O Caminho para a Paz Através da Retidão
Albert E. Bowen
Do Conselho dos Doze Apóstolos ¶
A pergunta tem sido frequentemente levantada se os ideais consubstanciados nos ensinamentos de Jesus podem algum dia ser reduzidos à prática neste mundo obstinado. Ele glorificou o pacificador e o puro de coração e aquele que tem fome de retidão, e disse que os mansos herdarão a terra. Nesse breve resumo estão consubstanciados todos os elementos essenciais para a sociedade perfeita. Dito na linguagem cética e calculista da atualidade, a questão é: essas noções funcionarão, ou devem permanecer para sempre lindamente concebidas, abstrações fantasiosas isoladas por um intervalo intransponível do reino da realidade? Certamente o abismo é largo entre as belezas de convivência que elas vislumbram e a feiura do que realmente é. ¶
Necessidade de Melhores Condições Entre a Humanidade
Nesta época arrogante, egoísta e repleta de conflitos, parece não haver lugar para os mansos, exceto na submissão à indignidade e na servilidade humilhante. A humildade é uma virtude conhecida por pouco mais do que o nome. A fome de retidão é substituída pela sede de poder e pela cobiça de ganho, enquanto a voz do pacificador é abafada pelo estrondo da guerra. Mas essas condições não trazem satisfação à humanidade; portanto, não podem ser a ordem permanente de um mundo desejável. Pelo contrário, trazem violentas insatisfações. Assentam-se sobre a força, a crueldade, a chicana e a fraude; resultam em ressentimento, contenda, tumulto, ansiedade, medo e inquietação. A própria turbulência da inquietação e da insatisfação é evidência convincente de que os homens sentem ter direito a um modo de vida mais sereno e pacífico do que o que agora experimentam. Não pode haver dúvida quanto à desejabilidade do ideal. A questão levantada é se a humanidade pode alcançá-lo. ¶
Os Ensinamentos de Jesus Destinados a Toda a Humanidade
Talvez possamos abordar nossa pergunta com melhor compreensão se nos lembrarmos de que Jesus não estava primordialmente preocupado com nenhuma condição temporária ou localizada. Sua perspectiva abrangia toda a raça humana e seu possível destino; Sua visão percorria toda a extensão do tempo e da existência. A praticabilidade de Seus ensinamentos deve ser testada a partir dessa perspectiva de longo alcance. Ele veio a um povo orgulhoso de sua herança, vívido na memória de uma longa independência e de uma grandeza estimada, irritado e ressentido com seu eclipse político como província sujeita ao império, e inflexível em sua esperança de retorno à independência nacional e à glória de outrora. A tudo isso Jesus não deu atenção alguma. Ele e Seus seguidores não tinham voz no governo político existente. Não exerciam influência alguma na definição de seu curso. Aparentemente, Ele nunca procurou influenciá-lo, reformá-lo ou corrigi-lo. Em vez de tentar reformar o Estado, Ele estava tentando reformar os homens. ¶
Muitos homens neste mundo elaboraram modelos daquilo que conceberam ser o Estado ideal, mas, ao terminarem, descobriram que não tinham um povo apto a viver em tal estado. Jesus viu com clareza infalível que a sociedade não pode ser nada melhor do que um reflexo dos homens e mulheres que a compõem. O estado ideal só pode surgir quando criado e povoado por homens e mulheres que incorporem seus ideais em suas vidas. Sua primeira preocupação, portanto, foi com os indivíduos, ensinando-lhes como viver, tanto individualmente quanto em relação aos seus semelhantes. O avanço nesse propósito asseguraria uma melhoria paralela no corpo coletivo. ¶
A prescrição para o tipo de vida que Ele preceituou envolve o controle do eu interior, a autodisciplina, a supremacia das virtudes individuais sobre os instintos mais baixos, o autogoverno que eleva o indivíduo a um plano em que sua conduta está acima das compulsões de uma lei que paira sobre ele. Isso equivale a dizer que se trata de trazer as qualidades espirituais mais refinadas da natureza humana ao domínio sobre seus instintos animais mais carnais. A concretização vem com uma completa supremacia espiritual. ¶
A Perfeição Obtida por Graus
Mas isso não significa que o caminho para ela esteja divorciado da rotina diária da vida mortal. Não significa que os princípios de vida estabelecidos por Jesus sejam inaplicáveis ao mundo em que vive o homem mortal. Significa, antes, que, na medida em que homens e mulheres espiritualizam suas vidas, podem desfrutar do reino dos céus na terra. A vida tal como é vivida nesta terra, entre homens de interesses divergentes, propósitos conflitantes e antagonismos beligerantes, é o campo de treinamento para o cultivo e o desenvolvimento das virtudes desejadas. Onde quer que, e em qualquer grau que, algum de Seus ensinamentos seja observado, nessa medida ele dá frutos na melhoria das condições de vida, tanto individual quanto coletiva. Vistos politicamente, eles enunciam as condições básicas para um governo livre e bem ordenado. ¶
Todo o modelo aperfeiçoado, obviamente, não pode ser realizado de uma só vez. O imperfeito estará misturado com o perfeito até que o perfeito conquiste a supremacia. Em todas as coisas humanas, o progresso é um processo de crescimento; o avanço se dá por graus. Ele se realiza por meio do ensino, da aceitação e da conformidade. ¶
Assim, ao considerar a exequibilidade prática dos ideais, devemos manter nossa atenção fixa nos resultados finais e não devemos nos deixar confundir ou desconcertar por episódios passageiros ou atos de imaturidade que parecem inteiramente irreconciliáveis com a possibilidade de, algum dia, neste mundo, trazer o ideal e o real à harmonia. Observem, por exemplo, o estado do pacificador e do manso. Se todos os homens fossem puros de coração e dispostos à paz, e, em humildade de espírito, desejassem somente a retidão, o problema da vida seria simples. Mas uma angustiante perplexidade se apresenta quando um homem quer estar em paz e seu companheiro imediato quer contenda, quando um homem quer fazer o que é certo enquanto outro deseja vantagem injusta, quando um homem, em mansidão de espírito, deseja se ajustar com seu vizinho contencioso, e esse vizinho arrogantemente exige rendição incondicional à sua própria vontade inflexível. O ofensor inflexível deve, até que aprenda melhor, ser contido. Compulsões devem ser invocadas. Mas restrições impostas artificialmente, coerções externas, jamais podem ser mais do que expedientes temporários. Não oferecem cura para o mal que se destinam a reprimir. Enquanto o erro for mantido sob supressão pela força, a força ainda terá de ser mantida. ¶
O Caminho da Paz é Através da Retidão
Tudo isso é fundamental nos ensinamentos de Jesus. Seu ideal de governo é o autogoverno. Sua preocupação era purificar do coração humano o desejo ignóbil, substituindo-o por um propósito digno. Para esse fim, Ele ensinou o princípio de vencer o mal com o bem, de substituir o medo pela confiança, de substituir o ódio pelo amor, de fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem, de ser generoso, desprendido, gentil e bondoso, em vez de cruel, egoísta, vingativo e insolente. Podemos resistir ao invasor de nossos lares, mas, enquanto ele tiver vontade de invadir, não poderemos conhecer o contentamento. Uma nação pode repelir o ataque de um inimigo devastador, mas, enquanto o inimigo estiver pronto para atacar, a nação jamais poderá depor suas armas. Manter-se como um acampamento armado perpétuo seria tão intolerável quanto impossível. A segurança e a paz de espírito duradoura, condições inescapáveis da paz e da prosperidade nacional, só podem advir quando o inimigo tiver deixado de querer invadir. Isso acontece por meio do ensino do melhor caminho, por meio da conversão da alma de que ameaça, força e compulsão não trazem recompensas duradouras. No fim, o caminho do pacificador e do manso há de prevalecer. ¶
Nesse aspecto, a história do mundo ensina apenas uma lição. Nenhum conquistador mundial jamais conseguiu perpetuar seu império. Quando a força que o criou já não bastava para sua manutenção, ele desmoronou diante do ataque dos povos subjugados que nutriram seus ressentimentos à espera do dia da retribuição. A atual tentativa de domínio desmedido está fadada ao fracasso. Ela traz em si as sementes de sua própria destruição. Assenta-se sobre a força e será quebrada pela força, e, no fim, nada além de sofrimento terá resultado. ¶
A partir daí, o mundo terá de se reerguer e começar a reunir os fragmentos despedaçados de sua fé e de suas crenças, e começar a construir de novo sobre os princípios espirituais inerentes aos ensinamentos de Cristo. ¶
De maneira vaga e generalizada, os homens têm percebido a impossibilidade de preservar um modo de vida livre a menos que ele se mantenha sobre um alicerce espiritual. Quase um ano antes da eclosão da guerra atual, um grupo de líderes britânicos eminentes e observadores advertiu que a nação deveria escolher entre a restauração espiritual e a aniquilação. ¶
A Necessidade de Espiritualidade Sentida
Pouco mais de um ano atrás, quarenta homens de destaque nos círculos religiosos, científicos e filosóficos convocaram o povo americano a despertar para o perigo existente no enfraquecimento da crença e da prática religiosa. Reconhecendo que, enquanto a agressão armada grassar pelo mundo, os povos de inclinação pacífica devem se preparar para repeli-la, emitiram, ainda assim, a solene advertência de que, a menos que se opere uma ressuscitação espiritual e moral e se construa o respeito pelos valores religiosos, armar-nos-emos em vão. ¶
Essas são apenas ilustrações do clamor que se ergue de muitos quadrantes, indicando um desassossego de sentimento de que algo básico sobre o qual repousava nossa segurança tem se esvaído. Mas não encontrei nenhum deles nos dizendo com muita clareza quais são esses elementos espirituais, nem como trazê-los de volta à nossa vida nacional. Nossa pergunta original retorna: podem os idealismos de Jesus ser postos em prática? ¶
Os Ideais Cristãos, Princípios Básicos do Bom Governo
Talvez a melhor resposta a essa pergunta seja que, apesar de fracassos e retrocessos imperfeitos e desanimadores, eles já estão, em certo grau, funcionando no mundo e, por quase dois mil anos, vêm modificando, temperando e moldando os próprios processos de pensamento dos homens, refletindo-se nos melhores princípios concebidos dos próprios governos civis. ¶
Nosso próprio governo é o principal exemplo desse fato inegável. É produto dos ensinamentos de Cristo. Estes se alicerçaram na própria estrutura dele. Sua doutrina central pressupõe a Paternidade de Deus e o valor e a dignidade do homem como filho de Deus. A declaração de que todos os homens são criados iguais e de que são dotados por Deus de certos direitos inalienáveis e invioláveis -- o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade -- deriva de 1.800 anos de ensino persistente sobre a realidade de Deus e a imortalidade da alma humana. ¶
As ideias que formam nossos padrões de comportamento, pelos quais nossa conduta é avaliada como boa ou má, pelos quais nossas leis são moldadas, que regem nossos melhores conceitos de bom gosto e de decoro entre vizinhos, provêm de nossa longa tradição nos preceitos do Homem da Galileia. ¶
Quando o político ou o orador condena os males e promete curas e a instituição de meios melhores, ainda que de modo insincero e para fins egoístas, ele fundamenta seu argumento, talvez inconscientemente, na base dos ideais cristãos -- tudo o que demonstra quão profundamente estes penetraram nos hábitos de pensamento de nosso povo. ¶
A Tendência para a Descrença Religiosa
Mas hoje parece bastante evidente que, mesmo entre as nações mais esclarecidas, essas ideias vêm perdendo terreno como princípios orientadores. Nossa própria nação se desviou muito. No início, elas eram aceitas como parte de uma firme crença religiosa. Cristo ensinou uma religião, não apenas um código de ética. Ela se centrava -- como toda religião deve se centrar -- em Deus, a quem Jesus descreveu como o Pai cuja vontade Ele viera cumprir, de quem era Filho, e cujas promessas formavam a base de nossas esperanças futuras. Temos abandonado essas convicções. O último século é geralmente caracterizado como irreligioso. As descobertas da ciência foram surpreendentes. Os homens cresceram em sua suposição de autossuficiência. Pensavam que seriam capazes de explicar tudo pela teoria "do puro mecanismo, sendo a mente, o corpo e a alma resultado de ações químicas e físicas." Jesus deixou de ser o Filho de Deus, o Salvador dos homens, e passou a ser apenas mais um, talvez o maior, em uma sucessão de grandes moralistas. Seus ensinamentos deixaram de ser o Evangelho de salvação de origem divina para se tornarem um código de ética, com a religião desdenhada como mero formalismo e a igreja como expoente de uma superstição arcaica. Isso atinge a fé em sua própria fonte. Sem seu alicerce, ela não tem ancoragem. Foi Sua reivindicação de divindade que deu aos ensinamentos de Jesus sua sanção de autoridade. Despojados dessa sanção, não tinham força vinculante sobre os homens. Como meros preceitos éticos, provaram-se totalmente insuficientes, como atesta o infeliz estado atual do mundo. ¶
A Perda da Fé em Deus Deixa a Humanidade à Deriva
Robert Gordon Sproul, reitor da Universidade da Califórnia, disse recentemente: ¶
Há grande necessidade de alguma força diretiva para reunir os poderes recuperativos da humanidade e vencer a corrida contra a catástrofe. A educação não pode fornecer tal força, por mais importante que seja, porque não são as mentes, mas as almas dos homens que precisam ser regeneradas para que a catástrofe não venha certamente a ocorrer. Os homens devem ouvir a Deus e obedecer, mas ouvem a Hitler e a Stalin, e se rebaixam. Nossa herança americana não pode perdurar por muito tempo sem uma fé religiosa firmemente alicerçada. ¶
Com Deus negado, não há a quem o homem deva reverência. Sem a reverência, o homem fica à deriva. As noções de cada um têm o mesmo status que as noções de todos os outros, e ninguém sabe no que deveria crer; o respeito pela autoridade desaparece, porque nada de autoritativo resta; a veneração pela autoridade paterna se desfaz e a reverência pela lei deixa de exigir lealdade. ¶
Todas essas consequências são claramente reveladas no curso dos acontecimentos, até mesmo em nossa própria terra. Nós, desta geração, recebemos este grande governo nosso das gerações que nos precederam, sólido em seus princípios; sua Constituição era em toda parte tida em reverência; suas leis eram obedecidas. Ninguém duvidava de sua superioridade sobre qualquer outra forma de governo na terra. Todos tinham fé inabalável em sua perpetuidade. Nós o transmitimos com essa fé terrivelmente abalada. Seu povo está dilacerado pela dissensão. Não confiam uns nos outros. Não têm certeza de que, afinal, nosso sistema de governo seja melhor do que qualquer outro. Tornaram-se céticos e duvidam se o bem pode ser encontrado em algum lugar. ¶
Ameaças Internas Pesam sobre a Liberdade
A descrença é o mal ameaçador do mundo. Entre os povos professamente cristãos, relativamente poucos poderiam ser encontrados, com toda probabilidade, que não concordassem que o ideal de vida retratado pelo Mestre é altamente desejável. Mas eles não creem verdadeiramente em Sua mensagem. Se os cristãos realmente cressem, confiariam; e se confiassem, a inveja, o ciúme, a cobiça e o ódio seriam subjugados. Sem nada dizer sobre uma guerra estrangeira, deixando isso de lado, nossas desordens internas ameaçam a perpetuação dos princípios sobre os quais a nação foi fundada. Isso se manifesta na divisão do povo em classes, mantidas separadas pela desconfiança mútua, com seu consequente cortejo de suspeitas, invejas, abusos e retaliações, que os cegam para sua inegável interdependência entre si, sua reciprocidade de interesses e sua identidade de objetivos. Nós os separamos como ricos e pobres; o trabalhador e o empregador; o operário e o capitalista, colocando cada um contra o seu oposto, como se seu bem-estar fosse inerentemente antagônico. ¶
Há uma interdependência inescapável entre todos. Quer os homens meditem à noite sobre os mistérios do universo e busquem conhecer seus segredos, quer escavem os metais das entranhas da terra, quer os transformem em aço ou os empreguem na construção do arranha-céu, da fábrica ou da casinha, quer tenham os dedos brancos e ágeis do violinista ou as mãos encardidas do mecânico, quer seus dias sejam passados no escritório de contabilidade ou sentados junto ao leito do doente e do moribundo, quer cuidem de rebanhos e manadas, ou lavrem a terra, todos tiveram de trabalhar juntos para erguer o poderoso gigante que é a América. ¶
O Poder da Persuasão
Quão estúpido, então, que sejam separados em classes beligerantes, em campos hostis! Quão tolo supor que um possa ser permanentemente beneficiado pela mutilação do outro! Quão fútil esperar que a unidade de propósito e o esforço cooperativo possam ser instituídos por legislação ou impostos por estatutos punitivos administrados com injustiça e estupidez indefensáveis. É subestimar a inteligência de todos os grupos supor que a grande maioria deles, sob orientação justa e imparcial, não pudesse ser conduzida a entendimentos pacíficos e mutuamente benéficos. Os poucos recalcitrantes poderiam logo ser efetivamente disciplinados. Os caminhos da persuasão e da autodisciplina voluntária, da humildade de espírito, do apelo aos instintos de retidão, os caminhos da paz, são infinitamente mais fecundos em resultados duradouros. ¶