Palavras
Andrew Jenson
Daqui a apenas três anos e meio, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias completará cem anos. Tem sido, e é, uma organização das mais notáveis. Nunca houve outra igual a ela na face da terra. Não precisamos comparar a Igreja à qual pertencemos com nenhuma das assim chamadas igrejas cristãs de hoje, no que diz respeito a membros e progresso, mas podemos consistentemente compará-la com outras dispensações que o Senhor estabeleceu sobre a terra para a salvação da humanidade; e particularmente sentimos prazer em compará-la com a Igreja que foi organizada há mais de mil e oitocentos anos pelo próprio Salvador e seus apóstolos. Também podemos traçar comparação entre a Igreja à qual pertencemos e a Igreja organizada entre os nefitas por volta da mesma época em que a Igreja foi organizada no que chamamos de velho mundo. Mas a história da Igreja Nefita é muito breve. E o mesmo pode ser dito da história da Igreja original organizada na Palestina, ou na Ásia. ¶
Há algumas comparações nas quais às vezes penso. Jesus tinha trinta anos quando começou a pregar. Até aquele momento temos muito pouco conhecimento sobre o que ele fez. Joseph Smith tinha vinte e cinco anos quando, como instrumento nas mãos do Senhor, organizou a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em 1830. Depois de cem anos passados desde a época em que Cristo iniciou seu ministério, encontramos (ao consultarmos os historiadores daquele tempo, como Mateus, Marcos, Lucas e João, os Atos dos Apóstolos e os escritos do historiador Eusébio, que escreveu a história dos primeiros 325 anos da assim chamada igreja cristã) que restava muito pouco da igreja original. É uma coisa estranha que isso tenha acontecido, mas foi indubitavelmente na providência do Senhor. Antes que o primeiro século daquela dispensação tivesse passado, todos os apóstolos haviam sido mortos, exceto João; outros líderes da igreja também haviam ido ao seu descanso, a maioria deles caindo como mártires pela verdade, pois aquele foi um tempo de martírio. João, que não provou a morte, como entendemos, foi o único apóstolo que restou. Assim, ao final de cem anos desde que Cristo começou seu ministério na Galileia, a grande maioria das pessoas que pertenciam à igreja original havia falecido, seja por morte natural, seja por terem caído como mártires, seja por terem apostatado. A queda tornara-se tão universal durante a última parte do primeiro século da era cristã, que quase ninguém, digno de menção, permanecia professando o verdadeiro evangelho de Jesus Cristo quando o século terminou. Falsas doutrinas haviam sido introduzidas na igreja, e a apostasia, que fora predita por Paulo e outros, de fato havia se cumprido. ¶
É diferente com a dispensação a que pertencemos. Quando esta Igreja completar cem anos, os historiadores poderão registrar que ela nunca esteve mais forte nem seu número de membros mais numeroso. Podemos julgar facilmente a condição da Igreja daqui a três anos e meio. No momento atual, podemos dizer que a Igreja nunca teve tantas estacas de Sião organizadas quanto tem agora, e nunca antes tantas alas episcopais, nem tantos campos missionários ao mesmo tempo; isto é, se fizermos exceção de algumas missões temporárias estabelecidas nos primeiros dias da Igreja; mas, considerando tudo, a Igreja à qual pertencemos nunca teve uma existência mais próspera do que tem no momento presente, quando nos referimos aos milhares de nobres homens e mulheres que a compõem. Podemos lamentar que existam alguns membros fracos, que não são tão fiéis ao evangelho de Jesus Cristo quanto poderiam ser, mas há um número suficiente de homens e mulheres fiéis, tanto jovens quanto idosos, para justificar minha afirmação; a maioria dos membros desta Igreja seria uma honra para qualquer comunidade. Isso realmente deveria provar a todos que temos dado bons frutos, e que nossas ações agora estão sendo copiadas por muitas pessoas do mundo que lidaram com organizações menos bem-sucedidas que a nossa. ¶
Uma coisa é fazer história, outra coisa é escrevê-la. Se não fosse pelos escritores que mencionei, que pertenceram à Igreja original, o que os atos de Cristo significariam para nós? Praticamente nada saberíamos de suas atividades. As doutrinas que ele ensinou teriam ficado escondidas em mistério e conjecturas. Por exemplo, se Mateus, ou algum outro historiador, não tivesse registrado o Sermão da Montanha, não teríamos aquela esplêndida exposição de verdades do evangelho. E se alguém não tivesse registrado os muitos outros belos ditos de Cristo e de seus apóstolos, o que saberíamos do ministério de Cristo e de seus apóstolos? Teríamos apenas algumas ideias vagas transmitidas pela tradição, que mais desviariam do que conduziriam corretamente; mas, porque essas coisas foram escritas, temos ao menos algum conhecimento dessas dispensações anteriores. ¶
Em nossos dias, a primeira coisa que o Senhor fez depois que a Igreja à qual pertencemos foi organizada com seis membros, na pequena vila de Fayette, condado de Seneca, Nova York, foi ordenar que um escrivão da Igreja fosse nomeado, um homem que registrasse o que estava acontecendo. Esse homem foi Oliver Cowdery. Ele havia anteriormente ajudado o Profeta Joseph Smith a traduzir o Livro de Mórmon; e agora, depois que aquele registro sagrado fora concluído e impresso, seu trabalho com a pena continuou por meio de sua nomeação como primeiro escrivão da Igreja. Desde então, tivemos escrivães e historiadores na Igreja que foram mais ou menos fiéis, e mais ou menos eficientes no cumprimento de seu trabalho. Logo Oliver Cowdery foi designado para outros cargos na Igreja, e outro homem foi chamado para ser escrivão da Igreja. Mas como esse homem não foi muito fiel no cumprimento de seus deveres, a história inicial da Igreja não é tão completa quanto gostaríamos que fosse. Há certas datas muito importantes que faltam porque John Whitmer não cumpriu seu dever. No entanto, temos o suficiente para mostrar que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é uma organização das mais completas e bem-sucedidas, e também nos regozijamos na promessa dada de que ela jamais chegará ao fim. Outras dispensações deixaram de existir, mas esta à qual pertencemos continuará, e a Igreja finalmente crescerá até se tornar o Reino dos Céus, sobre o qual Cristo reinará como Rei dos reis e Senhor dos senhores. ¶
Requer muito esforço e trabalho manter o registro dos milhares e dezenas de milhares de missionários que saíram da sede da Igreja para pregar o evangelho. No momento presente, estamos ocupados em fazer uma lista deles. Em algumas semanas esperamos completá-la, e então poderemos afirmar aproximadamente quantos élderes, e quantas irmãs missionárias, foram enviados da sede da Igreja para pregar o evangelho em diferentes terras e climas. Também teremos uma boa ideia de quantas pessoas foram batizadas desde que a Igreja foi organizada, apesar do fato de que muitos registros importantes da Igreja foram destruídos ou perdidos. Também saberemos aproximadamente quantos ramos da Igreja foram organizados nos diferentes países do mundo, onde nossos missionários trabalharam. Talvez fiqueis surpresos ao saber que eles são contados aos milhares, e ficareis espantados ao saber que houve uma época em que existiam quase mil ramos da Igreja somente na Grã-Bretanha. Certamente teremos algo interessante para contar aos Santos dos Últimos Dias quando a Igreja completar cem anos. ¶
Já demandou muito tempo e dinheiro, e também necessitou muita viagem, para reunir material e registrar os acontecimentos da história da Igreja desde o início até o fim do século dezenove. Anos atrás, descobrimos, no escritório do Historiador, que não poderíamos nos limitar dentro das paredes daquele pequeno prédio que ficava do outro lado da rua de onde hoje se encontra o grande prédio da Igreja, e ali escrever histórias das estacas de Sião e das diferentes missões da Igreja. Descobrimos que era necessário viajar para o exterior, viajar extensivamente e reunir material para a história em muitas terras e climas. Seu humilde servo teve o prazer, se assim posso chamá-lo, de ser um viajante do mundo. Algumas pessoas pensaram que eu viajei mais do que o necessário, mas sei que não é assim, e estou convencido de que não viajei nem de longe tanto quanto deveria ter viajado para me tornar um bom e confiável historiador. No entanto, viajei cerca de 490.000 milhas a serviço da Igreja, e cheguei à conclusão de que o trabalho realizado não poderia ter sido feito de nenhuma outra maneira senão indo a campo em busca de material. Tivemos escrivães e historiadores da Igreja durante todo esse tempo, desde a organização da Igreja, e eles conseguiram registrar fatos à medida que eram relatados à sede de tempos em tempos; mas os escrivães nunca poderiam fazer uma história completa desta Igreja a menos que fossem ao exterior, visitassem os élderes e santos em diferentes partes do mundo, examinassem registros e se familiarizassem geograficamente com as estacas de Sião e os países do mundo. Então, em conexão com os relatórios que são enviados de ano em ano, podem escrever a história, e pode-se dizer que esses relatórios agora são melhores do que eram antes. Uma história completa desta Igreja, na minha opinião, jamais poderá ser escrita a menos que esse modo de proceder seja seguido. ¶
Não sabemos o que acontecerá num futuro próximo; apenas isto acreditamos, que grandes acontecimentos estão próximos. Mas sinceramente esperamos e oramos por um despertar geral no interesse pela história da Igreja. Às vezes, quando visito algumas das estacas de Sião a serviço da história, sou visto como uma espécie de Rip van Winkle, ou algum ancião de dias, que esteve adormecido por vinte anos, ou mais, e parece que algumas pessoas ficam realmente incomodadas com isso. Não digo isso como uma ofensa aos Santos em geral. Essa letargia talvez possa ser atribuída ao fato de que, por anos, muito pouca atenção foi dada à história da Igreja publicamente. Pregamos sobre a Palavra de Sabedoria. Imaginai o que aconteceria se nossos irmãos, de tempos em tempos, não abrissem a boca para chamar atenção àquela palavra particular de Deus. Mesmo assim, depois de mencioná-la e falar sobre ela repetidamente, ainda existem condições como aquelas que nos foram explicadas nesta reunião pelos irmãos que me precederam. Ora, visto que a importância da história não tem sido mencionada muito nos últimos anos, o povo tornou-se descuidado com relação a ela, e com bastante frequência ouvimos alguém dizer: "Já temos o suficiente para lidar no presente e cuidando do futuro; deixemos o passado em paz." Pode ser verdade que o presente seja mais importante para nós do que o passado; e, no entanto, defendo que, sem conhecer algo sobre o passado, não sabemos onde nos encaixamos como élderes da Igreja trabalhando na vinha, tanto em casa como no exterior. É necessário que saibamos como nos encaixamos à medida que continuamos os trabalhos iniciados pelo Profeta Joseph Smith e continuados por Brigham Young e seus sucessores. Na Grã-Bretanha, precisamos saber como os atuais missionários se encaixam nos trabalhos realizados em dias anteriores por Heber C. Kimball, Orson Hyde, Brigham Young, Orson Pratt, Wilford Woodruff, e muitos outros. Nós da Escandinávia precisamos saber como nossos atuais missionários se encaixam nos trabalhos iniciados por Erastus Snow e seus companheiros de trabalho há setenta e seis anos. Sem algum conhecimento a respeito do passado, mal sabemos onde estamos. Sabemos que pertencemos a uma grande organização, mas nem sempre quais são nossos deveres particulares em construir sobre o fundamento que os heróis e heroínas desta Igreja lançaram há muitos anos. ¶
Minha mensagem, como um dos historiadores desta Igreja, é esta: queremos cooperação; precisamos de um despertar geral quanto à importância de manter registros. Precisamos nos tornar mais bem informados a respeito da história desta Igreja, a mais importante organização de seu tipo que já existiu na face da terra. Não podemos ficar quietos e sossegados no escritório do Historiador e guiar o grande navio de Sião historicamente; precisamos da cooperação das autoridades locais e do povo em geral. Queremos que os escrivães de estaca e de ala, e os escrivães do sacerdócio e das organizações auxiliares, fiquem ao nosso lado. E quando enviarmos, ou formos, em busca de informações, queremos examinar e consultar os registros que existem como material histórico. Levantamos nossa voz contra a destruição ou a perda de registros, e chamamos atenção para a tolice de olhar para livros de registro da mesma forma que um estudante olha para seu caderno de exercícios — quando está totalmente preenchido, não serve mais para nada. Os registros de uma ala ou quórum são inteiramente diferentes disso. Um livro em branco não vale nada para o historiador, mas, uma vez preenchido de registros, em muitos casos, vale seu peso em ouro. Portanto, pediríamos com toda a seriedade aos irmãos e irmãs encarregados de registros, ou mesmo diários pessoais, que não os destruam nem os percam. Chegará certamente o tempo em que serão necessários. Provavelmente, muito do que está neles pode ser mera palha, que jamais valerá a pena copiar, mas sempre haverá algo encontrado nesses registros que será de utilidade ao historiador. Não consigo me lembrar de jamais, em toda a minha vida, ter examinado um livro de registro de qualquer tipo — e examinei milhares deles — sem encontrar algo nele de importância histórica. ¶
Ora, irmãos e irmãs, despertemos para a percepção do fato de que há algo de vital importância para conhecermos no passado, assim como no presente e no futuro. Falo como alguém que dedicou quase toda a sua vida ao campo histórico, e que por muitos anos se esforçou por chamar atenção ao fato de que escrever a história é a coisa mais próxima de fazê-la. Que Deus nos abençoe e nos capacite a sermos fiéis e diligentes no cumprimento dos deveres pertencentes aos nossos respectivos chamados no serviço de Deus, é o que sinceramente oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶