Discurso de William A. Hyde
William A. Hyde
Talvez seja escusável, nesta manhã, uma palavra de caráter pessoal. Nas circunstâncias um tanto inéditas em que fui chamado a presidir esta reunião, sem dúvida há muitos, entre os presentes, que não conhecem quem preside. Sou William A. Hyde, de Pocatello. Sem dúvida já ouvistes falar com frequência dessa cidade em Idaho e, incidentalmente, de nossa ligação, como estaca, com a Igreja; pois todos nós estamos mais ou menos ligados e familiarizados com a história da Igreja em seus vários departamentos e organizações. ¶
Sinto-me aliviado de certo embaraço nesta manhã pela bondade do Presidente Grant, que pediu que eu falasse primeiro. Do contrário, ter-me-ia visto na necessidade de adiantar-me a um lugar que, de outro modo, eu não desejaria assumir. Aproximo-me deste dever e desta oportunidade com grande satisfação, pelo fato de me ter sido concedida esta honra, mas, não obstante, com receio de que talvez não consiga desincumbir-me com o grau de êxito que seria conveniente. Talvez haja apenas dois ou três outros presidentes de estaca na Igreja mais antigos que eu nesse cargo. Já labuto no ministério, nesta função, há uns vinte e cinco anos e, segundo me recordo, apenas dois ou três outros estão a serviço há mais tempo. ¶
Naturalmente se pensaria, presumo, e seria a lógica da situação, que, com o serviço na Igreja, viesse certo grau de sabedoria e certo grau de experiência; de fato, é isso que a Igreja requer de seus homens e de suas mulheres e espera deles. Venho a vós hoje representando uma parte da Igreja que tem tanto interesse no crescimento do todo quanto talvez qualquer outra parte da Igreja, e que está, creio, vivamente atenta às necessidades que se apresentam diante desta grande obra, e atenta aos desígnios de nosso Pai Celestial para conosco. Nunca antes tive a oportunidade de assim me apresentar diante de uma congregação com esta responsabilidade, mas sinto que é parte do meu dever voltar minha mente com pleno propósito de coração, para tornar esta reunião condizente com as grandiosas reuniões desta conferência e com as que, sem dúvida, se seguirão. ¶
Há experiências na vida de todos os homens, sem dúvida, que lhes deixam grandes impressões na mente. Algumas delas nos vêm cedo na vida. Recordo agora uma pela qual passei nos primeiros dias do meu ministério, que tem sido de grande valor para mim; de fato, tem sido uma das principais coisas que me sucederam no curso de minha associação com a Igreja. Lembro-me de que, em companhia de um de meus colegas, parti numa longa jornada para atravessar o cume da montanha rumo a um vale vizinho, com o propósito de certa investigação. Aqueles de vós que já viveram em regiões rurais e já fizeram jornadas dessa natureza compreenderão bem o que estou prestes a dizer. Começamos nossa jornada subindo por uma daquelas longas trilhas, aparentemente intermináveis, características de nossas montanhas, passando pelas variedades já conhecidas de salgueiros e arbustos, até chegarmos, por fim, aos indícios de que estávamos perto do topo da montanha -- os choupos-tremedores esparsos e outros sinais mostrando que estávamos perto do cume -- quando, de repente, surgiu diante de nossa vista uma paisagem de todo inesperada. Parecia que o Criador, de algum modo, escavara um pequeno anfiteatro no alto das colinas, uma bacia, um vale redondo, cujas bordas eram franjadas de pinheiros. No fundo desse pequeno vale havia um regato que se infiltrava por um minúsculo prado. Não havia sinal de habitação alguma ali, exceto uma pequena casa de toras, com suas dependências, ao redor da qual se viam algumas das reses comuns que os homens das comunidades agrícolas costumam ter. ¶
Ao ver essa paisagem tão incomum, ocorreu-me o pensamento: "Que poderá este homem ver?" Soube depois que, em certos períodos, ele atravessava a borda do vale até a estação mais próxima para buscar sua correspondência, mas, fora isso, estava fechado ao mundo; era, de certo modo, um recluso, o que se poderia chamar de eremita. Vivia sua vida sozinho no alto das montanhas, cercado apenas de seu pequeno rebanho e dos outros escassos sinais de vida, e talvez tivessem uma pequena família. Quando saía à porta à noite, só conseguia ver cerca de metade do firmamento. As estrelas que adornam o céu para nós, que vivemos na planície, não lhe eram visíveis. Talvez não mais que metade do curso do sol ele pudesse jamais ver, e o grande mundo pulsante ao seu redor jamais foi por ele observado, senão em ocasiões isoladas. E pensei: "Quão semelhante ao homem em geral, em sua atitude para com a vida, a educação e as melhores coisas do mundo, é este homem assim isolado no cume da montanha!" ¶
E daí tirei uma lição que tem sido valiosa por todos os dias de minha vida. Tem sido uma lição que me ensinou o valor de uma visão mais ampla e de uma perspectiva mais larga da vida, e das coisas que nos cercam e que compõem nossa vida presente e que, por fim, comporão nossa existência futura. Tenho visto homens sabidos segundo o mundo e autossuficientes em sua própria estima que, como este homem -- embora diferentes dele de certo modo, mas semelhantes a ele nisto -- cercados por seu muro de autossuficiência, não têm sido capazes de contemplar os vastos atos, propósitos e oportunidades dos homens, mas têm-se limitado às suas próprias conclusões estreitas, baseadas em sua filosofia autossuficiente; e pensei: "Quão inadequados são estes homens para toda a obra da vida, quão insuficientes são para as coisas que nosso Pai Celestial requer deles." ¶
Por outro lado, tenho visto homens em situações humildes que se colocaram no cume da montanha e, de seu pináculo elevado, contemplaram o curso variado dos acontecimentos e, parece-me, às vezes têm sido capazes de vislumbrar o grande desfecho das coisas. Tenho pensado, em relação a esta lição, que o Profeta Joseph Smith, de seu ponto de vista e da posição de onde examinava as coisas, sabia mais sobre os planetas, o firmamento, o grande céu dos céus, do que eu e vós sabemos sobre a pequena horta de batatas que cultivamos em nosso quintal. ¶
E disso tirei muitas lições que têm sido de conforto e de valor para mim em meu ministério entre o povo. Tirei disso a lição do valor da perspectiva, a capacidade de ver e de situar as coisas em sua relação apropriada quanto à distância, ao tamanho e à importância. Aprendi que, para quem contempla as cenas dos acontecimentos das distâncias apropriadas, as cicatrizes, as asperezas da vida, as coisas que ferem e magoam, perdem-se na visão geral, assim como se olha, do alto de uma dessas colinas, para o vale onde agora pode haver ravinas e formações rústicas de terra, e se vê a planície como um vasto tapete, como um grande tapete estendido sob o sol. A distância nos tira o aguilhão e a dor das coisas e nos dá uma visão melhor da relação e da qualidade próprias dos homens e de suas ações. ¶
E daí tirei esta conclusão: que estamos hoje demasiado próximos de nossos homens para compreender devidamente os motivos elevados que os movem. Creio que, daqui a cem anos, poderemos olhar para trás, para este tempo em que agora vivemos, e algum historiador poderá dizer, com plena confiança e com tanta autoridade quanto qualquer historiador que já tenha escrito, que, neste dia em que agora vivemos, certos homens falaram e dirigiram sob a inspiração do Espírito Santo. Então, dessa distância, poderemos ver e reconhecer a palavra profética e o profeta, tão bem quanto hoje reconhecemos o profeta dos tempos antigos. E os homens que estão em nosso meio hoje, e que têm estado entre nós, que, em razão de nossa própria proximidade e de nossa estreita associação com eles, perderam em certo grau aquela sacralidade que se atribui a um profeta -- a qual, sendo removida pelo tempo, poderemos classificá-los entre os profetas de quem a história antiga fala. Já mesmo agora há um assim consagrado na mente dos Santos dos Últimos Dias. Está afastado de nós por cem anos, ou quase, e hoje assumiu uma nova forma e aspecto de vida, e tornou-se para nós, tão certa e seguramente, um profeta do Senhor quanto qualquer homem que já viveu a quem esse título tenha sido dado. ¶
Assim, permiti-me assegurar-vos, meus irmãos e irmãs, e especialmente meus jovens amigos que talvez me estejam ouvindo hoje, que estes homens que hoje estão entre nós estão investidos daquela autoridade que os habilita a falar a palavra de Deus e a falar com a mesma força convincente com que falou qualquer homem que já viveu na terra e ousou falar em nome de nosso Pai Celestial. E assim aprendi, com estas coisas, o valor da perspectiva, o modo correto de ver as coisas, o modo de nos desligarmos da proximidade do presente e de ver os homens como se estivessem distantes, sob a influência que o tempo sempre lança sobre os homens. ¶
Aprendi também isto: o valor da paciência. Os acontecimentos passam tão rapidamente por nós, que não os vemos em sua devida relação. Compreendemos pouco o movimento do tempo. É preciso tempo para que se cumpram os desígnios de Deus. Nem sempre as combinações se veem em poucos anos, nem mesmo numa geração. Homens e mulheres arrastam suas vidas lentas em seus deveres humildes, e nos ofícios e chamados que vêm à mortalidade, às vezes se afligindo, às vezes indagando se Deus jamais justificará seus sacrifícios; mas eis que uma geração passa; seus filhos os seguem, e os filhos de seus filhos ocupam seu lugar; e eis que a obra do Senhor se cumpriu naquilo que outrora eles haviam empreendido! Um pioneiro entra numa terra distante. Em labuta, dificuldade, pobreza e aflição, ara a terra, semeia e colhe, e vê o fruto perder-se ano após ano, talvez, mas, por fim, chega a culminação, quando um templo se ergue no próprio lugar onde ele pela primeira vez pôs os pés, e a terra floresce sob a bênção do Todo-Poderoso. Ele foi o começo de tudo, aquele que abriu o caminho e preparou os meios para a realização daquilo que, por fim, o Senhor, nosso Pai Celestial, deu a ele e às gerações que o sucederam. ¶
E assim aprendi as lições da paciência, e em meu ministério tenho ocasião, repetidas vezes, de dizer ao povo: "Somos como as ondas do mar; ora estamos na crista do sucesso, ora estamos nas depressões do oceano; tende paciência, meus amigos, virá o tempo em que vossa barca será novamente erguida à crista, e vereis diante de vós a vasta extensão das águas." Quão aplicável possa ser esta lição para os que hoje se encontram em aflição, penso que bem podemos considerar. ¶
Temos atravessado tempos de intensa labuta e transtorno comerciais. Muitos, muitíssimos, têm sido os bons homens e as boas mulheres que caíram no mais profundo abatimento, devido a estas condições incomuns por que temos passado. Não obstante, por uma compreensão apropriada dos desígnios de Deus, e por uma justa avaliação de nossas forças, podemos manter-nos firmes até o fim, até que estas coisas tenham passado e a prosperidade venha novamente a nós. Assim, sei que o Senhor decreta que os homens tenham paciência; que perseverem; que não é seu propósito que em nenhum homem, ou em nenhuma geração de homens, se cumpram todas as coisas; mas que nós, sucedendo-nos uns aos outros na linha de nossas atividades e do povoamento da terra, constituímos o grande todo de que se compõe o plano de Deus. Hoje contribuímos para o sucesso de amanhã; e, por toda a Igreja de Cristo, deve correr o elemento da paciência e da fé, no pensamento de que, por fim, virá o sucesso a todos os que sinceramente confiam nele e aguardam com paciência o dia de sua vindicação. ¶
Falando da atitude que os homens assumem e da qual podem ver as coisas, tive esta manhã uma experiência um tanto incomum que se ajusta bem ao tema que empreendi. Descendo pela rua, cruzei com um homem que conheço há anos, um pobre e velho aleijado, que já deve ter uns setenta e cinco anos, que arrastava um pé lentamente atrás do outro, com dor evidente ao caminhar, mas, não obstante, com um semblante contente, com sua boa e velha esposa de braço dado, ajudando-o pela calçada. E logo depois de lhes dar bom-dia e de trocar minha saudação com ele como velho amigo que conhecera outrora na estaca que presido, ele me chamou e disse: "Irmão Hyde, sabeis de minha genealogia?" Ora, eu não sabia. Disse ele: "Temos os nomes de dez mil pessoas, e já fizemos a obra por quatro mil delas." E então havia em seu rosto um alegre olhar de expectativa. Pareceu-me perceber o pensamento não expresso em sua mente: "Que alegria e prazer será fazer a obra pelas outras seis mil!" E, ao afastar-me dele, pensei: "Este homem, com seu pé arrastado, puxado com dor pela calçada, está muito acima do homem comum; está erguido sobre as asas do espírito, que o levaram acima do cume da montanha. Olha para nós, penso, de sua elevada posição, talvez com certo grau de compaixão, para os que não veem como ele vê." E pensei: "Quão gloriosa é esta obra dos Santos dos Últimos Dias! Quão superior é, de certo modo, seu pensamento à sabedoria dos homens! Quão amplas e expansivas são suas concepções dos desígnios todo-poderosos de nosso Pai Celestial! Não são reclusos; não são eremitas; do ponto de vista a que Deus os conduziu por suas revelações, contemplam a obra que abrange e engloba não apenas o plano da mortalidade, mas toda a vasta multidão dos filhos dos homens desde o princípio dos tempos." ¶
Assim, meus irmãos e irmãs, tiremos destas observações -- que sem dúvida tendes visto, como eu as vi e narrei -- estas lições: ter paciência e fé, e procurar sair dos limites estreitos de nossa própria autossuficiência, e livrar-nos daquela espécie de confiança que às vezes acomete o Santo dos Últimos Dias e o leva a pensar que ele e seu povo são os únicos associados à obra do Senhor. Prefiro adotar a visão mais ampla: que Deus, por meio dos homens, está realizando seus propósitos, e que faz acontecer, de todas as direções e de todas as fontes, as coisas que contribuirão para a glória de seu nome; e que inventores, poetas e trabalhadores em todos os ramos do pensamento estão fazendo, talvez inconscientemente, exatamente aquilo que Deus deseja que façam. Assim, com a fé assim orientada e sintonizada com os propósitos do Todo-Poderoso, avancemos com pleno propósito de coração, para servi-lo e guardar seus mandamentos, em fé, crendo, e com visão, vendo as coisas maravilhosas que Deus tem reservadas para seu povo. ¶
Que seu Espírito esteja na mente e no coração dos Santos dos Últimos Dias, e os impulsione a uma atividade e fé renovadas nesta grande e gloriosa obra que nos foi dada para realizar nestes últimos dias. Esta é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶