Enfrentando o Tempo de Prova
Melvin J. Ballard
Estou feliz, meus irmãos e irmãs, por me encontrar em plena concordância com tudo o que foi dito nesta importante conferência, e desejo sinceramente acrescentar meu testemunho àqueles que foram dados, e falar sobre um ou dois assuntos, já mencionados, que têm pesado muito em minha própria mente por mais de um ano. Creio que esta reunião representativa dos Santos dos Últimos Dias é uma oportunidade para que as mensagens proferidas pelo Presidente da Igreja e seus associados sejam levadas, no espírito dessas instruções, às diversas estacas de Sião. ¶
Enfrentando o Tempo de Prova
Desejo ler alguns versículos da 115ª seção de Doutrina e Convênios. O Senhor disse à sua Igreja, em 1838: ¶
"Em verdade eu digo a vós todos: Erguei-vos e brilhai, para que vossa luz seja um estandarte para as nações; ¶
"E para que a reunião na terra de Sião e em suas estacas seja uma defesa e um refúgio contra a tempestade e contra a ira, quando for derramada, sem mistura, sobre toda a Terra." ¶
Tenho sentido que o Senhor tinha em mente exatamente os perigos que ameaçam o mundo e que põem em risco a fé de alguns Santos dos Últimos Dias negligentes, quando falou de encontrar um lugar de defesa para nós, um lugar onde possamos escapar não apenas dos perigos físicos que existirão no mundo, mas daquelas tempestades de caráter moral que são muito mais desastrosas para as pessoas do que a destruição ou o dano físico. Foi dito durante a conferência que, como Igreja, estamos desfrutando de um período de paz. Regozijo-me de que, depois de quase um século de luta e esforço, contendendo contra toda sorte de oposição, finalmente conquistamos o direito de existir, um direito hoje concedido pelos homens e mulheres em geral no mundo. Também se fez referência a uma condição de prosperidade que nos acompanha. Regozijo-me nisso. Não mudaria a prosperidade do povo, nem provocaria discórdia. Recebo bem a paz, ela nos dá uma oportunidade melhor de levar nossa mensagem aos filhos dos homens. Mas a coisa com que estou preocupado não é tanto o que o mundo pensa de nós neste momento, quanto nossa própria condição no que se refere a guardar os mandamentos de Deus e como enfrentar os perigos que estão diante de nós. Não sou pessimista, e ainda assim, vendo e sentindo as coisas com muita clareza, quero ser um daqueles vigias sobre as torres de Sião, com meus irmãos, que detectam a tempestade que se aproxima e dão um justo aviso, apontando não apenas o perigo, mas o caminho para evitá-lo. Portanto, sinto que provavelmente chegamos, na Igreja, neste período de nossa paz e prosperidade, a um tempo de prova para nós. Se lerem a história do passado, nenhuma dispensação do evangelho jamais teve tanta dificuldade para se manter quanto durante o período de sua própria paz e prosperidade. De fato, não há dispensação do evangelho que ainda tenha sobrevivido à sua paz e prosperidade. No tempo de sua aflição, o povo estava unido, e ficava ombro a ombro, suportava todas as coisas, guardava a fé e morria pela fé. Digo, não sou pessimista, nem creio que perderemos a fé, nem creio que os perigos que nos ameaçam nos hão de subjugar, e ainda assim tenho consciência de que a mera filiação a esta Igreja não salvará um homem ou uma mulher. Será necessário algo mais. Apego-me tenazmente à promessa feita por meio do Profeta Daniel, conforme o Senhor o inspirou, olhando para o nosso próprio período de tempo e predizendo o surgimento desta Igreja, tão insignificante quanto era, como uma pedra cortada do monte sem mãos, mas que rolará até encher toda a terra, e não será deixada a outro povo, nem falhará. Tenho consolo nisso; tenho uma confiança inabalável de que, quaisquer que sejam as dificuldades, a maioria deste povo há de sobreviver mesmo a este perigo, e que demonstraremos aquilo que ainda não foi feito; a saber, manter a verdade e defendê-la tanto na paz quanto em tempos de aflição, e que a obra prosseguirá vitoriosamente até que Cristo venha recebê-la, e que ela rolará até encher toda a terra, pois é a última dispensação e não falhará. Mas muitos de nós podemos falhar. Esse é o meu temor, essa é a minha ansiedade. ¶
As Tentações da Paz e da Prosperidade
No tempo de nossa paz e prosperidade, podemos ser tentados a ser indulgentes conosco mesmos. Em todo o mundo, creio haver um espírito crescente, até mesmo no coração de muitos líderes, de se tornar descuidado, de se tornar mais ou menos acostumado à nova ordem de coisas que prevalece. Isso, afinal, é o mais ameaçador para a vida, para a paz do povo e para a estabilidade até mesmo dos próprios governos. A afirmação de um poeta ainda é verdadeira: ¶
"O vício é um monstro de aspecto tão pavoroso, Que, para ser odiado, basta ser visto; Mas, visto com demasiada frequência, familiarizado com seu rosto, Primeiro o toleramos, depois nos apiedamos, depois o abraçamos." ¶
Saímos do mundo para escapar dos males do mundo, mas, como acaba de ser observado, essas condições do mundo chegaram até nós. Somos parte do mundo, e as influências do mundo e as práticas do mundo naturalmente terão seu efeito sobre a vida dos Santos dos Últimos Dias. Será possível que nós mesmos estejamos vendo tanto dessas coisas que, cem anos atrás, quando esta Igreja foi trazida à existência, teriam nos chocado; a atual condição moral, a frequência do divórcio, e muitas práticas comuns que são proclamadas por todo o nosso país e que teriam sido revoltantes então — será possível que esses vícios tenham sido vistos por nós tantas vezes que até mesmo alguns de nós comecem a sentir-se um pouco insensíveis e quase a piscar o olho para eles? Espero que não. Creio que este corpo de pessoas aqui reunido não tem tal sentimento de comprometer-se ou tolerar o mal. Somos tolerantes com o pecador, mas não podemos olhar para o pecado com o mínimo grau de permissividade; e ai do homem ou da mulher, do líder nas alas ou estacas ou em qualquer outro lugar, entre os jovens, que possa piscar o olho para o pecado e comprometer-se com ele! ¶
A Tendência à Indulgência e ao Relaxamento
Ai daquele que contribui para o estabelecimento ou a perpetuação de um estado ou condição que contribui para a delinquência, para o pecado, para a transgressão de rapazes ou moças ou homens ou mulheres. Quanto a nós, permanecemos firmemente contra a imoralidade; e permitam-me dizer a vocês, meus irmãos e irmãs, que a coisa culminante que há de resultar dessa tendência à indulgência, ao relaxamento, é a imoralidade, e a imoralidade é a praga do mundo hoje, e essa praga está nos ameaçando por todos os lados, se é que já não está se infiltrando no meio dos Santos dos Últimos Dias. Portanto, aos nossos padrões, homens de Israel, que nos ensinam a considerar a virtude tão preciosa quanto a própria vida, e que preferiríamos morrer a perder nossa virtude. Não há cessação por parte do inimigo contra esta obra. Embora ele possa não estar conspirando para mover multidões contra nós, nem para induzir homens a nos aniquilar, ele está entre o povo com novos meios e formas, atraindo-os suavemente a pecar um pouco, a mentir um pouco e a roubar um pouco, e a fazer outras coisas com a promessa: Serão açoitados com poucos golpes, mas ficarão bem. É a doutrina do diabo, destinada a conduzir os homens suavemente para baixo, para o inferno, e não podemos ser ignorantes disso, nem indiferentes a isso. ¶
Um Aviso e um Pré-Aviso
Quando o Senhor deu a Palavra de Sabedoria, usou esta linguagem no 4º versículo da 89ª seção de Doutrina e Convênios: ¶
"Eis que, em verdade, assim vos diz o Senhor: Devido a maldades e desígnios que existem e virão a existir no coração de homens conspiradores nos últimos dias, eu vos adverti e previno-vos, dando-vos esta palavra de sabedoria por revelação —" ¶
O Senhor sabia o que estava por vir. Ele já sabia desde os tempos de Daniel. Podia dizer às nações o que haveria de surgir. Sabia os tempos da vinda dos homens. Conhecia suas habitações e suas limitações, e podia predizê-las. Deus sabia, quando falou ao Profeta Joseph Smith, aquilo que haveria de vir: "Sabendo," disse ele, "a calamidade que viria sobre a terra." Falou a Joseph Smith e, por meio dele, enviou um aviso a todo o mundo sobre o perigo que ameaçava e ofereceu o meio de escapar. Mas o Senhor é muito semelhante a um pai terreno. O que pode um pai terreno fazer por seus filhos e filhas adultos, além de ensiná-los sobre o perigo? Ele não pode resgatá-los contra a vontade deles, se estiverem determinados a pecar e a transgredir a lei de Deus e do homem. Em breve virão a estar presos e encarcerados, e sujeitos à execução da lei, e, quando o juiz proferir sua decisão, poderá ser anos ou uma vida de prisão, ou até mesmo a execução do próprio homem. O pai estaria disposto a dar sua vida para salvar o filho, mas não pode fazê-lo, nem pode cancelar o julgamento do tribunal, nem deixar de lado a majestade da lei. Assim é com o nosso Pai Celestial. Tudo o que ele pode fazer é nos advertir, apontar o perigo, mostrar-nos o caminho de escape, e, quando resistimos a ele, tudo o que fazemos é amarrar as mãos de Deus. Falamos de amarrar o diabo, e o diabo será amarrado e não terá poder sobre nós quando lhe resistirmos, mas podemos resistir ao Senhor da mesma maneira, e assim amarrar as suas mãos, de modo que ele nada possa fazer por nós, pois ele próprio é governado pela lei, não pode pôr de lado a majestade da lei eterna, nem salvar os homens em seus pecados. Na 88ª seção do Livro de Doutrina e Convênios lemos: ¶
"E também, em verdade vos digo que o que é governado pela lei é também preservado pela lei e é por ela aperfeiçoado e santificado. ¶
"Aquilo que transgride uma lei e não obedece à lei, mas procura tornar-se uma lei para si mesmo e prefere permanecer no pecado, nele permanecendo inteiramente, não pode ser santificado por lei nem por misericórdia, justiça ou julgamento. Portanto, permanece imundo ainda." ¶
De modo que Deus fica impossibilitado no caso de um homem ou mulher, dentro ou fora desta Igreja, que lhe resiste e que não obedecerá à lei. ¶
A Palavra de Sabedoria Dada para Nos Fortalecer
Ora, o Senhor nos deu a Palavra de Sabedoria para nos fortalecer contra as tentações da atualidade, dando-nos o poder de resistir, sabendo que o homem ou a mulher que quebra a Palavra de Sabedoria e usa tabaco, chá e café enfraquecerá sua estabilidade moral. De modo que, neste outro período que agora chegou, de outra tentação que leva a pecados e imoralidades mais graves, o indivíduo já debilitou seu ânimo, sua vontade e seu poder de resistir, apesar de o que faz ser contrário à vontade de Deus, e já perdeu o poder de resistir quando vêm tentações maiores. Deus estava nos temperando, nos armando e nos fortalecendo contra a praga que atualmente nos ameaça. ¶
Sobre o Casamento e o Divórcio
Um artigo recentemente publicado em uma de nossas revistas afirmava que o índice de divórcios está crescendo tão rapidamente que, se continuar no mesmo aumento em proporção aos casamentos, no ano de 1936 haverá tantos divórcios por ano quanto casamentos nos Estados Unidos. O que isso fará ao mundo ou aos Estados Unidos? Destruirá a vida familiar, e, quando a vida familiar for rompida e destruída, o governo estará em perigo. A obra de Deus só pode avançar por meio de homens e mulheres, na Igreja e no estado, que observem a santidade da relação matrimonial. Lado a lado conosco, neste e em outros estados da união, encontramos forças que tendem à destruição da vida familiar. Na Rússia e em outros lugares há uma grande rebelião, inspirada pelo bolchevismo, que ensina a doutrina de companheirismo no casamento que pode ser mudada e alterada à vontade, e que os filhos são propriedade do estado. Quando essas doutrinas se espalham, qual é o antídoto para elas? É o evangelho do Senhor Jesus Cristo. Os Santos dos Últimos Dias têm aquilo que os ensina a se prepararem para entrar em lugares santos, e, sobre altares sagrados, receberem uns aos outros pela autoridade que liga na terra e é ligada no céu, em companheirismo como marido e mulher, pais e filhos, para o tempo e toda a eternidade. Nenhum planejamento de divórcio aqui em nossas próprias fileiras. A evidência da segurança no plano de Deus se manifesta, pois há o dobro de divórcios entre nosso próprio povo que se casa fora do templo do que entre aqueles que entram neste lugar santo e recebem uns aos outros neste laço de união que começa a planejar e a construir para sempre e para sempre, e nosso índice de divórcios é 1/5 do deste país. Se quisermos escapar da praga do divórcio, se quisermos escapar da destruição da vida familiar — e, quando isso se vai, a fé se vai, e virão rapidamente outros perigos em seu rastro, até que sejamos ameaçados com a destruição de nossa civilização — devemos preservar o alicerce sobre o qual repousa a vida familiar, as uniões eternas. Podemos ser criticados como estreitos e intolerantes por alguns de nossos amigos de fora, mas defendemos aquelas coisas que são fundamentais. Sempre as defenderemos, e nos recusamos a ser absorvidos pelos padrões mundiais atuais; esperamos ser vitoriosos na defesa do que é nosso. E, mostrando pela vida dos Santos dos Últimos Dias os frutos dessas coisas, isso há de despertar seguramente, no coração de homens justos, a consciência de que aqui no "mormonismo" há estabilidade, uma estabilidade que salvará os homens, salvará a família, salvará o lar, salvará a nação. ¶
Nosso Maior Bem São Nossos Rapazes e Moças
Quando o Irmão Pratt e eu estávamos na América do Sul, apresentamos fotografias das realizações da Igreja, e eu disse ao Irmão Pratt, e o tenho dito muitas vezes desde então, que nosso maior produto não é nossa prosperidade material. O que eu queria era uma fotografia de dezenas de milhares de rapazes e moças "mórmons," e nós os temos, que guardam a Palavra de Sabedoria, que nunca usaram chá, café ou tabaco, que são tão puros, tão limpos e imaculados quanto os anjos de Deus. Eu jamais teria encontrado o equivalente a esses rapazes e moças em qualquer outra parte do mundo, embora tivesse observado casos individuais, mas não em grupos comunitários como podem ser encontrados aqui, o produto desta Igreja. De modo que minha alma se volta hoje para eles com simpatia, diante de condições que são estranhas e novas. Eles precisam de nós. Há agora uma luta que exigirá a mais estreita cooperação por parte dos líderes com seu povo, por parte dos pais e das mães para com seus filhos e filhas. Não é de admirar que o Senhor tenha dito que, sem este princípio, que une pais e filhos uns aos outros pelo tempo e por toda a eternidade, o voltar não apenas dos corações dos vivos para os mortos, mas também dos filhos vivos para seus pais terrenos, numa união que preservará a família — toda a terra seria completamente desperdiçada. A grande coisa salvadora no mundo hoje é este princípio sobre o qual se estabelece a vida familiar nesta Igreja. ¶
Testemunho
Agora, que o Senhor nos abençoe, irmãos, para que voltemos para casa com um interesse desperto pelos novos problemas que surgiram, com a consciência de que o povo, ao qual o Irmão Stephen L. Richards acaba de se referir, que está em perigo e em risco por não guardar os mandamentos de Deus, para que possamos reavivar o interesse deles nestes princípios simples e, no entanto, todos importantes e salvadores. Eles são a única esperança do mundo e a única esperança desta Igreja. Sei que Deus está conosco. Não estamos no escuro. A luz está no navio; o capitão é inspirado. Ele sabe para onde vai. Deus está ao leme, e as tempestades podem soprar, podem tornar-se furiosas, mas eu declaro a vocês, como o Senhor vive, que, se os Santos dos Últimos Dias apenas guardarem seus mandamentos e aceitarem o plano que ele ofereceu, Deus está comprometido; sua promessa se cumprirá, sairemos vitoriosos e seremos muito mais notáveis do que somos hoje, se pudermos apenas suportar a tempestade que ameaça. Deus nos ajude a fazê-lo, eu peço, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶