Nos poucos minutos que são meus para
Orson F. Whitney
Reunião da Tarde
A reunião começou às 2 horas no Tabernáculo. ¶
O Presidente Heber J. Grant presidiu. ¶
O coro e a congregação cantaram: "Agradecemos-te, ó Deus, por um profeta." ¶
A oração foi proferida pelo Élder Lewis R. Anderson, presidente do templo de Manti. ¶
Um solo de barítono foi cantado por Wm. H. Russell: "Abri as portas do templo." ¶
Nos poucos minutos que são meus para ocupar, gostaria de dizer algo para o benefício especial do estranho que está entre nós -- algo que talvez o ajude a uma compreensão melhor do que possivelmente ele agora possui daquilo que o mundo chama de "mormonismo". Isso também pode servir de lembrete aos Santos dos Últimos Dias, especialmente aos membros mais jovens ou menos experientes da Igreja. ¶
Um Erro Comum
O erro mais comum em relação ao "mormonismo" é a noção de que se trata de uma religião nova, e que se originou com Joseph Smith no século dezenove. Aqueles que sustentam essa visão, e permitem que ela limite sua compreensão do assunto, jamais entenderão corretamente o "mormonismo". ¶
Pela seguinte razão: estão considerando apenas uma parte dele -- uma parte muito importante, é verdade, mas ainda assim apenas uma parte; e sua compreensão dela é necessariamente imperfeita, já que algum conhecimento do assunto em sua totalidade é essencial para uma compreensão completa de qualquer parte dele. ¶
O Verdadeiro Título
A única coisa nova a respeito do "mormonismo" é o apelido que agora ele carrega. Seu verdadeiro título é "O Evangelho Eterno" (Apocalipse 14:6), o evangelho de Jesus Cristo. Ele não se originou com Joseph Smith, nem com nenhum outro homem. Não é produto da sabedoria humana. É de origem divina. Foi instituído nos céus antes que a terra fosse formada, como o meio de elevação e progresso para "as inteligências menores", em meio às quais o Grande Criador se encontrou no princípio, e que se tornaram seus filhos e filhas, primeiro em espírito e depois na carne. ¶
A Antiguidade do Evangelho
É o evangelho de Cristo, mas não fez sua primeira aparição neste planeta na época da crucificação de Cristo. Embora parecesse novo àquela geração, que ficou "espantada com sua doutrina", na realidade era mais antigo do que todas as eras, mais antigo do que a própria Terra, e havia sido dado ao homem repetidas vezes antes de qualquer pregação dele pelos antigos apóstolos. Era, então, um evangelho restaurado, assim como é um evangelho restaurado agora, e havia sido revelado por Deus, desde a Eternidade, bem no princípio do Tempo. ¶
O Mecanismo e o Poder
O evangelho é mais do que um código de leis e ordenanças, uma personificação de princípios eternos, à obediência dos quais deve preceder a entrada na Igreja e no Reino de Deus. O mecanismo é uma coisa; o poder que move o mecanismo é outra. Deus é o autor e doador de ambos. A autoridade divina, a autoridade do Sacerdócio, vem com o evangelho, para tornar operantes, para o homem, suas leis e ordenanças e os princípios eternos dos quais é composto. Os dons do Espírito Santo também são necessários -- imperiosamente necessários, a fim de tornar eficaz o grande plano de salvação, exaltação e glória eterna. A fé, o arrependimento, o batismo e o dom do Espírito Santo são partes indispensáveis do mecanismo celestial; mas de que adiantariam, se o poder não fosse ligado? ¶
A queda do homem e a redenção do homem da queda são princípios básicos do plano divino -- os próprios alicerces sobre os quais ele se assenta. Se Adão não tivesse caído, não se tivesse tornado mortal e sujeito à morte, ele e seus descendentes não estariam em condições de se valer dos poderes elevadores do evangelho. Em outras palavras, o espírito não teria tido corpo, e, por conseguinte, seria incapaz de exaltação. E se Cristo não tivesse morrido para redimir a humanidade, o mecanismo para a elevação do homem teria parado, e a morte teria sido perpétua. Tudo o que veio antes teria sido em vão. Adão caiu para nos dar vida mortal. Cristo morreu para nos dar vida eterna. ¶
As Dispensações
Há apenas um evangelho, mas há muitas dispensações do evangelho -- como são chamados aqueles períodos em que Deus falou ao homem e revelou estes princípios salvadores, estes poderes exaltadores. O "mormonismo", como é comumente entendido, representa a restauração do evangelho nesta Dispensação dos Últimos Dias. Mas isso não é tudo. Ele representa o próprio evangelho em todas as dispensações, antigas e modernas. ¶
Quantas dispensações existem, não sei. Mas isto eu sei: qualquer que seja o número delas ou os nomes pelos quais possam ser propriamente conhecidas, todas estão inter-relacionadas, são elos de uma grande corrente, partes de um todo vasto; e cada uma, desde o princípio, preparou o caminho para a sua sucessora, a dispensação que a seguiria. Antes de terminar, espero apontar algumas dessas relações. ¶
A importância relativa dessas dispensações não deve ser medida pelos breves relatos dados a respeito delas na Bíblia. Aquele registro sagrado destinava-se a enfatizar a história e a missão da Casa de Israel, por meio da qual viria o Salvador do Mundo. Outras coisas de importância vital são apenas mencionadas de passagem. A Bíblia apenas insinua a existência da Terra de Sião, a visita do Salvador aos nefitas, e os grandes acontecimentos que haveriam de ocorrer sobre este chão escolhido. ¶
Joseph, o Profeta
Falando de Joseph Smith. Há aqueles que pensam que o adoramos. Não o fazemos. Nós o amamos e reverenciamos sua memória. Ele foi profeta de Deus -- esse é o nosso testemunho a respeito dele; e ele está à frente desta, a última e maior das dispensações do evangelho -- esse é o seu lugar próprio. Ele nunca reivindicou nada além disso. Por que deveríamos reivindicar isso por ele? ¶
Às vezes se alega que lhe atribuímos uma posição ao lado de Jesus Cristo. Não conheço fundamento para tal afirmação, nem para tal crença; e estou razoavelmente bem familiarizado com a história, as doutrinas e as revelações divinas da Igreja. O próprio Joseph testifica que Adão está ao lado de Cristo, e Noé ao lado de Adão, no Sacerdócio. ¶
A Presidência de Adão
Joseph Smith também declara que Adão preside sobre todas as dispensações do evangelho, incluindo esta, a Dispensação da Plenitude dos Tempos. Cada uma tem sua própria autoridade presidente imediata; mas o grande cabeça da família humana, o príncipe e patriarca de nossa raça, preside sobre todas elas. ¶
Deseja-se uma ilustração? Temos uma bem à mão. O Presidente Heber J. Grant, atual cabeça visível da Igreja, em virtude de sua presidência geral, preside sobre todas as estacas de Sião, sobre todas as nossas missões externas, sobre todas as organizações e instituições da Igreja; e, no entanto, cada uma delas tem, sob ele e aqueles associados a ele, seu próprio cabeça local, sua própria autoridade presidente imediata. Da mesma forma, o Pai Adão preside sobre todas as dispensações do evangelho. ¶
O Sacerdócio
Joseph Smith, em um grande discurso sobre o Sacerdócio, diz: ¶
"O Sacerdócio foi dado primeiro a Adão; ele obteve a Primeira Presidência, e reteve as chaves dele de geração em geração. * * * O Sacerdócio é um princípio eterno. * * * As chaves têm de ser trazidas do céu sempre que o Evangelho é enviado. Quando são reveladas do céu, é pela autoridade de Adão." (History of the Church, vol. 3, pp. 385-386.) ¶
Adão foi o primeiro na terra a receber o evangelho e a exercer os poderes do Sacerdócio. Por meio dele, foi redimido da morte sem fim; e ensinou a seus filhos essas verdades e as transmitiu à posteridade. ¶
Foi decretado pelo Todo-Poderoso, nos dias de Adão, que o evangelho "deveria estar no mundo até o fim dele". Como se pode harmonizar isso com a ideia e a necessidade de restaurações do evangelho? Desta forma: o evangelho, por causa da indignidade do mundo, foi retirado em certas ocasiões, deixando apenas uma iluminação parcial para guiar a humanidade. Mas essas retiradas foram apenas temporárias. Sempre que as condições se tornaram favoráveis, e os propósitos do Senhor o exigiram, a plenitude da Verdade foi restaurada -- trazida de volta novamente; -- e, por meio dessas repetidas restaurações, formando uma cadeia contínua de dispensações, o Todo-Poderoso cumpriu seu decreto, de que o evangelho "deveria estar no mundo até o fim dele". ¶
O Ancião de Dias
Diz Joseph Smith: "Vi Adão no Vale de Adão-ondi-Amã. Ele reuniu seus filhos e os abençoou com uma bênção patriarcal." Essa visão era, é claro, retrospectiva, referindo-se ao tempo em que Adão habitou sobre a terra. Em outro lugar, o Profeta se refere ao mesmo incidente nestas palavras: ¶
"Três anos antes de sua morte, Adão chamou Sete, Enos, Cainã, Maalalel, Jarede, Enoque e Matusalém, todos sumos sacerdotes, e também o restante de sua posteridade que era justa, ao vale de Adão-ondi-Amã; e lá lhes conferiu sua última bênção. * * * E Adão levantou-se no meio da congregação; e embora curvado pela idade, estando cheio do Espírito Santo, predisse tudo que sucederia a sua posteridade, até a última geração." (History of the Church, Vol. 3, p. 388; Doutrina e Convênios 107:53-56.) ¶
Isso, por si só, indica um relacionamento entre a dispensação de Adão e a nossa. Mas há mais no mesmo sentido. O mundo ainda não viu a última de Pai Adão. Ele há de vir novamente -- vindo como o Ancião de Dias, para cumprir a profecia de Daniel a seu respeito. E ele virá exatamente ao lugar onde, curvado sob o peso de seus nove séculos (os homens guardavam a Palavra de Sabedoria naqueles dias), abençoou sua posteridade antes do fim de sua carreira terrena. No Vale de Adão-ondi-Amã, hoje no oeste do Missouri, quase ao alcance de um chamado do antigo local do Jardim do Éden, onde a Nova Jerusalém há de erguer-se, ali se assentará o Ancião de Dias, aconselhando seus filhos dignos e preparando-os para a segunda vinda do Filho de Deus. ¶
Um Relacionamento Estreito
A poderosa bênção de Adão sobre sua posteridade, prevendo a história da raça humana -- a mais poderosa bênção patriarcal já dada -- tomada em conjunto com seu prospectivo retorno ao meio de seus descendentes justos, precisamente no local onde deu sua bênção de despedida e proferiu sua maravilhosa e reveladora profecia, mostra um relacionamento muito estreito entre a primeira e a última das dispensações do evangelho. ¶
Enoque e Sião
E quanto a outras dispensações do evangelho? E quanto a Enoque, o sétimo a partir de Adão na sucessão patriarcal? E quanto a ele e a seu período? Não foi profético a respeito de nossos dias -- simbólico da edificação de Sião nesta dispensação? O que se diz de Enoque e de sua cidade, santificada pela Lei da Consagração, sem a qual não pode haver Sião, e, consequentemente, nenhuma vinda de Cristo? Diz Moisés: "E o Senhor chamou seu povo de Sião, porque eram de um só coração e de uma só mente, e viviam em retidão, e não havia pobres entre eles." ¶
Tal condição há de existir novamente, e o Senhor virá novamente, como prometeu: ¶
"Como eu vivo, assim virei nos últimos dias, nos dias de iniquidade e vingança. * * * E retidão enviarei dos céus, e verdade farei brotar da terra, para prestar testemunho do meu Unigênito; e retidão e verdade farei varrerem a terra como um dilúvio, a fim de reunir meus eleitos dos quatro cantos da terra, em um lugar que prepararei, uma Cidade Santa, para que meu povo cinja os lombos e anseie pelo tempo da minha vinda; pois ali estará meu tabernáculo, e chamar-se-á Sião, uma Nova Jerusalém. ¶
"E o Senhor disse a Enoque: Então irás com toda a tua cidade encontrá-los lá; e recebê-los-emos em nosso seio e eles ver-nos-ão; e debruçar-nos-emos sobre seu pescoço e eles debruçar-se-ão sobre nosso pescoço; e beijar-nos-emos uns aos outros; e lá será a minha morada e será Sião, a qual sairá dentre todas as criações minhas; e pelo espaço de mil anos a Terra descansará." (Pérola de Grande Valor, Moisés 7:60-64.) ¶
Em outras palavras, a Sião de Enoque prefigurava a Sião dos Últimos Dias, com a qual está destinada a fundir-se. E não apenas Enoque, mas todos os patriarcas, profetas e apóstolos que viveram na Terra desde o princípio do Tempo, virão com Cristo "quando o Senhor trouxer novamente Sião". ¶
Como Foi, Assim Será
Noé, cujo outro nome é Gabriel, o Anjo da Ressurreição -- como poderíamos passar sem ele? Ele detém as chaves para nos trazer da sepultura. Ele é um de nossos antepassados. Seus três filhos repovoaram a terra depois do Dilúvio; Sem povoou a Ásia; Cam, a África; e Jafé, a Europa. Nós descendemos de Sem, por meio de Abraão e da Casa de Israel, embora misturados com os filhos de Jafé, os gentios. ¶
Nos dias de Noé, "um véu de trevas" cobria a terra; e, segundo a revelação, uma condição semelhante há de caracterizar o Último Dia, assim prefigurado. A parte espiritual dessa profecia já se está cumprindo agora. Que poderia ser mais escuro, espiritualmente falando, do que "a densa escuridão" que cobre o mundo moderno em relação às coisas de Deus? Debatendo-se -- debatendo-se -- como cegos entre as ondas, sem saber nadar, nem em que direção fica a praia! Tal é a situação até dos mais sábios entre eles. ¶
"Como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do Homem" -- assim está escrito a respeito dos dias de Noé. E foi o Filho do Homem, embora eu prefira chamá-lo Filho de Deus, quem o disse. Batizada com água nos dias de Noé, a terra ainda há de ser batizada com fogo e com o Espírito Santo. ¶
Abraão e o Convênio
Nosso relacionamento com Abraão, já toquei nesse assunto. Estamos entre seus descendentes, e de fato tomamos parte no cumprimento da promessa feita a ele por Jeová, de que em sua semente seriam abençoadas todas as nações da terra. Não estamos abençoando as nações ao levar-lhes o evangelho, e ao administrar suas sagradas ordenanças pelos vivos e pelos mortos? O grande cumprimento desse convênio está no próprio Jeová, que veio pela linhagem de Abraão, para ser o Salvador do mundo. Mas um cumprimento parcial está na dispersão mundial dos filhos de Abraão, Isaque e Jacó, o sangue de Israel, o sangue que crê, complementado pelo ajuntamento atual de Israel, cujo direito é preparar o caminho diante do Deus de Israel que vem para reinar. ¶
Missão do Cristo
Cristo redimiu toda a humanidade, "pisando sozinho o lagar"; mas a Casa de Israel preparou o caminho para sua vinda, e deu continuidade à obra que ele começou. Isso é especialmente verdadeiro a respeito dos profetas que predisseram seu advento, e dos apóstolos que pregaram seu evangelho a judeus e gentios. Nem se deve esquecer os apóstolos modernos, setentas e élderes que agora pregam o evangelho aos gentios, e em breve o levarão aos judeus. ¶
Ninguém, espero, associa a poderosa missão do Salvador apenas à época em que ele foi crucificado. Isso foi apenas uma parte dela. A morte no Calvário não foi mais o fim dessa carreira divina do que o nascimento em Belém foi seu início. A missão do Salvador é universal, estendendo-se da eternidade ao tempo e de volta à eternidade novamente. Todas as eras do passado, todas as dispensações do evangelho, desde Adão até Joseph Smith, são partes da missão que tudo abrange do Redentor do mundo. É tudo obra de Cristo, desde a hora de sua eleição nos Conselhos Eternos, até o Reino Milenar, durante o qual ele há de santificar a terra e prepará-la para a glória celestial. ¶
A Dispensação Mosaico-Judaica foi apenas preparatória para a Dispensação Cristã; e a Dispensação Cristã foi precursora da Dispensação da Plenitude dos Tempos. Elas estão interligadas, e não devem ser consideradas de forma mais independente e separada do que as histórias dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, do Império Romano, e das nações-mãe que as precederam. Todas são partes de um todo estupendo. ¶
As primeira e segunda vindas do Salvador se complementam. Como Cordeiro então; como Leão agora; não mais para ser sacrificado, mas para ascender ao Trono de Davi e reinar sobre a Casa de Israel para sempre. Foi para preparar o caminho diante do glorioso advento do Rei dos reis que o profeta, revelador e vidente de Deus, Joseph Smith, foi levantado, ou melhor, enviado, para desempenhar seu nobre papel na cena final do grande Drama das Eras. ¶
E isso é o "mormonismo", o evangelho eterno, o vínculo que une o presente e o passado, os filhos e os pais; que une todas as dispensações do evangelho, todas as coisas que são de Cristo, tanto no céu quanto na terra. Não é um crescimento terreno. Não é de plantio humano. Suas raízes estão fincadas na eternidade, e seus ramos têm dado fruto através de todos os séculos do tempo. ¶
Bem poderia o Irmão Nibley dizer, como disse ontem: "O que tem o mundo a oferecer em seu lugar?" ¶