O Lar Ideal
Stephen L Richards
Estou convencido de que não podemos permitir-nos ser tão distraídos pelas urgências que estes tempos perigosos nos impuseram a ponto de esquecermos as instituições, os princípios e as virtudes fundamentais sobre as quais se erguem a nossa vida nacional e a nossa civilização. Nós, da Igreja, temos constantemente a nossa atenção voltada para esses fundamentos, e eles têm sido, e serão, o assunto de discursos nesta Conferência. É sobre uma dessas instituições fundamentais da sociedade -- que desejo falar hoje -- o lar. Estou penosamente ciente do fato de que dificilmente poderei acrescentar um único pensamento novo a este velho tema. Tenho, porém, esperança de conseguir refrescar um pouco o vosso próprio pensamento acerca desta instituição de tamanha importância. ¶
A Relação Familiar, a Primeira Forma de Governo
Para se ter uma ideia sequer aproximada do lugar do lar em nossa civilização e sociedade, penso ser necessário olhar para trás, para a sua história. ¶
Não seria possível traçar sequer o esboço do seu desenvolvimento no tempo que me foi concedido. Permiti-me, porém, chamar a atenção para alguns fatos bem reconhecidos a seu respeito. O governo iniciado no lar, e que dele surgiu, foi a primeira forma conhecida de governo humano. O chefe da família veio a ser o cacique da tribo ou clã, e os seus descendentes diretos receberam o direito herdado de soberania. Os patriarcas não eram apenas profetas; eram legisladores, e os seus povos eram submissos à sua vontade. Nesse aspecto, os governos terrenos vieram a ser protótipos do governo divino, pois o próprio gênio do governo divino é a paternidade e o reconhecimento da relação familiar. Deus, o Criador, é o Pai, o Proprietário e o Governante; os homens, os filhos, ligados pelos laços da obrigação filial, são os súditos do governo -- sujeitos em todos os aspectos à vontade e aos ditames do Pai. ¶
Além disso, ao longo da história da civilização, os laços de sangue e a raça têm sido os fatores coesivos mais fortes no agrupamento da sociedade. Muitas das maiores nações não passaram de famílias ampliadas, com linhagens de sangue de notável pureza. ¶
O Lar, o Fundamento da Sociedade
O lar sempre foi o centro do interesse econômico. Sem dúvida produziu a maior parte da riqueza do mundo, e também a gastou. ¶
É a instituição educacional primária. Por mais importantes que tenham sido as escolas, elas nunca ocuparam posição mais que complementar à do lar, que é o berçário não apenas de todos os seres humanos, mas de toda virtude. ¶
Os governos que alcançaram lugar elevado na história e nos assuntos do mundo têm sido, penso eu, sem exceção, aqueles que deram o devido reconhecimento ao lar como instituição fundamental da sociedade. Promulgaram leis para a sua proteção e progresso, e os crimes contra o lar e a sua santidade têm sido considerados entre as ofensas mais hediondas. ¶
A esse respeito, lembro-me da declaração de um homem eminente que, certa vez, falando na Câmara dos Comuns britânica contra a imposição de um imposto sobre as casas dos pobres, disse, em substância: "O meu lar pode ser pobre e rude; o telhado pode ter goteiras; o vento pode entrar; a chuva pode entrar, mas o Rei da Inglaterra, com todo o seu exército, não pode entrar. O meu lar é o meu castelo, sagrado e inviolável para mim e para a minha família." Tal concepção do lar esteve na própria base do direito e do governo inglês e americano, e essa concepção é, em grande parte, responsável pelos direitos e liberdades de que hoje desfrutamos. ¶
Valor da Vida Familiar à Moda Antiga
Qual é a sua perspectiva nesta dramática evolução de pessoas, coisas e instituições que agora está em curso? Não me atreveria a fazer uma previsão certa, mas concordo com o Dr. Henry Van Dyke, que disse que "se a vida familiar americana à moda antiga desaparecer, nada poderá tomar o seu lugar." ¶
O que era um lar americano à moda antiga, ou melhor, o que é, pois agradeço notar que ainda restam alguns desses lares na terra? Sabeis o que ele é. Sabeis que não é apenas uma casa, por mais grandiosa e imponente que a casa possa ser, e por mais embelezada que esteja com móveis caros, tapeçarias ricas e tapetes tecidos com o labor de terras distantes como a Pérsia. Sabeis que não é uma mansão em que residem um homem e uma mulher, irritados sob os laços de um contrato de casamento, um cão poodle e um séquito de criados cuja principal função é zelar para que os três principais ocupantes da casa, o homem, a esposa e o cão, gozem de igualdade de direitos e privilégios. E sabeis que um lar assim, à moda antiga, geralmente não se localiza ¶
entre as residências dispendiosas dos ricos. Sabeis que costuma encontrar-se entre os modestos e humildes, mas não entre os pobres da terra, pois não são verdadeiramente pobres os que mantêm um verdadeiro lar. Sabeis que num lar americano à moda antiga encontrareis uma grande família de meninos e meninas felizes, aos quais o pai e a mãe dedicam, de bom grado, com paciência e amor, vidas de labuta e serviço; não por ostentação, orgulho ou gratificação de desejos egoístas, mas para cumprir elevadas concepções de dever e as leis de Deus. Serão felizes tais lares? ¶
Um Lar Ideal
Costumava morar no centro de uma cidade. O meu vizinho mais próximo vivia num verdadeiro lar. Tinha um quintal onde os seus filhos podiam brincar. Tinham flores e jardins, árvores e a bem-vinda sombra do sol de verão. As suas filhas, educadas, cultas e refinadas, ajudavam a mãe nas tarefas domésticas. Os seus filhos ajudavam a manter o local do lado de fora. Amavam o seu lar. Pertencia a todos eles. O sentimento de posse e propriedade estava com eles. Isso gerava frugalidade, economia e diligência. O seu interesse comum estimulava a confiança e o afeto mútuos que cimentam e enriquecem os laços naturais da família. Eram felizes e contentes, e eram excelentes cidadãos. ¶
A Vida Familiar em Apartamentos Não é Ideal
A maioria das outras pessoas que residiam na minha vizinhança morava em grandes edifícios de apartamentos. Poucos tinham filhos. Esses meninos e meninas não tinham quintal, nem jardins, nem flores, nem lugares para brincar, nem propriedade da qual cuidar, nem responsabilidade alguma. Vinham para o meu terreno e para o do meu vizinho. Não os culpei. Não tinham para onde ir. Feriram e destruíram as flores, os arbustos, os gramados e outras propriedades. Perdoei-os. Nunca tiveram nada de próprio de espécie semelhante e, por isso, nunca aprenderam a cuidar de propriedade. ¶
As moças que viviam nesses apartamentos não faziam o trabalho doméstico. Não havia muito o que fazer e, além disso, não tinham tempo para isso, porque toma todo o tempo dessas moças cuidar de si mesmas. É uma grande tarefa. A sua primeira ocupação do dia é preparar-se para a apresentação pública. Não tenho tempo para descrever as complexidades dessa operação. Basta dizer que exige muito trabalho e material para produzir o produto acabado. Depois há os cinemas diários, os chás, os passeios de automóvel, os bailes e os cabarés, todos exigindo constante rearranjo do toucado e da aparência, e envolvendo um imenso dispêndio de energia. Essas moças dos apartamentos são, na verdade, moças muito trabalhadoras. Têm a minha simpatia, mas, tal como os rapazes, não têm verdadeiros lares, e temo que não estejam aprendendo a ser mulheres de verdade. ¶
Contudo, esta vida de apartamento é a nova vida familiar; talvez aqui retratada em seu extremo. Os seus defensores dizem que é mais desejável que a antiga vida familiar; que tem mais comodidades, facilidade e luxo, e menos trabalho e responsabilidade. Reforçam o argumento declarando que custa menos. E de fato custa, e vale menos. A antiga ¶
vida familiar americana custa mais, mas vale mais. Custa mais em trabalho, abnegação, paciência, noites sem dormir, angústias e serviço amoroso, mas o sorriso de um bebê, o beijo de uma bela filha e o aperto de mão de um rapaz viril valem mais do que todo esse custo. ¶
Requisitos para a Formação de Bons Lares
O clamor do mundo é por homens e mulheres. Não conheço lugar onde possam ser encontrados, exceto nos lares do povo. Os lares que produzem homens e mulheres verdadeiros devem ser presididos e mantidos por homens de força e coragem, de virtude e visão, e por mulheres de ternura, abnegação e infinita paciência e amor -- dotes de Deus para a maternidade da raça. Viver bem é a primeira exigência de todo pai e mãe. Deus tenha piedade do infeliz pai ou mãe que chega à percepção, como certamente todos hão de chegar um dia, de que os pecados do filho são principalmente atribuíveis ao seu próprio mau exemplo ou negligência. ¶
Os criminólogos dizem-nos que a maioria de nossas delinquências têm origem em lares maus ou negligenciados. Os economistas dizem que a formação do lar é, em grande parte, responsável pela frugalidade, diligência e prosperidade da nação. Os médicos aconselham-nos que a saúde do povo depende do seu cuidado e dos seus ensinamentos, e o eugenista assegura-nos que toda a tendência da felicidade, inteligência, bondade e resistência humanas dela dependem. ¶
Sabeis que os estatísticos calcularam cientificamente que os Estados Unidos suportarão uma população não superior a duzentos milhões de pessoas, e que estamos nos aproximando muito rapidamente "deste ponto de saturação"? O caráter da nação e o seu destino dependem quase inteiramente das famílias que hão de compor esses duzentos milhões. Serão famílias descendentes das antigas estirpes da América, que estabeleceram as suas grandes instituições e que lutaram por, e fomentaram, a sua liberdade, a sua equidade e a sua justiça, ou serão famílias em cujo sangue não corram os grandes impulsos, a vontade indomável e o idealismo que foram, e são, o gênio da nossa Democracia? Tais questões devem dar pausa e preocupação a todo amante da América. ¶
O Estabelecimento de Lares Ideais, uma Grande Missão
Para os membros da nossa Igreja, o lar tem um significado ampliado, que não é subordinado a nada mais na vida, pois constitui não apenas a fonte da nossa maior felicidade aqui nesta vida, mas também o fundamento da nossa exaltação e glória na vida futura. Afinal, é essencialmente uma instituição religiosa. Tem a sua origem numa cerimônia religiosa. É o cumprimento de um mandamento divino. O seu governo é de natureza religiosa, e os melhores dos seus produtos são espirituais. ¶
Assim, é aqui, na humilde e, contudo, exaltada instituição do lar, que encontro a maior oportunidade e missão para homens e mulheres. Lamento dizer, porém, que o registro nem sempre revela uma resposta muito honrosa a essa grande oportunidade e obrigação. A educação moderna nem sempre produziu boas donas de casa. Dados recentemente publicados informam-nos que o número médio de filhos nas famílias dos engraxates da América é pouco superior a quatro, ao passo que o número médio de filhos nas famílias dos professores é pouco inferior a dois. Ora, pode ser que dois professores exerçam uma influência maior e melhor do que quatro engraxates, mas quanto tempo levará, nas atuais taxas respectivas de crescimento, para que os engraxates ponham de lado os professores? Apresento esta ilustração de um cientista popular, não em detrimento das pessoas que seguem vocações humildes, mas para ressaltar o fato de que a provisão mundial de inteligência, bondade e beleza é, em grande medida, uma questão de propagação. ¶
Lares dos Santos dos Últimos Dias
Há, a esse respeito, uma distinção tradicional e bastante conhecida de que goza o nosso povo. Temos sido notados pelas nossas grandes famílias, e, se fôssemos melhor compreendidos, seríamos famosos pelas nossas boas famílias. Os filhos têm sido a nossa melhor colheita, e nos bons lares antigos houve abundância deles. Oito, dez e uma dúzia numa família eram números comuns. ¶
Que famílias elas têm sido! Em dias de privação e luta, como se mantiveram unidas! Os sacrifícios que fizeram, uns pelos outros; o amor, o serviço e a nobreza que vieram desses grandes lares provavelmente nunca serão conhecidos de muitos, mas os que deles sabem, e que falam das realizações da nossa Igreja no primeiro século da sua existência, mencionam primeiro os nobres pais e mães que, em cabanas de toras da fronteira ou em mansões de luxo, serviram fielmente como sacerdotes e sacerdotisas no templo do lar. ¶
A nossa Igreja convoca os seus membros e todas as pessoas a manterem a integridade, a pureza e os altos propósitos desta instituição sagrada. Confio em que ninguém jamais cederá tanto aos apelos insidiosos do egoísmo, da vaidade e do mundo, a ponto de ser desviado de fazê-lo. ¶
Os Filhos, a Alegria do Lar
Para advertir de um grande perigo, devo falar dele de modo mais específico. Fá-lo-ei com toda a reverência. Se aprouver ao Senhor enviar ao vosso lar um bom número de filhos, espero, oro, que não lhes negueis a entrada. Se o fizerdes, isso vos causará infinita tristeza e remorso. Alguém disse que não poderia desejar ao seu pior inimigo maior inferno do que este: que, na vida futura, alguém se aproximasse dele e dissesse: "Eu poderia ter descido à terra da América e feito o bem além de toda a conta, mas, se viesse de todo, teria de vir por meio do vosso lar, e vós não fostes homem, ou mulher, o bastante para me receber. Destruístes a frágil passarela pela qual eu deveria atravessar, e depois pensastes ter feito algo engenhoso." ¶
Eternidade do Convênio do Matrimônio
Eu disse que, para a nossa Igreja, o lar tinha um grande significado religioso. Cremos que o pacto matrimonial não é apenas para esta vida, ou "até que a morte os separe", mas para toda a eternidade; que, quando o convênio é ¶
celebrado da maneira e no lugar apropriados e selado pelo poder do Santo Sacerdócio, que é a autoridade delegada de Deus ao homem, torna-se uma união eterna, uma instituição eterna, na qual hão de entrar todos os filhos nascidos nesse matrimônio, e que os laços de parentesco assim criados são laços eternos, reconhecidos no céu como na terra. O nosso céu é pouco mais do que uma projeção das sagradas instituições dos nossos lares para a eternidade. ¶
Os espíritos dos homens, que são os filhos literais do Pai, são por Ele permitidos assumir a mortalidade por meio de um lar, sendo o principal propósito dos administradores do lar guiar de volta os espíritos assim confiados aos seus cuidados até a presença eterna de onde vieram. ¶
Assim, esforçamo-nos tão diligentemente por manter os nossos filhos no vínculo deste convênio e união eternos. Não tememos a morte, porque a morte não rompe esse vínculo. Todos devemos passar por ela para encontrar lugar no círculo familiar eterno. Mas tememos o pecado que possa privar-nos da presença de um ente querido quando nos reunirmos em nossos lares futuros. ¶
Deploramos o divórcio. Fere o próprio fundamento do lar. O número de divórcios entre o nosso povo é relativamente baixo. ¶
Talvez este mero vislumbre da nossa filosofia de vida, do céu e da exaltação sirva para justificar o nosso incessante interesse pelos lares do povo. ¶
Confiamos nestas instituições para produzir a virilidade e a feminilidade para a Igreja e para a nação. O respeito pela lei, pela ordem e pelas instituições estabelecidas deve vir da boa vida familiar, se é que vem de algum lugar. Rapazes e moças que crescem chamando o pai de "o velho" e a mãe de "a velha" dificilmente serão facilmente sujeitos às restrições necessárias que a sociedade impõe. Se não podem respeitar e amar o lar e os pais, o seu afeto e consideração por qualquer causa e instituição dignas são duvidosos. ¶
A Religião como Salvaguarda
Assim, não questiono o lugar predominante do lar em nossa civilização, mas preocupo-me com o tipo de lares que manteremos. Creio que a nação seria infinitamente mais segura se a influência da religião pura pudesse chegar a todo lar. Tenho confiança na oração familiar. Seria muito melhor que o Sábado fosse observado como um dia santo, e não como um feriado. Os inimigos da sociedade não são pessoas reverentes e que amam a Deus. ¶
Vivemos numa nação cristã, fundada sobre princípios cristãos. A única esperança real para o mundo está na democracia e no altruísmo de Cristo. Os lares cristãos são a resposta. ¶
Anos atrás, era comum ver-se nas casas cartazes ou lemas emoldurados, trabalhados em desenhos e cores atraentes, pendurados sobre paredes e lareiras, com a inscrição: "Deus abençoe o nosso lar." Não está na moda exibir esses lemas agora. Já não se veem mais. Confio, porém, que, se doravante não estiverem pendurados nas paredes das nossas casas, estejam profundamente gravados em nossos corações. Deus abençoe os nossos lares! ¶