A Guerra e a Paz de Cristo
David O. McKay
Com vários rapazes de muitas alas da Igreja servindo em algum lugar no terrível conflito que agora se trava, é fácil compreender por que nossos pensamentos se voltam para a reprovação da guerra, e para a esperança da paz. Os pensamentos sobre entes queridos estão bastante ligados a seus rapazes soldados nos acampamentos militares. Há também muitos que gostariam de saber qual é a atitude da Igreja em relação à guerra atual. Este é um dia e uma ocasião apropriados para considerar este assunto. ¶
A Páscoa, como sabeis, é uma antiga festa da primavera à qual a Cristandade há muito associa a ressurreição de Jesus Cristo. A ressurreição do Salvador é o acontecimento mais glorioso na história da humanidade. Ela proclama a vitória da alma sobre a morte, e a existência e progressão da personalidade individual além da sepultura. ¶
A primeira saudação do Senhor ressuscitado a Seus discípulos, na noite daquele dia memorável, foi "Paz seja convosco." ¶
E dizendo isso, mostrou-lhes as suas mãos e o lado. De sorte que os discípulos se alegraram vendo o Senhor. ¶
Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco. (João 20:20-21) ¶
Essa foi também Sua mensagem, na última reunião que teve com eles antes de Sua crucificação. Disse Ele: "Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz." ¶
A paz de Cristo permanece no coração. É uma bênção individual. Mas é também uma condição a ser desfrutada por grupos de indivíduos, e para esse fim Seus discípulos deveriam declarar a paz ao mundo. ¶
Neste Dia de Páscoa, o Cristo Ressuscitado contempla no mundo não a paz, mas a guerra. ¶
Diante da trágica condição entre os homens, homens e mulheres de pensamento honesto perguntam como é possível reconciliar os ensinamentos de Jesus com a participação da Igreja em um conflito armado. ¶
A guerra é fundamentalmente egoísta. Suas raízes se alimentam no solo da inveja, do ódio, do desejo de dominação. Seu fruto, portanto, é sempre amargo. Aqueles que a cultivam e a propagam espalham a morte e a destruição, e são inimigos da raça humana. ¶
A guerra tem origem no coração dos homens que buscam despojar, conquistar ou destruir outros indivíduos ou grupos de indivíduos. A autoexaltação é um fator motivador; a força, o meio de alcançá-la. A guerra é uma ação rebelde contra a ordem moral. ¶
A guerra presente teve seu início no militarismo, uma falsa filosofia que crê que "a guerra é uma necessidade biológica para a purificação e o progresso das nações." Ela proclama que a Força determina o Direito, e que somente as nações mais fortes devem sobreviver e governar. Ela diz: "a grandeza da história está no conflito perpétuo das nações, e é simplesmente tolice desejar a supressão de sua rivalidade." ¶
A guerra vos impele a odiar vossos inimigos. ¶
O Príncipe da Paz diz: Amai os vossos inimigos. ¶
A guerra diz: Amaldiçoai os que vos amaldiçoam. ¶
O Príncipe da Paz diz: Orai pelos que vos amaldiçoam. ¶
A guerra diz: Feri e matai os que vos odeiam. ¶
O Senhor Ressuscitado diz: Fazei o bem aos que vos odeiam. ¶
A Guerra é Incompatível com os Ensinamentos do Salvador
Vemos, assim, que a guerra é incompatível com os ensinamentos de Cristo. O evangelho de Jesus Cristo é o evangelho da paz. A guerra é sua antítese, e produz ódio. É vão tentar reconciliar a guerra com o verdadeiro cristianismo. ¶
Diante de tudo isso, parecerei inconsistente ao declarar que sustento nosso país na gigantesca tarefa que assumiu no conflito mundial presente, e sustento a Igreja em seu leal apoio ao governo em sua luta contra a ditadura. ¶
Para justificar essa aparente inconsistência, não tentarei provar que há ocasiões em que Jesus aprovaria que uma nação iniciasse uma guerra. Que Ele usou a força para expulsar do templo os cambistas e outros profanadores da Casa de Deus é um fato; mas somente uma má aplicação do texto pode fazer desse incidente uma justificativa para que uma nação cristã vá à guerra contra outra. Naquela ocasião, como em todas as ocasiões, Jesus se opôs e denunciou o erro. Com a força de uma indignação ardente e de sua própria força moral, e não apenas com um chicote de pequenas cordas, Jesus expulsou do templo os profanadores por si mesmos condenados. ¶
Tampouco tentarei provar que Ele favorecia a guerra quando disse: "Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada." (Mat. 10:34) Aqueles que citariam essas palavras como indicando que Jesus aprova a guerra certamente lhes dão uma interpretação forçada de seu verdadeiro significado, que se refere mais claramente à incompatibilidade entre a verdade e o erro. Refere-se claramente à necessidade de uma escolha, que foi feita por milhares, entre aceitar o evangelho ou continuar na comodidade e no conforto junto de parentes. Não há nessa citação nenhuma justificativa para que uma nação cristã declare guerra contra outra. ¶
Nem tampouco tentaria justificar minha aparente inconsistência referindo-me ao que Ele disse em outra ocasião, como segue: ¶
Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a; . . . ¶
E eles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. E ele lhes disse: Basta. (Lucas 22:36 e 38) ¶
Sem ler no texto algo que não é pretendido nem sequer implícito, o máximo que se pode extrair dessa admoestação é que, dali em diante, os discípulos, indo para um mundo antagônico, poderiam prover-se dos meios necessários de sustento e dos meios habituais de defesa. ¶
Nenhuma dessas palavras do Salvador pode ser tomada como prova de que Ele justifica a guerra. ¶
Tolstói, em sua obra Cristianismo e Patriotismo, diz: ¶
Um Estado cristão, para ser coerente, deveria, ao entrar em guerra, não apenas remover as cruzes das igrejas, transformar as próprias igrejas em edifícios para outros fins, atribuir ao clero outros deveres e, acima de tudo, proibir o evangelho -- mas deveria renunciar a todo preceito de moralidade que decorre da lei cristã. ¶
Não obstante tudo isso, ainda afirmo que há condições em que a entrada na guerra é justificável, e em que uma nação cristã pode, sem violar princípios, tomar armas contra uma força adversária. ¶
Tal condição, porém, não é um insulto real ou imaginado feito por uma nação a outra. Quando isso ocorre, pode-se fazer a devida reparação por meio de entendimento mútuo, desculpa ou arbitragem. ¶
Tampouco há causa justificável encontrada em um desejo, ou mesmo numa necessidade, de expansão territorial. A tomada de território implica a subjugação do fraco pelo forte -- a aplicação da lei da selva. ¶
Nem a guerra se justifica numa tentativa de impor uma nova ordem de governo, ou mesmo de impelir outros a uma forma particular de adoração, por melhor que seja o governo ou eternamente verdadeiros que sejam os princípios da religião imposta. ¶
Há, no entanto, duas condições que podem justificar que um homem verdadeiramente cristão entre -- notai bem, digo entre, não comece -- uma guerra: (1) Uma tentativa de dominar e de privar outro de seu livre-arbítrio, e (2) Lealdade à sua pátria. Possivelmente há uma terceira, a saber, a Defesa de uma nação fraca que está sendo injustamente esmagada por uma nação forte e implacável. ¶
O Livre-Arbítrio do Homem é Fundamental ao Progresso
Preeminente entre essas razões, é claro, está a defesa da liberdade do homem. Uma tentativa de roubar do homem seu livre-arbítrio causou dissensão até mesmo no céu. As escrituras nos dizem: ¶
E Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhava o dragão e os seus anjos. ¶
E não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. ¶
E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamado o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados fora com ele. ¶
Naquela rebelião, Lúcifer disse, em substância: "Pela lei da força, obrigarei a família humana a subscrever o plano eterno; mas dai-me a vossa honra e poder." ¶
Privar um ser humano inteligente de seu livre-arbítrio é cometer o crime dos séculos. ¶
Os motivos impulsionadores desse arqui-inimigo da liberdade eram o orgulho, a ambição, um senso de superioridade, uma vontade de dominar seus semelhantes, e de exaltar-se acima deles, e uma determinação de privar os seres humanos de sua liberdade de falar e de agir conforme sua razão e juízo ditassem. Aplicam-se a ele as palavras de Isaías: ¶
Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! . . . ¶
E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. ¶
Subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. ¶
E contudo derrubado serás no inferno, nas profundezas do abismo. (Isaías 14:12-15) ¶
Assim, desde o princípio, foi tramado o grande crime contra a humanidade, para frustrar ¶
O desejo, que os séculos ainda não subjugaram, No homem, de não ter senhor senão o seu Deus. ¶
Tão fundamental é, no progresso eterno do homem, seu direito inerente de escolher, que o Senhor o defenderia mesmo ao preço da guerra. Sem liberdade de pensamento, liberdade de escolha, liberdade de ação dentro de limites legítimos, o homem não pode progredir. O Senhor reconheceu isso, e também o fato de que levaria ao homem milhares de anos para tornar a terra habitável para indivíduos autogovernados. Ao longo das eras, almas avançadas anelaram por uma sociedade em que a liberdade e a justiça prevalecessem. Os homens a buscaram, lutaram por ela, morreram por ela. Os homens livres da antiguidade a prezaram, os escravos anelaram por ela, a Magna Carta a exigiu, a Constituição dos Estados Unidos a declarou. ¶
"Este amor à liberdade que Deus plantou em nós," disse Abraham Lincoln, "constitui o baluarte de nossa liberdade e independência. Não são nossas ameaçadoras fortificações, nossas costas eriçadas de defesas, nosso exército e nossa marinha. Nossa defesa está no espírito que preza a liberdade como a herança de todos os homens, em todas as terras, em toda parte. Destruí esse espírito, e teremos plantado as sementes do despotismo bem à nossa porta." ¶
Nossa Obrigação para com o Estado
Uma segunda obrigação que nos impele a participar desta guerra mundial é a lealdade ao governo. ¶
Cremos que os governos foram instituídos por Deus, em benefício do homem, e que Ele responsabiliza os homens por seus atos em relação a eles, tanto na elaboração de leis como em sua administração, para o bem e a segurança da sociedade. ¶
Cremos que nenhum governo pode existir em paz, a não ser que sejam elaboradas e observadas inviolavelmente leis que garantam a cada indivíduo o livre exercício da consciência, o direito e o controle da propriedade, e a proteção da vida. ¶
A maior responsabilidade do estado é resguardar as vidas, e proteger a propriedade e os direitos de seus cidadãos; e se o estado é obrigado a proteger seus cidadãos da ilegalidade dentro de suas fronteiras, é igualmente obrigado a protegê-los de incursões ilegais vindas de fora -- sejam os criminosos agressores indivíduos ou nações. ¶
Fomos informados por fonte competente de que, há vinte anos, o governo dos Estados Unidos firmou um acordo com o Japão para manter a paz no Oceano Pacífico, e "manter as mãos honradas fora da China." "Antes que o ano terminasse," escreve Mark J. Gayn, num artigo intitulado Prelúdio à Traição, "os homens mais capazes do estado-maior geral naval japonês já estavam trabalhando na elaboração dos planos de guerra contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha." ¶
Diante de tal traição, o estado tem o dever de proteger a si mesmo, e seu único meio eficaz de fazê-lo, nas condições atuais do mundo, é pela força armada. Como Igreja: ¶
Cremos que todos os homens são justificados por se defenderem e defenderem seus amigos e seus bens e o governo de ataques ilegais e de violações de direitos cometidos por qualquer pessoa, quando não se puder apelar de imediato às leis nem se puder obter auxílio. (D&C 134:11) ¶
Ainda que sintamos a origem infernal da guerra, ainda que estejamos confiantes de que a guerra jamais porá fim à guerra, sob as condições existentes nos encontramos, como corpo, comprometidos a combater esse mal. Junto com outros cidadãos leais, servimos nosso país como portadores de armas, em vez de nos manter à parte para desfrutar de uma liberdade pela qual outros lutaram e morreram. ¶
Um dos propósitos de enfatizar este tema é dar encorajamento aos jovens agora empenhados no conflito armado, e assegurar-lhes que estão lutando por um princípio eterno, fundamental para a paz e o progresso da humanidade. ¶
Conclusão
Que Deus os abençoe, a eles e a outros agora alistados aguardando o chamado ao dever, e aos que estão a serviço na defesa! A cada um de vós enviamos uma mensagem de confiança e fé. Muitos de vós, antes de assumir vossos deveres militares, éreis mensageiros autorizados da paz. Outros dentre vós também portais o Sacerdócio. A todos dizemos: em vossos hábitos pessoais, que os mesmos ideais vos guiem como soldados no exército que vos guiaram como missionários. O que o Senhor vos disse então se aplica a vós agora -- ¶
Portanto, cingi os lombos e tomai sobre vós toda a minha armadura, para que possais resistir no dia mau, havendo feito tudo, a fim de subsistirdes. ¶
Estai, pois, firmes, tendo cingidos os lombos com a verdade, tendo vestida a couraça da retidão e calçados os pés com a preparação do evangelho da paz. (D&C 27:15, 16) ¶
Conservai-vos moralmente limpos. Ser soldados ou marinheiros não é justificativa para se entregarem à vulgaridade, à intemperança ou à imoralidade. Outros podem sentir-se impelidos a fazer essas coisas por causa da brutalidade da guerra, mas vós que portais o Sacerdócio não podeis assim ceder impunemente. Por vossas próprias e preciosas vidas, e por outros que confiam em vós, mantende-vos incontaminados. Vossos entes queridos creem em vós, vossos companheiros vos respeitarão, vossos oficiais vos admirarão. ¶
Hoje, ao celebrarmos a ressurreição de nosso Senhor e Salvador, uma nuvem de pesar espiritual paira sobre o mundo, como houve trevas na hora da crucificação. Que possamos ter esperança de que, quando esta louca orgia tiver terminado, os de coração honesto experimentarão uma ressurreição espiritual e se associarão uns com os outros numa novidade de vida. Assim como as sementes de guerras futuras costumam ser semeadas em torno da mesa de paz, que o espírito do evangelho de Jesus Cristo, e não o espírito de retaliação e vingança, motive aqueles que se reunirem para determinar os termos da paz. Quando chegar essa bendita ocasião, que os representantes das nações reconheçam os direitos inalienáveis dos povos, em toda parte, de se autogovernarem. Seria apropriado que estivessem gravadas em letras douradas nas paredes onde se reunirem, e especialmente estimadas como motivos nos corações daqueles que determinarem as condições de paz, as palavras de Cristo nosso Senhor: "Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos de vosso Pai que está nos céus." ¶
Ó Irmão Homem
Segue com passos reverentes o grande exemplo Daquele cuja santa obra foi "fazer o bem"; Assim, toda a vasta terra nos parecerá o templo de nosso Pai, Cada vida amorosa, um salmo de gratidão. ¶
Então cairão todos os grilhões; o clangor tempestuoso Da música selvagem sobre a terra cessará; O amor pisará o fogo funesto da ira, E em suas cinzas plantará a árvore da paz! ¶