabalhistas, e a amargura entre os defensores do nazismo, do fascismo, do comunismo e do capitalismo. Por mais excelente que qualquer um desses pareça na mente de seus defensores, nenhum aliviará os males da humanidade, a menos que sua aplicação no governo seja impregnada dos princípios básicos promulgados pelo Salvador dos homens. Pelo contrário, mesmo um sistema econômico defeituoso produzirá bons resultados se os homens que o dirigem forem guiados pelo espírito de Cristo.

Movidos por esse espírito, os líderes pensarão mais nos homens do que no sucesso de um sistema. A bondade, a misericórdia e a justiça substituirão o ódio, a suspeita e a cobiça. Não há caminho para a paz universal que não conduza ao coração da humanidade.

Para Evitar Outra Guerra, Então, o Povo Deve Mudar Seu Modo de Pensar

Dizem os homens que, enquanto a natureza humana estiver tão próxima da natureza animal quanto está, o egoísmo, a suspeita, a cobiça e a chicana continuarão a permear e a governar a sociedade humana. Se isso for verdade, então o homem deve elevar-se acima dos instintos animais, e lutar por uma vida mais elevada e mais abundante. Se isso requer uma mudança na natureza humana, então a natureza humana deve ser mudada. Sobre este ponto, Beverley Nichols escreve de modo impressionante:

Podeis mudar a natureza humana. Nenhum homem que tenha sentido em si o espírito de Cristo, ainda que por meio minuto, pode negar esta verdade, a única grande verdade num mundo de pequenas mentiras. Vós de fato mudais a natureza humana, vossa própria natureza humana, se a entregardes a ele. Negar isso é apenas proclamar-vos um tolo sem instrução....

A natureza humana pode ser mudada, aqui e agora.

A natureza humana foi mudada, no passado.

A natureza humana deve ser mudada, em escala enorme, no futuro, a menos que o mundo esteja destinado a afogar-se em seu próprio sangue. E somente Cristo pode mudá-la....

Doze homens fizeram bastante para mudar o mundo, há mil e novecentos anos. Doze homens simples, tendo apenas o vento para levá-los pelos mares, com apenas alguns tostões nos bolsos, e uma fé resplandecente no coração. Ficaram muito aquém de seu ideal, suas palavras foram deturpadas e escarnecidas, e falsos templos foram erguidos sobre seus ossos, em louvor a um Cristo que eles teriam rejeitado. E, no entanto, à luz de sua inspiração, muitas das coisas mais belas do mundo foram criadas, e muitas das mais finas mentes do mundo foram inspiradas.

Se doze homens fizeram isso, há mil e novecentos anos, o que não poderiam fazer hoje doze homens? Pois Deus agora nos deu o poder de sussurrar através do espaço, de transmitir nossos pensamentos de uma ponta a outra da terra. O que sussurraremos -- o que pensaremos? Eis a questão. (The Foot Hath Said, p. 272.)

Eliminar a Arrogância da Superioridade

Com o espírito de Cristo no coração, nenhuma nação arrogará a si mesma superioridade sobre as outras, mas dará a cada nação, por menor que seja, por mais atrasada que pareça, o direito à autodeterminação.

Buscar o Progresso Material como Meio para a Realização Espiritual

Com o espírito do evangelho no coração dos homens, as nações aceitarão a verdade de que a integridade é mais desejável do que a agudeza intelectual ou o acúmulo de riqueza. Os homens então considerarão o progresso material não como um fim em si mesmo, mas como um meio para a realização espiritual. Reconhecerão o significado de "Buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas." Estadistas, homens de igreja, professores, funcionários públicos, jornais -- todos os que de alguma forma moldam a opinião pública devem enfrentar de modo inteligente a apatia espiritual e a decadência moral.

Algum dia os homens hão de perceber que somente a verdadeira religião pode satisfazer a alma anseante.

Duas Grandes Forças Apontam o Caminho para a Paz

Vejo duas grandes forças conduzindo o caminho desde o abismo de outra Guerra Mundial até o reino da paz e do progresso -- a América e o evangelho de Jesus Cristo.

A América tem a grande oportunidade de conduzir o mundo, afastando-o da intriga política e da demagogia barata, do egoísmo nacional, da usurpação iníqua do poder e do engrandecimento ímpio. Ela deve provar aos povos da Europa e de todo o mundo que não tem fins egoístas a servir, nenhum desejo de conquista, nenhuma arrogância de superioridade nacional ou racial. Quando esses ideais estiverem estabelecidos, a América poderá abrir o caminho e conduzir o mundo à paz.

Esta é uma terra onde o ódio deveria morrer -- Esta é uma terra onde a contenda deveria cessar, Onde o medo sujo e suspeito deveria fugir Diante de nossa bandeira de luz e paz.

Mas repito, a paz permanente só será encontrada na aplicação dos princípios do evangelho da paz. Cristo veio à terra para trazer paz e boa vontade. Quando disse: "Não vim trazer paz, mas espada," ele percebia como a aceitação de princípios eternos poderia romper os laços mais caros, e como os inimigos de um homem poderiam vir a ser os de sua própria casa. Afirmando os princípios do evangelho acima de tudo o mais, acrescentou: "Quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim." Assim, ele apenas enfatizou a grande verdade de que a aceitação dos princípios do evangelho é o propósito supremo da vida.

Novamente o Senhor se revelou ao homem, e nessa revelação pode ser encontrada a resposta às perplexidades e aos anseios da alma humana.

Novamente, nesta era, Cristo disse:

... Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. (João 8:12.)

Sinto que podemos unir-nos ao poeta ao dizer:

Ó Cristo, que morreste para dar vida aos homens, Traze aquela hora vitoriosa, Em que o homem usará para a paz, não para a luta, Seu valor, sua destreza e seu poder.

Como citar este discursoDavid O. McKay, “A Dor de Jesus por Jerusalém”, Conferência Geral de Outubro de 1944, Sessão da Tarde do Segundo Dia (1944-10-07). Pulpit Vault, 1944-10-david-o-mckay-jesus-grief-over-jerusalem. Tradução desta edição, por método de glossário, catalog.churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).