A Dor de Jesus por Jerusalém
David O. McKay
Rogo que possa ter vossa simpatia, fé e orações enquanto me ponho diante de vós para cumprir este dever. ¶
Muitas referências apropriadas foram feitas durante esta conferência quanto à desejabilidade da paz. Pergunto-me se, e quando a paz de fato vier, as nações serão suficientemente sábias para evitar uma terceira guerra mundial. ¶
A Dor de Jesus por Jerusalém
E quando já ia chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela, ¶
Dizendo: Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! mas agora isso está encoberto aos teus olhos. (Lucas 19:41-42.) ¶
Segundo a tradição, quando estas palavras foram proferidas, Jesus estava no Monte das Oliveiras, em frente a um ponto nas muralhas que cercavam Jerusalém, poucos metros ao sul da Porta Formosa. Deste local pode-se contemplar uma bela vista daquela cidade histórica. ¶
É maravilhosamente pitoresca, com suas peculiares casas de telhado plano, torres de igrejas e cúpulas de mesquitas cobrindo as quatro colinas sobre as quais Jerusalém está edificada. A vista é impressionante mesmo agora; deve ter sido inspiradora quando Jesus a contemplou em todo o seu esplendor herodiano. ¶
Mas foram os habitantes da cidade, não os belos edifícios nem a vista imponente, que o Salvador viu através de olhos toldados de lágrimas quando exclamou: "Se tu conhecesses... o que à tua paz pertence! mas agora isso está encoberto aos teus olhos." (Lucas 19:42.) Ele viu o povo dividido em seitas conflitantes e contendoras, cada uma professando mais santidade e retidão do que a outra, e todas fechando os olhos à verdade. Havia os judeus hebraicos conservadores, apegados rigidamente à lei mosaica; havia os judeus helenistas, de mente mais liberal, cujas opiniões haviam sido modificadas pela filosofia pagã; havia alguns essênios, com seu ascetismo e rejeição do Sacerdócio Aarônico; havia os saduceus, com sua observância sem vida e formal do sábado, e sua negação da ressurreição; e, finalmente, os fariseus, com sua "esmola ostentosa", suas "filactérias alargadas", sua "gulosa avareza", sua "altiva afirmação de preeminência", sua "hipocrisia malamente disfarçada", muitas vezes escondida sob uma venerável pretensão de santidade superior. ¶
Não admira que o Salvador, vendo tal divisão entre o povo, orasse tão fervorosamente ao Pai em favor de seu próprio pequeno rebanho, para que os mantivesse "um, como nós somos um." Não admira que o Salvador, discernindo perfeitamente o engano e a hipocrisia sob a aparência polida da religião, proferisse tão dura repreensão quando disse: ¶
... Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque fechais aos homens o reino dos céus; porque nem vós entrais nem deixais entrar os que estão entrando. (Mateus 23:13.) ¶
Tal era o povo que o Filho do Homem viu quando esteve, há vinte séculos, no Monte das Oliveiras e "contemplou a cidade e chorou sobre ela." ¶
A História Se Repetindo
Assim podemos imaginá-lo hoje a chorar sobre um mundo que se debate numa orgia de sangue porque uns poucos criminosos, inflamados pelo egoísmo, pela vingança e pelo desejo de conquista, enlouqueceram. Impelidos pela ávida avareza, e arrogando a si mesmos a superioridade racial, avançaram para subjugar, conquistar e matar. Nada mais restava aos povos ordeiros e amantes da paz a não ser tentar impedir suas depredações e assassinatos. O resultado é o troar de um milhão de canhões, a devastação de cidades e fazendas, o pranto e o sofrimento de mulheres e crianças, os gemidos dos feridos e dos moribundos, e a morte da juventude escolhida de nossa terra. ¶
Há aproximadamente apenas um quarto de século, o mundo ouviu o estrépito das armas das nações que lutavam numa guerra mundial que supostamente poria fim para sempre à guerra. Até aquele momento, foi a guerra mais sangrenta da história. ¶
Novamente, líderes desorientados das nações, adorando o deus do materialismo, provocaram a Segunda Guerra Mundial, e a menos que as nações evitem os males que causaram esta guerra, haverá uma Terceira Guerra Mundial ainda mais destrutiva, mais terrível que o presente conflito assassino. Causas semelhantes produzem efeitos semelhantes. ¶
Agora, enquanto as duras exigências da guerra nos torcem o coração, pareceria sensato que os homens examinassem algumas das causas básicas que produzem o conflito armado, com vistas a evitá-las no futuro. ¶
O Desenvolvimento de Instintos Brutais
As sementes da guerra residem na natureza do homem. Essas sementes germinam ao primeiro impulso natural de autopreservação, autoperpetuação ou desejo de conquista. ¶
O fruto dessas sementes é o ódio e a brutalidade. ¶
Sabendo disso, o principal criminoso do mundo treinou sua juventude para ser brutal. Em antecipação, ou melhor, em glorificação do conflito armado, esse homem declarou que treinaria a juventude para ser brutal. "Em minha grande obra educativa," disse ele, "estou começando pelos jovens.... A fraqueza tem de ser expulsa deles a golpes.... Uma juventude violentamente ativa, dominadora, intrépida, brutal -- é isso que busco. Não deve haver nela fraqueza nem ternura. Quero ver de novo em seus olhos o brilho do orgulho e da independência da fera de rapina." ¶
É significativo que, cem anos antes de esse líder egocêntrico começar a envenenar a mente da juventude, um filósofo alemão -- Heinrich Heine -- advertiu o povo alemão de que: ¶
Males se seguirão à ascensão do "panteísmo germânico", pois então despertará nele aquela loucura combativa que encontramos entre os antigos germanos, que não lutam nem para matar nem para conquistar, mas simplesmente para lutar. O cristianismo tem -- e esse é seu mais belo mérito -- mitigado um pouco aquela brutal sede germânica de batalha. Mas não pôde destruí-la; e uma vez quebrado o talismã domador, a cruz, a selvageria dos antigos combatentes há de flamejar novamente, a fúria insana de que tanto falam e cantam os bardos nórdicos. Esse talismã é quebradiço. Chegará o dia em que ele desmoronará lastimosamente. Então os antigos deuses de pedra se erguerão dos escombros esquecidos e esfregarão dos olhos a poeira de mil anos; e Thor saltará e, com seu martelo gigante, começará a espatifar catedrais góticas... e quando ouvirdes um estrondo como nunca houve estrondo na história do mundo, sabereis que o trovão alemão atingiu o alvo. A esse som as águias cairão mortas do céu, e os leões no deserto mais distante da África recolherão o rabo e se esgueirarão para dentro de suas cavernas reais. ¶
Um drama será representado que fará a Revolução Francesa parecer, em comparação, um idílio inofensivo. ¶
Cuidado! Desejo-vos bem; é por isso que vos digo a amarga verdade. Tendes mais a temer de uma Alemanha liberada do que de toda a Santa Aliança, com todos os seus croatas e cossacos. (Heinrich Heine, Works of Prose, ed. por Herman Kesen, pp. 51-53.) ¶
O Colapso dos Princípios Humanitários
A substituição do cristianismo por antigos deuses foi seguida pelo colapso dos princípios humanitários, e, como disse Will Erwin em "An Appeal to Common Sense," os homens voltaram à ética das hordas bárbaras. Os bárbaros do século vinte antes de Cristo matavam da maneira que sua imaginação sugerisse. E assim fazem agora os homens civilizados do século vinte depois de Cristo. Os bárbaros do século vinte antes de Cristo matavam as mulheres e crianças do inimigo conforme parecesse ditar o interesse tribal, e assim fazem agora os assim chamados homens civilizados do século vinte depois de Cristo. Os bárbaros do século vinte antes de Cristo escravizavam o povo conquistado, ou o forçavam a pagar tributo; praticamente o mesmo fazem os homens civilizados do século vinte depois de Cristo. ¶
"Uma juventude brutal," tendo em seus olhos "o brilho da fera de rapina," retrocede à lei da selva, tão distante do ensinamento de Cristo quanto o hades do céu! É a doutrina da avareza, do egoísmo e do ódio. ¶
Há algumas coisas que o homem deveria odiar -- deveria odiar a injustiça, odiar a hipocrisia, odiar a maldade em todas as suas formas, mas nunca odiar a humanidade. ¶
Esperamos e rogamos que esta segunda guerra mundial logo chegue ao fim, e que os povos, cansados da guerra e de coração pesado, possam novamente ter paz. E então? Depois de todo o sofrimento, depois de toda a destruição de vidas humanas, seremos tão cegos a ponto de deixar tudo recomeçar? Se ao germe do ódio for permitido desenvolver-se, se nações fortes se esforçarem por dominar as fracas, como Mussolini fez com a Etiópia, como o Japão fez com a Manchúria; se as poucas nações dominantes, poderosas nos instrumentos de guerra, buscarem dominar as nações mais fracas e dizer-lhes como viver e o que fazer; se buscarem o êxito apenas no materialismo e fecharem os olhos ao valor das almas humanas; se rejeitarem os ensinamentos de Cristo e perseguirem seus interesses egoístas, a história se repetirá, o mundo será lançado a outra guerra, e novamente o Senhor, com compaixão e tristeza, chorará sobre a loucura e a cegueira da raça humana. ¶
A paz virá e será mantida somente pelo triunfo dos princípios da paz, e pela consequente subjugação dos inimigos da paz, que são o ódio, a inveja, o ganho mal adquirido, o exercício do domínio iníquo dos homens. Ceder a esses males traz miséria ao indivíduo, infelicidade ao lar, guerra entre as nações, com a resultante miséria e morte. ¶
Há dois mil anos Jesus chorou sobre Jerusalém, cujos habitantes estavam cegos às coisas que pertenciam à sua paz. Hoje a contenda, a luta e o ódio se manifestam entre o capital e os sindicatos trabalhistas, e a amargura entre os defensores do nazismo, do fascismo, do comunismo e do capitalismo. Por mais excelente que qualquer um desses pareça na mente de seus defensores, nenhum aliviará os males da humanidade, a menos que sua aplicação no governo seja impregnada dos princípios básicos promulgados pelo Salvador dos homens. Pelo contrário, mesmo um sistema econômico defeituoso produzirá bons resultados se os homens que o dirigem forem guiados pelo espírito de Cristo. ¶
Movidos por esse espírito, os líderes pensarão mais nos homens do que no sucesso de um sistema. A bondade, a misericórdia e a justiça substituirão o ódio, a suspeita e a cobiça. Não há caminho para a paz universal que não conduza ao coração da humanidade. ¶
Para Evitar Outra Guerra, Então, o Povo Deve Mudar Seu Modo de Pensar
Dizem os homens que, enquanto a natureza humana estiver tão próxima da natureza animal quanto está, o egoísmo, a suspeita, a cobiça e a chicana continuarão a permear e a governar a sociedade humana. Se isso for verdade, então o homem deve elevar-se acima dos instintos animais, e lutar por uma vida mais elevada e mais abundante. Se isso requer uma mudança na natureza humana, então a natureza humana deve ser mudada. Sobre este ponto, Beverley Nichols escreve de modo impressionante: ¶
Podeis mudar a natureza humana. Nenhum homem que tenha sentido em si o espírito de Cristo, ainda que por meio minuto, pode negar esta verdade, a única grande verdade num mundo de pequenas mentiras. Vós de fato mudais a natureza humana, vossa própria natureza humana, se a entregardes a ele. Negar isso é apenas proclamar-vos um tolo sem instrução.... ¶
A natureza humana pode ser mudada, aqui e agora. ¶
A natureza humana foi mudada, no passado. ¶
A natureza humana deve ser mudada, em escala enorme, no futuro, a menos que o mundo esteja destinado a afogar-se em seu próprio sangue. E somente Cristo pode mudá-la.... ¶
Doze homens fizeram bastante para mudar o mundo, há mil e novecentos anos. Doze homens simples, tendo apenas o vento para levá-los pelos mares, com apenas alguns tostões nos bolsos, e uma fé resplandecente no coração. Ficaram muito aquém de seu ideal, suas palavras foram deturpadas e escarnecidas, e falsos templos foram erguidos sobre seus ossos, em louvor a um Cristo que eles teriam rejeitado. E, no entanto, à luz de sua inspiração, muitas das coisas mais belas do mundo foram criadas, e muitas das mais finas mentes do mundo foram inspiradas. ¶
Se doze homens fizeram isso, há mil e novecentos anos, o que não poderiam fazer hoje doze homens? Pois Deus agora nos deu o poder de sussurrar através do espaço, de transmitir nossos pensamentos de uma ponta a outra da terra. O que sussurraremos -- o que pensaremos? Eis a questão. (The Foot Hath Said, p. 272.) ¶
Eliminar a Arrogância da Superioridade
Com o espírito de Cristo no coração, nenhuma nação arrogará a si mesma superioridade sobre as outras, mas dará a cada nação, por menor que seja, por mais atrasada que pareça, o direito à autodeterminação. ¶
Buscar o Progresso Material como Meio para a Realização Espiritual
Com o espírito do evangelho no coração dos homens, as nações aceitarão a verdade de que a integridade é mais desejável do que a agudeza intelectual ou o acúmulo de riqueza. Os homens então considerarão o progresso material não como um fim em si mesmo, mas como um meio para a realização espiritual. Reconhecerão o significado de "Buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas." Estadistas, homens de igreja, professores, funcionários públicos, jornais -- todos os que de alguma forma moldam a opinião pública devem enfrentar de modo inteligente a apatia espiritual e a decadência moral. ¶
Algum dia os homens hão de perceber que somente a verdadeira religião pode satisfazer a alma anseante. ¶
Duas Grandes Forças Apontam o Caminho para a Paz
Vejo duas grandes forças conduzindo o caminho desde o abismo de outra Guerra Mundial até o reino da paz e do progresso -- a América e o evangelho de Jesus Cristo. ¶
A América tem a grande oportunidade de conduzir o mundo, afastando-o da intriga política e da demagogia barata, do egoísmo nacional, da usurpação iníqua do poder e do engrandecimento ímpio. Ela deve provar aos povos da Europa e de todo o mundo que não tem fins egoístas a servir, nenhum desejo de conquista, nenhuma arrogância de superioridade nacional ou racial. Quando esses ideais estiverem estabelecidos, a América poderá abrir o caminho e conduzir o mundo à paz. ¶
Esta é uma terra onde o ódio deveria morrer -- Esta é uma terra onde a contenda deveria cessar, Onde o medo sujo e suspeito deveria fugir Diante de nossa bandeira de luz e paz. ¶
Mas repito, a paz permanente só será encontrada na aplicação dos princípios do evangelho da paz. Cristo veio à terra para trazer paz e boa vontade. Quando disse: "Não vim trazer paz, mas espada," ele percebia como a aceitação de princípios eternos poderia romper os laços mais caros, e como os inimigos de um homem poderiam vir a ser os de sua própria casa. Afirmando os princípios do evangelho acima de tudo o mais, acrescentou: "Quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim." Assim, ele apenas enfatizou a grande verdade de que a aceitação dos princípios do evangelho é o propósito supremo da vida. ¶
Novamente o Senhor se revelou ao homem, e nessa revelação pode ser encontrada a resposta às perplexidades e aos anseios da alma humana. ¶
Novamente, nesta era, Cristo disse: ¶
... Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. (João 8:12.) ¶
Sinto que podemos unir-nos ao poeta ao dizer: ¶
Ó Cristo, que morreste para dar vida aos homens, Traze aquela hora vitoriosa, Em que o homem usará para a paz, não para a luta, Seu valor, sua destreza e seu poder. ¶