Vivendo Dentro de Nossas Posses
Stephen L Richards
É o Sábado. Reunimo-nos para adorar. É, claro, altamente apropriado tratar de temas espirituais, mas sinto que não precisamos oferecer desculpas quando lidamos com assuntos temporais. De fato, em nossa concepção das coisas, todos os assuntos temporais têm significado espiritual. Ocorre-me falar de algumas dessas temporalidades, na esperança de que as observações que eu fizer possam ser construtivamente úteis a alguns de meus irmãos que se encontram em sérios apuros no mundo econômico. ¶
Efeitos Sérios da Preocupação Financeira
Tenho profunda simpatia pelo homem que está endividado. Sei que todos os homens honestos prezam muito o seu bom nome, e sei que não perderiam de bom grado sua reputação de lidar de forma justa e honrada, e de saldar prontamente suas obrigações. O homem que se vê em uma situação em que não pode, no momento, saldar suas obrigações fica sujeito a grande ansiedade e preocupação. Médicos me dizem que não é pequena a parte das doenças realmente sérias que acometem os homens hoje em dia, causadas pela preocupação financeira. As tragédias de dinheiro e de colapso financeiro, vocês leem nos jornais. O homem que não consegue pagar suas dívidas não consegue dormir à noite, pelo menos não bem. Está sempre apreensivo e contempla a perda completa de sua propriedade. Em sua imaginação, vê sua família lançada à caridade. Reconhece a dificuldade de recomeçar no mundo, e todo o problema lhe apresenta um conjunto de dificuldades quase intransponíveis, de tal modo que há momentos em que chega à própria beira do desespero. Infelizmente, o homem que se encontra nesse estado de espírito não é raro hoje em dia. A dívida é generalizada. São poucos os que podem afirmar que nada devem a ninguém. ¶
O que devemos fazer nessas situações desconcertantes? Quero sugerir algumas ideias. ¶
Nunca Repudiar
Primeiro, nunca repudiar. Nenhum homem pode reter sua honra, o respeito de seus semelhantes e sua autoestima se repudiar suas obrigações. Os homens desta Igreja, em tempos passados, gozaram de excelente reputação por seu proceder honrado. Seria um sério reflexo sobre o bom nome desta Igreja se membros, em grande número, aberta ou secretamente, ou de forma deliberada, repudiassem suas obrigações. Reconheço o fato de que a tentação de repudiá-las às vezes é quase avassaladora. Os homens raciocinam assim: Contraímos nossas dívidas com o trigo a um dólar ou a beterraba a oito dólares, com o gado e as ovelhas a preços elevados, quando todas as mercadorias alcançavam bom preço. Somos agora obrigados a pagar essas mesmas dívidas, sem redução no principal, com o trigo a trinta centavos, a beterraba a cinco dólares, e outros preços de mercadorias tão espantosamente baixos que desanimam o produtor. Mas, embora esse argumento possa parecer plausível, ele não é sólido, pois uma dívida é, em última análise, uma questão de honra, e nenhum homem pode se permitir abandonar sua honra repudiando uma dívida. Concedo que possa haver circunstâncias em que alguém seja obrigado, pela própria pressão das circunstâncias, a valer-se do alívio que a lei oferece. Eu gostaria que a lei fosse alterada. Sei que há um movimento no congresso, já há alguns anos, para alterá-la, de modo que nenhum homem tenha permissão de declarar falência a menos que, no julgamento de um tribunal de equidade, seja equitativo que o faça. Mas, até que essa lei seja alterada, enquanto permanecer como está, enquanto um homem possa, sob a lei, saldar suas obrigações passando por esse procedimento, confio que nenhum membro desta Igreja jamais se valerá dele, a não ser sob a mais extrema pressão, que o force a assim proceder. ¶
Procurem os Credores e Façam Acordos com Eles
Segundo. Enquanto essas condições prevalecerem e permanecer impossível saldar as obrigações com os recursos disponíveis, outra coisa que recomendo a todo devedor é procurar seus credores. Afinal, credores são homens, bancos são homens, e as empresas de crédito, ao menos, deveriam estar cientes da necessidade absoluta de fazer os ajustes adequados nestes tempos. Muitos devedores acabam mal com seu credor porque deixam de procurá-lo. Sei que, com frequência, ele se sente constrangido, preferindo manter-se afastado. Fere seu orgulho confessar sua incapacidade financeira de saldar suas obrigações. Mas a melhor coisa que ele pode fazer para preservar seu próprio crédito, e para ajustar sua situação, é procurar seu credor e fazer um acordo com ele; e, se todo credor, assim como todo devedor, cultivasse uma filosofia sadia, misericordiosa, considerada, bondosa e cristã, não haveria grande dificuldade em chegar a um acordo. Sei que muitos credores estão eles mesmos pressionados e sentiram a necessidade de pressionar seus devedores, mas este é um tempo em que todos precisam ser considerados, e tenho confiança de que o credor inteligente pode conceder prorrogações e, se necessário, acordos e reduções nas obrigações. Se for um credor sábio, ele até verá que é muito prudente reduzir a obrigação, para que o devedor possa pagar e assim manter sua honra e seu autorrespeito. ¶
Por Meio de Ação Perseverante e Consistente
Em seguida, não esperem que o barco chegue. O devedor que espera saldar suas obrigações somente quando obtiver grandes retornos de alguma proposta incerta levará muito tempo para pagar suas dívidas. Não tenho confiança no resultado final das finanças de um homem que fica eternamente esperando algum evento feliz que salde todas as suas dívidas e o deixe livre. As dívidas só se resolvem por meio de ação inteligente, perseverante e consistente. E creio que é loucura, nestes dias, os homens esperarem tanto o retorno daqueles dias especulativos que geravam enormes lucros no papel, quanto qualquer grande mudança de circunstâncias que traga a alguém uma grande soma de dinheiro com a qual possa cumprir todas as obrigações que talvez tenha contraído de forma imprudente. O trabalho, a aplicação consistente à própria vocação, se tiver a sorte de ter uma, ou ao seu emprego, ou à sua fazenda, ou ao seu negócio, pode trazer no final, embora lentamente, os resultados desejados. ¶
Fazendo os Ajustes Necessários
Quando os tempos vão melhorar? Quem sabe? Quando os preços vão se valorizar? Quem pode dizer? Por quanto tempo mais teremos de cultivar trigo a trinta ou quarenta centavos o alqueire? Quem sabe? Vamos desesperar-nos em prosseguir com nossas várias indústrias porque não temos garantia positiva de que preços melhores prevalecerão? Ora, é interessante notar, nestes dias, que alguns negócios têm sucesso e outros não. Penso que uma análise cuidadosa da situação indicará que o homem capaz de fazer seus negócios prosperarem nestes tempos é aquele disposto a fazer os sacrifícios, as reduções e os ajustes essenciais para atender ao nosso mercado atual. De minha parte, não estou convencido de que os homens não possam fazer negócios em uma escala de preços muito reduzida, com alguma vantagem para si mesmos. Tenho esperança de preços melhores; tenho esperança de um rápido retorno a condições melhores. Aflige a todos nós ver a miséria causada ao povo do país por esses preços anormalmente baixos que agora prevalecem. Mas não sei quando vão melhorar. Sinto que nossos homens não deveriam encarar esses preços e essas condições como dificuldades intransponíveis que impedem a operação contínua de seus negócios e, por fim, o sucesso destes. ¶
O Desperdício Lamentado
Detesto o desperdício, e penso que o desperdício, nas condições atuais, é quase criminoso — o desperdício de qualquer coisa. A extravagância que equivale a desperdício é igualmente indefensável, em vista das grandes necessidades que se apresentam. Às vezes fico indignado ao ver e contemplar as extravagâncias em que se permitem algumas de nossas instituições, tanto públicas quanto privadas, quando o povo está em tamanha aflição e tamanha necessidade. Há extravagâncias no governo que absorvem todos os meus impostos e os impostos de meus vizinhos. Essas despesas são inúteis e desnecessárias, algumas delas legalizadas, é verdade, mas o serviço público deveria estar tão atento à situação que hoje enfrentamos que, mesmo que a extravagância seja legalizada, ela deveria ser interrompida. Um senso de conveniência e um senso de equidade e justiça motivariam tal ação. ¶
Nossos impostos são insuportavelmente altos porque nossas rendas estão tão reduzidas. É uma tragédia ver as fazendas e os lares que estão sendo sacrificados por causa da incapacidade de seus proprietários de pagar os impostos sobre eles lançados. É claro que queremos um bom governo, queremos a proteção da lei, queremos todas as oportunidades que um bom governo nos proporciona, e reconheço que é preciso pagar por elas, mas este é um dia em que a economia deve ser aplicada. ¶
Investigação pelos Contribuintes
Sou muito simpático ao movimento de que tenho ouvido falar, em andamento, no qual os contribuintes se constituem em comissões para investigar nossos gastos públicos. Nenhum funcionário do governo que tenha a concepção correta de sua responsabilidade deveria, em qualquer sentido, ressentir-se de uma investigação sobre a administração de seu cargo. Gosto da ideia. Gostaria que os cidadãos, em toda parte, se organizassem e fossem aos funcionários públicos, questionando-os e verificando se não é possível fazer reduções nos custos excessivos pelos quais estamos pagando contas, pois somos nós que as pagamos todas. ¶
Vivendo Dentro de Nossas Posses
Falamos constantemente sobre equilibrar o orçamento. Não estamos equilibrando o orçamento. As dívidas estão aumentando em nossa administração nacional e, suponho, em nosso governo estadual, bem como em nossos governos municipais. Reconheço o fato de que muitos municípios estão de fato em apuros porque não conseguem obter os meios com que saldar suas obrigações públicas. Pode ser que tais circunstâncias árduas sejam necessárias para nos ensinar que, tanto pública quanto particularmente, temos de viver dentro de nossas posses, pois há apenas uma maneira de toda instituição, assim como de todo indivíduo, sair de suas dívidas, e é gastando menos do que recebemos e aplicando a diferença à liquidação de nossos passivos. Essa é a única maneira de sair da dívida. É um processo muito simples e, no entanto, é uma coisa muito difícil de fazer, e exige uma tremenda dose de firmeza para empreender a tarefa. ¶
A Necessidade da Caridade Privada
Ora, considero essas coisas imperativas para o alívio de nossa angustiante condição financeira. Reconheço que há muitos, nestes dias, para os quais essa aplicação é bastante remota, porque há alguns de nossos irmãos e irmãs, e muitas pessoas no mundo, que não têm outra fonte de renda além daquela que vem da caridade para suprir suas necessidades. É claro que os desempregados merecem, e creio que recebem, nossa sincera simpatia, e precisam não apenas de nossa simpatia, mas de nossos recursos, e gostaria de dizer ao povo aqui reunido que este é um tempo em que, embora o governo e outras agências estejam fazendo tudo o que parece possível para aliviar a aflição, a caridade privada ainda precisa ser chamada, em grande medida, para atender às necessidades existentes. Não podemos ficar de braços cruzados e dizer que os fundos de assistência do governo, ou de nossa Igreja, vão cuidar da situação. Não vão, e ainda seremos obrigados a nos esforçar ao máximo para suprir o que é necessário. ¶
Assistência Material Indispensável
Pois bem, que tem tudo isso a ver com religião? Por que esse tipo de discurso encontra lugar, como penso que encontra, em uma assembleia como esta? É porque o homem que tem a religião de Jesus Cristo em seu coração não pode ficar parado e ver o sofrimento de seus semelhantes sem ser levado, por toda emoção que há dentro dele, a socorrê-los e a prestar assistência, e é porque a assistência tão urgentemente necessária hoje em dia é a assistência material. A assistência material não é apenas necessária para o alívio do sofrimento e da aflição entre o povo, mas essa assistência é, em última análise, indispensável ao estabelecimento da grande e gloriosa causa em que temos a honra de estar engajados. A Igreja, felizmente, como nos disse o Presidente Ivins, está livre de dívidas, mas a Igreja precisa de dinheiro. As várias instalações que a Igreja emprega para a disseminação desta grande obra requerem dinheiro; o rádio, que transmite as mensagens desta conferência, e que nos deu uma emoção tão incomum esta manhã, precisa ser inteiramente sustentado por dinheiro. Nossos templos, nossas capelas, nossa própria grande causa missionária, precisam de dinheiro com o qual possam ser levados a uma conclusão bem-sucedida. Não temos muito dinheiro, somos pobres nestes dias. Concordo de todo coração com os oradores que me precederam ao dizerem que precisamos compensar, com fervor espiritual, com sacrifício, com entusiasmo renovado, a falta de nossos recursos esgotados, mas ainda assim precisamos de algum dinheiro para esta obra. Sei o que essas dívidas significam para o serviço missionário. Sei que há milhares de lares nesta Igreja que se alegrariam em enviar um missionário para as fileiras esgotadas de nossas forças missionárias, se não estivessem sob o jugo da dívida. Estão hipotecados a seus credores e, em consequência, não podem se mover para realizar as coisas que gostariam de fazer. ¶
Rogo sinceramente que Deus, em sua bondade, inspire todo homem a fazer aquilo que suas circunstâncias mais exigem, a resistir às extravagâncias, a colocar-se em uma base cuidadosa, econômica e poupadora que, por fim, o liberte deste jugo da dívida, contra o qual sempre fomos advertidos, para que os homens e as mulheres da Igreja possam estar livres para devotar seus recursos, para consagrar os frutos de suas vidas a esta causa elevada e sagrada, que tanto reclama nossa atenção e nossa lealdade. Deus conceda que assim seja, oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶