Nenhum Servo do Senhor Deveria Jamais Levantar-se
Orson F. Whitney
Nenhum servo do Senhor deveria jamais levantar-se diante de uma congregação e dizer: não tenho nada em mente. Um povo que foi mandado por Deus "buscar a sabedoria dos melhores livros" — "buscar o conhecimento pelo estudo e também pela fé," deveria ter algo em mente. Tenho algo em mente, mas preciso do Espírito do Senhor para poder trazê-lo à luz, de tal maneira que alimente as almas de vocês com o pão da vida e as edifique na fé do evangelho eterno. Esse Espírito invoco agora. ¶
O Tema Central da Conferência
O tema central desta conferência, se o ouvi corretamente, foi dado pelo presidente da Igreja em seu discurso de abertura, ontem de manhã, quando ele se referiu à grande e maravilhosa obra da qual os Santos dos Últimos Dias estão participando. Desejo desenvolver esse tema. ¶
Uma Profecia e Seu Cumprimento
Foi cerca de setecentos anos antes do nascimento do Salvador que um profeta de Deus, no hemisfério oriental, predisse a vinda de "uma obra maravilhosa e um prodígio." A razão apontada para sua vinda foi dada nas palavras do Senhor, como segue: ¶
"Porquanto este povo se aproxima de mim com sua boca e com seus lábios me honra, mas afasta de mim o seu coração, * * * ¶
"Portanto, eis que prosseguirei a fazer entre este povo uma obra maravilhosa, sim, uma obra maravilhosa e um prodígio; pois a sabedoria dos seus sábios perecerá e o entendimento dos seus prudentes se esconderá." — Isa. 29:13, 14. ¶
Se vocês desejam saber quando e onde essa profecia começou a se cumprir, sigam-me pelas eras até a primavera do ano de 1820, e até os distritos rurais do Estado de Nova York, onde então vivia uma humilde família de sobrenome Smith. Um membro dessa família era um rapaz entre catorze e quinze anos de idade. Ansioso pela salvação de sua alma, o jovem Joseph Smith foi ao bosque perto da casa de seu pai, e perguntou ao Senhor qual, dentre todas as igrejas então existentes, era a verdadeira Igreja de Cristo, para que a ela pudesse se unir. Enquanto orava, foi tomado por um poder maligno, que se esforçou por destruí-lo ; mas foi libertado por uma visão de luz, no meio da qual estavam duas gloriosas personagens, uma das quais, apontando para a outra, disse: "Este é meu Filho amado — ouvi-o." ¶
Em resposta à sua pergunta sobre as igrejas, disseram ao rapaz, para seu espanto, que nenhuma delas era a verdadeira Igreja de Cristo, e que ele não deveria se filiar a nenhuma delas ; mas aguardar a vinda da verdadeira Igreja, em cuja fundação ele estava destinado a desempenhar um papel importante. Disse o Filho de Deus, a respeito das igrejas então existentes: "Aproximam-se de mim com os lábios, mas seus corações estão longe de mim;" — ligando, assim, a antiga profecia relativa à "obra maravilhosa e prodígio" à obra inaugurada por Joseph Smith nesta, a Dispensação da Plenitude dos Tempos. ¶
Maravilhas e Prodígios
E que obra maravilhosa é esta! O que poderia ser mais maravilhoso? Numa época em que, por todo o mundo cristão — sem falar do mundo pagão — supunha-se popularmente que os céus estavam fechados, e o cânon das Escrituras completo ; que visões e revelações haviam cessado, e que os anjos não mais se comunicavam com os homens — precisamente naquela época os céus se romperam, e não apenas anjos, mas o próprio Deus desce, e proclama a um pequeno rapaz de catorze anos a abertura de uma nova dispensação do evangelho! Poderia haver algo mais maravilhoso? ¶
Passam-se três anos, e um anjo aparece a Joseph, dando seu nome como Morôni, e declarando que, em sua vida mortal, foi profeta de um povo antigo chamado nefitas, os antepassados civilizados dos atuais índios americanos. Entre outras coisas, disseram ao jovem que um registro gravado em placas de ouro, compilado pelo pai de Morôni, outro profeta chamado Mórmon, seria encontrado numa colina vizinha, onde Morôni o havia ocultado séculos antes. Esse registro continha a plenitude do evangelho eterno, tal como entregue aos nefitas pelo Salvador, que os reclamava como suas "outras ovelhas" — um ramo da Casa de Israel. (João 10:16; 3 Néfi 15:21.) Aquele livro, traduzido por Joseph Smith, revela o maravilhoso passado e o futuro ainda mais maravilhoso da América, a Terra de Sião, também conhecida como a Terra de José, referida pelo Patriarca Jacó ao abençoar seus doze filhos (Gên. 49:22-26), e pelo Profeta Moisés, ao dar sua bênção de despedida às tribos de Israel (Deut. 33:13-17.) A América é mostrada como o lugar da Nova Jerusalém, uma cidade santa a ser edificada por um ajuntamento de Israel disperso, antes da vinda gloriosa do Senhor. ¶
Em seguida veio João Batista, outro anjo, que conferiu a Joseph Smith e a Oliver Cowdery o Sacerdócio Aarônico, autorizando-os a pregar o evangelho em sua pureza restaurada, e a batizar por imersão para a remissão dos pecados. E a isso se seguiu uma visitação de três outros mensageiros celestiais — a saber, Pedro, Tiago e João, que os ordenaram ao Sacerdócio de Melquisedeque, dando-lhes assim o poder de conceder aos seus conversos batizados o dom do Espírito Santo. Em virtude dessas ordenações, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi organizada em 6 de abril de 1830, em Fayette, condado de Seneca, Nova York. E assim se cumpriu a profecia de Isaías sobre o levantar do Estandarte para o ajuntamento de Israel disperso (Isa. 11:11-16.) Esse movimento foi autorizado por Moisés, que, como anjo, entregou a Joseph e a Oliver as chaves do Ajuntamento ; para que os dispersos de Judá e os desterrados de Israel — incluindo as Tribos Perdidas na "terra do Norte" — pudessem reunir-se em cumprimento da profecia — os judeus na Palestina, para reedificar a antiga Jerusalém ; as demais tribos na América, onde há de se erguer a nova Jerusalém. ¶
Elias também apareceu e conferiu a Joseph e a Oliver "a dispensação do evangelho de Abraão." Esses homens eram descendentes do grande patriarca hebreu, e deveriam iniciar uma obra que tinha por objetivo o bem-estar eterno da posteridade de Abraão. Depois veio Elias, o profeta, ¶
"para converter o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos pais," para que os mortos, bem como os vivos, pudessem participar das bênçãos da Dispensação Final, na qual, de acordo com o propósito divino, todas as coisas que são de Cristo, tanto no céu como na terra, serão reunidas em um só. ¶
Ao pregar o evangelho ao mundo e ajuntar Israel dentre as nações, os Santos dos Últimos Dias — filhos de Efraim — estão ajudando a cumprir o convênio que Jeová fez com Abraão, Isaque e Jacó: "Em ti e em tua semente serão abençoadas todas as nações da terra." Assim reza a antiga promessa — cumprida pelo próprio Jeová ao vir pela linhagem daqueles patriarcas como Salvador do mundo ; e ainda mais cumprida pela dispersão de Israel entre as nações, abençoada por essa mescla racial e pelo ajuntamento que já teve início. ¶
Estas são algumas das maravilhas ligadas à poderosa obra da qual estamos participando — a obra maravilhosa do Deus Todo-Poderoso, nesta, a última e maior das dispensações do evangelho. O que se compara a ela? Existe algo sequer pela metade tão maravilhoso? ¶
Quase Tão Maravilhoso
Sim, há algo quase tão maravilhoso — e é que os sábios deste mundo não veem nela nada digno de seu cuidado ou atenção especial. O "mormonismo," para seus devotos, é a coisa mais gloriosa que existe — o mais sublime poema já escrito, o mais profundo sistema de filosofia que o mundo já conheceu. Mas os "sábios" e "prudentes" passam por ele como coisa de nenhum valor, ou permanecem a distância, zombando dele e atirando-lhe epítetos desagradáveis. Por que é assim? ¶
Lincoln e Greeley
Por que não pôde Abraham Lincoln, aquele homem bom e grande, ver no "mormonismo" o que nós vemos nele, e o que ele realmente é — o Evangelho Eterno? Ele e Joseph Smith viveram quase a um tiro de pedra um do outro, em Illinois. Por que não reconheceu o futuro presidente, no profeta de Deus, o que os Santos dos Últimos Dias reconhecem nele — o ser humano mais notável que caminhou por esta terra em dois mil anos? Por que não pôde Lincoln vê-lo? O grande emancipador não era inimigo do povo "mórmon." Quando lhe perguntaram, depois de sua eleição à presidência, como pretendia tratar a "questão mórmon" — que incomodava tanto os políticos quanto os sacerdotes — respondeu, à sua maneira pitoresca e característica: "Pretendo tratá-la como um fazendeiro na fronteira trataria um velho tronco de olmo encharcado de água, deitado em suas terras — pesado demais para mover, nodoso demais para rachar, e molhado demais para queimar. Vou arar em volta dele." E foi o que fez. ¶
Horace Greeley, outro grande personagem, fundador e editor do New York Tribune, homem cujas palavras eram mais poderosas em seu tempo do que as do presidente dos Estados Unidos — veio a Utah nos primeiros tempos, quando o meio mais rápido de viajar entre o rio Missouri e a Costa do Pacífico era a junta de bois, a mula de carga, ou a linha de diligências de Ben Holliday. Greeley veio de diligência, e, a caminho da Califórnia, demorou-se alguns dias na Cidade do Lago Salgado. Teve repetidas entrevistas com o Presidente Brigham Young, e, num livro depois escrito e publicado, prestou grande elogio aos pioneiros e primeiros colonizadores destas solidões montanhosas. Ele não acreditava que os "mórmons" fossem ladrões e assassinos, como lhe haviam dito, e falou deles como um povo honesto e trabalhador. Mas isso foi tudo. As opiniões de Brigham Young sobre casamento e escravidão interessaram o grande editor, mas a religião "mórmon," em suas fases mais sublimes, foi para ele um livro selado. Por quê? ¶
Auxiliares de Fora e de Dentro
Bem, sem dúvida havia boas razões para isso ; e me arrisco a apresentar uma. Talvez o Senhor precise de tais homens fora de sua Igreja, para ajudá-la a avançar. Eles estão entre seus auxiliares, e podem fazer mais bem à causa no lugar onde o Senhor os colocou do que em qualquer outro. E o mesmo se aplica ao sacerdócio e a seus auxiliares dentro da Igreja. Por isso, alguns são atraídos para o rebanho e recebem um testemunho da Verdade ; enquanto outros permanecem inconversos — por ora ; ficando as belezas e glórias do evangelho temporariamente veladas à sua vista, por um sábio propósito. O Senhor abrirá seus olhos em seu próprio e devido tempo. ¶
Israel e os Gentios
Deus está usando mais de um povo para a realização de sua grande e maravilhosa obra. Os Santos dos Últimos Dias não podem fazê-la sozinhos. É demasiado vasta, demasiado árdua, para um único povo. Nossa parte nela é a maior. Temos o evangelho e o sacerdócio, com a missão de ajuntar Israel, edificar a Nova Jerusalém, e preparar o caminho para a vinda do Rei dos reis. E esse dever nos foi imposto porque pertencemos à casa de Israel. É o Deus de Israel quem vem reinar, e somos o povo certo para preparar o caminho diante dele. ¶
Mas não possuímos os navios a vapor e as ferrovias e outros meios de transporte e comunicação rápidos, pelos quais o povo do Senhor está sendo ajuntado dentre as nações — voando "sobre os ombros dos filisteus," como predisse Isaías. O Salvador ressuscitado, quando apareceu aos nefitas e falou do futuro glorioso, disse que os gentios ajudariam seu povo a se reunir em suas terras prometidas. E não é isso que estão fazendo? Não são os navios e as ferrovias dos gentios — "os ombros dos filisteus" — que estão trazendo os filhos de Efraim a esta Terra de José, e levando os filhos de Judá à sua antiga terra natal — dedicada para seu retorno por instrução do Profeta de Efraim, Joseph Smith? ¶
Não temos contenda com os gentios. Eles são, em certo sentido, nossos parceiros. O nome gentio não é, para nós, um termo de reprovação. Vem de gentilis, significando, de uma nação, uma família ou um povo que não é de Israel — nada mais. "Mórmon" é um apelido para Santo dos Últimos Dias, ¶
mas "gentio" não é um apelido. Significa simplesmente, para nós, alguém que não pertence à Igreja. Precisamos dos gentios, e eles precisam de nós, mas eles não sabem disso, e nós sabemos. Eles são mais sábios do que nós nas coisas materiais — as coisas da Terra e do Tempo. Mas quando se trata das coisas espirituais — as coisas do Céu e da Eternidade, podemos ensiná-los. Precisamos de sua riqueza e sabedoria mundana, de sua maravilhosa habilidade em administrar e manipular assuntos temporais. E eles precisam do Evangelho e do Sacerdócio. Precisam de nós, pois temos em nossas mãos a Chave para a sua salvação eterna. ¶
Repito, a Obra do Senhor precisa de auxiliares tanto de fora quanto de dentro, para ajudá-la a avançar. Por causa de sua influência mundana — que se perderia se eles se filiassem à Igreja — muitos são mantidos onde estão, onde o Senhor os colocou, e onde ele pode melhor usá-los para o bem de todos. ¶
Os Sábios e os Prudentes
Muitos anos atrás, tive uma conversa interessante com um homem que era membro da igreja católica romana. Era um grande erudito ; devia ter uma dúzia de línguas na ponta da língua, e parecia saber tudo sobre história, ciência, direito, filosofia, e todo o resto. Éramos francos e amistosos um com o outro, e certo dia ele me disse: ¶
"Vocês, 'mórmons', são todos ignorantes. Vocês nem sequer conhecem a força de sua própria posição. Ela é tão forte que existe apenas uma outra posição sustentável em todo o mundo cristão, e essa é a posição da igreja católica romana. A questão está entre o 'mormonismo' e o catolicismo. Se vocês estão certos, nós estamos errados. Se nós estamos certos, vocês estão errados, e isso é tudo. Essas seitas protestantes não têm perna sobre a qual se apoiar; pois, se estamos certos, nós as cortamos fora há muito tempo, como apóstatas ; e, se estamos errados, elas estão erradas conosco, pois eram parte de nós e saíram de nós. Se temos a sucessão apostólica de São Pedro, como afirmamos, não havia necessidade de Joseph Smith nem do 'mormonismo' ; mas, se não temos essa sucessão apostólica, então um homem como Joseph Smith era necessário, e a posição do 'mormonismo' é a única coerente. Ou é a perpetuação do Evangelho desde os tempos antigos, ou é a restauração do Evangelho nos últimos dias." ¶
"Doutor," disse eu, "essa é uma declaração muito clara e concisa, e concordo com ela em quase todos os pontos. Mas não se engane com a ideia de que nós, 'mórmons', não conhecemos a força de nossa própria posição. Nós a conhecemos melhor do que o senhor. Nós a conhecemos melhor do que qualquer outro povo pode conhecê-la. Nem todos nós fomos à faculdade, nem todos sabemos falar línguas mortas, e talvez sejamos ignorantes, como o senhor diz ; mas sabemos que estamos certos, e sabemos que o senhor está errado." Fui tão franco com ele quanto ele havia sido comigo. ¶
Ora, qual era o ponto de vista desse grande erudito? Com toda a sua erudição, ele não conseguia ver o coração do "mormonismo." Reconhecia a força de sua posição ; mas supunha que isso fosse um acidente. Pensava que Joseph Smith havia tropeçado em algo cujo verdadeiro valor não conhecia. Era sábio na sabedoria mundana ; mas sua sabedoria pereceu diante deste poderoso e maravilhoso problema. ¶
Mais um exemplo e termino. Um cavalheiro instruído, de nome Riley, requereu o grau de doutor na Universidade de Yale, e, como base de sua tese, escreveu um trabalho intitulado "Joseph Smith, o Fundador do Mormonismo." E o que ele apresentou? Simplesmente isto: que Joseph Smith era epiléptico, que caiu num ataque e imaginou que via o Pai e o Filho ; imaginou que Morôni lhe revelou o Livro de Mórmon; que João Batista lhe conferiu o Sacerdócio Aarônico, e Pedro, Tiago e João o Sacerdócio de Melquisedeque ; que Moisés restaurou as chaves do ajuntamento, e que Elias e Elias, o profeta, também lhe apareceram. Tudo imaginação, disse o Sr. Riley. ¶
Mas esse homem sábio negligenciou um fato importante: a árvore se conhece pelo fruto ; a fonte, pela corrente que dela flui. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, como sistema de governo, desafia a admiração de homens inteligentes em todo o mundo. Reconhece-se ser uma organização maravilhosa. E as doutrinas do "mormonismo" estão repletas de poesia e filosofia — são belas, gloriosas e sublimes. Joseph Smith declarou que essas coisas lhe foram reveladas — que vieram diretamente de Deus, do céu ; mas o Sr. Riley gostaria que acreditássemos que tudo brotou do cérebro doente de um rapaz de catorze anos que havia caído num ataque epiléptico! ¶
Há coisas que não precisam de resposta, e esta é uma delas. Bem se disse, nos dias de outrora, referindo-se aos dias em que vivemos: "A sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá." ¶
Só Há Um Caminho
Há apenas um caminho para entender o "mormonismo" — e é o caminho de Deus, não o do homem. Livros e escolas não podem dar um testemunho da Verdade. Aqueles que zombam do Evangelho Eterno, e lhe atiram apelidos, jamais o entenderão — a menos que se arrependam, sejam batizados, e recebam o Espírito Santo, pelo qual as coisas de Deus são manifestadas. O que Pedro disse à multidão em seu grande sermão de Pentecostes é tão verdadeiro hoje quanto quando foi dito pela primeira vez. O Evangelho não muda ; é o mesmo ontem, hoje e para sempre ; e o que era necessário para salvar uma alma há dois mil anos é necessário para salvar uma agora. Amém. ¶