O Dízimo e o Bem-Estar Temporal
David A. Smith
ÉLDER DAVID A. SMITH ¶
Primeiro Conselheiro no Bispado Presidente ¶
Depois de cem anos, e depois o quê? ¶
Durante o ano passado, temos vivido em grande parte no passado, e parece-me que, quando contemplamos a obra de nossos pais, de nossas mães, de nossos avôs e avós, e vemos suas grandes realizações, não pode haver dúvida de que esta Igreja cresceu de maneira maravilhosa. Nenhuma organização poderia alcançar tal crescimento a não ser pela ajuda, inspiração e liderança de um Pai todo-sábio. Ao contemplar essas realizações, pergunto-me se não estamos, até certo ponto, vivendo agora demais no passado, e não o suficiente sobre o passado, pois as experiências e realizações do passado deveriam ser uma torre de força a nos impelir a um maior esforço individual. ¶
Ouvi um irmão que, pregando um sermão sobre o dízimo, disse que seu pai pagara mais dízimo do que devia, e que alguns de seus filhos ainda hoje estavam se aproveitando disso. Certamente tal atitude não pode ser considerada um crescimento. Como podemos usar o passado para nos ajudar a construir o futuro? Na verdade, eles nos mostraram o caminho. Estamos fazendo a nossa parte para dar continuidade a essa obra? Se assim for, há pouco motivo de preocupação quanto ao futuro. Se tivermos um retrato claro das lutas dos últimos cem anos e compreendermos os princípios que tornaram possível a eles lançar tal alicerce, devemos prosseguir com o sincero desejo de construir para o nosso bem-estar e salvação futuros. ¶
Um dos escritores do Livro de Mórmon nos diz: ¶
"Pois eis que esta vida é o tempo para os homens prepararem-se para o encontro com Deus; sim, eis que o dia desta vida é o dia para os homens executarem os seus labores. E agora, como vos disse antes, já que haveis tido tantos testemunhos, peço-vos, portanto, que não deixeis o dia do arrependimento para o fim; porque depois deste dia de vida que nos é dado a fim de nos prepararmos para a eternidade, eis que, se não fizermos melhor uso de nosso tempo nesta vida, virá a noite tenebrosa, durante a qual nenhum labor poderá ser executado. Não podereis dizer, quando fordes levados a essa terrível crise: Arrepender-me-ei para retornar a meu Deus. Não, não podereis dizer isso; porque o mesmo espírito que possuir vosso corpo quando deixardes esta vida, esse mesmo espírito terá poder para possuir vosso corpo naquele mundo eterno. Pois eis que, se deixastes o dia do arrependimento para o dia da vossa morte, eis que vos tendes submetido ao espírito do diabo e ele vos sela como seus; portanto, o Espírito do Senhor se apartou de vós e não tem lugar em vós; e o diabo tem sobre vós todo o poder e este é o estado final dos iníquos." ¶
E assim digo que devemos preocupar-nos seriamente com o hoje. Se assim fizermos, o amanhã cuidará de si mesmo, e a obra que nos foi confiada será nobremente realizada, e a nossa recompensa, assegurada. ¶
O Irmão McMurrin fez um apelo por mais missionários. Nossos presidentes de missão fazem isso constantemente. Não há mês em que seus relatórios não contenham apelos por mais ajuda. É maravilhoso o que este povo está fazendo, muitos até sacrificando as comodidades da vida para sustentar seus filhos que se dedicam à obra missionária, mas quantos fazem um esforço igual para prepará-los para esse serviço antes de partirem para o campo missionário. Tenho certeza de que uma melhor preparação, que deve vir por meio do serviço ativo, contribuirá muito para atender às exigências que se fazem sobre nós. ¶
Ontem, reunidos em grupo neste tabernáculo, tivemos oitenta e sete rapazes e moças que, na próxima semana, partirão para o campo missionário. São jovens e inexperientes. Têm um testemunho do Evangelho, mas ainda não estão totalmente seguros de si mesmos no momento presente. Estão ansiosos para se dedicarem a uma boa causa. Ontem à noite, às sete horas, reuni-me com eles, sendo esse o último período do trabalho do dia. A primeira aula deles, ontem, foi às nove horas da manhã. Foram dispensados às nove e quarenta e cinco e vieram todos juntos para esta Conferência. Estiveram aqui à tarde, e dessa reunião foram para outra aula; tiveram um período de almoço, e depois foram para outra aula. Ao término de sua aula, às oito horas da noite passada, pedi-lhes que escolhessem um cântico para encerrar, pois sempre começamos e encerramos o trabalho do dia com cântico e oração. O primeiro cântico sugerido pareceu-me, por um momento, uma espécie de ironia. Foi anunciado como "Não desanimeis pelo caminho". Enquanto cantávamos o hino, fiquei de frente para aquele grupo. Procurei perceber tal sentimento da parte deles. Encontrei todos cantando — não apenas as palavras, pois todos cantavam como só podemos cantar quando tocados pelo Espírito de Deus. Depois que a oração de encerramento foi oferecida, após nove horas de serviço religioso, esses jovens, que vocês enviaram de seus lares para irem ao campo missionário, reuniram-se ao meu redor com mais perguntas, incansáveis em seu esforço para obter mais informações. ¶
Não precisamos estar muito preocupados por eles enquanto estiverem no campo missionário, pois partem com um propósito, e Deus está com eles e vela por eles, e ouvirá e responderá às suas orações e às nossas orações em seu favor; e enquanto continuarem nesse serviço com fé, suas bênçãos repousarão sobre eles, e voltarão para casa para testificar de sua bondade e da verdade do Evangelho. ¶
É então que devemos estar seriamente preocupados por eles, pois constatamos muitas vezes que esses jovens missionários, ao voltarem para casa, encontram-se, até certo ponto, na condição em que se encontrou o Salvador, conforme nos relatou hoje o Irmão Richards. Falando de Jesus: ¶
"E chegando à sua pátria, ensinava-os na sinagoga deles, de sorte que se maravilhavam, e diziam: De onde veio a este a sabedoria, e estas maravilhas? Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, e José, e Simão, e Judas? E não estão entre nós todas as suas irmãs? De onde lhe veio, pois, tudo isso? E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua pátria e na sua casa. E não fez ali muitas maravilhas, por causa da incredulidade deles." ¶
Comparemos a fé desses, seu próprio povo, com a fé de alguém que era desprezado pelos judeus. ¶
"Jesus foi outra vez a Caná da Galileia, onde da água fizera vinho. E havia ali um oficial do rei, cujo filho estava enfermo em Cafarnaum. Ouvindo este que Jesus vinha da Judeia para a Galileia, foi ter com ele, e rogou-lhe que descesse, e curasse o seu filho, porque já estava à morte. Então Jesus lhe disse: Se não virdes sinais e milagres, não crereis. Disse-lhe o oficial do rei: Senhor, desce, antes que meu filho morra. Disse-lhe Jesus: Vai, o teu filho vive. E o homem creu na palavra que Jesus lhe disse, e foi-se. E descendo ele logo, saíram-lhe ao encontro os seus servos, e lhe anunciaram, dizendo: O teu filho vive. Perguntou-lhes, pois, a que hora ele havia melhorado; e disseram-lhe: Ontem às sete horas a febre o deixou. Entendeu, pois, o pai que aquela hora era a mesma em que Jesus lhe disse: O teu filho vive; e creu ele, e toda a sua casa." ¶
Pergunto-me se, em Israel hoje, não estamos carecendo, ainda que um pouco, de fé. No verão passado recebemos muitos relatórios dizendo: "Não temos conseguido fazer nada com o nosso trabalho de sacerdócio. É período de férias, e todos sentem que deveriam tirar férias do trabalho da Igreja." ¶
Não me sinto no direito de criticar quem deseja tirar férias, pois a mudança e o descanso são necessários às vezes; mas, ainda assim, é preciso ter alimento para que o bem-estar físico seja preservado. No entanto, ainda não encontrei uma boa razão para tirar férias do trabalho espiritual e do convívio que vem àqueles que humildemente buscam o alimento espiritual. Pelo contrário, ao observar a situação, constato que aqueles que sentem necessidade de tirar férias do trabalho da Igreja parecem esquecer que o alimento espiritual é necessário para preservar o corpo espiritual, e que, sem ele, o corpo espiritual começa a morrer por falta de nutrição. Essa morte pode vir lentamente ou, se o pecado os alcançar, pode vir rapidamente; e creio que um dos maiores perigos que enfrentamos é o pecado da indiferença, que certamente conduz à morte espiritual. ¶
Não há tempo para férias neste serviço. Deus trabalha constantemente. Ele exige que seus filhos, sobre quem o sacerdócio foi conferido, trabalhem constantemente em espírito, pois o Espírito de Deus nem sempre há de lutar com o homem. Não podemos deixar esta obra de lado e retomá-la quando nos convier, pois, se esperamos ter êxito, devemos trabalhar diariamente, a cada hora e a cada minuto. Devemos viver de tal maneira que estes templos que Deus nos deu, e a que chamamos nosso corpo físico, sejam mantidos limpos e uma morada digna para o seu espírito. Isso pode ser feito melhor por meio da convivência proporcionada por nossas reuniões, tais como as reuniões de sacerdócio e sacramentais, em que nos dedicamos à edificação espiritual. ¶
Essa condição se manifesta em nossos missionários que, depois de terem dedicado todo o seu tempo ao espiritual, voltam para casa fortes em espírito. ¶
Devemos preocupar-nos com esses jovens que retornam do campo missionário, porque constato, ou penso constatar, que às vezes não temos plena consciência de nossa responsabilidade quanto ao seu bem-estar futuro. Isso pode ser ilustrado com esta afirmação. Ouvi um pai dizer a seu filho, que acabara de voltar do campo missionário: "Vamos, filho, tire essa roupa boa, vista a velha e vá trabalhar. Já andou vadiando tempo demais." ¶
A maioria deles não vadia no campo missionário, mas às vezes os forçamos a vadiar quando voltam para casa, porque deixamos de alimentá-los, de dar-lhes aquele alimento espiritual que os manteve ativos enquanto estavam no campo missionário. E assim eles morrem espiritualmente, e nos perguntamos por quê. Não os culpem. A culpa não é deles. Não é escolha deles. Eles prefeririam que fosse diferente. ¶
E agora, e quanto ao futuro? Não devo falar por mais tempo, mas permitam-me dar uma pequena ilustração que talvez mostre o que pode ser feito. Ao final do ano passado, quando os bispos enviavam seus relatórios anuais ao Escritório do Bispado Presidente, um bispo veio trazer o seu, e, ao voltar-se para deixar o escritório, acenou-me com a mão. Devolvi-lhe a saudação e chamei-o para vir à sala ao lado, onde eu estava, pois ele tinha um largo sorriso no rosto e parecia estar incomumente feliz. Ele se dirigiu à porta e disse que não tinha nenhum desejo de me incomodar. Só queria dizer "olá". Sugeri que ele parecia feliz e perguntei como havia conseguido ficar assim, pois é incomum encontrar um bispo naquele estado de espírito nessa época do ano. Ele respondeu que estava feliz porque o povo sobre o qual presidia estava ajudando-o. Disse que era bispo havia dois anos. E disse: ¶
"Quando comecei a conhecer o povo da minha ala, achei muito difícil fazer progresso com as pessoas mais velhas. Elas estavam presas aos seus hábitos. Faziam algum trabalho da Igreja, mas não muito. A maioria estava disposta a deixar que outra pessoa fizesse o trabalho. O registro de atividade delas correspondia à sua condição espiritual. Decidimos, então, dedicar-nos ao trabalho com os mais jovens. Reorganizamos os quóruns do Sacerdócio Aarônico, conversamos com os que estavam ativos, e eles nos ajudaram a delinear uma campanha para incentivar maior atividade. Nós os enviamos para trazer de volta os que estavam inativos. Eles responderam com tal espírito de boa vontade que logo todo rapaz que possuía o Sacerdócio Aarônico estava presente nas reuniões. Decidimos adotar, como nossa primeira grande atividade, uma campanha anual sobre o dízimo. Nosso primeiro dever foi converter a nós mesmos. Cada aspecto do assunto foi discutido. Todos concordaram em trabalhar com o desejo de que cada pessoa que possuísse o Sacerdócio Aarônico fosse um pagador integral do dízimo. Demos aos quóruns créditos baseados em números. Alguns reclamaram que estávamos subornando-os, ao oferecer créditos pelo pagamento do dízimo, mas, ainda assim, foi um meio de incentivá-los. Eles traziam seus cinco centavos, seus dez centavos, seus vinte centavos a cada semana, à medida que os ganhavam. Depois de algum tempo, os pais passaram a dar mais atenção ao seu próprio dízimo, e no ano passado, quando fiz o meu acerto do dízimo, tínhamos o dobro do dízimo do ano anterior e mais do que o dobro do número de membros ativos, devido em grande parte à atividade desses jovens a quem ensinamos a observar esse princípio. E este ano aumentamos o dízimo de nossa ala tanto quanto o aumentamos no ano passado, e os membros da ala estão respondendo a todo chamado, e é por isso que estou feliz em vir aqui apresentar meu relatório final." ¶
Eu poderia mencionar muitas experiências semelhantes. ¶
Meus irmãos e irmãs, e quanto ao amanhã? O amanhã pode nunca chegar para alguns de nós; mas que as bênçãos de Deus repousem sobre nós hoje, para que sejamos tocados pelo poder e pela influência de seu Espírito Santo. Que tenhamos o poder de ver claramente o propósito desta grande obra; que vejamos claramente o lugar que nos cabe, para que nos encaixemos e façamos aquilo que nos é exigido, no melhor de nossa capacidade, pois há trabalho para todos fazerem. Pertencemos à mais maravilhosa organização em todo o mundo. Os homens são chamados a posições de responsabilidade e, após algum tempo, são desobrigados, e tomam seu lugar nas fileiras para que outros possam obter experiência por meio da liderança. Não há ressentimentos, ciúme ou contenda, pois os homens servem onde quer que sejam chamados para servir. Eles não buscam honra e servem com temor e tremor, felizes por se dedicarem a uma causa tão nobre. ¶
Que continuemos nesse espírito. Que tenhamos amor uns pelos outros em nossos corações. Que trabalhemos uns pelos outros, e para que os propósitos de Deus se cumpram; e quando chegar o tempo de deixarmos de lado o papel que fomos chamados a desempenhar, confio sinceramente que se dirá de nós: "Bem está, servo bom e fiel. Entra no meu descanso." Que Deus nos abençoe, oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶