Discurso na Conferência
Albert E. Bowen
Quero falar-lhes hoje sobre a vida abundante. A expressão pertence aos ditos de Jesus. Eu o cito. ¶
AS PALAVRAS DO SALVADOR ¶
Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pasto. ¶
O ladrão não vem senão para roubar, para matar, e para destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância. (João 10:9-10.) ¶
O SIGNIFICADO ALTERADO ¶
Essa bela frase, cunhada e empregada pelo Mestre, foi em tempos recentes tão violentamente arrancada do nobre contexto em que Ele a colocou, e feita assumir um significado tão amplamente diverso daquele que Ele lhe deu que, tendo em vista seu sentido original, hoje se hesita até em usá-la. ¶
Sem, creio eu, o reconhecimento costumeiro de sua origem, ela foi arrastada de seu elevado plano espiritual para o nível ordinário do materialismo cotidiano. Mais frequentemente do que não, hoje em dia "a vida abundante" é feita sinônimo de um estômago cheio, ou de uma casa modernizada, ou de vestuário cobiçado, ou de um automóvel de modelo novo. E essas simples coisas são exibidas como se constituíssem o objetivo do desejo último, o que é sintomático das medidas de valor da atualidade. ¶
UMA INTERPRETAÇÃO SUPERIOR ¶
Mas está abundantemente claro que isso não era, de modo algum, o que estava na mente de Jesus quando Ele usou a expressão. Ela segue imediatamente à Sua declaração de que era por meio dEle que o homem seria salvo. Salvação significava para Ele algo muito diferente do mero conforto físico, ou até mesmo da preservação do corpo mortal, ou da gratificação dos sentidos físicos, ou da invenção de novas emoções para nos aliviar dos tédios artificialmente criados. ¶
Ele sempre esteve preocupado com valores espirituais eternos, nunca com simples coisas, como Seus ditos tão plenamente demonstram. Quando Ele falava sobre a vida, sempre abarcava em Seu sentido algo muito além do poder satisfatório das simples coisas. ¶
A PARÁBOLA DO HOMEM RICO ¶
Tomemos um exemplo: ¶
E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância dos bens que possui. ¶
E propôs-lhes uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; ¶
E arrazoava ele consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. ¶
E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todo o meu produto e os meus bens; ¶
E direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, e alegra-te. ¶
Porém Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado para quem será? ¶
Assim é o que para si ajunta tesouros, e não é rico para com ¶
Deus. ¶
E disse aos seus discípulos: Portanto, vos digo: Não estejais ansiosos pela vossa vida, com o que comereis, nem pelo corpo, com o que vestireis. ¶
Mais é a vida do que o sustento, e o corpo, mais do que o vestuário. (Lucas 12:15-23.) ¶
Aí está isso cristalino. "A vida de qualquer não consiste na abundância dos bens que possui." E "A vida é mais do que o sustento, e o corpo, mais do que o vestuário." ¶
O CUIDADO DO CORPO É ESSENCIAL ¶
Ora, não gostaria que vocês supusessem que estou tentando dizer que suas necessidades físicas podem ser ignoradas ou até mesmo negligenciadas. O corpo é o instrumento físico por meio do qual trabalhamos neste mundo físico. Ele requer alimento físico e abrigo material para se perpetuar em existência. Sua perpetuação é essencial para a realização dos propósitos desta vida terrena. ¶
Dentro de certos limites, atender às necessidades do corpo físico é essencial para o bem-sucedido progresso espiritual e mental do homem mortal. Isso sempre reconhecemos. Mas quando nós, com o único propósito de ¶
acumular para nós mesmos uma multiplicação de coisas com as quais aumentar nosso poder individual, egoisticamente tentamos reunir tudo para nós mesmos, à exclusão de nossos semelhantes, então estamos perdendo o senso de proporção e exaltando os elementos incidentais da vida acima da essência da própria vida. ¶
Talvez entre o material e o espiritual, devidamente coordenados, não haja linha nítida de separação, mas o material deve sempre ser servo do espiritual, seu soberano legítimo. ¶
O ENSINAMENTO PRÁTICO DO PRESIDENTE YOUNG ¶
O Presidente Brigham Young nos deu um ensinamento sensato a esse respeito. Disse ele: ¶
Nossa pregação a vocês de sábado a sábado, o envio do Evangelho às nações, o ajuntamento do povo, a abertura de fazendas, a realização de melhorias necessárias e a construção de cidades — tudo isso pertence à salvação. O Evangelho é planejado para reunir um povo que seja de um só coração e de uma só mente. Que cada indivíduo nesta cidade sinta o mesmo interesse pelo bem público que sente pelo seu próprio, e vocês verão de imediato esta comunidade ainda mais próspera, e crescendo ainda mais rapidamente em riqueza, influência e poder. Mas onde cada um busca beneficiar apenas a si mesmo, e não nutre um sentimento pela prosperidade e pelo bem-estar do conjunto, esse povo será desordenado, infeliz e empobrecido, e o sofrimento, a animosidade e a contenda reinarão. ¶
Esforços para acumular propriedade pelo canal correto estão longe de ser um prejuízo para qualquer comunidade; pelo contrário, eles são altamente benéficos, contanto que os indivíduos, com tudo o que têm, mantenham-se sempre prontos a promover os interesses do Reino de Deus na terra. Que todo homem e toda mulher sejam diligentes, prudentes e econômicos em seus atos e sentimentos, e que, ao reunirem para si, cada um se esforce por identificar seus interesses com os interesses desta comunidade e os de seu próximo e vizinhança; que busquem sua felicidade e bem-estar no bem-estar de todos, e seremos abençoados e prosperados. (Journal of Discourses, Vol. 3, página 330.) ¶
O PROPÓSITO ÚLTIMO DA VIDA ¶
A mortalidade não é o destino último do homem. As coisas essenciais à vida mortal estão na vida e são da vida, mas não são a vida em si; são meros elementos incidentais. A própria vida tem outro propósito além de alimentar, vestir e abrigar o corpo. É a realização desse propósito que preocupava Jesus. Nisso se há de encontrar a vida abundante. ¶
Ao jovem rico que indagava, Ele disse: "Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos." (Mateus 19:17) ¶
Isso parece dizer que seres humanos móveis, animados, sencientes, por mais bem alimentados, vestidos ou abrigados, ou entretidos ou divertidos que sejam, não viram sequer a vida, nem a provaram, nem nela entraram, a menos que tenham chegado a uma compreensão racional de seu propósito último. Ampliando Sua resposta concisa ao jovem, Jesus disse: ¶
Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não dirás falso testemunho. ¶
Honra teu pai e tua mãe: e amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Mateus 19:18-19.) ¶
Vocês notarão que aqui, de novo, a trama da vida que Ele tinha em mente consiste naquelas qualidades da alma que, quando entretecidas na urdidura de um homem, o elevam muito acima do nível do materialismo grosseiro, para a atmosfera rarefeita do espírito. ¶
Jesus estava preocupado em preparar os homens para viver a lei espiritual e capacitá-los para a vida em Seu reino, onde essa lei há de reinar. Ali está a morada daqueles que atingem a plenitude da vida abundante. Para esse fim, o peso de Seu ensinamento era que os homens deveriam guardar os mandamentos. Ele passou boa parte de Seu tempo treinando discípulos para dar continuidade ao ensino depois que Ele próprio se fosse. Ordenou-lhes que saíssem e ensinassem todos os homens em toda parte. Essa foi a comissão. A promessa era que os que cressem seriam salvos. Não há promessa a nenhum outro. ¶
A NECESSIDADE DE ACEITAR OS ENSINAMENTOS DO EVANGELHO ¶
É verdade que certas coisas deviam ser feitas por aqueles que criam. Mas Ele sabia que a crença deveria preceder a prática delas. Sabia também que elas certamente decorreriam de uma crença sincera; daí a importância preeminente da crença. É a necessidade premente do mundo hoje. Se os homens apenas cressem e traduzissem sua crença em práticas de vida, quão diferente lugar para se viver seria esta terra. ¶
Os mandamentos emanaram do próprio Jesus. Antes que se pudesse esperar que os homens os aceitassem, teriam que aceitá-lO. Assim, Ele se tornou a figura central em torno da qual giravam todos os ensinamentos. ¶
À multidão que se aglomerava em torno dEle no dia seguinte a tê-la alimentado, Ele disse: ¶
Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes. ¶
Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará. (João 6:26-27.) ¶
Eles Lhe lembraram que seus pais no deserto foram alimentados com maná do céu, e Lhe exigiram que Ele lhes mostrasse Suas obras, para que cressem. Ele, por sua vez, lembrou-lhes que seus pais que tinham comido maná no deserto estavam todos mortos. Então Ele disse: ¶
Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna. ¶
Eu sou o pão da vida. (João 6:47-48.) ¶
Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. (João 6:50.) ¶
Desde aquele tempo — diz o registro, pateticamente — muitos de Seus discípulos voltaram atrás e já não andavam com Ele. ¶
Se examinarem o registro, verão que em nenhum momento Ele fez qualquer promessa de conforto, ou de comodidade, ou de liberdade da aflição ou da tristeza ou do sofrimento, ou de isenção da privação, da necessidade ou do sacrifício. Nenhuma dessas coisas era elemento da vida abundante. Todas elas Ele mesmo suportou. ¶
O TENTADOR VENCIDO ¶
Preparando-se para iniciar Seu ministério, Ele foi sozinho para o deserto. Quando estava enfraquecido por longas vigílias e jejum, o tentador O instou, em prova de Sua filiação, a ordenar que as pedras se transformassem em pão, para que Sua fome fosse saciada. Resistindo a isso, foi-Lhe mostrado, do alto de um monte elevado, todos os reinos do mundo, os quais, com toda a sua glória, Lhe foram oferecidos se Ele apenas Se prostrasse em adoração ao Tentador. Elevando-Se a alturas condizentes com a majestade do Filho de Deus, Ele proferiu o rigoroso mandamento: "Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás." (Mateus 4:10.) Ao mesmo tempo, proclamou aquela outra verdade profunda: "Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus." (Mateus 4:4.) Ele poderia ter saciado Sua fome, e aceitado o domínio dos reinos do mundo e a sua glória, e escapado do Gólgota. Sua recusa levou diretamente àquela dolorosa colina e ao aparente fim de tudo. Mas o Gólgota, e não o pão, ou o domínio, ou a glória, foi o caminho da vida abundante. Isso O trouxe rapidamente até a alvorada daquela manhã triunfante, ao fim do sábado, no primeiro dia da semana, quando Maria Madalena e a outra Maria chegaram ao sepulcro e foram saudadas pelo anjo que, sentado sobre a pedra à porta, disse: ¶
Vós não tenhais medo; pois eu sei que buscais Jesus, que foi crucificado. ¶
Não está aqui, porque já ressuscitou, como tinha dito. Vinde, vede o lugar onde o Senhor jazia. ¶
E ide imediatamente, e dizei aos seus discípulos que já ressuscitou dos mortos; e eis que ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis. (Mateus 28:5-7.) ¶
Assim veio o grande feito coroador de Sua vida. ¶
Vocês terão observado que não estou apresentando nenhum argumento a favor da autenticidade das palavras de Jesus, nem dos registros que as preservam. Eu as aceito, o que é o que todo cristão crente deve fazer. Argumentos muito persuasivos poderiam ser e foram feitos, mas nem os limites do tempo, nem a natureza da ocasião, os admitem aqui. Aceitamos Jesus como o Filho de Deus, o Autor de nosso ser e nosso Salvador último. ¶
A VIDA ETERNA, A MAIOR RECOMPENSA ¶
A essa fé nos apegamos porque ela diz respeito à própria vida, que é a posse mais preciosa do homem — a coisa que ele preza acima de tudo o mais. Por mais coisas que um homem tenha reunido a seu redor, normalmente daria todas elas quando a vida estivesse ameaçada, se em troca pudesse obter uma extensão dela. A vida, ele logo passa a perceber, é tudo o que existe dele. Sem ela, ele é apenas um punhado de barro, e todas essas outras coisas são sem sentido e inúteis. Em verdade, projetá-la além do túmulo, assegurar-lhe ali uma duração sem fim — a vida eterna — é o maior dom de Deus ao homem. ¶
A alternativa é o esquecimento. O afundar, com a morte, no nada — o fim. A extinção. A separação irremediável de todas as ternas ¶
associações de uma vida inteira. O corte abrupto e o encerramento irreversível, no que diz respeito ao indivíduo, de toda a fina inteligência e das aquisições de conhecimento nascidas de uma vida inteira de indústria, labuta, luta, anseio e esforço da alma. O sufocamento, na escuridão negra de uma noite sem fim, de todas as esperanças e aspirações que guiaram o homem em sua luta ascendente a planos mais elevados. O murchar, sob o flagelo da morte, das qualidades de bondade, mansidão, paciência, misericórdia, ternura e amor que cresceram e floresceram nele por meio da prática dessas virtudes em associação com seus semelhantes. ¶
Ninguém, suponho, gosta de contemplar para si mesmo uma saída da vida tão pouco convidativa, tão pouco inspiradora e tão desperdiçadora. Antes, voltamo-nos à brilhante esperança que nos é oferecida na promessa de Jesus: ¶
Na verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou pais, ou irmãos, ou mulher, ou filhos, pelo reino de Deus, e não haja de receber muito mais neste tempo, e no mundo vindouro, a vida eterna. (Lucas 18:29-30.) ¶
No caminho para essa meta está a vida abundante. Rogo a Deus que todos nós a alcancemos, em nome de Jesus. Amém. ¶