Discurso na Conferência
Sylvester Q. Cannon
Sou muito grato, meus irmãos e irmãs, pela oportunidade de estar presente com vocês nesta manhã. A expressão de estadista sobre o crescimento da Igreja, sobre o progresso de todas as atividades da Igreja e sobre a fé do povo, tal como manifestada pelo Presidente Clark e por aqueles que falaram, impressionou-me e afetou-me grandemente. Aprecio o fato de que esta obra está progredindo eficazmente e que, sob a influência do Espírito Santo, o Senhor está abençoando o Seu povo e capacitando-o a realizar a obra que tem diante de si. ¶
Lamento profundamente com vocês o fato de que o Presidente Grant não pode estar presente conosco nesta manhã; contudo, alegro-me grandemente por sua saúde estar melhorando, por ele estar no caminho da recuperação, e por as bênçãos de Deus estarem com ele. ¶
Alegro-me com a missão de paz que se manifesta entre os Santos dos Últimos Dias e entre muitos outros povos, e com tudo o que foi dito a respeito dessa importante qualidade e característica. Fiquei impressionado com o testemunho e a oração do irmão George T. Hyde, implorando ao Senhor pela paz e pelo caminho para superar as condições que hoje prevalecem por todo o mundo, particularmente no Hemisfério Oriental. ¶
GUERRAS E RUMORES DE GUERRAS ¶
Os caminhos de Deus são os caminhos da paz. Contudo, apesar de Seus esforços para promover a paz na terra, ainda é um fato que, entre muitos milhões de pessoas, particularmente no Hemisfério Oriental, guerras e rumores de guerras são amplamente prevalentes. Ameaças de guerra são ouvidas quase constantemente na outra metade do mundo. Neste continente ocidental, a maior parte dos povos desfruta da paz. Somos gratos pelo fato de que, ao menos por um período, o Hemisfério Ocidental não se envolveu, em grande medida, em toda essa turbulência, que sabemos não levar a lugar nenhum de bom. ¶
Há aqueles que, tanto aqui em nossa terra quanto particularmente no exterior, gostariam de ver esta grande nação envolvida nessas lutas do estrangeiro. Até agora, felizmente, a maioria do povo dos Estados Unidos, e, em medida bastante considerável, o povo de outras nações ocidentais, tem conseguido manter a cabeça no lugar e o bom senso, e seguir os sábios e antigos conselhos do Pai de nossa pátria, de ¶
evitar alianças que nos enredem com as nações estrangeiras do velho mundo, e de não nos aliarmos para a guerra com nenhum desses países. ¶
Os Santos dos Últimos Dias creem firmemente na paz. Consideramos que as guerras são, em grande parte, tolas e desnecessárias, e que as atuais condições de guerra são inteiramente sem justificativa ou necessidade. Com o grau atual de inteligência entre os homens, se aqueles envolvidos na contenda estivessem livres do egoísmo, da ganância e da ambição, a paz prevaleceria. O Príncipe da Paz veio à terra em Sua vida mortal há quase dois mil anos, mas, devido ao ódio e aos preconceitos entre os homens, Ele não conseguiu realizar plenamente Seus desejos pacíficos e, como Ele próprio declarou, Ele "não veio trazer a paz, mas a espada" (Mateus 10:34). Durante os vinte séculos que se passaram desde a Sua vinda, tem havido guerras e rumores de guerras amplamente prevalentes. Quando Seu ministério mortal estava para se concluir, Ele disse a Seus discípulos: ¶
Tenho-vos dito essas coisas para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflição. ¶
CITAÇÃO DE UM PENSADOR BRITÂNICO ¶
Recentemente, notei um artigo na Contemporary Review, escrito por um eminente eclesiástico britânico a respeito das atuais condições de guerra, discutindo a questão da paz universal. A declaração intitula-se "Governando e Sobregovernando". Cito alguns breves trechos dela, como segue: ¶
A guerra levanta novamente o grave problema da relação de Deus com o mundo e de Suas atividades nos assuntos dos homens. Muitos perguntam — Por que não interveio Deus para evitar essa terrível calamidade, para poupar a humanidade dessa provação tremenda? Está Deus inativo em Seu universo, e sua própria existência é problemática? Se não, qual é o método pelo qual Sua soberania se expressa, e qual é o fim que ela busca alcançar? Certamente a paz, em seu significado essencial, exige catolicidade, a comunidade universal da humanidade, e a comunhão de uma verdadeira fraternidade humana. A estrutura da sociedade humana no presente é suficientemente forte e justa para erguer e sustentar esse edifício ponderoso e glorioso? Evidentemente, não. Não deveria, portanto, a guerra ser considerada, em parte, como o juízo Divino sobre nós? Se assim for, a misericórdia está em seu cerne." ¶
O ARBÍTRIO CONCEDIDO AOS HOMENS ¶
Conforme indicado pelo autor deste artigo, muitas pessoas levantam a questão de por que Deus não interveio para evitar a grande calamidade que se abateu sobre a terra e para poupar a humanidade dessa provação tremenda. A meu ver, as perguntas feitas e as questões levantadas não se harmonizam com os princípios fundamentais sob os quais o Todo-Poderoso opera, e pelos quais Ele realiza Seus propósitos. Os homens e mulheres que habitam esta terra gozam, por natureza, do direito do arbítrio, ou o direito de escolha, em suas ações. Embora Deus deseje sinceramente e se esforce para que Seus propósitos sejam aceitos pela humanidade, Ele não empregará meios compulsórios para realizar Seus desígnios. Como o Senhor declarou a Caim, quando este se irou contra seu irmão Abel: ¶
Se bem fizeres, serás aceito. E se bem não fizeres, o pecado jaz a tua porta e Satanás deseja possuir-te. (Escritos de Moisés.) ¶
Embora muitos homens, sob a influência da justiça e da retidão, sejam conduzidos rumo à paz e à boa vontade, aqueles influenciados pelo egoísmo e pela ambição pessoal agirão de modo contrário. O Profeta Néfi declara: ¶
Portanto, os homens são livres segundo a carne; e todas as coisas de que necessitam lhes são dadas. E são livres para escolher a liberdade e a vida eterna por meio do grande Mediador de todos os homens, ou para escolherem o cativeiro e a morte, de acordo com o cativeiro e o poder do diabo; pois ele procura tornar todos os homens tão miseráveis como ele próprio. (II Néfi 2:27.) ¶
Todo indivíduo tem o direito de escolha. E assim como todos têm o direito do arbítrio, também todos serão responsabilizados por suas escolhas. Pois todos têm a inteligência e devem prestar contas de seus atos. Isso é claramente retratado em Pérola de Grande Valor, Escritos de Moisés, Capítulo 4, Versículos 1 a 4, como segue: ¶
Aquele Satanás a quem tu deste ordem em nome de meu Unigênito é o mesmo que existiu desde o princípio; e ele apresentou-se perante mim, dizendo: Eis-me aqui, envia-me; serei teu filho e redimirei a humanidade toda, de modo que nenhuma alma se perca; e sem dúvida eu o farei; portanto, dá-me a tua honra. ¶
Mas eis que meu Filho Amado, que foi meu Amado e meu Escolhido desde o princípio, disse-me: Pai, faça-se a tua vontade e seja tua a glória para sempre. ¶
Portanto, por ter Satanás se rebelado contra mim e procurado destruir o arbítrio do homem, o qual eu, o Senhor Deus, lhe dera; e também por querer que eu lhe desse meu próprio poder, fiz com que ele fosse expulso pelo poder do meu Unigênito; ¶
E ele tornou-se Satanás, sim, o próprio diabo, o pai de todas as mentiras, para enganar e cegar os homens e levá-los cativos segundo a sua vontade, sim, todos os que não derem ouvidos à minha voz. ¶
Essas declarações deixam claro que, por causa do domínio dos homens em provocar a guerra, o Senhor não interveio, muito embora Ele tenha buscado firmemente conquistar a humanidade para a paz, a união e a retidão. Como já foi dito, devido ao arbítrio da humanidade para fazer suas escolhas quanto aos seus modos de vida, ela necessariamente terá de prestar contas de seus atos nesta vida. Como foi revelado ao Apóstolo João (Apocalipse 20:12) a respeito da responsabilidade de toda a humanidade por seus atos: ¶
E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus; e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. ¶
A ALEGRIA VEM DE SERVIR A DEUS ¶
A relação de Deus com o mundo, e Seu interesse nos assuntos dos homens, é grandemente incompreendida por muitos povos das várias nações. Concluem, ao que parece, que Ele é movido por atitudes arbitrárias ¶
ou ditatoriais, em vez de ser a encarnação da justiça e da retidão, do amor e da misericórdia, particularmente para com aqueles que buscam conhecer e se esforçam por fazer Sua vontade. Ele é amor. Ele deseja grandemente o progresso e a felicidade da humanidade. Ele sabe que a maior paz e alegria vêm aos homens que buscam harmonizar seus desejos com a Sua vontade: "Os homens são para que tenham alegria", e a alegria vem àqueles que se empenham em guardar Seus mandamentos. Mas, se a humanidade escolher seguir a influência do adversário, ser guiada por líderes dominadores ou ditatoriais, com os resultados destrutivos que os acompanham, terá de arcar com as infelizes consequências. ¶
A SOBERANIA DE DEUS ¶
A pergunta — "Está Deus inativo em Seu universo, e sua própria existência é problemática? Se não, qual é o método pelo qual Sua soberania se expressa, e qual é o fim que ela busca alcançar?" — indica uma falta de fé e de compreensão a respeito das grandes personagens que constituem o poder governante e supremo sem igual sobre todas as coisas, por quem todas as coisas foram criadas, sejam visíveis ou invisíveis, seja no céu, na terra, sob a terra, ou por toda a imensidão do espaço. A obra e a glória de Deus é levar a efeito a imortalidade e a vida eterna do homem. A respeito do método pelo qual Sua soberania se expressa e do fim que ela busca alcançar, o Senhor revelou o seguinte: ¶
Escutai, ó povo, e abri o coração e de longe ouvi; e escutai, vós que vos chamais povo do Senhor; e ouvi a palavra do Senhor e a sua vontade a respeito de vós. ¶
Sim, em verdade digo: Ouvi a palavra daquele cuja ira está acesa contra os iníquos e os rebeldes; ¶
O qual toma a quem deseja tomar e preserva a vida daqueles que deseja preservar; ¶
Que constrói conforme seu desejo e prazer; e destrói quando lhe apraz; e pode lançar a alma ao inferno. ¶
Eis que eu, o Senhor, faço ouvir a minha voz, e ela será obedecida. ¶
Portanto, em verdade eu digo: Que os iníquos prestem atenção e que os rebeldes temam e estremeçam; que os incrédulos fechem os lábios, pois o dia da ira cairá sobre eles como um furacão, e toda carne saberá que eu sou Deus. ¶
A soberania de Deus, tal como expressa aqui, está em perfeita harmonia com tudo o que Deus revelou nas Escrituras sobre este assunto. ¶
Nas revelações do Apóstolo João (Apocalipse 4:11), os Anciãos, representando a Igreja, declaram: ¶
Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas. ¶
A soberania de Deus é absoluta, mas a exaltação e a felicidade de Seus filhos são a Sua glória. Seu absolutismo é o de um Pai amoroso que não conhece maior felicidade do que a promoção do bem-estar de Sua família. Como a soberania em Deus pode ser exercida sobre agentes livres talvez seja difícil de explicar, mas render obediência plena não ¶
interfere com o arbítrio. Não há inconsistência na doutrina da soberania de Deus e da liberdade dos homens. ¶
O EVANGELHO TRAZ A PAZ ¶
A paz na terra depende da harmonização dos corações dos homens e do cultivo da boa vontade, da justiça e da retidão. Envolve a superação do egoísmo, da injustiça e da desconfiança entre a humanidade. Tem havido muitos fracassos por todo o mundo nos esforços para manter a paz. Contudo, o esforço para o aumento da boa vontade e da bondade vale tanto a pena e é de tamanha importância para o bem-estar da raça humana que justifica esforço contínuo em toda direção. É especialmente incumbência dos Santos dos Últimos Dias, que são discípulos do Príncipe da Paz e buscam viver em harmonia com Seu Evangelho estabelecido, o qual é o caminho para a paz. O Senhor revelou novamente, nestes últimos dias, a incumbência a Seus seguidores de — "Renunciar à guerra e proclamar a paz". De se empenhar de todo modo apropriado, por exemplo e influência, em promover a paz em toda parte, para que o caminho possa ser preparado a fim de que "as nações não levantarão a espada contra as nações", mas que se preparem para a vinda do reino do Senhor, para que a paz e a boa vontade para com os homens prevaleçam em toda parte. Isso, confiamos, há de finalmente acontecer. ¶
Rogo ao nosso Pai Celestial que Suas bênçãos acompanhem a todos nós em todas as nossas ações, para que nos esforcemos constantemente por viver o Evangelho do Senhor Jesus Cristo, pois esse é o caminho para a paz e a prosperidade, e peço isso em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém. ¶