A Luz de Cristo
Rulon S. Wells
Meu coração está cheio, feito assim pelo espírito desta grande Conferência, pois temos sido alimentados com o pão da vida. ¶
Meus pensamentos foram levados a considerar as santas escrituras, a palavra do Senhor, e tomarei a liberdade de citar algumas dessas preciosas palavras que se encontram nas Sagradas Escrituras. ¶
Permiti-me começar pelo princípio: ¶
"No princípio, Deus criou os céus e a terra. ¶
"E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. ¶
"E disse Deus: Haja luz; e houve luz. ¶
"E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. ¶
"E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro." ¶
Que glorioso princípio para a grande obra da criação! Que forças tremendas foram desencadeadas com a pronúncia daquele grande mandamento: "Haja luz!" ¶
Parece, a partir desta passagem das escrituras, que a luz desempenhou um papel da maior importância na criação dos céus e da terra. Como foi tudo isso realizado? O Apóstolo Paulo nos dá uma pequena ideia disso, pois ele nos diz, este grande Apóstolo dos gentios, em sua carta que escreveu aos Hebreus, não apenas como isso foi feito, mas também como não foi feito. Diz ele: ¶
"Pela fé, entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus, de maneira que aquilo que se vê não foi feito daquilo que é visível." ¶
Não, não foram feitos desse modo. Este é o modo do homem. Quando construímos nossos lares para abrigar nossas famílias, nossas esposas e filhos, e vemos nosso lar em sua forma acabada, concluímos de imediato que ele foi feito das coisas que aparecem ao nosso redor. Ajuntamos a rocha — extraída da encosta da montanha. Cortamos os madeiros das florestas, ajuntamos a areia e apagamos a cal para fazer a argamassa, e ajuntamos o barro e o transformamos em tijolos; e assim construímos nossos lares. Mas não é assim com Deus. Ele tem um modo melhor — um modo mais eficaz — de criar o lar de seus filhos. ¶
Bem no princípio, Deus criou os céus e a terra. Para quê? Ele criou os mundos para se tornarem a habitação de seus filhos. Quando, pois, ele considerou a nós, que dele nascemos em espírito antes que o mundo existisse, estando ele em nosso meio, disse àqueles que estavam com ele: "Desceremos, pois há espaço lá, e tomaremos destes materiais, e faremos uma terra onde estes possam habitar." (Abraão 3:24.) Os materiais não foram criados; já existiam, mas estavam sem forma e vazios — os elementos são eternos, mas Deus compreende a constituição da matéria e as forças do universo; então, contemplando a grande extensão, ele diz: ¶
"Desceremos e faremos uma terra onde estes possam habitar." "Estes" significava vós e eu, meus irmãos e irmãs, e os muitos milhões que habitam este globo, e os muitos outros milhões que o habitaram desde o próprio início do tempo. ¶
E como ele o fez? Pela palavra de Deus, mediante fé. "Haja luz" foi o princípio. Deve haver, então, algo nesta luz que possua poder criador. Busquemos um pouco mais de luz citando mais escritura: ¶
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. ¶
"Ele estava no princípio com Deus. ¶
"Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. ¶
"Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; ¶
"E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam." ¶
"Que era a luz verdadeira, que alumia todo homem que vem ao mundo." ¶
Este era, então, o Verbo que estava com Deus bem no princípio e por quem, por meio de sua fé sem limites, os mundos foram criados, e sem quem nada do que foi feito se fez, e em quem estava a própria vida, e esta vida era a luz dos homens e é a "luz que resplandece nas trevas". Esta luz penetrou até mesmo aquelas trevas que estavam "sobre a face do abismo", e há noventa e três milhões de milhas dela entre nós e o sol, e quantos milhões de milhas mais existem entre nós e a morada de Deus, onde "ele se assenta entronizado no meio de todas as coisas, no seio da eternidade", nem sequer podemos supor. A ciência nos ensina, porém, que trevas absolutas prevalecem por todo o espaço sem limites; mas quando Deus diz: "Haja luz", ela penetra tudo isso e resplandece nele, mas as trevas não a compreendem. ¶
Novamente cito o primeiro capítulo de João: "Deus nunca foi visto por ninguém." Isso foi citado e devidamente explicado ontem pelo Apóstolo Orson F. Whitney, em seu excelente discurso, ao citar estas palavras acrescentadas pelo Profeta Joseph Smith: "a não ser que seja vivificado pelo Espírito de Deus." Isso, sem dúvida, esclarece o assunto e o faz harmonizar-se com as escrituras em que estão registradas as muitas aparições de Deus a seus servos, os profetas. E, no entanto, penso que havia outro pensamento na mente do amado discípulo João quando escreveu este parágrafo, o que infiro do restante deste versículo. Permiti-me citá-lo por inteiro: "Deus nunca foi visto por ninguém. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, ele no-lo revelou." ¶
Quem foi que criou este mundo? Não lemos que foi o Verbo que estava com o Pai bem no princípio, e que todas as coisas foram feitas por ele e sem ele nada do que foi feito se fez? Foi ele, então, quem criou os céus e a terra. Foi ele, então, quem, sob o Pai, criou Adão e Eva e os colocou no Jardim do Éden. Foi ele, este Filho de Deus, então conhecido como Jeová, quem apareceu a Abraão nas planícies de Manre. Foi ele quem chamou Moisés ao monte e lhe entregou a lei do Senhor, a lei dos mandamentos carnais. Foi ele quem veio no meridiano do tempo e nasceu da Virgem Maria. Assim ele se fez carne. Este Filho de Deus, o Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade, que agora se assenta à direita da Majestade nas Alturas, de onde procede a luz que enche a imensidão do espaço, sim, "a luz que está em todas as coisas, que dá vida a todas as coisas, que é a lei pela qual todas as coisas são governadas, sim, o poder de Deus, que se assenta em seu trono, que está no seio da eternidade, que está no meio de todas as coisas." (Doutrina e Convênios 88:13.) Assim João, a quem os céus foram abertos, vendo estas maravilhosas realizações de seu Senhor e Mestre, mas tendo Deus, o Pai, em mente, declara: "Deus [isto é, o Pai] nunca foi visto por ninguém. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, ele no-lo revelou." ¶
Destas escrituras que citei, e muitas outras que poderiam ser mencionadas, é evidente que nosso Redentor, conhecido pelo antigo Israel como Jeová e por nós como Jesus Cristo, foi aquele que apareceu aos profetas, e embora a voz do Pai já tivesse sido ouvida, como no batismo do Salvador — "Este é meu Filho amado, em quem me comprazo" —, somente na primavera de 1820 temos algum relato da aparição do Pai, quando tanto o Pai quanto o Filho apareceram a Joseph no Bosque Sagrado, quando este profeta dos últimos dias, então com menos de quinze anos de idade, transfigurado diante deles e vivificado pelo Espírito, não apenas os viu a ambos, observando que um era a imagem expressa do outro, mas também ouviu novamente sua voz declarando: "Este é meu Filho amado, ouvi-o." Uma visão das mais maravilhosas que, embora bastante incomum, foi sem dúvida necessária para dissipar para sempre as falsas concepções do mundo religioso moderno a respeito da personalidade de Deus. ¶
Que unanimidade há nas declarações dos apóstolos e profetas inspirados de Deus! Uma das características pelas quais podemos reconhecer todos os verdadeiros profetas de Deus é esta: todos eles ensinam a mesma coisa — não se contradizem uns aos outros, mas testificam uniformemente das mesmas verdades fundamentais. Permiti-me agora chamar vossa atenção para algumas das revelações dadas ao Profeta Joseph Smith, e descobriremos essa mesma unanimidade, a mesma evidência incontestável de que ele também foi um verdadeiro profeta do Deus vivo. Permiti-me ler: ¶
"Aquele que subiu ao alto, como também desceu abaixo de todas as coisas, no sentido de que compreendeu todas as coisas, para que fosse em tudo e através de todas as coisas, a luz da verdade; ¶
"Verdade essa que brilha. Essa é a luz de Cristo. Como também ele está no sol e é a luz do sol e o poder pelo qual foi feito. ¶
"Como também ele está na lua e é a luz da lua e o poder pelo qual foi feita; ¶
"Como também a luz das estrelas e o poder pelo qual foram feitas; ¶
"E também a Terra e seu poder, sim, a Terra sobre a qual estais." (Doutrina e Convênios 88:6-10.) ¶
Se os antigos profetas e apóstolos foram, ainda que em pequeníssimo grau, obscuros a respeito da "Luz" e do papel que ela desempenhou na criação, e quanto a quem era essa Luz, então estes parágrafos que acabo de ler removem toda dúvida e declaram inequivocamente que Cristo era aquela Luz que animava o universo e pela qual, mediante fé, os mundos foram formados ou criados pela palavra de Deus. ¶
Agora permiti-me ler um pouco mais de João: ¶
"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade." ¶
E ainda: ¶
"Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. ¶
"Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; ¶
"Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." ¶
Aqui nos é dito que foi dado poder àqueles que nele creem para se tornarem filhos de Deus. Isso se aplica a todos os verdadeiros crentes. Qual era esse poder ao qual ele se refere? Era o Evangelho de Jesus Cristo, por cuja obediência podemos nos tornar tanto filhos quanto filhas de Deus; assim, como Paulo nos diz, o evangelho é o poder de Deus para a salvação. Mas como havemos de nos tornar seus filhos e filhas, nós que não nascemos "do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus"? Não, apenas um nasceu assim, "o Filho Unigênito"; ele foi o único gerado na carne, mas nós também nascemos não da carne nem do sangue, mas de Deus. Claramente, isso só pode referir-se à nossa pré-existência, onde nascemos de Deus em espírito, mas ele deu àqueles que nele creem o poder, mediante obediência a seu evangelho, de se tornarem seus filhos e filhas, tanto em corpo quanto em espírito, e membros de sua família. ¶
Ele veio para o que era seu, e não apenas o rejeitaram, mas o crucificaram, e no terceiro dia ele ressuscitou do sepulcro, tendo vencido a morte e o túmulo, tornando-se assim o Redentor da humanidade. E como isso foi realizado? A resposta é clara: o princípio da vida estava nele, pelo qual ele se tornou nosso Criador, pois "nele vivemos, nos movemos e existimos". Por esse mesmo poder, ele se torna a ressurreição, vence a morte e faz reviver, pois "assim como em Adão todos morrem, também em Cristo todos serão vivificados". ¶
O incidente registrado no décimo primeiro capítulo de João torna isso claro. Recordar-se-á que Lázaro, irmão de Marta e Maria, amigo de Jesus, morreu quando o Salvador estava em outra parte do país; mas, quando ele chegou à casa de Marta e Maria, Marta saiu ao seu encontro e disse-lhe isto: ¶
"Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido." ¶
"Teu irmão há de ressuscitar." ¶
"Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia." ¶
Então o Senhor faz esta declaração: ¶
"Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; ¶
"E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu nisto? ¶
"Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo." ¶
Agora permiti-me dar mais uma ilustração da perfeita unanimidade entre os profetas, mas, neste caso, entre esta declaração feita pelo Salvador, que acabo de ler, e uma revelação dada a Joseph Smith em que o Senhor lhe dá a conhecer a mesma verdade. Ela é contada em linguagem inteiramente diferente e foi dada em circunstâncias inteiramente diferentes, e, no entanto, expõe com grande clareza a mesma verdade: ¶
"E o espírito e o corpo são a alma do homem. ¶
"E a ressurreição dos mortos é a redenção da alma. ¶
"E a redenção da alma realiza-se por meio daquele que vivifica todas as coisas." ¶
Em outras palavras, ele é a ressurreição e a vida. Aqui também aprendemos que a redenção da alma, que é a ressurreição dos mortos, se dá por meio daquele que vivifica todas as coisas, ou, em outras palavras, por meio daquele que é "a luz que está em todas as coisas, que dá vida a todas as coisas, que é a lei pela qual todas as coisas são governadas, sim, o poder de Deus", como já citei da Seção 88 da Doutrina e Convênios; ou, como diz João: "Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens"; e, como lemos ainda na Doutrina e Convênios, ele é também a luz do sol, da lua e das estrelas e da terra sobre a qual estamos, e é o poder pelo qual foram feitos; e, quando contemplamos este belo mundo e vemos o esplendor dos céus estrelados, o rubro da manhã e da tarde, as diferentes formas e cores das nuvens, e particularmente nesta época do ano, quando vemos o inchaço dos brotos, o desabrochar das folhas, das flores e dos botões, e toda a natureza irrompendo em vida, podemos saber, por estas numerosas citações que li da palavra revelada, que tudo isso se dá por meio daquele que estava no princípio com o Pai, sim, o Senhor, nosso Salvador, o Redentor da humanidade. Ao contemplarmos estas coisas, que nossos corações se regozijem, elevemos nossas almas em grata adoração a Deus por ter Ele adornado tão bela e inimitavelmente sua grande obra de criação. Amém. ¶