O Estandarte Erguido: Um Chamado a Israel
Orson F. Whitney
O Élder Whitney então tomou a tribuna e leu o poema que se segue: ¶
O ESTANDARTE ERGUIDO -- UM CHAMADO A ISRAEL ¶
"E levantará um estandarte entre as nações, e ajuntará os desterrados de Israel, e os dispersos de Judá congregará desde os quatro confins da terra." — Isaías 11:12. ¶
Personagens Representados: elias:: efraim:: judá elias: ¶
Uma voz que clama no deserto: ¶
"Aplainai e endireitai a Estrada de nosso Deus!" ¶
Cem anos, sobre as ligeiras asas do Tempo voados, desde que se ergueu o Estandarte para o Ajuntamento -- cem anos, e ainda a bandeira tremula, convocando os escolhidos de sua peregrinação pelo mundo, chamando o povo do convênio de longe, para saudar a vinda de seu Deus e Rei. ¶
Filhos de Jacó, Isaque, Abraão, ovelhas do rebanho que o Pastor vem recolher! Como respondestes ao seu chamado? Que fizestes para preparar o seu caminho? ¶
Responde, Efraim, desde a altura de teu monte, de onde flui o sinal visto e cantado desde antigamente -- primogênito de Deus nestes últimos dias da Terra, fala tu, e que os ventos contem tua história! ¶
efraim: ¶
Ouço-te, e com alegria te respondo: foi meu o privilégio de acolher o retorno da Verdade, há muito retirada do vasto domínio do Erro; meu, o de desvendar o mistério soterrado de poderosas nações, sussurrando desde o pó; meu, o de desfraldar o Estandarte, e fazer soar sobre o mar e a terra as notícias maravilhosas; inundando o mundo de verdade e retidão, lançando a foice no trigo dourado, ceifando um campo maduro, e recolhendo as primeiras gavelas da colheita de Israel. ¶
Labutei, chorei e sangrei para trazer novamente aos homens a plenitude da Mensagem de Cristo; ¶
para edificar Templos redentores, para que os mortos, ¶
obedientes à lei nos reinos do espírito, ¶
pudessem partilhar com os vivos as alegrias divinas. ¶
Queres ouvir mais? -- ¶
Há mais que de bom grado contaria. ¶
elias: ¶
Continua! -- continua! A verdade não cansa meu ouvido. efraim: ¶
Expulso pela tirania da terra da Liberdade, ¶
segui pelo deserto solitário e não trilhado. ¶
Aqui, sob meu toque viril, ermos outrora estéreis ¶
agora cantam de alegria e florescem deliciosamente. ¶
Plantei os postos avançados de Sião, firmes e fortes, ¶
fortificados em rocha pelos montes eternos, ¶
onde a Fé, expectante, aguarda a hora ¶
em que a própria Sião se erguerá do solo do Éden, ¶
estremecida pela aclamação alegre: "O Noivo vem ¶
Nem todos os meus ministérios nas costas do Ocidente, ¶
nem todas as minhas afeições para com os parentes próximos. ¶
Não estive eu sobre o antigo Olivete, ¶
e ofereci oração ao céu pelo bem-estar de Judá? ¶
Não vasculhei eu o universo e atraí a nata das nações para esta terra favorecida, ¶
onde as tribos que regressam clamarão aos montes trêmulos, ¶
e elevarão hosanas aos céus que escutam, que iluminam as torres da Nova Jerusalém? ¶
Por estas e outras obras semelhantes se mostra minha fé. Assim respondi ao chamado do Pastor. ¶
elias: ¶
E respondeste bem. E Aquele cujo dia agora desponta ¶
coroará teu valor com uma recompensa ¶
tão sem limites, tão infinita quanto a eternidade. ¶
Agora, Judá, conta tua história! Que feitos teus ¶
estão espalhados como flores ao longo do caminho do Messias? ¶
judá: ¶
Messias? -- Não o vejo eu no homem ¶
a quem os cristãos chamam o Cristo, seu santo. ¶
Não vejo, em seu Deus, o Deus de meus pais, ¶
cujo convênio permanece com Abraão; ¶
que falou a Moisés no monte em fogo, ¶
e deu a Lei para governar Israel. ¶
Cego estou para o que Efraim contempla. ¶
Talvez o ar seja mais puro, a vista mais ampla, ¶
naquela altura onde ele se ergue, robusto, ¶
do que no vale enevoado onde eu respiro. ¶
Pensas que erro, ao interpretar seu pensamento? ¶
Mas estou com ele na guerra pelo direito, pela justiça e pela liberdade do mundo. E a esta causa dou uma mão disposta, e empenho minha amizade, fé e lealdade. ¶
elias: ¶
Falas bem -- mas bem poderias dizer muito mais em favor do Deus de Israel, Jeová, Senhor de Tudo, que deu o Evangelho como deu a Lei, e morreu para que a morte sem fim fosse vencida. Que limite há a seu mérito ou a sua reivindicação? ¶
judá: ¶
Não me rogues que mude minha antiga fé -- mais antiga que tudo o que os cristãos tenham por divino; pura como os picos nevados do Líbano, que derramam correntes revigorantes sobre planícies sedentas. Que doutrina mais nobre que o Decálogo? Que lei mais alta que a Justiça podes tu nomear? ¶
elias: ¶
É a Justiça mais que a Misericórdia -- mais que o Amor? Não precisas mudar tua fé, mas edificar sobre ela. Se queres compreender a Lei Perfeita, alcançar sua altura mais sublime, mais pura, mais celestial, acrescenta à justiça o puro amor de Deus -- a doce Caridade, coroa de todas as graças. ¶
judá: ¶
Justiça -- não Misericórdia -- é o que o judeu reclama. ¶
E dize-me, quando foi que a caridade cristã ¶
significou justiça para o judeu ofendido e pisado? ¶
Misericórdia, na verdade! que misericórdia mostraram eles, ¶
que matam sob a bandeira da Cruz? ¶
Demais ouvimos falar de amor e caridade, ¶
de lábios de ódio, de corações de crueldade, ¶
gabando-se de um líder a quem não seguem, ¶
tagarelando de amor, mas nunca o praticando. ¶
Este Jesus, a quem louvam, mas não imitam, ¶
homem bom -- talvez até grande. Mas por que um Deus? ¶
Filho de José e Maria, um judeu comum, ¶
que se assentou aos pés de rabinos afamados por sua erudição, ¶
e deles aprendeu, mas nada trouxe de novo. ¶
Por que se dobraria o joelho de Israel diante dele? ¶
elias: ¶
Ele não se assentou aos pés de homem algum para obter o poder de salvar e erguer mundos caídos. Sua sabedoria vinha de alturas mais distantes que as estrelas invisíveis, fresca como o orvalho da manhã sobre a flor; pura como a neve -- tão branca sobre o Líbano, até ser manchada pelo solo por onde escoa -- verdade não turvada pelo riacho lodoso da tradição. ¶
Os sábios rabinos, afamados por sua antiga erudição, ¶
bem poderiam ter aprendido com ele -- mas não quiseram aprender. ¶
Os mais sábios entre os escribas e fariseus ¶
ficaram atônitos, derrotados e envergonhados por Aquele que falou como nenhum homem, antes ou depois. ¶
Antiga era sua doutrina -- a verdade é sempre antiga -- ¶
antiga como sua fonte primeira, a Eternidade, ¶
antiga sobre a terra, desde Adão até agora. ¶
E, no entanto, pareceu-lhes nova; -- e esta foi a causa, ¶
a causa principal e primeira daquele grande crime que, na cruz, ele perdoou e absolveu. ¶
O homem -- um simples homem -- morrerá para salvar um amigo. Quem, senão um Deus, para salvar tanto inimigo quanto amigo? E ele era verdadeiramente Deus, ainda que nascido homem, Filho divinamente gerado da Divindade. ¶
Mas por que gastar palavras com aqueles judeus renegados, aqueles pseudocristãos -- falsos que se mascaram de verdadeiros? O sal pode perder o sabor -- assim é com eles -- partes indignas, que não representam o todo. Por que deter-nos nestes acontecimentos humanos? Elevemos o pensamento e o argumento a planos mais altos. ¶
JUDÁ: ¶
Amém! digo eu. E agora esclarece-me -- a mim, que sou tão obtuso -- este mistério: que necessidade tinha Israel deste Nazareno? Por que veio um Cristo, já tendo vindo o grande Moisés? E por que um Evangelho, quando a Lei já era conhecida? ¶
ELIAS: ¶
Que necessidade de Cristo -- o Senhor -- já tendo vindo Moisés? ¶
Moisés estava para Cristo como a parte está para o todo, ¶
prefácio para o livro, mero rio para o mar, ¶
e todas as dispensações do passado, ¶
quando o céu alegrou a terra com chuvas do espírito, ¶
não são senão riachos que fluem para um só Oceano. ¶
Por que separar o Evangelho da Lei -- maior e menor -- o recipiente e o que ele contém? Por que apartar Deus de seus mensageiros profetas, enviados do Alto para proclamar e realizar sua vontade, e fazer preparação para coisas mais poderosas do que jamais se conheceram entre os filhos dos homens; completando o que a manhã da criação começou, quando Deuses em glória lançaram um universo? ¶
judá: ¶
Mas Abraão -- o solene Convênio -- ¶
a sagrada promessa de Jeová aos seus: ¶
"Em ti e em tua descendência, todos os homens, todas as nações, abençoados" — ¶
foram ditas essas palavras ao vento ocioso, ¶
para que agora sejam como se nunca tivessem sido? ¶
elias: ¶
Foi Cristo quem fez convênio com Abraão -- Jesus, Jeová -- pois os dois são um; -- depois entregou-se a si mesmo para cumprir aquele convênio; e misturou seu povo com as tribos alheias da terra, para que todos -- não Israel somente -- pudessem ser abençoados, nem a menor e última das nações deixasse de participar das bênçãos derramadas por meio dele sobre o mundo, aspergido, como chuva, com seu sangue que crê; povoando os áridos ermos da incredulidade com almas que respondem ao clarim que sacode os mares, as ilhas e os continentes, e ajuntando o que fora disperso há eras. ¶
JUDÁ: ¶
Mas Moisés -- que dizer dele? Viveu ele em vão? Dizes que sua poderosa missão foi inútil? ¶
elias: ¶
Não; mas, para completar seu glorioso ministério, e ligar a parte menor à parte maior, tornando eficaz tudo o que veio antes, nesta, a última de todas as dispensações, veio ele restaurar as Chaves do Ajuntamento; para que a bandeira convocadora" de Efraim não tremulasse em vão sobre a terra de José e a de Sião, conhecidas desde antigamente pelos videntes e profetas surgidos de tua própria casa. Cujas palavras sagradas fluem através dos séculos para encontrar cumprimento nesta ampla era, onde passado e presente, pai e filho devem unir-se, a perfeição reinar, e todos serem um em Cristo. ¶
Efraim já representou seu papel, e tu não menos, no grande drama de Deus -- chamado "Maravilha e Assombro". Portanto, completa tua história, bem começada. Que fizeste para preparar o seu caminho? ¶
JUDÁ: ¶
O seu caminho! -- o dele, o carpinteiro camponês, cujo corpo, roubado do túmulo, há muito se desfez e voltou ao pó de onde veio? Concedendo, por argumento, que ele há de vir, por que eu haveria de cobrir com palmas o seu caminho terreno? Por que minha alma haveria de se preparar para sua vinda? ¶
elias: ¶
Porque ele é teu Pai e teu Amigo, ¶
porque ele é o Deus de Israel -- ¶
Salvador da humanidade, sepultado e ressuscitado, ¶
Autor e Doador da vida divina. ¶
Que fizeste tu para que ele reine sobre a terra? ¶
Silêncio? Então escolherias alguém para falar por ti, ¶
que nunca foi hostil a ti ou aos teus, ¶
mas solidário em todas as tuas dores? ¶
Pois tu suportaste o peso do martírio, ¶
tanto em terras cristãs como em terras pagãs, ¶
resistindo por longo tempo e sofrendo com paciência, ¶
enquanto raças menores te pisavam e te desprezavam. ¶
Expulso -- despojado -- torturado e calcado aos pés, ¶
bebendo o cálice amargo do Cativeiro, ¶
ainda assim, através de séculos gemebundos, dilacerados de dor, ¶
honrando o nome de Jeová, a lei de Jeová, ¶
espalhando o conhecimento do Deus vivo ¶
em meio aos santuários de Baal e Astarote. ¶
Por que foi tua mão que se tornou o instrumento de um propósito ordenado pelo céu antes que a terra começasse, pelo qual, por meio do sacrifício e da morte, veio a Vida, para resgatar e redimir um mundo caído -- nenhum mortal sabe. Só isto os homens sabem: Cristo não te rejeitou. Aquele que perdoou ainda é teu Amigo -- como o são todos os verdadeiros cristãos; pois ninguém ama a Deus que odeia o que Deus ama. ¶
Estende, nestes dias modernos, tua mão ansiosa, ¶
para reconstruir a antiga Jerusalém, ¶
para erguer de novo seus muros, tantas vezes arrasados; ¶
para reunir teus formosos filhos e filhas, ¶
e semear de fertilidade uma terra estéril; ¶
redimindo assim tua antiga herança, ¶
para que o Rei de Sião se assente no trono de Davi. ¶
Nem todos os teus filhos sustentam teus braços cansados, ¶
nem todos são Hures e Arões na luta. ¶
Convoca os teus mundanos, afastando-os do espetáculo enfeitado, ¶
onde a loucura reina e a ruína faz sua vontade. ¶
Ensina-os a desempenhar um papel melhor, mais nobre, ¶
e a caminhar contigo pela maior "Grande Via Branca". ¶
Desperta todos os que dormem sob feitiços sórdidos, ¶
ou prestam humilde homenagem a deuses de pó; ¶
ordena-lhes que tragam seu ouro e suas joias raras, ¶
seus depósitos amontoados de mercadoria preciosa, ¶
sua riqueza, como Pelion amontoado sobre Ossa, ¶
e embelezem o Lugar Santo Daquele ¶
cuja lei ainda há de sair da terra de Sião, ¶
cujo édito real, de Jerusalém. ¶
Pois Israel há de prevalecer sobre Amaleque, ¶
e reaver por completo a Terra Prometida. ¶
Ah! Judá, se pudesses ver o que Efraim vê -- teu monarca naquele humilde Nazareno, há muito simbolizado pelo cordeiro pascal tantas vezes morto, profético do Sacrifício Supremo. ¶
Quisera eu que pudesses ver o que antigos videntes discerniram, ¶
o que olhos vivificados pelo espírito podem agora contemplar -- ¶
o Messias naquele Profeta, o primeiro de todos, ¶
o Moisés de um Êxodo mais poderoso ¶
do que jamais se sonhou na erudição rabínica; ¶
Libertador de um universo cativo, ¶
em servidão aos poderes da morte e do inferno! ¶
E teu Libertador, em um dia por vir, • quando legiões hostis trovejarem às tuas portas, quando metade de tua cidade se tiver tornado despojo, como está escrito no rolo da profecia. ¶
Então verás e sentirás suas mãos feridas, então cairás e adorarás a seus pés; e todos os que lutarem contra o Deus de Jacó e de Judá serão como pó e cinzas levados pelo redemoinho, como palha voando diante do furacão. ¶
JUDÁ: ¶
Que confirmação tem esta poderosa afirmação? Como posso saber se coisas tão grandiosas são verdadeiras? Se sou cego, quem removerá as escamas de meus olhos? ¶
ELIAS: ¶
Aquele que faz o cego ver e o surdo ouvir! -- Dá ouvidos a ele e a quem quer que ele envie. Curva-te ao cetro do Filho de Deus, ao Evangelho do Altíssimo e Santo, e, por aquele Dom que tudo manifesta, verás claramente e saberás com certeza que a mensagem que Efraim te traz é divina, -- antiga e ainda nova, a Verdade Eterna, • pura, vinda da presença do Deus de nossos pais. Fresca das fontes da Eternidade. ¶
JUDÁ: ¶
Por que Efraim? Por que sua orgulhosa preeminência, ¶
erguendo-se sobre as tendas de Israel? ¶
Por que haveria a palavra dele ou a tua de determinar tudo? ¶
elias: ¶
Porque é a palavra do Deus de Israel, ¶
de quem sou servo, como de bom grado seria também teu; -- ¶
o Deus de Moisés e de Abraão, ¶
o Deus de todos os patriarcas e profetas, ¶
o Deus de Israel livre e de Israel acorrentado; ¶
Deus dos humildes e dos limpos de coração; ¶
Deus dos justos, em toda era e todo clima; ¶
o Cristo de Belém e do Calvário, ¶
o Rei dos Reis, o crucificado e coroado. ¶
Vem, cansado e sobrecarregado, ele te dará descanso, ¶
e trilharás a senda da paz, semeada de rosas. ¶
efraim: ¶
Ouve, Judá! ouve o mensageiro do Messias, dá ouvidos a mim, teu irmão e teu amigo. Já não me azeda a alma a inveja de ti, nem tua ira me perturba, como outrora. Perdoado como perdoo, limpo e livre eu estou, e fui enviado para proclamar Boas Novas. ¶
Nenhum credo feito por homens -- nenhum dogma vago, sem fundamento -- a Fé Antiga, pura, simples, doce, sublime, o Evangelho em sua plenitude de poder, o Evangelho em sua plenitude -- isto trago eu. ¶
elias: ¶
Judá! é Efraim quem chama -- ele te ama bem, estende-te a mão, o coração, para te acolher. Por que ficas à parte? Por que duvidas e hesitas? Jerusalém e Sião são uma só. Vê Jafé lançar seus navios para povoá-las! O gentio, sem o saber, serve à causa Daquele que convoca Israel para a terra de José, para os montes e vales de Judá. Contempla-os em sua fuga da perdição de Babel, carregados sobre os ombros do filisteu? ¶
Não te deixes ultrapassar em tão gloriosa corrida. Judá, levanta-te! Reveste-te de teu antigo poder, expande tua alma, amplia tua afeição; une as mãos com Efraim, e faze cumprir tudo o que os profetas e os videntes predisseram! ¶
judá: ¶
Teu discurso posso crer que foi feito com a melhor intenção, teu motivo puro, generoso e justo. Mas quem pode mudar o curso do destino? Quem anular o que o Grande Jeová decretou? É a consciência que me guia, e só o alto Céu detém a chave dessa fechadura misteriosa. ¶
Ainda assim, algo me diz que voltaremos a nos encontrar. Deus permita que seja como amigos! E, assim, adeus. ¶