Objetivo da Igreja de Trazer a Paz
John A. Widtsoe
Objetivo da Igreja de Trazer a Paz
Quero dizer a meus irmãos aqui hoje que essas propostas começam pelo lado errado, e que todas elas fracassarão. A paz sobre a terra não há de ser estabelecida pelo Congresso, pelo Parlamento, ou por um grupo de representantes internacionais. A paz não é algo que se pode vestir e depois tirar novamente, como fazemos com uma peça de roupa. A paz é bem diferente disso. A paz não pode ser instituída por legislação. Esse não é o caminho para a paz duradoura sobre a terra. Isso, todo homem aqui compreende. ¶
Lembrem-se de que o próprio Salvador procurou demonstrar-nos isso, pois, ao falar a Seus discípulos, disse: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou" — e acrescentou: "não vo-la dou como o mundo a dá." ¶
A paz vem de dentro; a paz sou eu mesmo, se eu for um homem verdadeiramente pacífico. A própria essência do meu ser deve ser o espírito de paz. Os indivíduos formam a comunidade, e a nação — uma doutrina bastante antiga, que frequentemente esquecemos — e o único modo de construir uma comunidade pacífica é formar homens e mulheres que sejam amantes e artífices da paz. Cada indivíduo, segundo essa doutrina de Cristo e de Sua Igreja, tem em suas próprias mãos a paz do mundo. ¶
Isso me torna responsável pela paz do mundo, e torna cada um de vocês individualmente responsável pela paz do mundo. Essa responsabilidade não pode ser transferida a outrem. Não pode ser colocada sobre os ombros do Congresso, do Parlamento, ou de qualquer outra organização de homens com autoridade governamental. ¶
Pergunto-me se não foi isso que o Senhor tinha em mente quando disse: "... o reino de Deus está entre vós" (Lucas 17:21), ou talvez devêssemos reenfatizar isso e dizer: "O reino de Deus está entre vós." ¶
A paz vem de dentro
Creio que nossos problemas nesta época são, em certos aspectos, os mais terríveis de toda a história do mundo, e os mais difíceis de compreender. Contudo, sabemos que a paz, e tudo o que a ela pertence, deve vir de dentro de corações humanos honestos, exercitados e provados na retidão. ¶
Pode-se perguntar: será realmente possível que tais indivíduos sejam, digamos assim, vencidos pela paz? Será possível que tais indivíduos se multipliquem em número, a ponto de fazer da terra um lugar de habitação feliz e pacífico? A resposta que damos ao mundo é que, se um homem apenas se conformar à lei eterna, se estiver em harmonia com ela, a paz será sua. Essa é uma fórmula simples, que se refere ao corpo, à mente e ao espírito, e a nossos vizinhos. Se eu obedeço às leis físicas do corpo, terei a paz física. Se obedeço às leis da saúde mental, estarei mentalmente em paz. Se obedeço às leis espirituais que Deus deu, também encontrarei a paz, a mais elevada paz. Se amo meus vizinhos, tanto quanto amo a mim mesmo e a meu Deus, e todos os homens fazem o mesmo, haverá paz social completa. Tal obediência pode ser prestada; tal harmonia pode ser alcançada. Já foi feito por homens; pode ser feito novamente. Essa harmonia com a lei está na base do problema de nossa busca e de nosso anseio pela paz neste mundo conturbado. ¶
Pode haver aqui alguns que tentaram pagar parte do dízimo devido ao Senhor. A paz permaneceu em seus corações? Perguntemo-nos a nós mesmos! Pode haver aqueles, como o soldado mencionado pelo irmão Lee esta manhã, que foram ensinados quanto à Palavra de Sabedoria e deixaram de guardá-la. Não havia paz no coração de nosso irmão soldado quando ele jazia ferido, em urgente necessidade de auxílio divino. Não há paz em nossos corações quando desobedecemos à lei. Somente a conformidade com a lei traz paz. ¶
Mas, antes de podermos obedecer, precisamos conhecer e compreender a lei. Nisso há uma história tão longa que é impossível discuti-la nos poucos minutos de que disponho. A paz se perdeu porque o mundo perdeu o conhecimento da verdade divina, ou, conhecendo-a, a compreendeu mal. ¶
Por exemplo, Deus, que precisa ser conhecido em primeiro lugar, tem sido transformado numa essência etérea, que preenche o espaço, o que, sendo Ele o Pai dos homens, é incompreensível para a mente humana. É tolice procurar a paz entre os homens quando as realidades mais profundas da existência não são compreendidas. Os homens que não compreendem corretamente essas verdades vivem inquietos e são propensos à guerra. Somente à medida que as verdades da existência forem encontradas e aceitas, a paz prevalecerá sobre a terra. ¶
Os homens também precisam compreender o plano de salvação, o significado da vida, para encontrar paz em seus próprios corações e ajudar a estabelecer a paz na terra. Lembro-me do oficial britânico hostil que tentou impedir minha entrada na Grã-Bretanha porque eu era "mórmon". Na conversa que se seguiu, ele finalmente disse: "Se eu o admitir, o que o senhor fará na Grã-Bretanha?" ¶
Respondi: "Se o senhor me admitir, ensinarei ao povo da Grã-Bretanha, no melhor de minha capacidade, como conquistar a felicidade nesta vida e na vida futura. Direi a eles de onde vieram, por que estão aqui nesta terra, e para onde vão depois da morte." ¶
O homem fardado, um servidor de longa data do império, olhou para mim, atônito. "O senhor sabe responder a essas perguntas? A vida toda busquei respostas para elas. Ninguém foi capaz de mas responder. Por favor, ensine-me." ¶
Ele não estava em paz; havia inquietação em seu coração. ¶
Lembro-me da viúva idosa no sul de Utah, uma conversa vinda da Inglaterra, que deixara um lar culto para iniciar o árduo trabalho pioneiro de construir um império aqui no deserto ocidental. Ela me contou de suas lutas e sacrifícios, das dores de seus dias e de seus anos. Depois que ela contou sua história, uma história capaz de trazer lágrimas aos meus olhos, eu lhe disse: "Irmã, a sua tem sido uma vida difícil; a senhora sacrificou muito. Deixe-me perguntar-lhe: se a senhora fosse novamente uma jovem na Inglaterra e pudesse olhar para os anos que viriam, faria tudo de novo? Aceitaria o evangelho e enfrentaria a vida que aqui viveu?" ¶
A anciã, já em seus oitenta anos, levantou-se da cadeira e olhou-me nos olhos: "O senhor me pergunta se eu faria tudo de novo? Pelo que o evangelho me deu, eu o faria de novo dez mil vezes." Ela havia encontrado a paz. Seu coração estava tranquilo. ¶
Não há tempo para discutir mais a fundo o método pelo qual a paz individual pode ser alcançada, mas pode-se acrescentar que aquele que busca a paz precisa esquecer-se de si mesmo na busca. A arte de colocar a causa acima de si mesmo é de primeira importância para que a paz cresça em nossos corações. Sempre que nos colocamos acima da causa, estamos, nas palavras do Presidente John Taylor, nas mãos do mal. A paz desaparece. ¶
O significado de "Sião"
Permitam-me dizer mais uma coisa. Há uma passagem na Doutrina e Convênios que li com muitos pensamentos sérios: ¶
... todo homem que não tomar sua espada contra seu próximo terá que fugir para Sião, por segurança. ¶
E reunir-se-ão nela, de todas as nações debaixo dos céus; e serão o único povo que não estará em guerra entre si. (D. & C. 45:68, 69.) ¶
"Fugirão para Sião, por segurança." Creio que isso não significa um lugar geograficamente limitado, mas um lugar onde habitam os puros de coração, pois eles são Sião, e dessa Sião, formada pelos puros de coração, sairá a força e o poder que trarão a paz a esta terra infeliz. ¶
Nós somos Sião; dizemos que somos; sei que somos. Estamos sob a tremenda incumbência de viver de tal modo, de estabelecer de tal modo a paz em nossos próprios corações, que nossa companhia, onde quer que estejamos, se torne uma sociedade à qual os que sofrem, os inquietos, os que não têm paz, em todo o mundo, possam recorrer em busca de segurança. Verdadeiramente, uma tremenda obrigação recai sobre os Santos dos Últimos Dias. ¶
Nosso patriarca falou ontem à noite deste povo como um fermento. Sabemos que isso é verdade. Somos como um fermento para todo o mundo. É por isso que a "minoria" de que ele falou não importa. A paz futura e duradoura não é uma questão de maioria ou minoria, mas do poder do fermento. O fermento pode estar fraco. Às vezes precisa ser fortalecido. Esse é o nosso problema, especialmente a tarefa da liderança: fortalecer entre nosso povo o fermento da paz, o evangelho da paz, de modo que, da própria presença que temos, de nossos corações e de nossa fé, irradie algo que toque o coração de todos os que buscam a verdade, de todos os que amam a paz. À medida que essas pessoas se reúnem a nós, se cumprirmos nosso dever, serão abençoadas e encontrarão o que buscam, e conosco ajudarão a estabelecer sobre a terra o reino da paz, que é o reino dos céus. ¶
Neste momento, estou olhando para os rostos da liderança da Igreja de Cristo. Tivemos, nesta Conferência, um maravilhoso banquete de boas coisas. Raramente me senti tão espiritualmente alimentado. Voltaremos agora para nossos lares e para nossos trabalhos, levando conosco todas as verdades que recebemos, e as converteremos numa mensagem de paz onde quer que formos? Façamos assim. Lembremo-nos de que: ¶
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus. (Mateus 5:9.) ¶
Minha mensagem a vocês, e meu apelo a vocês, é que cada um de nós, em benefício de si mesmo, de seu rebanho e do mundo, se constitua um pacificador, começando pelo próprio coração, para purificá-lo, para torná-lo digno de ser a morada da paz. ¶
Que Deus assim nos ajude e nos abençoe, é o que peço em oração, em nome do Senhor Jesus Cristo. Amém. ¶
O élder John Hibbard cantou um solo, "A Oração do Senhor" (música de B. Cecil Gates). ¶