A Inteligência, a Principal Investidura do Homem
Stephen L Richards
Desejo falar de uma nova interpretação do Evangelho de Cristo. A ocasião permitirá apenas um esboço, mas faço a tentativa na esperança de que os nossos amigos que ouvem, e alguns dos nossos membros, cheguem a uma compreensão mais clara das características distintivas de nossa mensagem e de nossa obra. Uso a palavra "nova" interpretação, em vez de "verdadeira", por razões diplomáticas. "Novo" pressupõe "antigo", e, embora a maioria das pessoas prefira ser moderna a antiquada, geralmente não se causa nenhuma ofensa séria ao situar um homem em uma antiga escola de pensamento. Já "verdadeiro" pressupõe o "falso", e todos se ressentem de uma imputação contra a veracidade de suas ideias. Faço essa admissão com franqueza porque não tenho desejo de debate. Apenas quero explicar. ¶
A Inteligência, a Principal Investidura do Homem
Apresento, como o primeiro aspecto desta nova interpretação, a doutrina da predominância da inteligência. Creio estar certo ao afirmar que, em toda a literatura cristã anterior ao advento de nossa Igreja, não se encontravam conceitos como estes, a respeito da origem, da função e do lugar da inteligência no universo, tais como os que vêm de nossa escritura moderna. Eis alguns trechos: ¶
A inteligência, ou seja, a luz da verdade, não foi criada nem feita nem verdadeiramente pode sê-lo. ¶
Toda verdade é independente para agir por si mesma na esfera em que Deus a colocou, como também toda inteligência; caso contrário, não há existência. (Doutrina e Convênios 93:29, 30.) ¶
A glória de Deus é inteligência ou, em outras palavras, luz e verdade. ¶
A luz e a verdade rejeitam o ser maligno. (Doutrina e Convênios 93:36, 37.) ¶
Qualquer princípio de inteligência que alcançarmos nesta vida surgirá conosco na ressurreição. ¶
E se nesta vida uma pessoa, por sua diligência e obediência, adquirir mais conhecimento e inteligência do que outra, ela terá tanto mais vantagem no mundo futuro. (Doutrina e Convênios 130:18, 19.) ¶
Ora, visto que a inteligência é coeterna com Deus e é a própria glória de Deus, segue-se logicamente que ela é a principal investidura do homem. De fato, ela é o homem, pois é aquela parte de sua constituição que persiste, que é eterna. Este princípio cognoscente, concebedor e iluminador da existência está na base de todos os nossos poderes e potencialidades. Sem ele não haveria virtude nem pecado. Somente ele confere ao homem o seu livre-arbítrio, o poder de escolher, de querer e de agir, consciente dos efeitos de suas decisões e de seus atos. Ele explica o lugar do bem e do mal no mundo e justifica sua existência — um problema filosófico que desafiou as mentes e o pensamento dos grandes eruditos, de todos os tempos. ¶
Esta concepção da inteligência justifica a busca eterna pelo conhecimento, e faz mais do que isso. Ela explica a necessidade de adquirir conhecimento, pois torna o conhecimento essencial ao progresso, e o progresso, em última análise, é a salvação. Ela impõe uma penalidade terrível à ignorância. Estabelece uma doutrina evangélica nova e muito definida: "É impossível ao homem ser salvo em ignorância." (Doutrina e Convênios 131:6.) ¶
O Verdadeiro Conhecimento e a Inteligência São Recompensados
O mundo em geral, e o mundo moderno em particular, com sua ciência, seu escolasticismo e sua tecnologia, tem tendido a desprezar e difamar a religião e a igreja por um suposto atraso e retardo nos processos intelectuais e na aquisição de conhecimento. Qualquer que tenha sido a justificativa, em tempos passados, para tal imputação, apresento agora uma interpretação do Evangelho que refuta completamente essas alegações e inferências depreciativas do mundo secular. O Evangelho de Cristo oferece, na busca do conhecimento e no desenvolvimento da inteligência, um estímulo e uma recompensa que transcendem, em seu apelo e em sua promessa, tudo o que os estudiosos e filósofos já elaboraram. ¶
Mas o conhecimento e a inteligência que ele recompensa devem ser verdadeiros. "Luz e verdade" são as palavras da revelação. Ele não dá nenhum valor à aquisição da falsidade e do erro. Distingue muito claramente entre sofisticação e verdadeira inteligência. Certa vez, um homem disse, ao distinguir a inteligência da educação, que a inteligência é aquilo que capacita alguém a enfrentar sabiamente as situações da vida sem educação; ao passo que a educação é aquilo que ajuda alguém a enfrentar as situações da vida sem inteligência. ¶
Esta afirmação pode dar a entender que a inteligência é, em grande parte, herdada. O Evangelho nos ensina que sim — que ela veio como dotação nativa da raça, mas que a eficácia dessa dotação tem sido, em muitos casos, grandemente mitigada pela perversão da raça. É encorajador e gratificante, porém, ter a certeza de que nenhum homem jamais perdeu por completo este atributo vital e da mais alta importância. Há inteligência suficiente em todo homem para adquirir conhecimento e verdade, se ele optar por fazê-lo. É um fato significativo, demonstrado pela mais extensa pesquisa e investigação, que não há povo na terra, por mais primitivo que seja, que não tenha inteligência suficiente para apreender e reter uma concepção de Deus como Ser Supremo. ¶
A Inteligência, uma Essência Divina
Como exercer a inteligência que possuímos para a obtenção e a utilização do conhecimento é uma questão vital na interpretação e na aplicação do Evangelho, mas é uma que devo abordar apenas brevemente. O Evangelho atribui o mais alto valor àquela inteligência e àquele conhecimento que mais contribuem para o bem-estar duradouro do homem. "Conhecimento puro" é como é chamado na revelação (Doutrina e Convênios 121:42), que define os atributos e as funções do santo Sacerdócio. Este conhecimento puro, sem o qual o Sacerdócio não pode ser devidamente administrado, contempla uma compreensão do plano divino de redenção e dos princípios e leis que pertencem ao reino celestial de nosso Pai. Em todo o saber do mundo, não há nada de maior importância para a mente do homem compreender do que os princípios e verdades eternos pertencentes à exaltação na presença de Deus. E não há ordem mais elevada de inteligência do que aquela que capacita o homem a perceber essas gloriosas verdades. ¶
Visto que a inteligência é uma essência divina, ela só pode funcionar adequadamente quando reconhecida como divina. Nesse reconhecimento, a fé é indispensável. A fé e o conhecimento constituem o testemunho e trazem aquela convicção que se resume na declaração de que "conhecer-te é a vida eterna." Assim, pergunto: onde está a filosofia ou a escola de pensamento que estima mais altamente e atribui atributos mais nobres à mente e à inteligência do homem do que este conceito exaltado, exposto nesta nova interpretação do Evangelho de Cristo? ¶
A Família de Deus
Proponho, como a próxima grande fase desta nova interpretação, uma concepção singular e distintiva da família de Deus. Deus, a Inteligência Suprema, é o Criador e o verdadeiro Pai de seus filhos, as inteligências menores, mas potencialmente divinas, que compõem sua família e povoam o seu reino. Como um pai bondoso, ele deseja e planeja o bem-estar e a felicidade eternos de sua prole. Na revelação moderna, o seu propósito é esclarecido como nunca antes em qualquer escritura registrada. É a glória de Deus "levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem." (Pérola de Grande Valor — Moisés 1:39.) E "os homens existem para que tenham alegria." (Livro de Mórmon — II Néfi 2:25.) Estas são as sublimes declarações reveladas nos últimos dias, banindo para sempre toda dúvida e especulação incerta quanto ao lugar e ao propósito do homem no universo. ¶
Em que consiste a alegria do homem? Há duas coisas: primeira, um progresso eterno em inteligência, conhecimento e poder, que conduz à perfeição, assim como Cristo é perfeito; e, segunda, a companhia de Deus, em sua presença e na presença de seu Filho. ¶
Novo Conceito do Céu
Esta declaração do propósito de nosso ser, juntamente com revelações adicionais, traz um novo conceito do céu. Pela perfeição de nossa vida, alcançamos a alegria e entramos na presença de Deus. Onde ele está? Ele está em seu próprio reino. Existem outros reinos? Sim. E, nesse conhecimento revelado, aprendemos a verdade sobre o céu. Há outros reinos mencionados, mas não plenamente explicados, por São Paulo, e também indicados nas "muitas moradas da casa de meu Pai," mencionadas pelo Salvador. ¶
Essas escrituras foram plenamente ampliadas pela nova interpretação. Reinos da eternidade foram definidos. As leis que regem os vários reinos foram expostas, e os requisitos de entrada foram estipulados. Há lugares e condições preferenciais no porvir, assim como há aqui. O mais elevado e mais desejável é o reino celestial de nosso Pai. Naquele reino, e somente ali, as inteligências alcançam seu mais alto estado de perfeição. Somente ali temos a certeza da reunião das famílias e da perpetuação do relacionamento familiar e do incremento eterno. Naquele reino, o homem pode, em última análise, tornar-se divino. ¶
Na misericórdia de Deus, outros reinos menores proveem uma justa compensação na vida dos homens. Mas os reinos menores são ofuscados pelo celestial, assim como o sol, em seu brilho e glória, transcende a lua e as estrelas. ¶
Os homens alcançam esses vários reinos pela escolha e pelo trabalho de sua vida. Não conhecemos todas as condições prévias para a entrada nos reinos menores, mas o que é necessário para se chegar à glória celestial foi definitivamente revelado. Os princípios e as ordenanças do Evangelho de Cristo são as leis daquele reino. Fé, arrependimento, batismo, a imposição de mãos para a concessão do Espírito Santo, ordenação ao Sacerdócio — todos são requisitos essenciais. Por quê? Porque Deus os estipulou, e também porque estão em consonância com o espírito, o propósito e a glória do reino. ¶
É necessário ser batizado para ir ao céu? Isso depende do lugar do céu a que se aspira. Não temos conhecimento de que isso seja necessário para os reinos menores, mas sabemos, por revelação, que é absolutamente essencial para o céu do reino celestial de Deus. As escrituras nos dão a entender que, por meio da expiação geral do Salvador, toda a humanidade será ressuscitada da sepultura e virá a uma vida no porvir, mas sabemos que a própria expiação não é suficiente para nos colocar no reino celestial, sentido em que distinguimos entre a salvação geral da família humana, realizada pelo Redentor do mundo, e a exaltação do indivíduo, alcançada por suas próprias obras e fidelidade, mediante a mediação de Cristo. ¶
A Missão da Igreja pelos Vivos e pelos Mortos
Deste conceito sublime e claramente definido do céu deriva a missão da Igreja, que é: primeira, disseminar o conhecimento do reino celestial; e, segunda, ajudar a aperfeiçoar a vida dos homens para que possam entrar naquele reino. ¶
Esta missão da Igreja, por meio da justiça revelada de Deus, estende-se não apenas a todos os vivos, mas também aos mortos. Não está previsto que o acidente da morte deva restringir o livre-arbítrio do homem de escolher e alcançar o seu destino final. Como, porém, faz parte do plano que certas cerimônias e ordenanças, requisitos para a entrada no reino celestial, sejam realizadas na mortalidade, foi feita uma provisão misericordiosa pela qual os vivos podem realizar vicariamente essas ordenanças pelos mortos. Daí a nossa extensa obra de templo, na qual todas as condições essenciais para a entrada no reino celestial são cumpridas tanto pelos vivos quanto pelos mortos. ¶
Penso que, de todo serviço cristão, o trabalho vicário pelos mortos é o mais semelhante ao de Cristo. Frequentemente envolve grande sacrifício. O beneficiário não está aqui, nem sequer para agradecer. É verdadeira benevolência. ¶
A Natureza e a Necessidade do Sacerdócio
Como item final nesta nova interpretação do Evangelho, apresento agora a doutrina do santo Sacerdócio. O conhecimento de Deus, de sua família e de seu reino, e também a razão, nos asseguram que não podemos realizar a sua obra nem cumprir os seus propósitos sem uma delegação de seu poder. O Sacerdócio é a sua comissão aos homens. Ele detém as chaves de seu reino. Os portões não se abrirão sem essas chaves. ¶
O Sacerdócio não é necessário apenas para o reino do porvir, mas também é essencial para aperfeiçoar a vida do povo. Esta investidura de poder divino no homem é uma dádiva para quem a possui, e uma bênção inestimável para os outros. Chamo-a de o plano perfeito de serviço, porque realiza para o homem as coisas mais vitais e importantes que podem entrar em sua vida. Ela o introduz no rebanho de Cristo. Une-o em um pacto eterno de casamento. Estabelece o vínculo duradouro no qual seus filhos nascem. Conduz-o à glória celestial, a bênção de sua vida. ¶
A natureza deste poder divino é exposta em algumas das mais belas linguagens de toda a escritura. Não tenho tempo para repeti-la toda. Aqui está apenas uma amostra: ¶
Nenhum poder ou influência pode ou deve ser mantido em virtude do sacerdócio, a não ser com persuasão, com longanimidade, com brandura e mansidão e com amor não fingido; ¶
Com bondade e conhecimento puro, que grandemente expandirão a alma, sem hipocrisia e sem dolo — ¶
Repreendendo prontamente com firmeza, quando movido pelo Espírito Santo; e depois, mostrando então um amor maior por aquele que repreendeste, para que ele não te julgue seu inimigo; ¶
Para que ele saiba que tua fidelidade é mais forte que os laços da morte. (Doutrina e Convênios 121:41-44.) ¶
O Poder Divino Existe na Terra Hoje
Temos certeza de que este poder divino existe na terra hoje? Temos. Possuímos evidência incontroversa de sua origem e validade. Sua origem não está perdida na obscura antiguidade do passado. Chegou até nós em tempo relativamente recente — dentro da memória de nossos pais. Ministros angélicos, em pessoa, o conferiram e entregaram as chaves. O testemunho inequívoco das testemunhas está registrado e disponível. E a autenticidade e a genuinidade do poder são atestadas não apenas por testemunhas idôneas, mas também, igualmente, ou até mais importante, pela virtude e eficácia do próprio poder. ¶
Nossa história está repleta de exemplos e circunstâncias que indicam a vitalidade e a força desta preciosa dotação. De modo que centenas de milhares de homens e mulheres honestos têm a convicção positiva da restauração do poder de Deus na terra e do estabelecimento de sua Igreja fundada sobre esse poder. ¶
Esta, então, em resumo, é a nova interpretação e a nova restauração do puro Evangelho de Jesus Cristo. Chamo-a de nova, embora tenha vindo há um século, e embora centenas de milhares a tenham aceitado, porque hoje a grande maioria de todas as populações da terra nunca ouviu falar dela e não sabe que as boas novas de grande alegria foram novamente reveladas na última dispensação da plenitude dos tempos para a exaltação e a glória do homem. ¶
Nesta nova revelação, por meio do profeta escolhido por Deus, reside a esperança do mundo. Quando a verdadeira inteligência banir o erro e a superstição, e a família de Deus for mais do que uma concepção teológica; quando os homens verdadeiramente aspirarem ao mais alto céu, e a autoridade devidamente constituída de Deus for reconhecida e estimada, então — e não antes — a há muito desejada paz de Cristo descerá sobre as nações. Deus conceda que esse dia venha logo! Amém. ¶
Um hino, "Perdido na Noite" (Christiansen), foi cantado pelo Coro. ¶